DIÁRIO ABERTO
2007 SETEMBRO 28
O Bispo do Porto, Manuel Clemente, escreveu uma carta aos padres capelães hospitalares da sua Diocese. Começa por dizer expressamente que apenas lhes quer dar duas palavras, uma de apoio e outra de discernimento. O gesto episcopal é simpático e aparentemente oportuno. Inclusive, tem algo de surpreendente. Só que o Bispo do Porto o que verdadeiramente quis com este seu gesto foi mandar um recado sem remetente ao Governo que, nestes dias, está a dar sinais de querer "mexer" na situação de privilégio dos capelães hospitalares católicos, e, em lugar de se dirigir directamente ao primeiro-ministro ou ao ministro da saúde, dirigiu-se aos seus padres. E isso já não fica assim tão bem ao Bispo do Porto. Lê-se a carta - está na íntegra no sítio oficioso da Igreja católica em Portugal, www.ecclesia.pt - e logo se percebe que os padres capelães hospitalares do Porto são simplesmente utilizados, para o Bispo, através dela, poder advertir/repreender o governo. E fazê-lo recuar nos seus propósitos. Quanto ao anunciado discernimento, é coisa que não se encontra na carta. O que lá se topa é até notória falta de discernimento. Abunda, em seu lugar, a preocupação de manter inalterável a actual situação de privilégio, de Cristandade, da Igreja católica. Em resumo, o que o Bispo pretende é que o governo do país continue a ser o seu braço secular. Se vier a renunciar a esse papel, lá se vai a salutar laicidade do Estado. Cairá de imediato numa postura de perverso laicismo. Palavra do Bispo Manuel Clemente! É, pois, manifesto que o actual Bispo do Porto confunde manutenção de privilégios eclesiásticos, indevidamente conseguidos num tempo e num regime que foram de Cristandade, com laicidade. E confunde o fim dos privilégios eclesiásticos, que nunca deveriam ter existido, com laicismo. Discernimento, isto? Ou cegueira? Mas pode alguma vez ter discernimento quem, como o Bispo Manuel Clemente, pensa, escreve e reage a partir duma situação de privilégio de casta que não está disposto a perder? Os privilégios, quando não se lançam fora, mas, pelo contrário, se pretendem manter a todo o custo, não acabam a cegar as mentes de quem deles usufrui? Que o Estado, mediante o governo, garanta condições para que cada Igreja - a católica e todas as outras - possa exercer, sem entraves nem atropelos, o seu ministério pastoral, nomeadamente, o do acompanhamento dos doentes internados nos hospitais do país que livremente os aceitem e até desejem, tudo bem. Mas exigir do Estado que trate os capelães hospitalares e outros agentes eclesiais destacados pelos respectivos bispos diocesanos para esse serviço, como seus funcionários e ainda lhes pague, é fazer do Estado um parceiro de peso da Igreja. E que parceiro!... Infelizmente, a palavra de discernimento do Bispo Manuel Clemente aos seus padres capelães hospitalares não vai até aqui. Sobre esta escandalosa situação, nem uma palavra na sua carta. O Bispo sabe, como eu sei, que, no mesmo dia em que ser capelão hospitalar deixar de ser financeiramente rentável para os que aceitarem esse cargo, porque o Estado laico teve finalmente a lucidez e a coragem de deixar lhes pagar, e a Conferência Episcopal Portuguesa de modo algum poderá substituí-lo em encargo de tanta monta, as dioceses deixarão de ter padres disponíveis para a função. Pelo menos, não terão o grande número que hoje têm! Ficarão ainda alguns, os mais generosos, mas sempre muito poucos. E, mesmo esses, só quando não tiverem outras ocupações pastorais mais aliciantes a fazer! Exagero meu? Desafio os Bispos católicos portugueses a fazerem a experiência e logo verão os resultados. Aliás, experimentem retirar os salários do Estado aos professores de Religião e Moral e verão quantos padres ainda se mantêm nas escolas públicas, nos horários que agora cumprem escrupulosamente. O mesmo se diga em relação aos capelães das Forças Armadas. E até dos padres que rezam missas diárias em série nas paróquias e noutras igrejas e capelas. Proíbam-nos de receber dinheiro pelas missas que rezam - "dai de graça o que de graça recebestes", diz Jesus no Evangelho de Mateus - e verão a quebra de missas que isso acarreta! Ora, um discernimento assim é que eu gostava de ver na carta do Bispo Manuel Clemente. Porque o que lá encontro é uma forma hábil de atirar poeira aos nossos olhos e mais uma tentativa de pressionar o governo, para que perpetue a actual situação de privilégio, em lugar de lhe pôr cobro quanto antes. Felizmente, as mentes mais ilustradas do nosso país já não vão nos estafados malabarismos do Poder eclesiástico. Até porque é hoje cada vez mais consensual que só a verdade nos fará livres, como, de resto, não se cansa de sublinhar Jesus, o do Evangelho de João. E quem de nós, hoje, Bispo Manuel Clemente incluído, acha que Jesus, o de Nazaré, alguma vez teria sido capaz de escrever uma carta aos dirigentes do seu país e do Império romano, a reclamar deles a concessão de privilégios para si e para os seus discípulos, suas discípulas?!
2007 SETEMBRO 27
E que pensar/dizer daquele cidadão norte-americano que decidiu processar Deus nos tribunais e viu a sua queixa ser aceite por um juiz? Ouvi ontem a notícia nos telejornais e, para dizer a verdade, não me surpreendi por aí além. Afinal, este cidadão norte-americano não está sozinho nas suas queixas em voz alta e públicas contra Deus. Pode estar sozinho na decisão de processar Deus nos tribunais, como se Deus fosse um qualquer vulgar cidadão. Mas não está sozinho nas suas queixas. Com ele, estão praticamente todos os ateus, mulheres e homens, do nosso tempo e, certamente, de todos os tempos. Na génese do ateísmo generalizado que caracteriza este nosso século XXI e constitui, deveria constituir um dado preocupante para a Humanidade, ainda mais do que para as Igrejas, estão as queixas que quase todas as pessoas têm contra Deus. Classifico de preocupante o ateísmo generalizado do nosso tempo. E não é a pensar em Deus, que o faço. É a pensar exclusivamente nos seres humanos, na Humanidade concreta que hoje somos. Bem sei que Deus não é necessário para a Humanidade e que a nossa História pode muito bem prosseguir sem a hipótese Deus. Sei também que o ateísmo generalizado tem, pelo menos, a grande vantagem de obrigar as Igrejas a sair da sua preguiça teológica, das rotinas em que se instalam e purificar as expressões/manifestações culturais da sua Fé, para assim poderem estar constantemente em dia com os seus concidadãos, elas e eles. Porém, não é de todo indiferente para o quotidiano da Humanidade crermos ou não crermos em Deus. Se Deus não é da ordem da necessidade, como de facto não é, também não é da ordem do puramente supérfluo. Deus é gratuito, mas não é supérfluo. Podemos viver todos os dias sem termos consciência de que somos seres permanentemente transportados ao colo por Alguém que nos ama, mas certamente o nosso modo de ser e de estar na vida seria muito outro, se tivéssemos consciência de que todas, todos somos esses seres. Seríamos então mulheres e homens ininterruptamente eucarísticos, seres-em-relação, constituídos pelas duas dimensões essenciais que "fazem" um ser humano, a horizontalidade e a transcendência, por isso, permanentemente abertos aos demais e, por eles, à Natureza e ao Universo, e, finalmente, a Deus Criador de criadores à sua imagem e semelhança, como o rio à sua fonte e ao mar para onde avança a todo o instante. Sabemos hoje, muito mais do que ontem, que são os solitários, os órfãos de todo o tipo, os não-amados por ninguém, os sem-referências, os sem-identidade, os sem-afectos, os sem-laços que os liguem e potenciem, que habitualmente mais descambam na violência, na agressividade, na guerra, na destruição, no vandalismo, no ódio, nas máfias de todo o tipo, nas redes de narcotráfico, de prostituição, de armas, de pedofilia. E ainda concebem economias sem entranhas de humanidade, juntamente com projectos políticos de poder e de domínio que estão na raiz de todos os impérios. Sabem, por exemplo, que na raiz de todo o Perverso organizado em sistema - o Dinheiro, o Templo e o Império - está a idolatria, isto é, o culto de deuses criados por seres humanos sem Deus, sem afectos, sem asas para voar, sem sonhos, sem utopias, sem Mistério, sem relação, numa palavra, sem horizontalidade nem transcendência? Sabem que toda a religião é idolatria, por isso, um atalho que nos fecha à transcendência e à horizontalidade, porque sempre acaba nos deuses, nas deusas que imaginamos/criamos/inventamos à medida dos nossos medos, dos nossos egoísmos, dos nossos interesses particulares, não globais/universais? Sabem que só a permanente atitude de abertura ao Mistério, à Realidade que nunca ninguém vê nem jamais verá, ao Deus-que-vem-e-nos-habita e que nunca conseguiremos sequer nomear, muito menos, utilizar/manipular é que nos mantém estruturalmente humanos e fraternos/sororais? O perigo maior do ateísmo generalizado é o mesmo da religião generalizada: ajuda a criar as condições propícias ao desenvolvimento da idolatria generalizada, hoje, sem dúvida a mais perversa de todas, a idolatria do Dinheiro e do Poder. É por isso que, enquanto corremos a culpar publicamente Deus por todos os males e por todas as calamidades que afligem a Humanidade, estamos sempre prontos a desculpar todos os ídolos do Dinheiro e do Poder que inventamos/criamos e que continuam aí a fazer das suas, inclusive, a provocar até calamidades e catástrofes só aparentemente naturais, sem que lhes vamos à mão, muito menos, os levemos a tribunal. Quando, afinal, são eles, juntamente com os seus inúmeros adoradores/seguidores - idólatras de todo o tipo - os únicos responsáveis por o nosso mundo estar como está e por haver tanto sofrimento à face da Terra. E na nossa cegueira e demência, não vemos nem nos damos conta de que é também o próprio Deus Criador de criadores/libertadores que crucificamos, sempre que crucificamos pela fome e pelas guerras, pelo abandono à sua sorte e pelo nosso cinismo os seres humanos e os povos, nossos irmãos.
2007 SETEMBRO 26
Está confirmado. A nova basílica de Fátima custa, no mínimo, 80 milhões de euros!!! O dobro do inicialmente anunciado pelo mesmo reitor do santuário, quando começaram as obras. O novo preço, apesar de escandaloso num país como o nosso, tão pequeno e tão carente em infra-estruturas fundamentais para a qualidade de vida das populações, não deixa de me escandalizar, embora não me surpreenda de todo. Quando, no começo das obras o mesmo reitor anunciou que a nova basílica iria custar "apenas" 40 milhões de euros (mesmo assim, um escândalo!), eu tive, já então, a lucidez e a coragem de dizer que a obra iria custar 80 milhões. Foi esta a cifra que então avancei, sozinho, no Jornal Fraternizar contra a palavra do reitor e de todos os media que acriticamente se fizeram eco dela. Pelos vistos, não me enganei! O próprio reitor do santuário vem agora dar o seu dito por não dito e vê-se obrigado a dar-me razão. Mas não é só neste grande pormenor do custo final desta faraónica obra católica que eu tenho razão. Também a tenho em tudo o que tenho escrito e publicado sobre Fátima e sobre a mentira das suas supostas aparições em 1917. São muitas as pessoas fanáticas de Fátima que não me tomam a sério e acham que eu só posso estar louco, nas posições que defendo. Mas o futuro joga a meu favor. Vocês ainda hão-de ver! Tudo aquilo é mentira e crime, como eu tenho dito e redito. Sem que a voz que diz e a mão que escreve me tremam. Deus Vivo, o de Jesus, não pode estar com aquilo. E Maria, a mãe carnal de Jesus, também não. Se Deus Vivo estivesse com aquilo, eu teria de ser ateu! E se Maria, a mãe de Jesus, fosse a senhora de Fátima, eu teria de perder todo o respeito por ela e pela sua memória. Mas descansem, que Deus Vivo vomita tudo aquilo. E Maria, a de Jesus, só pode chorar, por ainda haver seres humanos, tão pouco ilustrados e nada evangelizados por Jesus, seu filho, que a julgam capaz de andar associada a tamanha imbecilidade e a tamanha humilhação das populações mais pobres, já de si, tão humilhadas, porque propositadamente - criminosamente! - mantidas, geração após geração, longe da Ilustração e do Evangelho de Jesus, e totalmente mergulhadas no Paganismo religioso, o mais crasso e o mais cruel. Aos jornalistas que ontem responderam à sua chamada e foram ver/visitar a nova basílica, o reitor apareceu - as imagens do telejornal não deixam dúvidas - sem um pingo de alegria, um homem triste, macerado, abatido, esmagado, oprimido. Um desgraçado, isto é, um funcionário eclesiástico sem-graça. E sabem porquê? Só a verdade nos faz livres e ressuscitados, alegres, daquela alegria que vem do Espírito de Deus Vivo. A mentira sempre oprime e mata. Estremeci, por isso, de preocupação por ele, ao vê-lo assim no telejornal. Ele é o homem maior da mentira de Fátima, que dá todos os dias e há mais de trinta anos a cara por ela, que vive e trabalha para justificar o injustificável. Como se a mentira alguma vez pudesse passar a verdade, pelo facto de ser milhões e milhões de vezes repetida. Não pode. A mentira de Fátima será sempre mentira. É pelos efeitos de inumanidade que produz que a mentira se conhece. E os efeitos da mentira de Fátima saltam à vista. A começar no próprio reitor do santuário e a acabar nas populações oprimidas que lá vão e de lá regressam ainda mais oprimidas e esmagadas! Só não vê quem não quer ver, ou quem não está disposto dar o braço a torcer depois de anos e anos ter andado a dizer que era verdade o que, afinal, é mentira. Todos os meus irmãos católicos mais esclarecidos, a começar pelos bispos e pelos párocos, também e sobretudo, pelo reitor do santuário, sabem que Fátima é mentira. Mas que querem? É uma mentira que, nesta altura, já tem 90 anos. Além disso, é uma mentira que dá muito dinheiro a ganhar à Igreja católica. E muitos clientes, vindos de todo o mundo. E muito poder. E muito prestígio. O poder e o prestígio da mentira, é certo, mas poder e prestígio, duas coisas que os bispos e os párocos católicos, pelos vistos, tanto gostam e de modo algum estão dispostos a abrir mão! Por isso, em lugar de admitirem e confessarem publicamente o seu erro, o seu engano, o seu pecado, insistem neles mais e mais. Pecam contra a luz, só para não terem de dar o braço a torcer. Nisto, nem sequer são originais. Sempre tem sido assim ao longo dos séculos. Também os chefes dos sacerdotes do tempo de Jesus sabiam, pelo menos, depois que Jesus lhes abriu os olhos, que o Templo de Jerusalém - outra obra faraónica que foi derrubada no ano 70 pelos exércitos do Império romano e que até hoje nunca mais foi levantada! - não passava de um covil de ladrões, onde Deus não morava, apesar dos cultos que lá se realizavam dia e noite em sua honra. Mesmo assim, preferiram manter-se na sua mentira e morrer nela, a reconhecer a verdade que Jesus lhes revelava. Para cúmulo, ainda acabaram a tratar Jesus como um endemoninhado e um louco varrido, um blasfemo que merecia ser morto. E não é que conseguiram matá-lo? Mas o Tempo veio a dar razão a esse mesmo Jesus que eles crucificaram como o maldito de Deus! Tenho para mim - é o Espírito Santo que me acompanha e ilumina que mo garante - que a construção da nova basílica de Fátima materializa uma decisão satânica. Como todas as obras faraónicas, também esta serve exclusivamente para esconder a faraónica mentira e o faraónico crime que Fátima e a sua senhora são, sobretudo desde 1930 para cá, quando os bispos católicos portugueses decidiram, contra Jesus e o Evangelho de Deus Vivo que Jesus é, reconhecer como autênticas as aparições de 1917; e, depois, ainda foram a correr exigir à sobrevivente Lúcia, por eles entretanto sequestrada para o resto da sua vida num convento em Espanha e, mais tarde, no Carmelo de Coimbra, que escrevesse (mas como, senhores eclesiásticos-mor, se ela mal sabia escrever e já estava a tantos anos de distância dos tempos da sua infância?!...) as suas Memórias, nas quais teria obrigatoriamente de constar uma nova versão das supostas aparições de 1917, agora, com prévias aparições de um anjo, uma tétrica visão do fogo do inferno que, pelos vistos, nem sequer existe senão na imaginação delirante dos clérigos e de outros religiosos assustados, um apocalíptico segredo que não poderia ser revelado a ninguém a não ser ao papa de turno e, sobretudo, onde se fizesse explícita referência à futura conversão da Rússia comunista (na sua precipitação, nem se lembraram os eclesiásticos que escreveram as Memórias da Irmã Lúcia que, aquando das pretensas aparições em 1917, ainda não tinha havido a revolução bolchevique e, por isso, não se poderia ter falado de semelhante coisa nessas "aparições"!), e ainda todos os outros ingredientes que fossem achados oportunos, para que Fátima e a sua mentira tivessem pés e pernas para andar. Assim se fez! E a verdade é que com esta nova versão Fátima e a sua mentira passaram a ter pés e pernas para andar. Até hoje. E, provavelmente, por muitos mais anos ainda. Mas para nossa vergonha. E para descrédito da Igreja católica. E para descrédito da Fé cristã católica. E para humilhação das populações já de si humilhadas. O reitor do santuário que tudo conhece, em lugar de ir pela verdade, prefere ficar amarrado à mentira e morrer nela. É um herói às avessas. Vejam como ontem mesmo blasfemou, ao dizer aos jornalistas convidados por ele, que "tudo (entenda-se, os 80 milhões de euros!) foi pago com dinheiro que os peregrinos ofereceram a nossa senhora". Esqueceu-se o reitor de que semelhantes ofertas aos cofres do santuário de Fátima, por parte das populações mais pobres, são outros tantos roubos que o santuário e todos os demais santuários de nomeada fazem e incentivam, exactamente como o Templo de Jerusalém fez àquela viúva pobre, de quem falam os Evangelhos Sinópticos, que foi levada a oferecer o último cêntimo que tinha ao Tesouro que se abrigava e engordava lá dentro, como um ídolo devorador. E foi até por Jesus ter deparado com semelhante oferta-roubo, por parte do Templo, aos pobres como ela, que os olhos dele se lhe abriram definitivamente e, ali mesmo, decidiu fazer dumas cordas chicote e, com ele em acção, expulsou os vendilhões que faziam daquele lugar pretensamente sagrado um covil de ladrões e, assim, o destruiu simbolicamente para sempre. Desde então para cá, ficou claro que todos os santuários, através dos séculos, não passam de sinistros covis de ladrões, nomeadamente das populações pobres e não ilustradas. Outra coisa não é, também, a nova basílica de Fátima, sacrilegamente chamada da SS.ª Trindade. Vejam como ela lá está faraonicamente de pé, juntamente com a anterior. As duas juntas, mais o recinto a céu aberto entre ambas fazem hoje de Fátima o local mais alienante e alienador de Portugal e da Europa. De resto, o próprio reitor do santuário acabou estranhamente por reconhecer perante os jornalistas que o interpelaram que "a grande maioria dos peregrinos são pobres e que, na devoção a Fátima, há muita ignorância e ingenuidade". Pior de Fátima, não poderia o reitor dizer. Mas então de que é que ele está à espera, para fugir de vez de semelhante local de crime, explorador e assassino dos pobres?!
2007 SETEMBRO 25
"Inconcebível", "inaceitável", são dois adjectivos que o Bispo Carlos Azevedo, na sua qualidade de secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, utiliza para classificar o projecto de lei do Ministério da Saúde destinado a regulamentar a assistência religiosa nos hospitais do país. Não vê, ou não quer ver o Bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa e candidato a cardeal patriarca que inconcebível e inaceitável é a situação de privilégio que a Igreja católica continua a gozar no país, a começar na manutenção da Concordata recentemente revista e a acabar nos inúmeros salários que o Estado continua a ter de pagar a outros tantos funcionários católicos, indicados pelos respectivos bispos para funções manifestamente eclesiásticas, a exercer no interior de instituições não católicas. Semelhante reacção do secretário da CEP parece pretender abrir mais uma frente na "guerra" da Igreja hierárquica portuguesa contra o Estado. Uma guerra que eu espero que ela venha a perder. Porque a Cristandade já lá vai e não deve deixar saudades a ninguém, muito menos à Igreja. Simplesmente, nunca deveria ter existido. Só prejudicou a Igreja e a causa do Evangelho. E infantilizou o Estado e a sociedade civil. Impediu que ambos crescessem em autonomia. Não é que o Estado deva crescer mais do que a Sociedade civil. Mas deve dispor de total autonomia em relação à Igreja hierárquica. E a sociedade civil, para o ser verdadeiramente, tem de afirmar-se sem qualquer tutela. Tem de ser autónoma em relação à Igreja hierárquica e ter no Estado um servo seu, nunca um patrão. Porém, os bispos católicos, nomeadamente, os bispos católicos portugueses ainda não conseguem viver sem a Cristandade, sem o Estado como seu braço secular, como seu criado ou servo e, sobretudo, como seu financiador. Também como seu amo e patrão, quando a ela lhe dá jeito, por exemplo, que a distinga e defenda das outras Igrejas e confissões religiosas actualmente existentes e activas no país. Tão pouco os bispos católicos portugueses sabem viver sem a sociedade civil como súbdita deles, como menor, como tutelada. Apavora-os uma sociedade autónoma, independente deles, dos seus párocos, das suas catequeses moralistas. Numa sociedade autónoma, não-tutelada, os bispos católicos ainda não sabem como relacionar-se com ela. E temem acabar a falar sozinhos dentro das sacristias e dos templos. O que nem seria mau de todo, porque poderia ser o fim de um ciclo eclesiástico imperialista que nunca deveria ter existido e o começo de um novo modo de ser Igreja em sociedade, bem mais conforme ao Concílio Vaticano II e ao espírito do Evangelho de Jesus que só se dá bem com uma Igreja fermento, sal da terra, luz do mundo, toda ministerial; e não suporta uma Igreja cristandade, uma Igreja hierarquia, poder sagrado, como a que ainda hoje vigora entre nós. Mas não só os bispos católicos portugueses estão em guerra contra o Ministério da Saúde, por ele querer regulamentar a assistência religiosa nos hospitais do país. Também os capelães e assistentes espirituais e religiosos hospitalares estão. E organizam-se e movimentam-se a nível nacional. Uns e outros não podem aceitar que o Ministério da Saúde tenha pensamento próprio e legisle autonomamente nas áreas da sua competência. O que uns e outros gostariam é que o Ministério apresentasse para publicação um projecto de lei que eles próprios redigissem. No regime de Cristandade, sempre foi assim que as coisas funcionaram. Os bispos diziam como deveriam ser as coisas e o Estado limitava-se a assinar de cruz e a publicar para que se cumprisse. Aliás, ainda hoje é assim - e, ao que parece, o país não se escandaliza nem se levanta indignado - no que toca à nomeação de pessoas concretas para os cargos de capelão e outros serviços de coordenação nacional de capelães. Os bispos apresentam os nomes das pessoas que querem ver nesses lugares e o Ministério da Saúde limita-se a nomeá-las. E depois ainda lhes paga mensalmente. E não é assim tão pouco, no dizer da Associação "República e Laicidade". Em média, 2.000 euros/mês, num ano de 14 meses! Uma verdadeira pechincha, na maior parte dos casos. Porque quase todos os capelães acumulam esse serviço com outros nas respectivas paróquias, também remunerados. De resto, em muitos hospitais os serviços a prestar a prestar pelos capelães são quase nenhuns. E ninguém, no hospital, lhes exige nada nem os controla. Na prática, cada um limita-se a fazer o que muito bem entende!... Não é isto inconcebível e inaceitável?! Quando é que então o Ministério da Saúde põe fim a esta indignidade? Se a Igreja quer estar pastoralmente presente e activa nos hospitais, não terá de ser ela própria a suportar os custos desse serviço?! Haja lucidez e audácia. E acabe-se de vez com a Cristandade, ou o que resta dela. É hora!
2007 SETEMBRO 23
Ontem, 22 de Setembro, todos os caminhos vieram dar a Macieira da Lixa e ao seu Barracão de Cultura, ainda em construção pela Associação As Formigas de Macieira. Foi um dia inteiro, entre as 10,30h e as 21h,com o Barracão de Cultura. Um dia de Confraternização/Consororização sem reservas e sem tabus. Respiramos, comemos, bebemos, falamos, cantamos, partilhamos Cultura. E quem diz Cultura diz Liberdade, Alegria, Festa, Comunhão, numa palavra teológica/jesuânica, por isso, densamente humana, Eucaristia. Cerca de 150 pessoas, vindas de perto (da freguesia) e de longe (do resto do país) estiveram no Barracão, umas só durante a manhã, outras só durante a tarde. Mas umas 90/100 pessoas permaneceram todo o dia, sem arredar pé. E, quando, ao final do dia, tiveram de partir, foi já com saudade e a custo que o fizeram. Aquela era a sua verdadeira Casa, dentro da qual todas se haviam sentido mais humanas, mais elas próprias. Porque ninguém é sozinho. Somos comunhão. Ninguém é simples natureza. Somos cultura e liberdade. O colóquio com que se abriu o dia já tinha o Barracão quase plenamente habitado, como nunca antes deste dia havia acontecido. Foi um colóquio espantosamente participado. Surpreendentes e acutilantes as intervenções dos membros da mesa, dinamizados pelo Actor maior Seiva Trupe, Júlio Cardoso. Jorge Sarabando, do PCP e Francisco Assis, do PS, vivamente impressionados e entusiasmados com o que viam os seus olhos e ouviam os seus ouvidos, excederam-se na qualidade das suas intervenções/considerações. A Cultura saiu deste colóquio ainda mais valorizada. E o Barracão de Cultura passou a ter em cada um deles entusiastas arautos e convictos companheiros. O carinho com que, de repente, se viram rodeados e os afectos fraternos com que foram tocados e abraçados por nós disse-lhes muito da Cultura viva e libertadora que procuramos viver todos os dias e que haveremos de praticar e fazer acontecer no interior do Barracão. O almoço eucarístico - tripas à moda do Porto - mais parecia manjar dos deuses, irresistível. Um panelão foi oferecido por um restaurante da Lixa. Mas os outros dois, ainda maiores, foram confeccionados pela Casa da Comunidade, mesmo ao lado do Barracão de Cultura. Um primor inexcedível. Quando o amor está presente e a alegria, tudo sai transfigurado, até as tripas à moda do Porto! Houve quem bisasse e trinasse, sem que lhe fizesse mal. A tarde, de animação cultural, foi ainda mais inesquecível. Toda ela foi protagonizada, na primeira linha, por alguns dos presentes que vieram especialmente preparados para isso. Foi o alimento maior do dia. Houve quem fizesse questão de testemunhar no final que havia sido tocado e nascido de novo. E isso diz tudo. Porque só há verdadeira Cultura quando nos tornamos mais humanos. A cultura do Mercado que por aí se produz e vende, envenena, aliena, intoxica, torna-nos medíocres, coisas. A verdadeira Cultura "puxa" por nós, faz sair de nós o que há em nós de melhor e de mais belo. Revela o Homem, a Mulher que está em nós em semente ou adormecido, à espera de oportunidade para emergir. Para ajudar a conseguir este "parto" é que existirá o Barracão de Cultura de Macieira da Lixa. Foi, aliás, o que eu próprio disse, na introdução ao colóquio da manhã e, depois, de tarde, através das diversas contribuições que partilhei, a cantar e a dizer/declamar quase-poemas meus. Depois de um prolongado intervalo para que pudessem acontecer múltiplas e espontâneas conversas entre as pessoas presentes, ainda houve um bom churrasco, confeccionado na hora pelos membros da direcção da Associação, todos eles e elas inexcedíveis em dedicação, atenção, acolhimento, alegria, disponibilidade. Um conjunto de homens/mulheres bons, como salientou o actor Júlio Cardoso. E é de mulheres, homens assim que o mundo precisa e procura, quando em última instância procura Deus. A concluir este breve apontamento sobre este memorável dia que nos marcou a todas, todos para sempre, deixo aqui as singelas quadras que fiz ao Barracão de Cultura e que cantei, a abrir a minha intervenção durante a tarde de animação cultural, com a conhecida música popular "Ó rama, ó que linda rama":
Um Barracão de Cultura
erguido na nossa terra
expulsa dela a amargura
leva paz onde hoje há guerra
Leva paz onde hoje há guerra
liberdade onde hoje há medos
é ventre que dentro encerra
vidas sem nenhuns degredos
1 O beijo que tu me deste
fez de mim rio e fonte
ternura para quem sofre
sentinela sobre o monte
2 Avanças por toda a parte
com o sopro da Ternura
como um carro de combate
gerado pela Cultura.
2007 SETEMBRO 21
O primeiro-ministro de Portugal anda eufórico. O seu governo electrónico conseguiu subir ao pódio dos países da União Europeia. Vemo-lo escancaradamente sorridente em todos os telejornais. Um sorridente de parvo, de garoto que acaba de fintar um adulto e se fica a rir dele. Um sorridente com todos os ingredientes de quem se está a rir do país. Um sorridente contra o país e contra os seus críticos/opositores. Um sorridente que deixa o país ainda mais deprimido, mais triste, mais em lágrimas. Um sorridente de chico-esperto. Um sorridente de quem conseguiu vencer na aquisição e na utilização de ferramentas tecnológicas, mas continua incapaz de criar/desenvolver ferramentas tecnológicas para si e para os demais. Na verdade, como país, continuamos na cauda da Europa, em todas aquelas áreas vertebrais que nos garantiriam autonomia, independência, soberania, qualidade de vida, dignidade, e o respeito dos outros povos. Inclusive, na área da qualidade da governação. Podemos ser o primeiro país, mas só no chico-espertismo, a começar pelo governo do país, já que cada ministro faz tudo para ser o campeão na arte de esconder/branquear a situação de catástrofe em que vivemos. Só no discurso dos ministros é que o país é o primeiro. Na realidade dos factos, continuamos a ser um país sem saída. Sem soluções estruturais. Sem rumo. Aliás, quando os estádios de futebol se apresentam sistematicamente cheios, inclusive em dias de semana, algo vai mal, muito mal no país. É sinal de que as populações estão caídas na alienação. Vivem sem Projecto que as mobilize e movimente. Sem Causas que valham a pena. Recorrem por isso a todo o tipo de drogas. São populações drogo-dependentes. Uma coisa é gostar de futebol, praticar desporto, ver bons espectáculos desportivos. Outra é ser frequentador compulsivo de futebol, um viciado de futebol, encarar o futebol como o supremo valor, o supremo divertimento, a suprema actividade à qual todas as outras actividades hão-de ser sacrificadas. Só populações doentes, deprimidas, derrotadas, sem Projecto, desmotivadas, podem posicionar-se assim na vida de todos os dias. Populações cultas, saudáveis, equilibradas, alegres, realizadas, felizes, desenvolvidas em todas as dimensões do ser humano, também na dimensão espiritual, revelarão comportamentos outros, muito mais humanos. Infelizmente, o primeiro-ministro de Portugal é, ele próprio, tão robot, tão previsível, tão tecnológico, tão computador, tão máquina falante, tão vazio, tão sem espiritualidade, tão sem alma, tão caixeiro viajante, tão superficial, tão sem fecundidade, que só pode estar a conduzir o país para o vazio, para o faz-de-conta, para a mediocridade, para a falência. Com ele ao leme, seremos os campeões do desastre humano, da robotização, do tecnológico, do vazio, do virtual, do não-humano. As populações, acríticas e ingénuas, drogadas com tanta mediocridade e tanta imbecilidade, com tanto futebol e tanta novela rasca, com tanta publicidade e tanta mentira, vão facilmente na onda. Estão espiritualmente desarmadas e deixam-se levar sem resistência. E até aplaudem quem as leva. Sem intelectuais orgânicos a viver lúcida e criticamente no meio delas, como o fermento e o sal, as populações acabam por ser carne para canhão e para consumo. E provavelmente nunca chegarão a acordar deste seu estado de overdose e de pré-coma nacional em que hoje já se encontram. Entretanto, o primeiro-ministro prosseguirá ululante e agressivamente sorridente o seu percurso. Para o abismo. Até que o nosso país se transforme num grande campo de mortos insepultos. Nauseabundo. Comido pelos seus próprios vermes. Haverá, ao menos, um terceiro dia para o país? Chegaremos a ressuscitar deste desastre? Ou desapareceremos definitivamente da História?
2007 SETEMBRO 20
São quatro jovens mulheres. Todas ainda na casa dos vinte anos: Laura, Joana, Ana Sofia e Susana. As suas caras de reclusas ingenuamente felizes e tiradas a papel químico, são capa na edição da revista Notícias Magazine, de 16 Setembro 2007. São todas freiras de clausura. No Carmelo de Coimbra. O mesmo que enclausurou até à morte Lúcia, a da mentira católica das aparições de Fátima em 1917. A reportagem ocupa várias páginas de destaque. Li-a integralmente. E fiquei chocado. Decepcionado. Abismado. Tudo aquilo não passa de mais do mesmo do primitivo Paganismo religioso dos povos não ilustrados e não evangelizados, na reciclada versão católica que o Império romano de Constantino habilmente conseguiu impor às populações que então dominava e explorava e que, depois, a Cristandade Ocidental que lhe sucedeu, ainda exportou para outros povos de outros continentes, através das chamadas missões católicas. A Cruz e a Espada, lembram-se?! Dilatar a Fé e o Império, lembram-se?! Um crime sem perdão, feito de séculos e séculos de exploração/latrocínio e de escravatura/genocídio, que depressa esquecemos, porque fomos, ainda somos os beneficiários, não as vítimas. A repórter quase se limita a reproduzir, acrítica e ingenuamente, o que lhe disseram e o que lhe mostraram. Não conseguiu ir além da casca. Do habilmente propagandeado. Da mentira do discurso oficial. Do ideológico institucional religioso, que é sempre demoníaco. Ficou-se pelas aparências. Como uma câmara fotográfica. Não conseguiu ver, por trás dos sorrisos das quatro mulheres a quem roubaram tudo, até os corpos, todo o hediondo dAquilo que, como oportunamente revela o Evangelho de Jesus, mata o corpo e a alma de quantas lá caem dentro. Não teve a audácia nem a lucidez para interpelar até ao âmago as quatro mulheres e, sobretudo, a instituição-vampiro que as mantém sequestradas, para as poder devorar todos os dias, como ídolo que é e que, para melhor se poder impor e se fazer seguir, até com sorrisos de ingénua felicidade, faz-se passar aos olhos delas mentirosamente por Deus. A repórter não foi capaz de as questionar, às quatro. Nem se indignou perante elas e perante tudo aquilo que lhes estão a fazer, para cúmulo, com o declarado consentimento delas. Não protestou. Pelo contrário, chega até a parecer assustada com o que teve de ver e de relatar. Como sempre acontece diante da Imagem, do Ídolo, do Mítico, do Sagrado, do Santuário! Ainda não se deu conta, como sucede aliás com a maior parte das pessoas, sobretudo, as mais religiosas, que só a Mentira assusta, suscita Medo, esmaga-nos, oprime-nos, come-nos, mata-nos, reduz-nos a Nada. A Verdade, ao contrário, faz-nos livres, solta-nos, liberta-nos para a liberdade, catapulta-nos para a Plenitude do Ser. Porém, nem tudo na repórter é assim tão acrítico e ingénuo como parece. Timidamente, como quem não quer a coisa, não vá magoar o Deus-ídolo a quem estas quatro mulheres a uma só voz, como se de uma cassete se tratasse, dizem amar em exclusivo, lá conseguiu classificar a reportagem que assina, com uma palavra terrível, embora escrita num tipo de letra quase invisível: "RECLUSÃO". Assim é. Podem dizer por aí à boca cheia que é uma reclusão, sim, mas voluntária. Responderei: Reclusão voluntária? Tanto pior. Um suicídio, se voluntário, não é ainda mais horrível? Saibam, senhoras, senhores, freiras e frades, clérigos católicos e todos os seguidores dos seus espiritualismos moralistas, que fomos criados para a Liberdade. E para a Plenitude do Ser. Não para a Humilhação. Não para o Sacrifício. Não para Alienação. Da reportagem em questão, o mais asqueroso ainda é o que se relata no final sobre como são preenchidos os dias e as noites das 20 mulheres que actualmente estão reclusas no Carmelo de Coimbra. Todas vivem em função do Ídolo que as hipnotiza e devora, como costuma fazer a víbora assassina, quando quer devorar o pequeno pássaro que começou por hipnotizar. As reclusas chamam-lhe Deus, mas é o Ídolo que habilmente se disfarça de Deus. Só ele existe para elas. Madrugam para se lhe dirigir em orações ritualizadas que as impedem de chegar a pensar próprio, a dizer próprio, a sentir próprio, numa palavra, a serem elas próprias. Todos os dias estão marcados e preenchidos com rezas destas, do levantar ao deitar, sempre as mesmas ou do mesmo tipo. Uma rotina absurda. Estúpida. Criminosa. Destinada a alienar e a manter alienadas todas as vinte mulheres, tanto as muito idosas, como as muito jovens, como é o caso das quatro da reportagem. Um disparatado papagueado, sempre o mesmo para todas. Vejam só. Já foi esse mesmo papagueado que eu fui encontrar no seminário do Porto, nos anos da minha formação, e de que, felizmente, me libertei, quando cresci na Fé cristã jesuânica. Um horror sem nome. Por favor, não se escandalizem com o que aqui escrevo. Escandalizem-se com o Horror que se está a praticar todos os dias no Carmelo de Coimbra. E em muitos outros locais como aquele. Em muitas outra vidas de seres humanos católicos e não só. Se a Igreja não põe termo a Isto, torna-se Horror, ela própria. E se, em vez de lhe pôr termo, ainda vai dar mais força a Isto e desacreditar/matar o mensageiro e o Evangelho que ele lhes anuncia? Lembrem-se que outro tanto fizeram já os chefes da "Igreja" do Templo de Jerusalém a Jesus, o de Nazaré, por ele ter dito que era o Ídolo que eles lá adoravam/idolatravam, dia e noite, sob o disfarce de Deus. Será que não aprendemos nada com a História? Minhas irmãs, meus irmãos, fujamos do Ídolo! Deus Vivo, o de Jesus, tem a cara e o corpo do Pobre, do Oprimido, do Excluído, do Imigrante, dos Povos Crucificados. É aí que sempre nos espera. Entretanto, vive mais íntimo a nós dos que nós próprias, nós próprios! Por isso, sempre nos sai ao caminho a perguntar: "Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste da tua irmã/do teu irmão?. E ainda adverte aquelas/aqueles de nós que nos temos na conta de muito religiosos: "Quem diz que ama a Deus a quem não vê e não ama as irmãs, os irmãos a quem vê é mentiroso". Vão por mim: Mudem de Deus! Renunciemos de vez ao Ídolo e deixemos Deus Vivo ser Deus em nós e por nós!
2007 SETEMBRO 19
Não há hoje mães, pais que se prezem que não queiram as suas filhas, os seus filhos na Escola. Fazem das tripas coração, para que as filhas, os filhos tirem pelo menos uma licenciatura e um mestrado. E, se possível, num daqueles cursos com saída garantida para o mercado de trabalho. É assim entre nós e na generalidade dos países do Ocidente. E quem há aí que se atreva a censurar as mães, os pais que assim procedem? Não hão-de ser até apontados como mães, pais exemplares? Assim é. E não vou ser eu, obviamente, a censurar aqui tais mães, tais pais. O que terei a lamentar, e muito, é que não possa ser assim em todo o mundo, em todas as casas, em todas as famílias. Acho, entretanto, que há em tudo isto uma dimensão essencial que continua a ser muito esquecida, ignorada e completamente descurada por parte da generalidade das mães, dos pais de hoje. E que até as Igrejas que se reclamam de Jesus também descuram, quando deveriam manter bem viva no nosso quotidiano. Não mantêm. Com o que elas se preocupam quase em exclusivo é com tentar manter na Escola pública algumas das suas catequeses moralistas e deístas, como se, com isso, garantissem um futuro mais humano ao nosso mundo. Na verdade, só contribuem para o manter ainda mais infantilizado, tolhido, reprimido, agressivo, violento. E até mais ateu/idólatra! Recordo-me que, quando quis ir para o seminário do Porto estudar, a minha mãe, jornaleira nos campos de D. Maria Pinto, e que não sabia escrever, apenas ler com alguma dificuldade, alegrou-se muito, mas, ao mesmo tempo, ficou apreensiva e chegou até a temer por mim. No entender dela, os estudos que eu iria adquirir poderiam subir-me à cabeça e eu, uma vez formado, poderia esquecer-me por completo dos pobres entre os quais havia nascido e que já então integravam os milhões e milhões de pobres do mundo, condenados todos a ter de viver nas margens, vítimas maiores do mundo desenvolvido e escolarizado que é capaz de galopar desenfreadamente sobre os seus avanços científicos e tecnológicos, sem querer saber deles para nada, apesar de todos eles continuarem a ter de viver mergulhados na mais extrema pobreza, no subdesenvolvimento e no analfabetismo. E, na sua sabedoria de mulher pobre totalmente centrada no essencial, a minha mãe quase me obrigou a fazer um juramento: de que, pela vida fora, até à morte, nunca me esqueceria nem me afastaria dos pobres, das vítimas deste mundo sem entranhas de humanidade. E a verdade é que quando, doze anos depois, me vi com o curso superior e integrado no clero da diocese do Porto, logo tive de passar a travar uma batalha que ainda hoje não acabou. A de permanecer voluntariamente pobre com os pobres, longe dos privilégios que o estatuto de clérigo católico me garantiria, se eu sempre lhe permanecesse fiel. Mas a verdade é que, desde então, fiz questão de colocar a minha vida mais ilustrada e mais escolarizada ao serviço das maiorias empobrecidas e vítimas da Ordem Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império, em lugar de ao serviço dessa mesma Ordem Mundial que cruelmente as produz. Depressa o Bispo e os meus colegas padres estranharam a minha postura. E, com o rolar do tempo, escandalizaram-se cada vez mais comigo. Acabei praticamente abandonado por todos, nas margens. Olhado e tratado por eles com suspeição. Um louco. Um ateu. Ora, é esta dimensão de fidelidade aos pobres e às vítimas da presente Ordem Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império, verdadeiramente essencial a todos e cada um dos seres humanos, que a Escola, oficial ou particular, só por si, não desperta nem alimenta em quem a frequenta. Pelo contrário. Com o que a Escola mais se preocupa é que os mais inteligentes e os mais dotados sirvam incondicionalmente a Ordem Mundial, nas múltiplas estruturas e instituições em que ela se perpetua. E onde estão hoje as mães, os pais como a minha mãe? Pois bem, é esta falta de mães, de pais assim que me preocupa e muito. Deixem-me concluir com uma pergunta mais: sabiam que, de Jesus, os dirigentes do seu país, totalmente identificados com a Ordem Mundial de então, já se escandalizaram com a sua prática teológica e com a sua doutrina, ao ponto de perguntarem, com desprezo: De onde lhe vem esta sabedoria, se ele não frequentou as nossas escolas oficiais, abertas nas imediações do Templo e nas sinagogas, e insiste em praticar e ensinar uma Teologia nos antípodas daquela que nós ensinamos e que é a única que nos garante e a quem a segue os privilégios de que usufruímos?! (cf. João 7, 15). Como é que Jesus terá conseguido tal proeza? E como é que cada uma, cada um de nós hoje há-de consegui-la também?
2007 SETEMBRO 18
As escolas do nosso país estão de regresso às aulas. A ministra da educação mostra-se (quase) eufórica, particularmente, quando está diante das câmaras de televisão e sem professores sindicalizados e sindicalistas por perto. Porque quando estes, sobretudo, os professores sindicalistas estão por perto, a ministra deixa cair a máscara de eufórica e podemos ver a olho nu todo o asco e o ostensivo desprezo que ela nutre pelos professores que o são a sério. Está visto que a ministra da educação do que gosta é de professores subservientes, funcionários que digam amen às suas políticas educativas sem Política Educativa. Já de professores com consciência crítica, com espinha dorsal, com causas, com ternura, com afectos, com discernimento e, sobretudo, com projecto político educativo alternativo ao programa político educativo rasca e sem coração que o Governo Sócrates a que ela pertence está aí apostado em realizar, em obediência aos obscenos interesses da presente Ordem Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império, a ministra da educação não pode ouvir falar, muito menos ver por perto e encarar. Ora, o que eu mais posso desejar, neste momento grave por que passa o nosso país, totalmente à mercê de um primeiro-ministro que mais parece um boneco articulado que mãos invisíveis habilmente manipulam a seu bel-prazer, é que os professores, elas e eles, não desarmem, não se rendam, não desfaleçam, não desistam. E prossigam firmes na luta por uma escola outra, uma educação outra, uma formação outra, um ensino outro. Liderem, se mais ninguém se lhes juntar (onde estão os trabalhadores bancários, os operários, os estudantes do chamado Ensino Superior, os desempregados, os reformados, os imigrantes?) a contestação e a oposição ao cruel e cínico governo de Sócrates, até que ele caia e, em seu lugar, se perfile uma elite decente, com entranhas de humanidade e com causas, determinada a bater o pé e a refrear o insaciável apetite do Dinheiro que, hoje, não olha a meios para alcançar os seus fins. Eu sei que o tempo das revoluções violentas passou. E não me lamento por isso. Pelo contrário, porque sempre acreditei na fecundidade da não-violência activa que é capaz de ir até à doação da própria vida, em lugar de sumária e precipitadamente tirar a vida a quem pensa diferente. Mas, atenção! Se passou o tempo das revoluções violentas, é só porque a Humanidade está a ficar madura, já está madura, para Revoluções de outro tipo, muito mais fecundas e eficientes do que as de antigamente, todas elas muito estéreis e destinadas quase só a mudar de opressores. O nosso é o tempo da Revolução das consciências esclarecidas, informadas, ilustradas, livres, com entranhas de humanidade. São consciências assim que, de um momento para o outro, podem fazer parar o mundo, a Ordem mundial do Dinheiro, do Templo e do Império. Todas, como uma só, dizem NÃO às suas decisões, não obedecem às suas leis nem às suas ordens. E a Ordem mundial do Dinheiro, do Templo e do Império deixa de funcionar. É o caos? Não! É o princípio do fim do caos e simultaneamente o início da Ordem Mundial dos povos e dos seres humanos radicalmente iguais ao comando das operações. Atrevam-se, professoras/professore do meu país! Resistam, determinados e alegres, à ministra da educação e ao governo Sócrates que a segura e protege. Porque escolas com o tipo de políticas educativas que o governo Sócrates e a sua ministra da educação querem levar por diante em todo o país visam sobretudo formar consumidores em lugar de despertar criadores, formar funcionários em lugar de despertar poetas, formar súbditos em lugar de despertar profetas, formar lacaios em lugar de despertar protagonistas, formar minhocas humanas em lugar de despertar Mulheres/Homens íntegros, formar colaboracionistas em lugar de despertar sujeitos, formar executivos em lugar de despertar pessoas humanas solidárias, formar competitivos cainitas em lugar de despertar seres humanos sororais/fraternos. Resisti-lhes! E outras, outros acabarão por juntar-se a vós neste nobre combate. Precisamos de escolas outras, por onde constantemente passe o Sopro ou Espírito libertador e sororal de Jesus, o ser humano integral que todas, todos havemos de chegar a ser, pois são as únicas que garantirão futuro ao nosso presente. Escolas assim serão ventres onde as novas gerações despertam e crescem em idade, estatura, sabedoria e graça. E com mulheres/homens assim, íntegros e livres, soberanos e sororais/fraternos a Ordem Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império não tem qualquer hipótese. Mas, atenção! Esta Revolução não violenta é duélica e martirial. Estamos dispostos a dar/perder a vida para que ela se realize na História? Por mim, não quero outra coisa e é por aí que já ando!
2007 SETEMBRO 17
Todo o meu dia de ontem foi de comunhão ao vivo com um casal meu amigo, Lurdes e Ambrósio, residentes em Custoias, Matosinhos, que fizeram questão que eu estivesse activamente presente e interveniente na festa familiar dos seus 50 anos de matrimónio. Lurdes é uma católica daquele tipo de catolicismo tradicional não ilustrado e não evangelizado em que eu, praticamente, desde que sou padre, nunca me revi. Porém, ultimamente, para felicidade dela e do marido, Lurdes apresenta-se cada vez mais distante das práticas paganizadas e rotineiras que as paróquias insistem em promover e realizar nas respectivas igrejas e capelas. Ambrósio, por sua vez, é um conhecido e temido sindicalista têxtil já na reforma que, um ano depois de ter realizado o seu casamento canónico na Igreja católica, cortou radicalmente com ela e, desde então, passou a assumir-se como ateu, mas um ateu muito especial, porque grande admirador e bastante praticante de Jesus, o de Nazaré. A Ambrósio, conheço-o praticamente desde o 25 de Abril de 1974 e vivemos juntos, ele como aguerrido dirigente do Sindicato dos Têxteis do Porto e eu como jornalista, muitas lutas sociais e demos corpo a muitas manifestações de rua, quando Abril ainda mobilizava populações, trabalhadores e moradores de bairros e de casas abarracadas. A festa incluiu um almoço partilhado num conhecido restaurante das redondezas da casa onde vive o casal, precedido de uma celebração eucarística, realizada em nome e em memória de Jesus e presidida por mim, a pedido de ambos, no mesmo restaurante, e já com as 21 pessoas convidadas, sentadas à mesa onde, logo após, seria servida a refeição. A celebração contou também com a presença e a intervenção activa de Maria Laura, a presbítera não-ordenada da Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa, de quem Lurdes e Ambrósio, depois que leram o que sobre ela testemunham os meus livros na Companhia de Jesus e de Ateus e Em Memória delas. Livro de Mulheres, muito se aproximaram no afecto e, porque hoje os três já são amigos de verdade, fizeram questão que ela também estivesse presente e exercesse o seu ministério presbiteral não-ordenado. No decurso da celebração, o restaurante manteve-se aberto ao público em geral e, naturalmente, acabou por se encher de muitas outras pessoas, as quais, à chegada, ficavam surpreendidas, mas, felizmente, nenhuma delas se afastou por via disso. Ordeiramente, sentaram-se nas mesas que haviam reservado ou que estavam ainda disponíveis e acabaram, umas mais, outras menos, por acompanhar o que estava a acontecer naquela mesa ao centro da sala. Foram 45 minutos intensos e fecundos, durante os quais a Boa Notícia Jesus foi anunciada e praticada ao jeito do século XXI, longe dos templos e dos altares, à volta duma mesa partilhada, como sempre deveria ser, se as Igrejas se mantivessem fiéis ao que fez e pediu o próprio Jesus. Maria Laura escolheu, leu e comentou, depoisda minha saudação inicial, o capítulo 13 da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios. Depois dela, eu próprio li e comentei o Evangelho de Lucas 4, 16-21, que nos apresenta o Programa de Acção que Jesus se propôs realizar na sua missão messiânica, intrinsecamente política, não religiosa. E depois Parti, in persona Christi, o Pão e o Vinho de uma das cestas com pão espalhadas pela mesa e de uma das vasilhas com vinho maduro tinto. E pudemos escutar em discurso directo as palavras que Jesus ressuscitado, na indignidade da minha voz, nos quis dizer naquele Momento de Graça e de Verdade. Tudo foi único e original. Intenso. Irrepetível. E mexeu com as nossas consciências. Ambrósio e Lurdes estavam visivelmente felizes, quando, a concluir a celebração, trocaram as alianças. Nunca ambos, em todos estes anos que já levam de vida, se tinham sentido tão amados. E o Sinal que, a partir de agora são ainda mais e a que fizeram questão de dar expressão pública entre o seu povo marcá-los-á e ao seu povo para sempre. E, por muitos anos, continuará ali a ser recordado e comentado, como um Sinal de Deus, o de Jesus, que gosta de ateus e não frequenta os templos dos que insistem em honrá-lo lá, sem mexerem um dedo pela transformação do mundo e da vida. A concluir, deixo aqui os versos que escrevi para o casal e que cantei, com música de José Afonso, na altura da partilha do bolo e do champanhe. Eis:
Para Ambrósio e Lurdes, com amor
nas BODAS DE OURO do seu Matrimónio
1 Cantai meus amigos o Amor
É muralha de aço onde estiver
Podem vir tormentas e batalhas
Todas o Amor há-de vencer
2 Canto a ternura deste dia
Cinquenta anos de Amor
Homem e Mulher uma só carne
Dão ao mundo Paz, dão-lhe Calor
3 Quem pelo Amor se vê tocado
Faz do seu viver uma canção
Luta sem descanso pela Justiça
Dá aos oprimidos sua mão
4 Foi amigo Ambrósio tua vida
Carro de combate e de ternura
Junto com a Lurdes companheira
Sois poema sois bela escultura
5 Sei que só há Paz onde há Justiça
Sei que a exploração vai acabar
Cairão o Templo e o Império
Porque só o Amor há-de ficar
2007 SETEMBRO 15
A missa em latim está desde ontem outra vez em vigor em toda a Igreja católica do Ocidente. O papa Bento XVI assim o quer e assim o decretou. E quando o papa quer e decreta uma coisa, é lei para os católicos, elas e eles. E lei na Igreja católica romana é para se cumprir. Mas será que é? Não é sobretudo para se ultrapassar? Sou Igreja e por isso posso, devo dissentir do papa de turno. A minha obediência, em Igreja, não é ao papa. Em última instância, é exclusivamente à minha consciência. Se eu não tiver a audácia de ser homem assim, deixarei de ser Igreja, comunidade de comunidades de mulheres/homens livres e sororais/fraternos. Nem o papa, nem os bispos gostam de nos lembrar, muito menos, de sublinhar estas coisas essenciais do nosso ser Igreja. Preferem lidar com súbditos, vassalos, subalternos. Eles sabem que mulheres/homens livres, indomáveis, nunca serão pau para toda a colher. Mas é de mulheres/homens assim que Deus gosta e trabalha dia e noite para que sejamos e cresçamos nessa dimensão. Saibam que, em Igreja, não há só o papa e os bispos. Há sobretudo Jesus e o Espírito Santo, o de Jesus. E há Deus vivo, nossa Mãe/nosso Pai, que nem gosta de papas, nem de bispos, nem de clérigos. Apenas de filhas suas, filhos seus, mulheres e homens constituídos na liberdade/maioridade e por isso protagonistas da História, como se Ele não existisse. E, finalmente, há a consciência de cada membro da Igreja, mulher ou homem, que Deus Vivo é o primeiro a respeitar e a potenciar desde dentro, para que o seja cada vez mais. Sou Igreja e é assim que vejo as coisas. Não fossem as coisas assim e ser Igreja seria uma indignidade para os seres humanos que a constituem. Pelos vistos, hoje chega a parecer que o papa e os bispos e os párocos o que mais cultivam em Igreja é a indignidade. Vejam como fazem tudo para que nos comportemos como súbditos seus, contribuintes calados, executores dos seus caprichos, alguns deles, os mais absurdos e pueris. Parece que o que eles mais temem é que sejamos livres e responsáveis. Saudavelmente dissidentes. Pois bem, sou Igreja e não gosto de missas. De nenhuma espécie de missas. Menos ainda das missas em latim, uma língua que hoje nenhum povo do mundo fala. E se hoje nenhum povo do mundo fala latim, para quem então falam os párocos, os bispos e o papa, quando rezarem a missa em latim? Para Deus? Mas quem lhes disse que Deus fala as línguas que nós, os humanos, falamos? E será que ainda pensamos que, quando o papa, os bispos e os párocos falam em latim ou em vernáculo na missa e na liturgia em geral, é para Deus que eles falam? Então ainda pensamos que Deus Vivo carece de palavras, de frases, de fórmulas rituais e de discursos, para cúmulo, proferidos por pretensos intermediários nossos, para saber de nós, nomeadamente, o que necessitamos, o que sentimos e o que desejamos? Esquecemos que Deus Vivo é mais íntimo a nós do que nos próprios? E que somos, porque Ele é e nos faz ser? Por isso pergunto com oportunidade: para onde nos quer levar o papa Bento XVI, com esta sua decisão? E os bispos que infantilmente acatam os seus decretos, os executam e fazem executar nas respectivas dioceses? Acham que somos Igreja para obedecer infantilmente aos caprichos do papa? E dos bispos? E dos párocos? Não é para lhes resistirmos e para dissentirmos deles? Resistir e dissentir não são posturas próprias de mulheres, homens adultos, livres, responsáveis? Ou será que ignoramos que somos Igreja para sempre nos deixarmos conduzir pelo Espírito de Deus Vivo, tal como fez Jesus, o ser humano por antonomásia? E seres humanos assim não são Eucaristias vivas, vidas históricas concretas que salvam/humanizam/sororizam o mundo e, por isso, dão glória a Deus? Deixemos o latim e as missas em latim na paz dos cemitérios, para onde a História já remeteu um e outras. E, em lugar de continuarmos infantilmente a ir à missa dos párocos, dos bispos e do papa, ousemos duma vez por todas crescer em sabedoria e em graça e ser mulheres, homens eucarísticos, melhor, Eucaristias vivas no mundo e na História. Porque tudo o que não tender para aqui é pecado!
2007 SETEMBRO 14
Não lhes deu vómitos ontem à noite toda aquela hipocrisia e todo aquele bando de hipócritas, na Assembleia da República, quando a reportagem da recepção oficial ao Dalai Lama passou nos telejornais? E acham que um homem que pretenda mudar o mundo, como nos querem fazer crer que Dalai Lama pretende, deva frequentar lugares e instituições de Poder onde todos os dias se pratica a mentira e se assassinam os pobres com leis e decisões que sistematicamente visam promover e defender os privilégios dos poderosos e os macabros interesses do grande capital e das suas multinacionais? Quem pretenda mudar o mundo pode frequentar assim, sem um mínimo de verdade nas palavras e nos gestos, os poderosos e os grandes ricos, cujos privilégios são o que falta de mais essencial/vital às maiorias pobres? E, se os frequenta, não há-de ser para lhes dizer, olhos nos olhos, com ternura, mas também com o vigor duma espada de dois gumes, o seu pecado, a sua fealdade, o seu crime, a sua perversão, de modo que eles percam o sono, abram-se à Verdade, pratiquem-na e iniciem o percurso de vida que os leve a ser, finalmente, pessoas humanas livres e sororais? A hipocrisia alguma vez mudou o mundo? Eu sei que é muito difícil a frontalidade e a luz, nomeadamente, na casa dos poderosos e dos grandes ricos. Sei que a profecia não é prática que se assuma todos os dias com facilidade. E nem será de esperar encontrá-la em todas as pessoas. Mas quem quer mudar o mundo tem de ser capaz de estar nele sem nunca chegar a ser dele. Não pode viver a fazer de conta. Muito menos recorrer aos mesmos processos dos poderosos e dos grandes ricos, nem ter os seus tiques. Conhecerá por isso o ódio e o desprezo deles, em lugar dos aplausos, sobretudo se eles já tiverem desistido de vez de ser humanos e sororais. Nunca chegará certamente a ser convidado para entrar nos seus palácios, nem frequentará os seus banquetes. Será tratado como louco e objecto de riso. E quando morrer, a sua morte será festejada por eles. Mas a Humanidade, enquanto tal, terá conhecido um ser humano a sério, cujas mãos não estão sujas de sangue dos pobres e cuja cabeça sempre trabalhou em uníssono com o coração e por isso jamais foi capaz de conceber projectos, doutrinas, economias e políticas sem entranhas de misericórdia. Escandalizo ao escrever estas coisas? É provável. Porque estamos todas, todos tão metidos na lógica deste mundo, desta Ordem Económica Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império, que já nem somos capazes de perceber toda a sua Perversão, toda a sua Mentira e todo o seu poder assassino. Pelo contrário, encaramos e tratamos como benfeitores da Humanidade aqueles que vivem sistematicamente para a roubar, matar e destruir. E ainda corremos a juntar as nossas pedras às deles, quando eles decidem passar do desprezo ao apedrejamento até à morte dos profetas, sempre, é claro, ao abrigo das suas perversas leis. Como paradigmaticamente fizeram/fizemos com Jesus, o de Nazaré, o Homem por antonomásia. E com tantos outros, mulheres e homens, que têm tido a audácia de viver na sua peugada e de prosseguir as suas mesmas Causas.
2007 SETEMBRO13
Nunca estive olhos nos olhos com ele. E provavelmente, nunca estarei. Não me atrai o seu sorriso. Nem a sua figura. Acho tudo demasiado artificial. Folclórico. Pueril. Sem plena verdade. Como sucede aliás com o Papa de Roma. Dalai Lama é, pode dizer-se que é o papa do Budismo. Como tal, o homem que ele antes era como que desapareceu para, em seu lugar, ficar um artifício, uma marionete, um fantasma que o Poder e outros obscuros interesses hoje manipulam à vontade. Tornou-se, há anos, Nobel da Paz e nem assim me atrai a sua paz. Acho-o demasiado integrado no Sistema e na Ordem Económica Mundial do Império, do Dinheiro e do Templo. Aquela Paz revolucionária e conspirativa que resulta do beijo entre a Justiça e a Misericórdia e que, lá onde existir, erradica de vez a pobreza em massa da face da Terra, nunca chegará a ser premiada com o Nobel da Paz, porque os senhores que mexem nesses cordelinhos estão, obviamente, mais empenhados em conservar a Ordem Económica Mundial que lhes é favorável, como a todos os demais ricos e poderosos, do que em subvertê-la. De Dalai Lama, já li alguns textos que lhe são atribuídos e não me comovi. Tão pouco, senti o apelo a sair ao seu encontro. Sei - quem não sabe?! - que ele está pela segunda vez em Portugal, mas não darei um passo para ir ao seu encontro. Os media andam atrás dele, captam as suas palavras e difundem imagens dele. Pelos vistos, a sua agenda está sobrecarregadíssima e vão ser muitos os milhares de pessoas que irão escutá-lo numa única sessão pública em Lisboa. Não estarei lá. Acho que tudo o que está a ser feito com esta exótica figura não tem verdade, soa a falso, a oco. Ora, eu gosto de seres humanos íntegros, inteiros. Não gosto de marionetes, de robots, de funcionários, de vedetas, de estrelas, de personalidades. Quando alguém necessita de guarda-costas, para qualquer parte do mundo que vá, ainda é um ser humano? Um irmão universal? Não se tornou outra coisa? O Poder do que mais tem medo é de seres humanos. Por isso, tudo faz para converter aqueles com que tropeça em outra coisa. Pelos vistos, são poucos os seres humanos que resistem ao Poder e que permanecem seres humanos simplesmente, até ao fim. O Poder sabe que só se perpetua, se tiver minorias de funcionários de luxo e exércitos de funcionários anónimos que o sirvam. Quando conhece indivíduos incondicionalmente dispostos a servi-lo, não olha ao preço a pagar. Paga o que for preciso para os ter a todos nas mãos. A sua Ordem Económica Mundial nunca chegará a ser ameaçada. Só reforçada. E cada vez mais. O Poder sabe que é com papas, com dalai lamas, com presidentes da república, com bispos, párocos, primeiros-ministros, administradores disto e daquilo, com presidentes de banco mundial e de banco central e muitos outros do género, que tudo continuará a correr sobre rodas. De geração em geração. Indefinidamente. Vejam como todos esses privilegiados se entendem entre si. E como cooperam. Mesmo quando parece que estão em desacordo, como sucede por estes dias em Portugal com o Dalai Lama e os dois funcionários de topo do Estado, ainda é para todos eles melhor levarem a água ao seu moinho. São pequenos atritos que têm o condão de os unir e reforçar ainda mais. Abramos os olhos. Não nos deixemos cegar. Só a Luz nos pode manter humanos. Mas nunca esqueçam que a Luz é incompatível com o Poder. O Poder é Treva. Holofote que encandeia e cega. "Eu sou a Luz do Mundo. Quem me segue não anda na Treva". Só podem ser de Jesus estas palavras. Sabemos que o Poder também o tentou. Mas ele resistiu-lhe sempre. Até ao sangue. Por isso, o Poder matou-o. Não suporta tropeçar com seres humanos integrais. Só com venais que negoceiam com ele e se submetem às suas ordens. É por Jesus que vou. Ele é o Caminho que, se for percorrido por mim até ao fim, me fará ser humano integral, por isso, salvo. Também querem vir daí comigo? Perceberão, como Paulo de Tarso acabou por perceber, que tudo o que não é Jesus é esterco. Nem que brilhe como o ouro ou como o diamante mais polido!
2007 SETEMBRO 12
Seis anos depois, o 11 de Setembro das Torres Gémeas de Nova Iorque continua a ser notícia. Ensurdecedora. De outro 11 de Setembro, o do Chile de Allende, dizimado pelo terrorismo do Império norte-americano, apoiado pela cumplicidade do Templo Ocidental, os grandes media preferem calar. É memória perigosa e subversiva, como a de Jesus, o Crucificado pelos do Templo de Jerusalém e do Império Romano, e, é bom de ver, não é para isso, não pode ser para isso que existem os grandes media. É outra a sua lógica e são outros os interesses que lhes compete zelar. Não existem - era o que faltava! - para ajudar a manter viva a memória subversiva e perigosa das vítimas do Império e do Templo. Nem, o que é o mesmo, para ajudar a manter viva a memória subversiva e perigosa das vítimas do grande Capital, o deus Dinheiro que os pariu a todos. Dessas vítimas, milhões e milhares de milhões em todo o mundo, os grandes media não fazem memória nunca. Nem os seus donos lhes permitiriam. O que os grandes media sempre fazem é lançar sobre as inúmeras vítimas do deus Dinheiro sucessivos mantos de silêncio e de esquecimento. O que vale a tais vítimas é que, quando os grandes media calam, gritam até as próprias pedras das calçadas, a reclamar/exigir um futuro de justiça, uma Ordem Mundial outra, finalmente decente e humana. Aliás, o clamor das vítimas sempre se confunde com o clamor do Deus Vivo. E é por isso que anda carregado de futuro. Por mais que o deus Dinheiro não o suporte e tudo faça para o abafar. De resto, não há que esperar outra coisa do deus Dinheiro. Como ídolo que é, o maior de todos e o mais perverso, faz o que lhe é próprio. Vejam que ele até consegue ganhar adeptos entre os próprios ateus e agnósticos, os primeiros hoje a escandalizar-se com a existência de vítimas e em tão grande número. Em lugar de atribuírem a existência de vítimas ao deus Dinheiro e à sua impiedosa lógica de mentira e de assassínio em massa, quase todos eles hoje pensam e dizem que elas existem por culpa de Deus Vivo. Chegam, inclusive, a invocar a existência de vítimas como justificação para o seu assumido ateísmo. Até aí vai a habilidade do deus Dinheiro. E o poder da sua mentira. Primeiro, faz as vítimas e, depois, ainda consegue convencer as pessoas, nomeadamente, as pessoas supostamente ilustradas e dotadas de sentido crítico, que a existência delas é culpa de Deus Vivo, não produção sua. É claro que ateus e agnósticos assim são cegos e guias cegos. São ateus e agnósticos do Deus Vivo, do Deus das vítimas, porque adeptos incondicionais do deus Dinheiro. Na realidade, são idólatras supostamente ilustrados, e da ilustração do deus Dinheiro, que é a Mentira. São por isso ateus que filtram mosquitos e engolem camelos. Com os quais o deus Dinheiro se sente a jeito. Ora, do que hoje precisamos é de ateus do deus Dinheiro, de ateus que façam unha e carne com as vítimas em massa que esta Ordem Económica Mundial do Dinheiro produz com fúria cada vez mais assassina. Há por isso um tipo de ateísmo que saúdo. O daqueles homens, daquelas mulheres que ouvem com o coração o clamor dos empobrecidos e de todas as demais vítimas do deus Dinheiro. E se fazem próximos delas, até ao despojamento mais completo. E numa relação maiêutica, libertadora, por isso, conspirativa e insurreccional. Até que as vítimas se levantem como um exército em linha de batalha, armadas com a verdade/dignidade e a fome de justiça. E façam cair todas as torres gémeas da nossa vergonha e da nossa desumanidade. Um ateísmo só do Templo é um ateísmo politicamente coxo. Inócuo. Não aflige o Império, nem o seu deus maior, o Dinheiro. Saúdo o ateísmo que tem a lucidez e a audácia de se fazer próximo de todas as vítimas e de pugnar martirialmente por uma Ordem Económica Mundial outra, em que a riqueza produzida segundo as capacidades de cada povo seja equitativamente distribuída por todos os povos, segundo as necessidades de cada qual. Ateus desta fibra nunca se sentem órfãos. Deus Vivo é mais íntimo a eles do que eles próprios.
2007 SETEMBRO 11
O caso da menina inglesa desaparecida em 3 de Maio de 2007continua, todos estes meses depois, na ordem do dia, de onde nunca chegou verdadeiramente a sair desde o início. Os próprios pais da menina assim programaram as coisas, ao comunicarem, de viva voz, pelo telefone o desaparecimento da sua filha a um conhecido canal de televisão do seu país, o Reino Unido. Uma decisão que, de tão inesperada naquelas circunstâncias, deveria ter de imediato levantado suspeitas e sido bem psicanalisada pela Polícia Judiciária, pelos jornalistas dos diversos órgãos de comunicação social destacados para acompanhar/investigar o caso e por todos os que, ao longo dos dias, vieram a ser chamados a intervir nele. De tão inesperada, semelhante opção dos pais da menina revelava algo que eles pretendiam esconder a todo o custo. Despistava habilmente as atenções, quando mais parecia que as convocava e concentrava. Escondia a verdade objectiva, quando mais parecia que eles desejavam chegar a ela. Punha as atenções a correr em todas as direcções, menos na da descoberta da menina. Precisamente, porque a menina já não podia ser encontrada. E o que dela restava - o cadáver - se viesse a ser encontrado, deporia, obviamente, contra os próprios pais. Por isso - congeminaram eles - havia que fazer correr a investigação em todas as outras direcções, menos na direcção da descoberta do que restava da menina. E não é que os pais da menina conseguiram, durante todos estes meses, o que haviam congeminado, desde o primeiro instante? Felizmente, para a descoberta da verdade dos factos, os cães treinados por humanos conseguiram o que os humanos que os treinam não conseguiram. Como se orientam exclusivamente pelo faro, não puderam ser sensíveis à espantosa encenação montada pelos pais da menina. Não caíram nas suas demenciais armadilhas. E agora? Resta os pais da menina abandonar quanto antes o mundo da fantasia que criaram e em que têm vivido e nos fizeram viver a todas, todos. Resta-lhes ter a lucidez e a coragem de regressarem ao real. Confessem o que aconteceu de verdade naquela noite e nos dias seguintes. Porque a sua encenação já não tem mais pernas para andar. Confessem. Peçam desculpa ao mundo. E o mundo saiba estar com eles, nesta hora, para os salvar do abismo, da vergonha, da premente tentação de suicídio. Ajudemo-los a reencontrar-se com a verdade. A assumir a verdade. Porque só a verdade os fará livres. Humanos. Serão/seremos capazes de tanto? Sobretudo, nós que, depois destes meses todos, nos vimos totalmente ludibriados por eles, seremos capazes de os compreender, de lhes perdoar e de os acolher/reabilitar? Mais do que ficarmos furiosos contra estes pais, havemos de estar à altura deste Novo Momento das suas vidas. Serão os grandes media capazes de tanto? Ou, pelo contrário, vão agora enveredar pela vingança, pela retaliação, pelo massacre na praça pública dos pais da menina? Vão atirar todas as pedras a estes pais, como se não tivéssemos todos, nomeadamente eles, os grandes media, telhados de vidro? Quem de nós, nomeadamente, os grandes media está sem pecado, inclusive neste caso? É imperioso salvarmos os pais da menina inglesa. Já basta termos perdido a menina. Demo-nos então as mãos em torno dos pais. O carinho que fomos capazes de lhes mostrar, quando pensávamos que a realidade era como eles desde o início a contaram, havemos de ser capazes de lho mostrar, também agora que já sabemos que a realidade é ainda muito mais dramática e muito mais horrível do que pensávamos. Perdoemos a estes pais ingleses. O Perdão é uma nova Criação. É um novo Nascer. Um novo dar à luz. Sejamos por isso parteiras junto deles. Para que eles nasçam de novo, do Alto, do Espírito Criador e libertador de Deus Vivo. Sejamos Jesus para estes pais. Salvemo-los. Ajudemo-los a tornar-se verdadeiramente humanos. Se o fizermos, podemos dizer que todas, todos saímos ressuscitados deste desastre, saímos novos deste desastre, saímos levantados deste pesadelo, desta Morte. E isso é agora a única coisa que importa. Façamo-lo, pois, com generosidade e em grande paz. De contrário, haveria razões de peso para desacreditarmos dos seres humanos que somos. Haveria razões de peso para nos decepcionarmos com os seres humanos que somos. Salvemos estes pais. Veremos que, ao salvá-los, salvarmo-nos também a nós. O mesmo é dizer, tornamo-nos todas, todos muito mais humanos.
2007 SETEMBRO 10
Acabo de chegar do 27.º Congresso de Teologia de Madrid que teve o seu início ao fim da tarde do passado dia 6. Prolongou-se até ontem, ao começo da tarde. As migrações, nas suas duas vertentes emigração-emigrantes / imigração-imigrantes e na sua relação com o Cristianismo de Jesus, estiveram em amplo e profundo debate que procurei acompanhar com interesse e sempre à escuta do que, a este propósito, o Espírito anda a dizer às Igrejas e à Humanidade. Na próxima edição do Jornal FRATERNIZAR espero dar a esta temática o relevo que o assunto merece. Desta vez, não fui na carrinha, com as outras pessoas das Comunidades cristãs de base que habitualmente também vão participar. Fomos todos de avião, numa viagem de ida e volta que nos saiu quase por metade do preço do que teríamos pago, se fôssemos de comboio. A internet ajudou-nos a descobrir esta oportunidade e não hesitámos em aproveitá-la. Mas não é só o Congresso de Teologia que nos leva a Madrid, cada ano. É também a alegria de podermos estar ao vivo com companheiras e companheiros da Comunidade Cristã de base de Canillejas, plantada numa urbanização acentuadamente operária nos arrabaldes de Madrid. É para nós e para elas, para eles uma experiência altamente fecunda e cheia de graça. As casas de algumas delas, alguns deles são, durante estes dias, também nossas casas. Não só dormimos nelas, como também nos sentamos às suas mesas, numa partilha de bens e de vida que nos faz mais humanos e sororais. Podemos inclusive dizer que esta vivência à Emaús é o Congresso de Teologia no seu melhor. Porque é a Teologia feita acolhimento e partilha, feita teoprática, Deus praticado, não apenas Deus reflectido e discursivo. E, se são importantes a reflexão e o discurso sobre Deus, não é menos importante, muito pelo contrário, praticarmos comunitariamente Deus. Aliás, a Teologia que não seja sempre acompanhada da prática libertadora e comunitária, ao jeitode Jesus, torna-se estéril, como tal, não transforma o mundo nem a vida dos povos. Ora, do que verdadeiramente necessitamos é de boas práticas teológicas que ajudem a transformar o nosso mundo e a vida dos povos, muito mais do que de boas reflexões teológicas que deixem inalteráveis o nosso mundo e a vida dos povos. Infelizmente, têm sido muito assim estéreis as catequeses das Igrejas, o que perfaz uma clara traição à memória subversiva e conspirativa de Jesus. "Fui emigrante e acolhestes-me", rezava, de forma manifestamente provocativa, o enunciado do tema do Congresso. Sabemos bem que a realidade de todos os dias dos emigrantes/imigrantes está longe de ser assim. Os 300 milhões de emigrantes que hoje existem no nosso mundo estão ainda longe de ser acolhidos como seres humanos, quanto mais como Jesus. Constituem uma realidade, em carne viva, feita de sangue, de suor e de lágrimas. Mas não há-de continuar a ser assim por todo o sempre. E, se o for, tanto pior para os dos privilégios e os detentores da riqueza que, ao ser produzida, sempre há-de para ser partilhada por todos os povos do nosso mundo, segundo as necessidades de cada um. A mudança por que passam as mulheres e os homens que saem dos seus países de fome e de desastre, quando se experimentam imigrantes nos países aonde chegam, é mais, muito mais do que uma simples mudança de vogal de "e" para "i". É uma mudança qualitativa de consciência que obrigará este nosso mundo a mudar radicalmente de economia e de política. Sob pena de se tornar um mundo ingovernável e inviável.
2007 SETEMBRO 06
Ainda a propósito de Madre Teresa. Ouvi ontem à noite o Pe. João Seabra, do movimento católico de direita, Comunhão e Libertação, na RTP2, a comentar um excerto da homilia do senhor Cardeal Patriarca, José Policarpo, na missa do 10.º aniversário da morte da nova beata católica. As cartas que Madre Teresa terá escrito, anos e anos a fio, aos seus confessores e directores espirituais e que agora foram tornadas públicas estão a deixar os dirigentes maiores da Igreja, desde o papa em Roma aos bispos de Portugal, à beira de um ataque de nervos. Todos eles querem a toda a força que Madre Teresa seja proclamada santa, já, e aguardam com visível impaciência, mais um milagre dela que, no entender deles - um entender não jesuânico, diga-se, já que um Deus milagreiro é um ídolo criado pelos nossos medos, pelas nossas insuficiências e pelas nossas preguiças - confirme a sua santidade em grau heróico. Ora, essas suas cartas agora divulgadas não ajudam nada nesse sentido, só atrapalham, pois deixam perceber que há qualquer coisa em Madre Teresa de Calcutá que não bate certo na sua relação com Deus. À luz dessas cartas, é legítimo perguntar: A Fé de Madre Teresa seria da mesma qualidade da Fé de Jesus? Teve Jesus como a sua fonte? Ou seria uma fé sobretudo religiosa-pagã, como a da maior parte das pessoas católicas? Por outras palavras: o Deus em que ela acreditou, que aceitou servir e que deu sentido à sua vida é o mesmo Deus de Jesus, ou, pelo contrário, terá sido sobretudo o Deus das concepções e dos cultos do Paganismo, sedento e faminto de sacrifícios humanos, um Deus que pode chegar a gostar de consolar na cruz os crucificados pelos privilégios dos ricos e dos poderosos, mas é incapaz de tudo fazer para os tirar da cruz e de acabar de vez com todo o tipo de cruzes e de sofrimento, a começar pelo combate às respectivas causas? Ouvi o cardeal Policarpo dizer na homilia da missa que os jornalistas que comentaram as referidas cartas de Madre Teresa não perceberam nada. E ele terá percebido? O lugar que ocupa e os privilégios de que desfruta permitem-lhe o acesso à Verdade que nos faz livres? Ou cegam-no mais do que a ninguém? Por sua vez, o Pe. João Seabra, na sua verborreia católica conservadora, falou, falou, falou e não disse uma acertada. Tudo parra, nenhuma uva! Mais parecia uma vendedeira do Mercado do Bolhão, no Porto, a tentar convencer os potenciais compradores sobre a qualidade dos seus produtos. A própria jornalista que conduzia o Jornal2 e o entrevistou a propósito estava com cara de quem não conseguia perceber nada do que ele dizia, dizia, dizia. O entusiasmo com que habitualmente fala dos seus produtos católicos tem o condão de esconder o confrangedor vazio do seu discurso e revelar o conservadorismo erudito, mas estéril, das suas ideias, da sua doutrina. Foi um péssimo momento de televisão. A jornalista ainda tentou advertir que uma Fé como a que Madre Teresa viveu com os maltrapilhos e moribundos das ruas de Calcutá, sem jamais os tirar da cruz e sobretudo sem jamais erguer uma mão contra as causas que os produzem, não é, não pode ser um caminho de vida atraente para as novas gerações. Mas ele não quis saber e prosseguiu com o seu blá-blá-blá sobre Madre Teresa, como a pessoa mais feliz do século XX! Imagine-se! E quanto à sua Fé, contou um episódio recambolesco que só confirma que era uma Fé religiosa-pagã, muito mais do que cristã jesuânica. Um dia, levou-a a visitar Fátima. De helicóptero. Quando chegaram, o espaço aéreo estava coberto por denso nevoeiro e não era fácil aterrar. O piloto queria regressar a Lisboa. Ela terá dito: Pe. Seabra, eu tenho de visitar Fátima. Confio em si para o conseguir. E não quis saber de mais nada senão rezar uma fórmula muita conhecida de oração à Virgem: "Lembrai-vos..." Repetiu essa fórmula mágica 9 vezes, juntamente com as quatro freiras que a acompanhavam. E não é que o piloto - disse, satisfeito e esmagador o Pe. Seabra - acabou por conseguir aterrar em Monte Real? No seu infantilizado dizer, isto foi mais um um de uma série de pequenos milagres que ela realizou nesse dia. A jornalista estava de boca aberta perante semelhante verborreia sem sentido e sem ciência. E terá concluído que era impossível dialogar/conversar com um católico deste calibre, tão da idade média, tão conservador, tão avesso à Ilustração, ao Evangelho libertador de Jesus e à Fé de Jesus. Deu então por concluída a entrevista. E eu que tudo ouvi, concluí, perante aquele pormenor revelado pelo meu colega Pe. João Seabra sobre a Madre Teresa de Calcutá que, efectivamente, alguma coisa esteve errada na sua Fé. O Deus dela não era, não é o Deus de Jesus. É o Deus do Paganismo que gosta de sacrifícios, exige intermediários, pois vive inacessível na sua corte celestial, e não pode ser incomodado por nós, os seres humanos.Tivesse Madre Teresa sido correctamente evangelizada e nunca a sua prática teria sido como foi. Em lugar de ter a seus pés os poderosos e os ricos que financiavam as suas obras de caridade, para que eles, entretanto, pudessem continuar incólumes a produzir mais pobres e pobreza, teria acabado como Jesus na cruz. Em lugar de beatificada e canonizada pelos cardeais da Cúria Romana, seria maldita aos seus olhos, porque teria denunciado os seus privilégios e as suas mentiras. Porque esse é o destino de quem se atreve a tirar da cruz os crucificados, não apenas a assisti-los para que morram em paz, e sobretudo se atreve a denunciar os crucificadores e os seus perversos sistemas económico-financeiros e políticos. Não fosse assim, e Jesus não teria acabado historicamente como acabou, nos antípodas da Madre Teresa de Calcutá. Acordemos! Mais idolatria, não, obrigado. Deixemos Madre Teresa em paz. E ousemos ser outros Jesus, versão século XXI! Sobretudo, prossigamos as suas causas!
2007 SETEMBRO 05
Viram a noite passada no canal 1 o filme sobre a vida/intervenção social de Madre Teresa de Calcutá, falecida há dez anos e logo pouco tempo depois beatificada por João Paulo II, o papa mais fatimista e mais milagreiro de todos os tempos? E escandalizaram-se como eu me escandalizei com aquele tipo pouco ou nada jesuânico de santidade que ela protagonizou em vida, nomeadamente, no meio daquelas fedorentas ruas e daqueles inumanos bairros de lata da grande cidade de Calcutá, na Índia? Ou, pelo contrário, gostaram muito desse tipo de santidade e desse jeito de ser mulher? Só vi a última parte do filme, mas foi o suficiente para me confirmar na impressão que sempre tive acerca do jeito pouco ou nada jesuânico que Madre Teresa teve de ser mulher, na sua assumida dimensão de cristã católica. Serei por isso das poucas pessoas que não me revejo naquele seu jeito de ser mulher. E nunca canonizaria, isto é, nunca apresentaria como exemplar para os demais seres humanos, aquele seu jeito de ser ser humano. Francamente, acho que fica a milhas de distância de Jesus, o de Nazaré. Viram, por exemplo, toda aquela cumplicidade e promiscuidade existentes entre ela e os homens fortes do sistema eclesiástico católico? Viram até onde ela foi em subserviência e em reconhecimento efectivo desse poder? Viram como ela conseguiu sempre o que quis deles, pela simples razão de que nunca se atreveu a pô-los em causa, muito menos, prescindiu deles e do poder que eles são e têm dentro do Poder global do mundo que continua aí a oprimir e a matar sem dó nem piedade os seres humanos? Ou será que somos ainda tão ingénuos que pensamos que a existência de inumanos bairros e de fedorentas ruas como os bairros e as ruas da cidade de Calcutá e de outras grandes cidades da Índia e do resto do mundo - dez anos depois da morte de Madre Teresa, ainda hoje permanecem aí, como se ela nunca lá tivesse actuado! - são mesmo uma fatalidade que havemos de suportar e de integrar como coisa natural? Ou - o que é ainda pior - pensamos que a sua existência resulta da insensibilidade e da crueldade de Deus que, embora continue a ser apresentado pelos seus crentes como infinitamente bom e todo-poderoso, a verdade é que não faz nada para alterar semelhante situação? Alguma vez viram, por exemplo, no filme e na vida real, aquela mulher enfrentar, determinada, os poderosos e desmascarar com audácia martirial os seus nefandos crimes de lesa-humanidade? Alguma vez a ouviram perguntar, perante tanta pobreza estrutural e tantos pobres em massa, tanta miséria estrutural e tantos miseráveis em massa, porque há pobres e tantos pobres, porque há miseráveis e tantos miseráveis? Ou ouviram-na perguntar quem e o quê fabricam tanta pobreza e tantos pobres, tanta miséria e tantos miseráveis? Não!, nunca viram nem ouviram, porque ela nunca o fez! Por isso os reais fabricadores de pobres e de pobreza em massa, de miseráveis e de miséria em massa, bem como os eclesiásticos que habitualmente os abençoam, são unânimes em gostar desta mulher e de mulheres e de homens do mesmo jeito, porque, depois de tudo, não só não são desmascarados, denunciados e responsabilizados pelos seus crimes estruturais de lesa-humanidade, como ainda têm a oportunidade de passarem por benfeitores perante as suas vítimas! Por mim, prefiro mil vezes o Crucificado Jesus de Nazaré à beata Madre Teresa de Calcutá. No seu tempo e país, também havia muitos leprosos e ele nunca correu a criar leprosarias para eles. Havia muitos famintos e ele nunca correu a criar padarias para lhes matar a fome. Havia muitos doentes e ele nunca correu a criar hospitais. Em vez disso, teve a inteligência e a audácia de ir à raiz do mal e de pôr a descoberto Aquilo que causava todas essas situações de inumanidade estrutural. E depois não hesitou em enfrentar os responsáveis, nos santuários e nos palácios, em que eles sempre se protegem e com que sempre se disfarçam. Ao mesmo tempo, ainda soube ser presença misericordiosa e maiêutica, de parteira, junto das vítimas para que elas abrissem os olhos e os ouvidos, soltassem as línguas, se levantassem sobre os próprios pés e utilizassem as próprias mãos, expulsassem de si a ideologia e a religião dos poderosos que os mantinham oprimidos e no Medo e se assumissem como protagonistas das suas próprias vidas e da vida do mundo. Obviamente, em lugar de o canonizarem, como fizeram a correr com Madre Teresa de Calcutá, mataram-no na Cruz como o maldito dos malditos, para que nunca mais ninguém queira ir pela via libertadora e salvadora que ele abriu e percorreu até ao fim e em que se constituiu para todo o sempre. E não é que conseguiram o seu desígnio? Não é que até a generalidade dos ateus hoje acha que Jesus está ultrapassado e que a sua via não interessa a ninguém? Não é que quase toda a gente prefere pessoas como Madre Teresa de Calcutá, a Jesus de Nazaré? Mas a mim jamais eles me ganharão para as suas fileiras, nem para as suas cadeiras de poder e de privilégio. Porque só Jesus, que eles mataram, anda carregado de Futuro, uma vez que foi, é o único que, no seu corpo e na sua prática histórica, levou a Humanidade até ao limite e até para lá do limite. Por isso, ou vamos lúcida e corajosamente por ele e pelo caminho que ele é, ou continuaremos ingenuamente, como Madre Teresa de Calcutá, a fazer o jogo do Poder que é mentiroso, pai de mentira e assassino desde o princípio. Mas então não nos queixemos. Nem tentemos justificar com pseudo-filosofias o ateísmo pragmático que seguimos, porque.afinal, o Deus que negamos, bem vistas as coisas, não passa de um ídolo! Alerta!
2007 SETEMBRO 04
Como pode a nossa Igreja católica garantir que celebra os sacramentos, nomeadamente, os mais frequentes, como são a Eucaristia, o Baptismo, a Confirmação ou Crisma e o Matrimónio, se os presbíteros e bispos que a eles presidem se limitam, na hora, a abrir o missal e o ritual e a ler o que lá está escrito, sempre os mesmos dizeres e os mesmos fazeres, sejam quais forem as circunstâncias de espaço e de tempo e as pessoas intervenientes no acontecimento? Pode haver sacramento, sem que se dê real oportunidade ao Espírito Santo de actuar na consciência das pessoas? E pode dizer-se que o Espírito Santo está presente e actuante, quando os ministros da Igreja se limitam a pronunciar correctamente as palavras escritas no Ritual ou no Missal, sempre as mesmas, e a fazer os actos rituais lá prescritos, sempre os mesmos? Aquele Espírito que faz novas todas as coisas pode ser o mesmo que, durante anos e anos e em todas as partes do mundo, se limita a reproduzir palavras ritualizadas, sempre as mesmas, e a reproduzir gestos ritualizados, sempre os mesmos? Alguém, com um mínimo de inteligência e de bom senso, pode dizer que essas são palavras inspiradas/suscitadas, esses são gestos soprados/suscitados pelo Espírito de Jesus? Mesmo que o ministro - presbítero ou bispo - que preside ao acto esteja a fazê-lo com a recta intenção de fazer o que faz a Igreja (e não o faça apenas de modo puramente mecanizado como há-de suceder a maior parte das vezes aos domingos com a Missa, por exemplo, quando o pároco tem de repetir tudo três, quatro ou mais vezes, no decurso de uma manhã, em outras tantas paróquias confiadas à sua jurisdição canónica), quem, ainda aí, pode garantir que houve sacramento? Pelos frutos se conhece a árvore. Também se houve sacramento, ou se apenas sucedeu a execução de um rito litúrgico. A execução de um rito litúrgico serve para sossegar as consciências de pessoas e populações (de)formadas no medo do Divino e no respeito pela lei canónica. Quem, por exemplo, continua a pensar que ao domingo tem de ir à missa, porque assim está determinado pela Igreja e que, consequentemente, comete pecado mortal, se não cumprir este preceito da Igreja, obviamente, jamais experimentará na vida o Sacramento da Eucaristia, apenas o rito eucarístico. Pode ir à Missa, ou presidir a ela, todos os domingos da sua vida, que a sua vida de Fé nunca passará do infantil e do medíocre, do rotineiro e do medo. Conhecerá apenas o rito litúrgico, nunca o Espírito Santo. Quando regressa a casa, depois de tudo escrupulosamente cumprido, pode experimentar-se interiormente aliviado. É o bem-estar do dever cumprido, não o bem-estar da sua realização humana. É um bem-estar semelhante ao daquela pessoa que faz uma promessa a uma nossa senhora qualquer, das muitas nossas senhoras que existem por aí espalhadas em tudo quanto é santuário pagão católico. Quando consegue satisfazer a promessa, por mais duro e violento que tenha sido o seu cumprimento, experimenta um bem-estar fora do comum. Engana-se, porém, quem pensar que semelhante sensação de bem-estar vem do Espírito Santo. Não vem! Vem apenas do dever cumprido. Não resulta de ter havido uma alteração qualitativa na sua consciência e na sua vida de mulher ou de homem. Bastará observar-se que semelhante experiência, em lugar de fazer sair a pessoa em casa do infantil e do medíocre, do medo do Divino e do rotineiro, confirma-a ainda mais no infantil e no medíocre, no medo e no rotineiro. Ora, quando há sacramento, há também Acção do Espírito Santo e a pessoa por quem o Espírito Santo passou nasce efectivamente de novo, do alto, torna-se progressivamente autónoma, criadora, livre, responsável, alegre, sororal, solidária. Até acabar, como Jesus, a viver longe dos templos e dos altares, dos sacerdotes e dos ritos que lá se fazem, de todas aquelas rotinas que lá se executam, e dos medos do Divino que lá se alimentam. E pensar que basta apenas um sacramento a valer para nascermos do Alto! Quando ele acontece nas nossas vidas, iniciamos de imediato um imparável processo de libertação para a liberdade que não tem mais regresso. Perceberemos então que o Templo vivo somos nós, que Deus habita em nós e connosco, que é mais íntimo a nós do que nós próprios e que o Universo é a nossa casa comum que nos está confiada, para cuidarmos responsavelmente dele como de nós próprios.
2007 SETEMBRO 03
Ana e Vítor, cristãos adultos que felizmente vivem já a sua Fé jesuânica longe dos templos e dos altares, convidaram-me a estar presente, como presbítero da Igreja do Porto, no Sacramento do Matrimónio que ambos realizaram ao final da tarde e pela noite dentro, do passado sábado, 1 de Setembro 2007, na conhecida Casa de Chá Boa Nova, em Leça da Palmeira, mesmo juntinho ao mar. A experiência foi inesquecível e única. Irrepetível. Não ficou registada em nenhum livro paroquial. Apenas no livro da consciência dos nubentes, dos respectivos pais e mães e de quantas, quantos, amigos e familiares tivemos a graça de poder estar presentes. Eles próprios, Ana e Vítor, presidiram ao sacramento, comigo sentado, feliz e realizado, ao seu lado, na mesma mesa onde depois seria servido o jantar. Os cerca de 40 convidados ocupavam igualmente as restantes mesas, todas redondas como a dos nubentes e respectivos pais e mães, distribuídas pelo espaço. A culminar o sacramento, já com Ana e Vítor sentados lado a lado, como uma só carne, foi a vez de eu me levantar da mesa e realizar in persona Christi e sob a inspiração do seu Espírito, a Acção Eucarística de Partir o Pão e o Vinho, feita de palavras e de gestos jesuânicos, também elas e eles únicos e irrepetíveis, como só o Espírito Santo é capaz de inspirar e realizar, quando ousamos dispensar os ritos e consentimos que Ele seja Espírito em nós e connosco. Os funcionários do restaurante que iriam depois servir-nos o jantar, também foram convidados a estar presentes e, na hora, aceitaram, com visível alegria, o pedido dos nubentes, e serviram com naturalidade pelos presentes o Pão e o Vinho acabados de Partir. Todos comemos e bebemos, enquanto escutávamos a vibrante voz de uma amiga dos nubentes que cantou expressamente para nós naquele momento, como, de resto, já o havia feito, logo a abrir a celebração. Foi uma experiência única, irrepetível. Geradora de autonomias e de maioridades humanas, que para isso é, há-de ser, a Fé cristã jesuânica. De momento, partilho aqui o Evangelho que me foi pedido que escrevesse antecipadamente e que proclamei ao vivo, no decurso da celebração do Sacramento do Matrimónio. Chamei-lhe por isso EVANGELHO DE ANA E DE VÍTOR. Eis:
Hoje, no decurso da evolução do 6.º dia da semana cósmica, iniciada há uns 15 mil milhões de anos com o big-bang, e quando, à frente do planeta Terra, G. W. Bush prossegue no seu 2.º mandato como presidente do Império de turno, o papa Bento XVI está no terceiro ano do seu pontificado em Roma, o português Durão Barroso é o presidente da Comissão Europeia, José Sócrates é o primeiro ministro de Portugal e por inerência o presidente em exercício da União Europeia, Cavaco Silva é o presidente da República de Portugal e Manuel Clemente é o Bispo residencial da diocese do Porto, realizou-se – está a realizar-se – numa casa de chá de Leça da Palmeira, nas proximidades da cidade do Porto, o casamento-sacramento de Ana e de Vítor.
Neste casamento-sacramento, símbolo maior da Aliança entre Deus Vivo e a Humanidade acabada de chegar à maioridade, já não estiveram presentes, nem a mãe de Jesus, em representação dos antepassados dele segundo a carne, uma vez que Jesus é, desde a sua Ressurreição, o definitivamente vivo e, por isso, património de todos os povos, não apenas de um povo que dele se reivindique, muito menos das Igrejas entretanto congregadas em seu nome; nem as seis talhas de pedra vazias de água, símbolo de todas as prescrições e tradições religiosas, criadas pelos seres humanos ao longo dos séculos, numa falhada tentativa de, por essa via totalmente estranha à prática quotidiana da Justiça e do Amor-Misericórdia, conseguirem o acesso directo a Deus e aos seus favores; nem tão pouco o chefe de mesa, em representação de todos os que ainda insistem em ter-se na conta de dirigentes dos povos e das nações do mundo.
Neste casamento-sacramento estão apenas presentes, como protagonistas, os noivos Ana e Vítor, os quais, para lá dos seus familiares e amigos mais chegados, fazem questão de se apresentar acompanhados por Jesus, o de Nazaré, a quem ambos convidaram para passar a viver de modo permanente nas suas vidas, numa relação de plena intimidade que os fará ser Humanidade progressivamente ateia de todos os deuses e deusas que se alimentam de gente e, ao mesmo tempo, misteriosamente habitada/embriagada por aquele mesmo Espírito de Deus Vivo – o Vinho novo do Amor – que historicamente o habitou/embriagou a ele e que, desde então para cá, naquelas/naqueles de nós em quem historicamente consegue actuar com regularidade, faz com que sempre nos tornemos mulheres/homens para os demais, por isso, bem autónomos e senhores do Universo, capazes de cuidarmos responsavelmente de todos os demais seres vivos, assim como da nossa casa comum que é o planeta Terra.
Com este casamento-sacramento, símbolo maior da Aliança entre Deus Vivo e a Humanidade, acabada de chegar à maioridade, todas as coisas velhas, ao jeito de pedagogo, próprias do longo período infantil por que a Humanidade antes teve de passar, deixam de ter, daqui em diante, qualquer significado e qualquer valor para nós, os seres humanos. É por isso que progressivamente deixará de haver na Terra templos e altares, sacerdotes e cultos religiosos, pastores dizimistas e Igrejas sem profecia, multinacionais que tudo devoram e economias sem entranhas de humanidade, e até o Império que habilmente tudo tem fomentado e patrocinado acabará também por desaparecer, à medida que todos e cada um de nós, indivíduos e povos, alcançarmos a maioridade, aqui Hoje sacramentalmente já conseguida/realizada nas pessoas de Ana e de Vítor. Prova disso é que ambos, ela e ele, deixaram o respectivo pai e a respectiva mãe, para se unirem na realização de um Projecto libertador e salvador da Humanidade e do mundo, isto é, promotor da autonomia e da maioridade dos seres humanos e do mundo, exactamente o mesmo Projecto de Jesus que ambos decidiram fazer seu, e que à medida que é actualizado/prosseguido por eles faz de ambos uma só carne.
É por isso que todas, todos nós que temos o privilégio e a responsabilidade de testemunhar ao vivo este Acontecimento cheio de Graça e de Verdade, não podemos deixar de cantar/dançar este Hoje que o Amor fez, como o Hoje da Humanidade definitivamente liberta do Medo e constituída na maioridade plenamente sororal e solidária, com Deus Vivo tão misteriosamente presente e activo dentro dela, que acabará por fazer dela a única protagonista da História, como se Ele não existisse!
2007 SETEMBRO 01
Partilho aqui extractos de uma carta que ontem enviei a jovem de 17 anos, de quem sou amigo, quase desde que nasceu e que me escreveu a dizer que está a preparar-se para receber o baptismo numa dessas novas Igrejas ditas evangélicas, propriedade de pastores brasileiros com muito de actor (perdoem-me os competentes e sérios actores profissionais esta comparação de todo ofensiva, mas involuntária da minha parte) e, sobretudo, com muito faro para descobrirem onde há dinheiro que eles possam atrair/arrebatar para os seus cofres privados. Faço-o, porque o que escrevi a este meu jovem amigo pode ser também muito útil a outras pessoas que já passaram por uma tentação semelhante, ou venham porventura ainda a passar, nestes nossos dias que têm muito de Babel e que, por isso, carecem com urgência de quem teologicamente os ilumine. Porque, quando calha de ser acordado e de entrar em actividade Aquilo que há de Tentador mais ou menos adormecido em todos nós, os seres humanos, não costuma depois, infelizmente, olhar a meios até conseguir arrebatar-nos a consciência crítica e a liberdade pessoal e, com elas, a nossa dignidade. Ora, hoje é manifesto que isso que há de Tentador em nós veste também a roupa de Igrejas ditas evangélicas e de pastores-com-muita-lábia-e-nenhuns-escrúpulos. Já não veste apenas nem sobretudo a roupa de senhora de Fátima. Alerta, pois. E escutemos/meditemos estas palavras. Como quem as mastiga/assimila. Sem pressas:
Dizes-me que te vais baptizar numa dessas igrejas dos pastores. Não me alegro. Choro por ti. Isso significa que estás a deixar-te assustar/seduzir/arrastar pelos discursos dos pastores. Infelizmente, na idade em que estás, ainda não tens capacidade para perceber que eles são profissionais da mentira e fazem dela a sua principal arma, ao contrário de Jesus, o do Evangelho de João, que não se cansa de nos repetir: “Amai a Verdade, que a Verdade vos fará livres", portanto, autónomos, sem necessidade sequer de pastores como os dessas Igrejas. Deixa que te diga, meu querido amigo: Se te baptizas numa dessas igrejas dos pastores, cometes pecado, isto é, atentas contra a tua própria dignidade humana e de cidadão livre e contra a dignidade do santo Nome de Deus. Então, ainda não deu para veres que o Deus dessas igrejas dos pastores é mentiroso e assassino, pai de mentira e explorador dos pobres? Deles, já escrevi há anos, que são como vampiros que sugam o sangue à multidão, que comem tudo e não deixam nada. Desgraçada, por isso, a casa, a família, onde eles entram para ficar. Limpam tudo, não só a carteira e a conta bancária, mas também a dignidade das pessoas. Fazem delas gato-sapato. E não olham a meios para alcançarem os seus objectivos. E tudo, é claro, em nome de Jesus! E de Deus!... Só que o Jesus deles e o Deus deles é o dinheiro! A sua arma principal é o Medo que incutem nas pessoas. E a Mentira que utilizam nos seus discursos. O Jesus de que falam é concebido por eles e pelos seus perversos interesses, não pelo Espírito Santo, como o Jesus, filho de Maria. É um Jesus à medida dos seus desmedidos interesses financeiros e de domínio sobre as consciências das pessoas. Pobre de ti, meu querido amigo, se caíres nas suas garras. Poderás alguma vez voltar a libertar-te? Tanto pior, se nunca mais conseguires libertar-te. Porque então melhor seria que nunca tivesses nascido. Sou eu quem to diz. Com lágrimas no coração. Foge desses pastores. Resiste-lhes. Sê valente. Manda-os pentear macacos. E às suas aldrabices. Deus, o de Jesus, não é um comerciante. E as igrejas que se reúnem em seu nome não são bancos, muito menos, covis de ladrões. Ouve-me, meu amigo: Quem invoca o nome de Jesus e não se faz pobre, pelo contrário, enriquece e enriquece a sua igreja é um mentiroso e um assassino dos pobres que se deixarem levar pelas suas falas e pelos seus discursos ameaçadores e terroristas. Resiste-lhes, até ao sangue, se for preciso. E serás um homem. Cuidado, meu amigo,com esses pastores e com essas Igrejas dos pastores. Eles vestem de pastores e de igreja, mas são mercenários, pior, lobos rapaces, devoradores. O Deus de que falam não é o de Jesus. É um ladrão e um assassino. Rouba-nos tudo, até a autonomia, a liberdade, a consciência crítica, a iniciativa. Deixa-nos na dependência dos pastores que falam em seu nome e que, assim, engordam à custa das suas inúmeras vítimas, à nossa custa, se formos pelas suas falas. Sabe que o Deus de Jesus, querido amigo, não é milagreiro, não nos cura das doenças, não substitui o nosso esforço, nem o esforço dos médicos e dos cientistas. Pelo contrário, incita-nos a estudar, a desenvolver-nos, a crescer, a intervir, a dar o melhor de nós próprios para melhorarmos o mundo e a vida das populações e dos povos. Não faz as coisas por nós, como gostam de fazer a caridadezinha e o assistencialismo dos ricos e dos poderosos. Nem faz as coisas em nosso lugar. Faz-nos fazer. Quer que todas, todos sejamos tão criadores quanto Ele e que O aceitemos dentro de nós, como Presença e como Espírito/Força maiêutica que nos potencia e nos faz SER. E também quer,evidentemente, que amemos os outros quanto Ele. É, por isso, um Deus que gosta de diminuir diante de nós e diante do mundo, para que nós cresçamos diante dEle e diante do mundo. Não intervém, estimula-nos a intervir. E, sobretudo, meu querido amigo, é um Deus que não precisa de pastores nem tão pouco de clérigos, nem sequer de igrejas e de Religiões. Apenas quis precisar de todos e de cada um de nós, seus filhos, suas filhas, como seus cooperadores no mundo e na História. Numa palavra, é um Deus que nos quer ver crescer em capacidade e em intervenção política e social, como aconteceu, de forma exemplar e plena, com Jesus, o de Nazaré.
Deixo-te com o meu afecto e a minha paz.
2007 AGOSTO 31
Poucas pessoas hoje, mesmo entre as pessoas cristãs e católicas, inclusive entre os clérigos da nossa Igreja católica e os pastores das Igrejas ditas evangélicas, mostram estar dispostas a fazer sua a inequívoca afirmação que S. Paulo faz, numa das cartas que endereçou aos coríntios: "Não quero o vosso dinheiro, mas a vós". E menos pessoas ainda serão capazes de agir como ele. É sabido que, para poder dedicar-se inteiramente de graça à causa do Evangelho da libertação para a liberdade, Paulo fez questão de trabalhar como artesão, de modo a não ficar pesado a ninguém. Na mesma linha, e como quem parece querer justificar a afirmação/postura anterior do apóstolo, a Primeira Carta a Timóteo adverte solenemente o discípulo a quem se dirige, para que não se deixe seduzir pelo dinheiro. E avança este argumento de peso: Porque "a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro". Por sua vez, Jesus ainda hoje continua a surpreender e a escandalizar tudo e todos, ao afirmar, sem que a voz lhe trema: "Ninguém pode servir a dois senhores; não podeis servir a Deus e ao Dinheiro". E, noutra ocasião, não hesita em ser mais concreto e diz taxativamente aos discípulos: "É mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha, do que um rico integrar a sociedade alternativa que o próprio Deus está aí empenhado em edificar na História, constituída na Partilha dos bens e na sororidade/fraternidade universal". Hoje, pelo contrário, é frequente ouvir da boca de crentes e de ateus: "Ninguém pode viver sem dinheiro". E da boca de nenhuns, ou de quase nenhuns se ouve dizer: "Ninguém pode viver sem as outras pessoas". E não é que até o pai do existencialismo francês chega a escrever/afirmar convictamente, "o inferno são os outros"? De resto, estamos num tempo em que já são muitas, muitos os que preferem adoptar um cão ou um gato, em lugar de uma ou de duas crianças das inúmeras a quem inesperadamente faltou o competente acompanhamento dos pais biológicos. E que dizer dos párocos católicos que cobram dinheiro por todos os serviços religiosos que prestam aos poucos fiéis que ainda frequentam os templos, inclusive por ocasião da morte de familiares deles e das rotineiras missas a que diariamente presidem? E que dizer também dos pastores das Igrejas protestantes que exigem dízimos, alguns bem chorudos, a todos aqueles ex-católicos que, nos seus medos e nas suas angústias, acabaram prisioneiros das suas demoníacas garras? Só um contexto mental e ideológico assim tão depravado pode favorecer o desenvolvimento do culto idolátrico do Dinheiro, hoje totalmente generalizado no planeta, e que, como sabemos, está na génese do aparecimento de verdadeiros monstros humanos, como são todos aqueles homens, todas aquelas mulheres que cada vez mais colocam o amor ao dinheiro acima do amor às pessoas. Ao contrário de S. Paulo, são pessoas assim que dizem à boca cheia, inclusive aos seus familiares mais próximos: Quero apenas o vosso dinheiro, não a vós! Chega até a parecer que, em lugar de sangue a correr-lhes nas veias e nas artérias, o que hoje mais corre nas veias e artérias das pessoas é dinheiro. Aliás, só mesmo mulheres e homens monstros, em cujas veias e artérias circula dinheiro/idolatria, em lugar de sangue/vida partilhada, é que estão aí sempre prontos a justificar e a defender uma Ordem Económica e Financeira Mundial intrinsecamente perversa e assassina, como é a nossa actual Ordem Mundial do Dinheiro e do Mercado Total. Felizmente, nunca me deixei seduzir pelo dinheiro, nem mesmo quando era mais novo. Tive a graça de nascer de mãe pobre e de pai pobre. De crescer pobre. E de, já homem feito e ordenado presbítero da Igreja do Porto, escolher com alegria e entusiasmo ser pobre por toda a vida. Diz-me o Espírito de Jesus, o Despojado de tudo, até da própria vida, que são os pobres, não os ricos, quem salvará o mundo. E que só na Pobreza compartilhada chegaremos a SER verdadeiramente. Isto não me impede, obviamente, de também recorrer ao dinheiro. Mas apenas como instrumento, nunca como alimento. Apenas como o meu escravo, nunca como o meu Senhor, ou o meu Dono, ou o meu Deus. E ainda e sempre para melhor poder estar com as pessoas, para as servir e amar. Nunca para as dispensar. É por isso que até o pouco dinheiro que me sobra da reforma de jornalista que recebo mensalmente (da Diocese do Porto não recebo nada, pois faço questão de ser padre de graça) ainda é para partilhar com pessoas que conheço e acompanho e com certas causas, nomeadamente da Cultura. Sem esquecer, evidentemente, a construção do Barracão de Cultura, da Associação As Formigas de Macieira. Rumo a uma Nova Ordem Económica Mundial.
2007 AGOSTO 30
"Ladrões e salteadores" é como Jesus, o do Evangelho de João, classifica todos os líderes e todas as elites ilustradas dos povos que vieram antes dele, isto é, que vivem e actuam na História segundo um espírito ou sopro nos antípodas do Espírito fecundamente libertador que o habita a ele e o faz ser despertador e promotor de autonomias e de soberanias em comunhão. Acrescenta ainda Jesus uma coisa bem mais terrível: Todos esses líderes e elites ilustradas vivem e actuam na História "para roubar, matar e destruir" as populações e os povos. Deixam-me francamente desconcertado estas palavras de Jesus. De ninguém mais, desde que o mundo é mundo, ouvi alguma vez semelhante revelação. Mas ainda mais do que esta revelação, deixa-me desconcertado o quotidiano comportamento da generalidade dos líderes e das elites ilustradas dos povos. Como sabemos, todos gostam de se apresentar vestidos de salvadores dos povos, quando na verdade são os seus principais verdugos. Por isso, se eu quiser chegar a Ser, tenho de aprender a viver sem semelhantes líderes e elites ilustradas. Fundamental também é que aprenda a defender-me todos os dias da perversa ideologia que os habita e que eles e elas cospem como víboras venenosas, sempre que discursam e actuam. Melhor fora para as populações e os povos que não existissem. Gostam de se fazer passar por benfeitores, mas são lobos. O Poder que os pariu, a eles e a elas, e que os mantém como seus prisioneiros de luxo utiliza-os sem cessar para melhor chegar a levar a água ao seu moinho. Um moinho que trabalha dia e noite para alienar, oprimir, subjugar, infantilizar, domesticar, reduzir à condição de coisa as populações e os povos. Porque o Poder é intrinsecamente incapaz de conviver com mulheres/homens livres, autónomos, soberanos, sujeitos, protagonistas, senhores dos próprios destinos. Se me deixo tocar por ele, ou cedo a algum dos seus sedutores convites, logo me meto dentro das suas fauces de lobo e verei o meu Ser completamente devorado. Terei regalias e usufruirei de privilégios, mas, por mais anos que viva, nunca mais chegarei a ser mulher/homem com a Resistência, a Dissidência, a Insubmissão e a Subversão no corpo. Felizmente, sempre recusei ir por aí. O preço que pago é muito alto, mas não tenho alternativa, se quiser continuar a Ser. E Ser é o que mais quero. Não estranhem, então, se me virem por aí a chorar inconsolável. Saibam que choro por ver que o grosso dos intelectuais do meu país trocou a fecunda e salutar mesa da Resistência, da Dissidência, da Insubmissão e da Subversão pela estéril e sinistra mesa dos Privilégios.
2007 AGOSTO 29
De nada me adianta ganhar o mundo inteiro, se não chegar a encontrar a minha própria identidade, nem chegar a abrir e a percorrer o meu próprio caminho. Sei de muitas pessoas que passam na vida como canas agitadas pelo vento, na demente tentativa de agradarem Àquilo que poderá garantir-lhes, e aos seus, sucessivos pratos de lentilhas. Prefiro ser Rio que dia e noite me alimento de poemas e fecundo a História com aquela indomesticada Força que me vem do Mar que me atrai para ele, e onde misteriosamente acabarei por encontrar a minha plena Realização Humana. O muito Ter impedir-me-ia de Ser e de Voar. E ainda acabaria por me roubar a irrepetível Originalidade que estou chamado a ser na História.