DIÁRIO ABERTO
2006 SETEMBRO 27
Enganam-se se ainda pensam que está
a chegar ao fim todo o ódio teológico com
que a generalidade dos muçulmanos e seus
líderes reagiu aos dizeres do papa sobre
o Islão no decorrer do discurso que proferiu
numa universidade da Alemanha. Tanto ódio
junto só se sacia com o sangue de inocentes.
Já foi assim com Jesus o de Nazaré. Os líderes
do povo judeu acumularam tanto ódio contra
ele que a sua execução na cruz sob o poder de
Põncio Pilatos tornou-se irreversível. O mal
está em criarmos entranhas geradoras de ódio
quando elas nos foram dadas para gerarmos
amor a todos os seres inclusive aos inimigos.
As palavras do papa foram ofensivas para
os crentes muçulmanos? Todos à uma dizem
que sim. E por isso saíram às ruas a gritar
vingança contra ele. Da frieza de um raciocínio
papal sobre o Islão feito no ambiente duma
universidade saltou-se para as labaredas do
incontrolável ódio nas ruas. Em nome de Alá.
Não posso crer num Deus que dá cobertura
a manifestações de ódio como estas. Contra
as ofensas que me façam só posso responder
com igual ou maior perdão. Uma fé incapaz
de tamanha humanidade para que serve? Se
a fé em Deus não é geradora de mulheres e
homens desta têmpera ainda é digna de nós?
Entre fé e fanatismo há um abismo que não
podemos atravessar. Se não é para me fazer
mais humano entre os seres humanos então
para que hei-de eu abrir-me à Fé em Deus?
Com a Fé chego a dar a vida pelo povo. E com
o fanatismo chego a tirar a vida ao povo. Pela
Fé é que vou. Para ser plenamente humano.
Se não sou capaz de distinguir entre Fé e
fanatismo de nada vale dizer-me cristão ou
islâmico. A fé em Deus sempre se manifesta
em práticas quotidianas de amor ao próximo
quem quer que ele seja e qualquer que seja
a sua etnia ou nação. A Fé que se fica pelas
fórmulas dos Credos é geradora de monstros.
É com Jesus o de Nazaré que aprendo a ser
homem ao seu jeito todos os dias. Os templos
donde saí faziam de mim um fanático contra
os de fora até que percebi com Jesus que os
de fora são irmãos de quem me devo fazer
próximo para crescer em humanidade e em
paz. E dar corpo à única Família humana.
É no seio desta única família humana que
quero viver todos os dias da minha vida. Sem
consentir que nenhum fanatismo me converta
em Caim para qualquer dos meus irmãos do
planeta. E se os fanatismos que actuam pelo
ódio insistirem em falar mais alto que a Fé que
actua pelo amor só posso chorar inconsolável.
2006 SETEMBRO 22
Há já uns dois meses que foi posto a circular e à venda um livro editado pela Aletheia Editores, com o título O Padre Américo e a Obra da Rua. Para surpresa minha, também fui convidado pelo responsável da edição, a escrever o meu testemunho pessoal sobre o Pe. Américo. Aceitei de imediato e escrevi dentro dos prazos que me eram sugeridos. E o testemunho lá está no livro, entre muitos outros. Como uma pedrada no charco do politicamente correcto em que hoje vive a maior parte das nossas cabeças pensantes. É esse testemunho que agora divulgo aqui neste meu Diário Aberto. Com alegria. Leiam-no como quem o mastiga. E se deixa interpelar até à raiz dos cabelos.
Ainda não te merecemos, nosso querido Padre Américo!
Cinquenta anos depois da morte do nosso querido padre Américo, apetece-me ser politicamente incorrecto e perguntar: Mas então a Obra da Rua, com a sua Casa do Gaiato e o Calvário, mai-las outras casas que entretanto se abriram noutros pontos do país e até em África, concretamente, em Angola e Moçambique, ainda não foi extinta, por desnecessária? Continuamos a consentir que até no Portugal de Abril e no mundo das grandes catedrais do consumo, inclusive, no Continente que tem o subsolo mais rico, a África, haja crianças desprotegidas e abandonadas pela família, e doentes pobres acamados e terminais sem familiares e vizinhos que os acompanhem com humanidade e amem como ao próprio Deus, durante aqueles que são os seus últimos dias de vida entre nós e connosco? Mas então, nem com aquele violento soco no estômago e na cabeça, que foi para todas, todos nós a vida militante e andarilha do nosso querido Padre Américo, fomos capazes de acordar de vez e de pôr fim ao sofrimento das crianças abandonadas pelas próprias mães, pelos próprios pais, e de assumir com humanidade e amor sororal/fraternal os doentes pobres incuráveis e terminais que vivem paredes meias connosco? Temos o desplante de, em vez disso, continuar a produzir ainda mais pobreza, mais pobres e mais crianças pobres e abandonadas na rua ao deus-dará? Temos o desplante de continuar a não querer saber dos doentes pobres incuráveis e terminais que vivem paredes meias connosco? Temos o desplante de continuar a despejar todos os dias crianças abandonadas na Casa do Gaiato e nas outras casas da Obra da Rua? E doentes pobres acamados e terminais no Calvário do já crucificado Pe. Baptista? Será que não somos humanos? Será que continuamos na pré-História? Mas então que fizemos da Memória subversiva e perigosa do nosso querido Padre Américo? Ainda não percebemos que a sua Obra da Rua – um grito e um gesto proféticos na prolongada noite do fascismo – não era para ser perpetuada no tempo e no espaço, e muito menos para ser exportada para outras partes do mundo? Ainda não percebemos que perpetuar indefinidamente a Obra da Rua é um incentivo mais à continuidade do crime mais hediondo no planeta, como é o crime de produzir pobreza e pobres em massa, e abandonar ao deus-dará crianças que nascem para crescer em idade, estatura, sabedoria e graça, tal como paradigmaticamente se diz de Jesus de Nazaré, quando foi menino? Ou achamos que, agora, que existe a Obra da Rua, com as suas casas e os seus Padres, podemos continuar ainda mais à vontade a produzir pobreza e pobres e crianças abandonadas e ao deus-dará, e doentes pobres acamados incuráveis e terminais, até para que tão prestigiada instituição não corra o risco de ter que fechar as portas, por falta de utentes? Não percebemos que a Memória subversiva e perigosa do Padre Américo exige que trabalhemos com afinco, coração e cabeça, para que a Obra da Rua que ele inspirou e criou e dirigiu até perder a vida num estúpido acidente de viação, deixe de ser necessária quanto antes? A esta distância, cinquenta anos depois da sua morte, não era mais do que tempo de a Obra da Rua ser oficialmente extinta, por ter deixado de ser necessária? Não seria esta a melhor forma de honrarmos a Memória do nosso querido Padre Américo? Ou, na crueldade do nosso egoísmo e da nossa preguiça, também da nossa preguiça política, achamos que é bom que haja pobres, para que os ricos que os fabricam lhes possam dar esmolas e venham a ser aclamados na praça pública como benfeitores? Ou somos daquelas, daqueles que acham que a existência de pobres em massa e de crianças abandonadas ao deus-dará é uma fatalidade da Natureza, senão mesmo um fruto da vontade de Deus? Ou que acham que a humilhante e degradante Caridadezinha é o mesmo que Caridade-Agapê, Amor-Comunhão-e-Partilha, ou o mesmo que Justiça, exactamente, tudo nomes outros do Deus Vivo? Ou que acham que um bom Governo do país é aquele que cria rendimentos mínimos garantidos para as famílias pobres, e, com isso, já se pode sentir dispensado de praticar economias de comunhão e de partilha e políticas de promoção e de desenvolvimento integral das populações, de modo que elas, num futuro próximo, possam muito bem dispensá-lo a ele, aos seus ministros e respectivos ministérios, juntamente com os seus muitos milhares de funcionários, devoradores, no seu conjunto, de grande parte da riqueza do país?
Nosso querido Padre Américo: Tinha eu 18 anos de idade e era estudante no Seminário de Vilar, Porto, quando aquele estúpido acidente de viação que te tirou a vida, haveria de marcar, de forma indelével, a minha consciência de futuro presbítero da Igreja do Porto. Sinal inequívoco de que o Deus Vivo que tu, um dia, viste como o Invisível, na tua Estrada de Damasco, também te ressuscitou nesse mesmo instante. Desde então para cá, nunca mais deixaste, na tua condição de ressuscitado, de nos gritar/pedir que ousemos criar e praticar Economias de Comunhão e de Partilha e Políticas de serviço maiêutico que façam de todas, todos nós sujeitos e protagonistas, nunca mais objectos nem assistidos. Infelizmente, teimamos em manter fechados os nossos ouvidos à Verdade. Preferimos mantê-los abertos às fábulas, hoje, servidas sob a forma de pacotes e pacotes de novelas de televisão. E à Mentira com que, de modo científico, todos os dias nos oprimem, estupidificam e matam. Preferimos igualmente continuar a correr para Fátima e para a sua mítica deusa ou senhora, cujo santuário, como um monstro sagrado, tem medrado a olhos vistos, com o dinheiro/sangue dos escravos-pagadores de promessas, enquanto que as crédulas populações que para lá correm, empobrecem e adoecem a olhos vistos.
É por isso que hoje, cinquenta anos depois da tua Morte/Ressurreição, tenho de reconhecer, com tristeza, que ainda te não merecemos, como país. Mesmo assim, sei que continuarás aí, como Sopro vivificador, no Sopro de Deus Vivo, a puxar por nós sem descanso. Para que numa manhã qualquer, ousemos sair/passar deste quotidiano de alienação e de Mentira, para um outro de comunhão e de Partilha de vida e de bens. Onde não haja mais lugar para casas, como a Casa do Gaiato, que tu criaste, mas com o intuito de, com ela, nos levares a acabar de vez com a existência de crianças abandonadas e ao deus-dará, nunca para que viéssemos a perpetuá-la no tempo, menos ainda para que fizéssemos dela uma referência, um exemplo.
Eis porque te amo tanto, meu querido Irmão! E porque, no meu viver presbiteral longe dos templos e dos altares, te tenho como uma luz, na plenitude da Luz que é Jesus, o Cristo de Nazaré.
Macieira da Lixa, Setembro 2005
2006 SETEMBRO 18
Temo bem que certos líderes muçulmanos fanáticos ainda venham a fazer do mais que inábil papa Bento XVI um mártir desta esclerosa Igreja católica romana que hoje temos. O que, diga-se de passagem, a acontecer, consubstanciaria uma vergonha para todos os povos do mundo. Infelizmente, é o que, no mínimo, podem acabar por conseguir a intolerância e o ódio assassino com que um significativo número desses líderes muçulmanos continua aí a reagir ao despretensioso discurso, em forma de aula (olhem que nem sequer foi uma encíclica, senhoras, senhores!), que o papa proferiu na Alemanha, durante a sua recente visita àquele país, que é simultaneamente a sua pátria/mátria.
Por mim, tenho de reconhecer que as palavras do papa, desta vez, até foram objectivamente sensatas e necessárias. Saúdo o seu acerto, porventura, meramente casual, senão mesmo involuntário, mas, ainda assim, acerto. Porém, já tenho a lamentar que o mesmo papa, perante a mais que previsível e intempestiva reacção de certos líderes muçulmanos às suas palavras, apareça agora a meter os pés pelas mãos, em lugar de, com humildade e também com firmeza, aproveitar o momento para apelar à lucidez e à coragem de todos os muçulmanos, de todos os católicos e de todos os judeus, bem como de todos os demais homens/mulheres de boa vontade do nosso mundo, para, em conjunto, nos vermos ao espelho do que estão a ser, hoje, as nossas perversas e terroristas práticas económico-financeiras e políticas, tanto no Ocidente como no Oriente, tanto no Norte como no Sul, as quais deixam na miséria ou à beira dela cerca de cinco das seis partes que perfazem hoje o total da população mundial, estimada em mais de seis mil milhões de pessoas.
Não vale correr a meter o rabo entre as pernas e desperdiçar assim este Momento de graça ou kairos, depois de efectivamente se ter acabado, volens/nolens, de protagonizar o louvável e salutar serviço profético de cão de guarda que se tem o dever de, oportuna e inoportunamente, chamar a atenção da Humanidade para o perigo em que toda ela vive, quando é manifesto que, duma maneira geral, a Igreja católica no seu todo e o papa em particular têm quase sempre optado por ficar na cómoda e cúmplice postura de cães mudos!
Nunca é demais sublinhar, nesta conturbada hora, que as palavras do papa foram proferidas no ambiente duma universidade alemã e para gente que a frequenta; não numa praça pública e perante milhares ou milhões de pessoas de diversas nações, muito menos, num documento oficial do papado. Tais palavras nem chegaram praticamente a ser notícia nos grandes media do dia seguinte. Apenas o foram, perante a reacção dos tais líderes muçulmanos fanáticos que, a propósito e a despropósito, querem encontrar pretextos para desencadearem novos e sangrentos ataques contra populações indefesas do Ocidente, esquecidos de que, afinal, também elas são vítimas, juntamente com a generalidade dos povos muçulmanos e demais povos do mundo, das grandes transnacionais que hoje nenhum governo no planeta consegue controlar a sério.
Trata-se, para cúmulo duma reacção que vai muito para lá da possível “ofensa” do papa aos povos muçulmanos, pois não se limita, como já recomendava a velha lei de Talião, a proferir um discurso contra o discurso do papa, pelo contrário, incita os muçulmanos onde estiverem a passarem a vias de facto, com vinganças físicas, as mais cruéis.
A verdade é que as inesperadas palavras do papa puseram o dedo numa ferida que está aí em carne viva (e que as reacções violentas às suas palavras só acabaram por confirmar que ele tem razão!), mas que a hipocrisia dos governantes das nações continua a levá-los a fechar os olhos a ela, e a preferirem, em seu lugar, os inócuos discursos politicamente correctos, quando o que se lhes impõe são igualmente lúcidas e corajosas denúncias sobre os telhados, acompanhadas de lúcidas e corajosas críticas e autocríticas.
Concordo com Bento XVI que toda a violência organizada que mata a frio seres humanos indiscriminadamente, como se os seres humanos valessem ainda menos do que formigas, é uma violência incompatível com a Fé num Deus Criador de seres humanos à sua imagem e semelhança, independentemente de qual o povo, se católico, se judeu ou muçulmano, que professa Fé nEle.
Semelhante acto corresponde, na prática, a uma inominável des-Criação que desonra e coloca fora da Humanidade, tanto quem a concebe e decide realizá-la, como quem se presta a executá-la no terreno. Mais. No ponto de desenvolvimento a que hoje a Evolução da vida já chegou, temos que proclamar urbi et orbi que a violência organizada que mata, a frio, seres humanos indiscriminadamente como se valessem ainda menos do que formigas, é também incompatível com a razão humana e com os seres humanos, enquanto tais.
Por isso, com a entrada da Humanidade no terceiro milénio do Cristianismo, os governos das nações já deveriam ter proclamado, como patamar ético mínimo para todos os povos, que um ser da espécie humana que opta a frio pela violência assassina e indiscriminada contra outros seres humanos e a realiza ou manda realizar, coloca-se, automaticamente, fora da condição de ser humano e passa a assumir a condição de monstro, que os seres humanos, enquanto tais, deverão, não abater, evidentemente, mas colocar em condições dignas que, de imediato, o inibam de poder prosseguir nos seus crimes de lesa-humanidade, ao mesmo tempo que providenciam para que peritos em humanização, cuidem dele e o estimulem a percorrer os caminhos que o levem a tornar-se finalmente humano com os demais e entre os demais seres humanos.
À luz do que acabo de escrever, não hesito em afirmar, por exemplo, que Bush, na sua qualidade de presidente dos EUA, colocou-se abertamente fora da Humanidade e passou à condição de monstro em forma humana, quando avançou no terreno com a Guerra no Iraque. Mas não só ele. Também os que se declararam ao seu lado e correram a apoiar no terreno e com tropas a sua assassina decisão.
Infelizmente, a Humanidade não só ainda não foi capaz de dar um tal passo ético conjunto naquela direcção, como até faz questão de se comportar como se, objectivamente, não estivéssemos perante um crime inominável. Mas estamos. E é por isso que hoje nos vemos todas, todos à beira de podermos vir a protagonizar, pela primeira vez na História, o acto de des-Criação dos seres humanos, tais como hoje nos conhecemos. Porque a violência assassina e indiscriminada contra seres humanos gera mais violência assassina e indiscriminada, numa espiral que dificilmente terá recuo. E aqui reside o mais dramático do nosso tempo.
Quando a Evolução, no seu curso ao longo da História, acaba de alcançar o seu ponto mais alto, ao tornar-se, pela primeira vez, em nós, seres humanos do terceiro milénio, Humanidade consciente da própria Evolução, e também pela primeira vez, acaba de se auto-dotar de sofisticados meios técnicos com os quais pode levar a Evolução da vida a plenitudes impensáveis até há poucos anos atrás, ou então a obstruí-la e a fazê-la regressar ao Caos inicial, não podemos de maneira nenhuma enterrar a cabeça na areia, ou assobiar para o lado. Temos que agir sem demora. Deixar correr é correr o sério risco de deitarmos tudo a perder e fazermos fracassar a Evolução.
É este o ponto em que estamos hoje como Humanidade. Ou pilotamos responsavelmente a Nave em que somos e existimos, e chegaremos a ser o que estamos chamados a ser – humanos e irmãos universais, em feminino e masculino e em radical igualdade – ou continuamos a deixar correr como se não fosse nada connosco, e então muito provavelmente regrediremos de humano a monstro. Até voltarmos ao Caos, onde tudo começou. Neste caso, só não regressaremos ao Nada definitivo, porque a Evolução em que um dia acontecemos como seres humanos conscientes e criadores, continua aí, apesar de tudo, misteriosamente animada pelo Espírito Criador de Deus Vivo, Mãe/Pai de todos os povos por igual. O qual, ao fazer-nos acontecer na Evolução, por pura graça, também logo nos salvou por pura graça. Para sempre!
2006 SETEMBRO 14
Foram mais de 400 os padres portugueses
que nos últimos dias estiveram em simpósio
num dos grandes edifícios eclesiásticos em
Fátima – o local religioso mais idolátrico do
país. Reflectiram e debateram temáticas que
não dizem nada ao país e por isso o país não
quis saber deles para nada nem do simpósio.
São presbíteros ordenados da Igreja que
está em Portugal. Deviam ser um dom de
Deus Vivo entre o povo e são funcionários
eclesiásticos. Deviam comportar-se como cães
de guarda e comportam-se como cães mudos.
Deviam ser profetas e são sacerdotes. Deviam
dar o Evangelho aos pobres e dão-lhes ópio.
Durante os séculos passados foram muitos
os adolescentes e os jovens que percorreram
os caminhos eclesiásticos que iam desaguar
ao sacerdócio. Os seminários inventados pelo
Concílio de Trento foram instituições contra
natura destinadas a converter generosidades
humanas em subserviências perante o Poder.
Tudo começava no roubo aos adolescentes
da própria família. Teriam de crescer sem afectos
e sem sexualidade aqueles que um dia iriam
servir como eunucos no altar. Durante 12 anos
controlavam-lhes todos os passos e conversas
a fim de que se tornassem homens só de Deus.
Mas um Deus com tudo de ídolo e de monstro.
Também eu um dia me encontrei a percorrer
os caminhos que levavam da casinha dos meus
pais ao grande seminário de Ermesinde. Queria
ser padre e por então não havia outro modo de
responder ao misterioso apelo que me trazia
em sobressalto. Avancei como os demais. Mas
para me tornar padre diferente dos demais.
Ordenou-me a Igreja do Porto ao final dos 12
anos de seminário. Pensei que era sacerdote
e até me apropriei então daquela frase da carta
aos hebreus Sacerdote para sempre. Até que
me dei conta que o Sacramento da Ordem me
assinalou para Evangelizar os pobres e não
para oficiar como sacerdote dentro dos templos.
O presbítero que sou suplantou desde então
o sacerdote que eu pensava ser. E bem cedo
já me via a vestir à civil e a trabalhar como
jornalista profissional para não ficar pesado
a ninguém. Os afectos vivo-os na linha da total
gratuidade. E como um menino-companheiro
de todas as vítimas e de todos os humilhados.
Conheci por duas vezes as cadeias políticas
e outras tantas tive de ir ao Tribunal Plenário
do Porto testemunhar a verdade do Evangelho
que nos faz livres e desmascarar a Mentira que
mantém a Verdade cativa na ideologia do Poder.
Não me perdoaram e passei desde então a viver
longe dos templos e dos altares. Como Jesus.
2006 SETEMBRO 07
Nestes dias o Espírito levou-me a viver num
dos problemáticos bairros sociais erguidos
no território da paróquia de Campo Grande
em Lisboa. O convite partiu duma pequenina
comunidade de irmãs que optaram pelos mais
pobres e vivem ali com eles numa casinha em
tudo igual à deles. Estive lá como um menino.
“Vem estar connosco para nos ajudares a
discernir o que o Espírito quer de nós a fim
de vivermos aqui entre os pobres e com eles
bem ao jeito de Jesus o de Nazaré.” O apelo
revela que as irmãs já sabem que há um jeito
de ser Igreja nas cidades distinto do jeito de
Jesus. E querem ir por este. Não por aquele.
Depressa me dei conta que a paróquia está
em força no bairro. E não me alegrei. Porque
a paróquia constitui um jeito de ser Igreja
que não é sacramento ou sinal de Deus o de
Jesus de Nazaré. Tudo o que ela faz tem a
marca duma empresa de serviços religiosos
e sócio-caritativos que oprime as populações.
Templo ainda não há. Mas há todo um corpo
de voluntários católicos estranhos ao bairro que
detêm o poder de dar e de tirar em torno dos
quais tudo gira. Ao pároco está reservado o topo
da empresa que nem chegará a aperceber-se da
perversão em curso. Mas de perversão se trata.
E da pior. Humilha os pobres em nome de Deus.
Vivi com as irmãs entre o bairro e a casa delas.
Acolhi mais elas as pessoas com problemas que
lhes batem à porta com frequência. Escutei. Fiz
silêncio. Contemplei. E também falei. Com língua
de discípulo. A única que tem força para libertar
e fazer novas todas as coisas. E as pessoas. No
final dos três dias éramos uma Eucaristia viva.
É assim que vamos continuar cada dia. As irmãs
no bairro onde vivem e eu aqui. Conscientes elas
e eu de que a nossa Igreja se quiser ser presença
boa nas cidades do século XXI e do terceiro milénio
tem de morrer como Igreja-paróquia para nascer
como Igreja-parteira. Sem templo. Sem serviços
sócio-caritativos. Sem o poder de dar e de tirar.
Pressinto que vêm aí dias difíceis para as irmãs
do bairro. A Igreja-paróquia não lhes perdoará
que elas recusem ser um dos rostos dela entre
as populações empobrecidas. Nem que prefiram
ser simplesmente sinal ou sacramento de Jesus
o de Nazaré. Para que as populações passem
da condição de objecto a sujeito. Com voz e vez.
Foi assim a presença-prática de Jesus entre
as populações oprimidas sem voz nem vez do seu
país. Uma presença ao jeito da parteira junto da
mulher que está para dar à luz. Pagou caro a sua
audácia. Mas tornou-se no Caminho que tem de
ser percorrido se quisermos que as populações
cresçam em protagonismo político e em liberdade.
2006 SETEMBRO 01
Este é o tempo em que o Dinheiro e o Império
fazem tudo para que os seres humanos desistam
da sua dimensão espiritual e dêem largas à sua
dimensão animal. Estão apostados um e outro em
converter a terra num global jardim zoológico sob
a ditadura da Mentira. Aos mais dotados fazem-nos
líderes e a todos os mais simples carne-para-canhão.
Este é o tempo da Sabedoria e dos Afectos
libertadores que nos levam a resistir à ditadura
da Mentira e aos múltiplos terrorismos do Dinheiro
e do Império. Fechamos os ouvidos à maquiavélica
publicidade em que ambos são peritos para nos
mantermos sempre abertos à Verdade que continua
aí tragicamente cativa nesta perversa Ordem Mundial.
Este é o tempo em que valeu a pena ter nascido
para vivermos na Ordem Mundial do Dinheiro e do
Império sem jamais sermos dela. São inúmeras as
seduções com que Dinheiro e Império nos tentam
mas muito mais forte e empolgante é a determinação
com que lhes resistimos. E que gozo mais inebriante
do que ser um NÃO vivo ao Dinheiro e ao Império?
Este é o tempo de sermos mulheres e homens
ao jeito de Jesus o de Nazaré. E de enfrentarmos
desarmados o Dinheiro e o Império para que um
e outro deixem cair as suas múltiplas máscaras e
todos os povos do planeta possam ver a Mentira
e a Perversão que ambos são. Vestem-se de
deuses mas não passam do Inumano em acção.
Este é o tempo de deixarmos de vez os templos
e os altares mai-los sacerdotes que lá pontificam
como supostos intermediários entre Deus e os
seres humanos. São vazios de sentido todos os
ritos que lá se realizam. E o Deus a quem são
dirigidos só pode ser um ídolo já que Deus Vivo
vive-para-nos-fazer-viver. E não gosta de ritos.
Este é o tempo de resgatarmos a Política das
mãos das minorias privilegiadas que sempre
a utilizam como arma de arremesso contra as
multidões que elas propositadamente mantêm
na ingenuidade e no subdesenvolvimento. Sem
nunca chegarem a descobrir que pela Política
praticada é que chegarão a ser livres e felizes.
Este é o tempo dos pobres trocarem a religião
pela Política e assumirem os seus destinos nas
próprias mãos. Sem interferências de deusas
deuses ou outros mercenários que acabam
a comê-los e à sua força de trabalho. A terra-
vale-de-lágrimas passa a casa comum mesa
partilhada vida de qualidade e paz revolucionária.
Este é o tempo dos seres humanos habitados pelo
Sopro de Deus Vivo que derruba os poderosos dos
seus tronos e despede de mãos vazias os ricos. Os
ídolos Dinheiro e Império até agora tão activos
cedem o lugar a Mulheres e Homens cada vez mais
sororais/fraternos e politicamente responsáveis pelo
mundo e pela História. Cheios de graça e de verdade.
2006 AGOSTO 24
Inferno. Nunca como durante estes dias
de verão estamos condenados a ouvir
falar tanto no inferno. E não são os padres
nem os bispos quem sai por aí a implantar
de novo a Idade Média entre nós. São os
jornalistas com as notícias sem notícia dos
incêndios no país. Um crime em toda a linha.
São crime os incêndios em si. Porque
provocados. Ou fruto da negligência dos
donos dos terrenos. Crime é também
a total falência da política do Governo que
se mantém cinicamente em funções em lugar
de se entregar à Justiça. E dos grandes media
que se limitam infantilmente a falar de inferno.
Não há fumo sem fogo. Também não ardem
hectares de floresta sem crime. Mas o maior
dos crimes ainda é o país lidar com os fogos
que nos roubam identidade e o reduzem
a extensos lençóis de negrume como se eles
fossem uma fatalidade. Quando são crime.
Organizado. E impune. Um ano após outro
Acabem de vez com essa lenga-lenga do
inferno. Chamem aos fogos de verão pelo
nome. Digam uma e outra vez e sempre que
são crime. Digam que quem os provoca ou
consente é um criminoso. Digam que o maior
dos criminosos é o Governo que não é capaz
de os prevenir nem de os atalhar com eficácia.
Como pode permanecer em funções um governo
depois de ter deixado arder grande parte do
nosso Parque Peneda-Gerês? Caiu uma ponte
em Entre-os-Rios e com ela caiu um ministro
e algum tempo depois todo o governo. Arde
o Parque Peneda-Gerês e o ministro continua
aí em funções? Para onde nos querem levar?
Choro pelo meu país. Qualquer bicho careta
pode ser empossado como ministro ou como
primeiro-ministro. Basta-lhe lábia a jorros e
descaramento para mentir ao povo com o ar de
quem diz a verdade. E se deixar à rédea solta
os grandes interesses económicos e financeiros
que actuam no país nem os media lhe vão à mão.
Compreendo agora porque nos querem assim
um Portugal de pequenitos. Porque nos dão
futebol a jorros e nos servem telenovelas umas
a seguir às outras. Porque nos obrigam a ver e a
ouvir até à náusea o degradante espectáculo de
Fátima sempre o mesmo. Eles sabem que assim
jamais seremos um povo adulto e politizado.
Dói-me a alma e todo o corpo ao ver o povo do
meu país tratado como animais de rebanho.
Querem-nos simples bestas de consumo a exibir
estradas fora a alegre tristeza da nossa incultura
e do nosso vazio interior. Numa manifestação de
liberdade oprimida que nos leva a fugir uns dos
outros como bichos. Enquanto eles se governam.
2006 AGOSTO 18
No meu regresso de férias, deparei com a entrevista conjunta que o papa Bento XVI deu à Bayerischer Rundfunk (ARD), ZDF, Deutsche Welle e Rádio Vaticano. Li a entrevista na íntegra, na tradução portuguesa da responsabilidade da Rádio Vaticano e fiquei desapontado. Bem gostava de testemunhar aqui o contrário. Mas não posso. Fiquei desapontado pela entrevista em si. E sobretudo pelas respostas dadas pelo papa, nomeadamente, o que ele diz sobre as mulheres na Igreja e sobre o ministério petrino.
1. A entrevista revela que os jornalistas quase renunciaram à sua função de entrevistadores. Devem ter sido escolhidos a dedo, segundo um critério muito pouco católico, muito pouco universal. Provavelmente, nenhum deles é ateu assumido. Ou crente de outra Igreja que não a católica romana. Pela forma como conduzem a entrevista e como se comportam no seu decorrer, só podem ser jornalistas beatos, devotos do papa, que se lhe dirigem como se ele fosse um deus, nos antípodas do Deus que se nos revelou definitivamente na prática misericordiosa e sororal/fraterna de Jesus de Nazaré. As vénias em palavras que lhe fazem são tantas, que não há nunca um momento de espontaneidade, muito menos de salutar e fecundo confronto. Cada jornalista limita-se a formular a sua pergunta e depois todos ficam a ouvir, como meninos de catequese bem comportados, a resposta doutoral do papa. Quando o papa acaba a sua resposta, segue-se outra pergunta, acompanhada da respectiva resposta. É assim até ao final da entrevista. Nunca nenhum dos jornalistas tem à vontade para confrontar o papa com a possível insuficiência de alguma das suas respostas. Mantêm todos, do princípio ao fim, aquele ar de autómatos, de meninos de coro, de filhos reverentes e assustados diante de um pai autoritário e monarca absoluto.
Por sua vez, o papa nunca sai daquele seu estilo papal de ancião inacessível, de intelectual frio, de teólogo bem estruturado, mas dentro duma teologia muito pouco jesuânica e muito pouco evangélica. É uma teologia dos livros, fria, tecida de conceitos bacteriologicamente correctos, distante das pessoas e dos seus problemas concretos. Reproduz os livros de Ratzinger e de outros teólogos semelhantes e chega até a invocar o Direito Canónico para justificar as limitações doutrinais e pastorais que certas respostas suas contêm e defendem. É, pois, uma teologia que respeita o Código de Direito Canónico, como se Deus, o de Jesus, alguma vez fosse sensível a leis feitas por instituições de poder sagrado e absoluto. Ele que, em Jesus, seu Filho muito amado, nem a mais sagrada das leis dos judeus, como a do descanso sabático, respeitou, tem agora, pelos vistos, de respeitar os cânones do Código de Direito Canónico!!! E é se quiser que sobre este nosso planeta terra continue a haver Igreja católica, com um papa monarca absoluto que o representa perante as nações e que não está disposto a abdicar dos seus privilégios, muito menos do seu poder de monarca absoluto. Estou a caricaturar, evidentemente, em jeito de bom-humor, mas é o que me ocorre dizer/comentar a propósito de certas posições do papa nesta sua entrevista conjunta.
2. O meu desapontamento maior vai para o que o papa repete como cassete, nesta sua entrevista conjunta, sobre as mulheres na Igreja e sobre o ministério petrino. “Santo Padre, as mulheres são muito activas em diversas funções na Igreja Católica” – lembra quase a medo um dos jornalistas, num curto preâmbulo à pergunta que formula de imediato e que reza assim: “A sua [das mulheres] contribuição não deveria tornar-se mais claramente visível, também nos cargos de maior responsabilidade na Igreja?” O papa Bento XVI ouviu, provavelmente, sorriu perante a prudência do jornalista que foi hábil em escolher bem as palavras e por isso evitou a expressão “ordenação de mulheres” que é tabu na Igreja católica, e logo respondeu sem rodeios: “Sobre essa questão, naturalmente reflecte-se muito. Como o senhor sabe, nós consideramos que a nossa fé, a constituição do Colégio dos Apóstolos nos obriguem e não nos permitem conferir a ordenação sacerdotal às mulheres.” O jornalista teve o cuidado de não se referir explicitamente a esta questão, por isso, limitou-se a falar em “cargos de maior responsabilidade na Igreja”. Mas o papa bem percebeu que o que ele queria perguntar era sobre a ordenação de mulheres, sim ou não, na Igreja católica. Por isso foi tão taxativo na resposta. Como quem não está disposto a admitir mais conversa sobre o assunto.
É sabido que o papa anterior, João Paulo II, assessorado pelo teólogo cardeal Ratzinger, havia dito, já, que esse é um assunto definitivamente arrumado na Igreja católica. E o papa Bento XVI, evidentemente, não desdiz de modo nenhum o teólogo cardeal Ratzinger. Por isso, as mulheres católicas que se cuidem. Com este papa na cúpula do poder eclesiástico, não há nada para elas. Contentem-se com o que têm, revejam-se nos louvores que reiteradamente são dados pelos fiéis leigos e clérigos à “Mãe de Deus” (vejam como o papa evita referir-se a Maria de Nazaré, mulher histórica, e prefere, em seu lugar, a expressão mítica “Mãe de Deus”. Na sua teologia, o papa pensa que está a dizer a mesma coisa, que está a referir-se a Maria, mãe de Jesus. Mas não está. “Mãe de Deus” é um título mítico, do mundo das religiões do Paganismo, que a nossa Igreja católica depressa adoptou no seu interior, quando se viu historicamente reduzida à condição de Religião oficial e única do Império Romano. Habilmente, atribuiu esse título mítico a Maria de Nazaré e com isso pensa que a honra e dignifica e que honra e dignifica as mulheres que constituem hoje a sua fasquia maior de clientes. Mas a verdade é que mais não faz do que desonrar Maria e as mulheres de carne e osso, porque lhes retira, a ela e a elas, a sua dimensão de mulheres históricas, de seres humanos radicalmente iguais aos homens numa indissolúvel unidade que vem de Deus Criador e que poder algum, nem o do papa monarca absoluto, jamais poderá separar).
O espantoso para mim é como é que com posições destas na cúpula da Igreja, sistematicamente aceites e reformuladas pelos súbditos bispos nas dioceses e pelos párocos nas paróquias, ainda há mulheres a frequentar os templos e os cultos. E que aceitam passivamente na Igreja o que, felizmente, já não aceitam na sociedade civil: ficar à margem como seres inferiores, como seres humanos de segunda ou de terceira, como se o baptismo e a fé de Jesus em nós não tivessem abolido para sempre a discriminação entre homens e mulheres, lá onde eles e elas estejam e actuem, seja no interior da sociedade, seja no interior da Igreja. Perante posições deste jaez, só há uma postura digna para as mulheres e os homens leigos da Igreja: deixar o papa a falar a sozinho, juntamente com os bispos e os demais clérigos que, subservientemente, se limitam a repetir o que ele diz. Acham exagerado o que acabo de escrever? E não acham exagerado o que o papa Bento XVI diz na sua entrevista?
Desculpem-me, mas aqui, tenho que ser frontal, como manda a lei do amor fraterno, a qual, pelo menos em Igreja, sempre deve casar com a verdade que nos faz livres. É esta frontalidade que me leva a dizer ao papa e, nele, a todos os meus irmãos e irmãs da Igreja católica: Não há Código de Direito Canónico nem Colégio dos Apóstolos que mereçam o respeito das mulheres e dos homens, também das mulheres e dos homens que constituem a Igreja católica, se um e outro aceitam como inamovível na História a discriminação entre homens e mulheres, no caso em questão, no acesso ao ministério ordenado. Queime-se semelhante Código de Direito Canónico. E dissolva-se semelhante Colégio dos Apóstolos. Não têm, não podem ter, o Sopro ou o Espírito de Deus, o de Jesus de Nazaré. Por mais séculos que tenha uma prática eclesiástica católica assente nesta discriminação entre homens e mulheres, de maneira nenhuma essa prática de séculos faz lei para o presente e para o futuro. É uma prática que nos envergonha como seres humanos. E mais ainda como Igreja católica com explícita referência a Jesus, o de Nazaré. Não cometamos mais a blasfémia de atribuir a Deus e a Jesus de Nazaré o que é fruto da nossa mesquinhez e dos privilégios que indevidamente nos atribuímos. Se, porventura, em determinada época da história, semelhante prática foi achada oportuna, o que duvido, esse facto jamais nos dá o direito, nem a nenhuma Igreja, de a instituir como constitucional para todo o sempre. Muito pelo contrário. Enquanto não abandonarmos semelhante prática, estamos em pecado, e não um pecado qualquer, mas aquele pecado que ofende verdadeiramente Deus Criador, porque nos ofende como suas criaturas: o pecado de manter a verdade cativa ou presa na injustiça. E tal é o pecado da Igreja, neste particular. Em especial, o pecado do papa João Paulo II e, agora, do papa Bento XVI que lhe sucedeu no trono e nesta falsa doutrina.
3. O ministério petrino, tal como o papa Bento XVI o concebe e defende na entrevista conjunta, é outra das sua posições que me desapontou profundamente. Se cada Igreja local é Igreja completa e se o bispo preside na caridade à Igreja local, o ministério petrino ou de Pedro da Igreja não pode continuar a ser concebido e praticado no estilo de um monarca absoluto. O papa não é o dono da Igreja. Nem a cabeça da Igreja. Nem o senhor da Igreja. Nem o deus da Igreja. Cada Igreja local haverá de ser genuína e não um clone da Igreja de Roma e da sua Cúria Romana. Quanto mais genuína, mais Igreja. O ministério de Pedro terá que ser colegial. Não pode continuar a ser monárquico como até aqui. E terá que ser protagonizado por mulheres e homens cheios da fé de Jesus e do seu Espírito que nos faz livres. Trata-se simplesmente de garantir à Igreja a máxima unidade na máxima diversidade. Só assim haverá Igreja de Igrejas. Como estão as coisas, desde há séculos, tem tudo a ver com o a herança do Império Romano: o papa é o sucessor não de Pedro, mas de César de Roma, é o imperador, a quem é devido culto público, até pelos demais chefes de Estado do mundo!
Reconheço que na sua resposta aos jornalistas o papa Bento XVI revela alguma flexibilidade nas palavras. Mas a sua prática quotidiana vai noutro sentido. Enquanto o papa não for capaz de dizer e fazer em relação a cada Igreja local o que João Baptista terá dito em relação a Jesus de Nazaré – é preciso que cada Igreja local com o seu bispo cresça e a Igreja de Roma com o seu papa diminua – não haverá futuro para a Igreja católica. Em vez de Igreja de Igrejas, teremos cada vez mais uma multinacional de serviços religiosos, com filiais em quase todos os países do mundo, com cada vez menos clientes. Porque do que nós, seres humanos, temos fome e sede não é de serviços religiosos; é de comunidades vivas atravessadas e fecundadas pelo Espírito de Jesus que nos faz livres e criadores, autónomos e protagonistas na História.