DIÁRIO ABERTO ABRIL 2008
2008 ABRIL 30
Ontem à noite fui ao teatro ver UM MERLIM, da Seiva Trupe, no Campo Alegre, Porto. Era a antestreia. A Companhia que me tem na conta dos seus amigos mais íntimos e de peito, convidou-me. Sempre me convida para as antestreias. E eu sempre vou. Ontem, pude assistir a duas monumentais interpretações. As dos Actores António Reis e Isabel Nunes, ele, já muito conhecido pela sua genialidade no palco, fez de Merlim, ela, ainda quase estreante em peças de tamanho folgo como esta, mas já Acriz carregada de futuro, fez de Niniane. Um soberbo espectáculo. Discreto. Despido de tudo o que é secundário. Um poema feito de Essencial. Luís Alberto Abreu é o autor da peça. Carregada de Evangelho secular, de boa notícia de Deus, sem nunca O nomear, de Deus-sem-Deus, como é o Deus Vivo, o de Jesus, não o das Religiões. Uma peça carregada de alertas. De sabedoria. São tamanhas a simplicidade, a ternura e a poesia da peça, que é impossível não nos deixarmos envolver pelo enredo e não nos experimentarmos seus protagonistas, juntamente com os dois geniais Actores sempre em cena do princípio ao fim. Porque a cena sem intervalos é o nosso quotidiano. O palco é o nosso país e o nosso mundo. O enredo é a nossa vida de todos os dias. É tanta a poesia da peça, que até a Morte de Merlim é um abraço de amor, uma entrega, uma cópula sem retorno ao Tempo, uma entrada e um mergulho na Plenitude. A cidade do Porto está de parabéns. E a Companhia de Teatro Seiva Trupe, mais ainda. Mas a cidade só está de parabéns, se for digna desta Companhia. Se correr a mergulhar nesta peça. Se não perder este mergulho na verdade da vida humana, este banho de civilização e de cultura. De contrário, nem merecerá o nome de cidade. E o país não merecerá o nome de país. Apenas o de um amontoado de gente, de coisas, de números com pernas e braços, mas sem alma, sem coração, sem afectos, sem laços, sem Política, numa palavra, sem Cultura. Com este Executivo Sócrates ao leme e com este Presidente da República Cavaco, somos cada vez menos um país. Somos uma espécie de país. Um país sem alma. Números que se agitam como fantasmas. Sem sonho nem projecto. Sem Poema. Todos os dias roubam-nos o Essencial. Dão-nos gato por lebre. Dão-nos palavras de mentira. Palavras sem honra. Palavras. E promessas que nunca se chegam a realizar. Sócrates e Cavaco, assim como os ministros do primeiro, são vento árido, daquele que seca e estiola a vida. São vento gerador de deserto, de esterilidade. O país nunca esteve tão em baixo em valores, em humanidade com entranhas de ternura e de fecundidade. É um ventre cheio de Nada. Gerador de filhos coisa nenhuma. O que se pode esperar de vida de dois robots, como Sócrates e Cavaco, muito agitados, mas muito agrestes, sem um pingo de Pensamento próprio, sem um pingo de Poesia, sem um pingo de entranhas de humanidade? Homens? Parecem homens no andar. Na verdade, são monstros. Politicamente, monstros. Que digo? Politicamente? Mas eles alguma vez souberam o que é a Política? Não sabem apenas de Poder? Não são surdos? Não são cegos? Não são arrogantes? Não são demagogos? Não são sem alma? Parecem homens, mas são monstros. Robots. Bonecos articulados. Hipócritas. E, para cúmulo e para mal do país, nem sequer estão sozinhos. Fizeram-se rodear de assessores e de outros colaboradores à sua imagem e semelhança. Iguais ou piores que eles. Todos sem alma. Sem coração. Sem humanidade. Cruéis. Hábeis. Chico-espertos. Jogam todos ao gato e ao rato. Porque tomaram o Poder nos dentes e não querem largá-lo tão cedo. A menos que a Lei em vigor e aprovada antes deles serem Poder os obrigue. Ainda não tinham tomado posse e já estavam a cuidar da sua própria continuidade. Tudo o que fazem é para se perpetuarem no Poder. Mas não pensem que então fazem tudo para agradar às populações. Não fazem. Eles sabem que o Poder perpetua-se tanto mais quanto mais autoritário for, quanto mais Poder for, quanto mais medo incutir nas populações, quanto menos entranhas de humanidade tiver, quanto mais robot for. Basta estar equipado de uma boa máquina de propaganda que faça do branco preto e do preto branco. E nunca deixe as populações perceber que ele mais não é do que o idólatra número um do Deus Dinheiro, o adorador número um do Deus Dinheiro. O êxito é garantido. Porque as populações, de tão culturalmente iletradas em que, de geração em geração, são propositadamente mantidas, de tão despojadas de consciência crítica em que são levadas a viver, de tão habituadas a ser governadas-tuteladas por Executivos que sempre funcionam como mercenários, nunca como pastores capazes de contínuas práticas políticas maiêuticas, votam sempre naqueles que mais as torturam, que mais lhes mentem, que mais as oprimem, que mais as desrespeitam, que mais as subjugam, que mais as enganam. São populações geradas e paridas pelo Poder que é sempre demente e faz populações dementes à sua imagem e semelhança. São populações a quem o Poder todos os dias rouba a alma, os valores. São populações a quem o Poder faz crédulas, ingénuas, manipuladas. São populações perdidas, à deriva, por isso, sempre à espera de Executivos duros, de mão de ferro, que projectem sobre elas uma imagem de homens determinados, de eficientes, de bem-falantes, de demagogos. Mais de oito séculos depois, continuamos a ser um país que teve por pai fundador um rei conquistador, por isso, ladrão e assassino. Somos populações catequizadas-escolarizadas para gostarmos do Poder e dos poderosos, da Religião e dos sacerdotes, do Dinheiro e dos ricos. Esses são os nossos valores, aqueles pelos quais somos capazes de dar até a própria vida e a dos filhos. Carregamos uma alma de mercenário dentro de nós, herdada do pai da nação que somos. Nunca soubemos o que é a Política. Só conhecemos o Poder. E, na ignorância e no analfabetismo em que propositadamente nos mantém, até confundimos a Política com o Poder que está aí sempre a esmagar-nos e a infantilizar-nos e chamamos Política ao Poder. Não, não são só as populações menos escolarizadas que permanecem neste analfabetismo político. Os próprios intelectuais, ou que se têm por tais, também chamam Política ao Poder, têm-nos como sinónimos, quando, na verdade, são antónimos, onde estiver o Poder não está a Política e onde estiver a Política não está o Poder. Porque são incompatíveis entre si, mas ninguém sabe disso. Nem quer saber. Somos, por isso, filhos da Mentira. Temos um pai que é pai de mentira. E assassino. O que nos leva a gostar doentiamente de Executivos e de chefes que nos mintam, que nos oprimam, que nos exijam os próprios filhos para eles os sacrificarem em guerras que temos por santas. E depois chamamos-lhes heróis e santos e mártires. Só que heróis e santos e mártires de coisa nenhuma, pior, do Deus Dinheiro, servido pelos Executivos do Poder e da Religião. De Política, nem queremos ouvir falar. Menos ainda de Práticas Políticas Maiêuticas, a serem assumidas por nós, como sempre foram todas as práticas de Jesus, o de Nazaré, às quais, errada e infantilmente, chamamos "milagres". E, no entanto, são estas Práticas Políticas Maiêuticas as únicas que são dignas de nós e as únicas que nos farão progressivamente humanos, por isso, salvos. Mas entre elas e os Cavacos Silvas ou os Sócrates, com estes ou com outros nomes, nós escolhemos sempre os Cavacos Silvas ou os Sócrates, com estes ou com outros nomes, em vez de escolhermos as Práticas Políticas Maiêuticas, que fariam de nós um Povo de povos, com alma, com coração, com sonho, com utopia, com Poema, com Cultura, numa palavra, com humanidade. O Império do Senhor Deus Dinheiro, servido pelos Executivos do Poder, no Governo ou na Oposição, e pelos Executivos da Religião, as mais diversas e estupidificantes, não tem porque se preocupar. O próximo futuro continuará a ser dele, como já foi todo o passado e é ainda o presente. Está tudo nas suas mãos e nas mãos dos seus Executivos, cada qual o mais fiel e submisso, sempre na linha de inteligência demente. As populações, quais rebanhos de ovelhas e carneiros, nem sonham que o são. E, para cúmulo, ainda são sistematicamente levadas a gostar de ser o que são. Nunca querem outra coisa. Os profetas, sempre raros nesta engrenagem, porque quem tem um pingo de inteligência e de saber depressa se vende ao Senhor Deus Dinheiro e dá o melhor de si aos Executivos do Poder e da Religião, são sistematicamente desprezados e, se insistem na deles, acabam maltratados e até assassinados, pelo menos, de modo incruento, como agora é uso e costume. Erguem-lhes, depois, duas ou três gerações depois de os terem desprezado e assassinado, monumentos-túmulo em sua honra. Para que nem a Memória deles se torne subversiva e perigosa, antes, redunde em reforço dos Executivos do Poder e da Religião que os desprezaram e mataram, na pessoa dos seus contemporâneos. São assim as coisas, desde o princípio. E assim prosseguirão por não sei quantas gerações mais. Saibam, porém, que não é por isso que eu desfaleço neste meu caminhar alternativo. Bem pelo contrário. É por isso que eu prossigo. Cada dia, com novo ânimo. O desânimo é outra arma do Senhor Deus Dinheiro e dos seus Executivos do Poder e da Religião. Não lhes farei a vontade, nunca. Nem desânimo, nem traição. Apenas fidelidade ao ser humano que sou. Seja qual for o preço a ter de pagar. E é a minha fidelidade que contribuirá para dar um pouco de humanidade ao país e ao mundo. A minha e a de mais algumas, alguns. Nunca serei um dos muitos Sócrates ou um dos muitos Cavacos Silvas. Serei eu próprio. Serei o que serei. Na condição de filho dAquele que diz "Sou o que Serei". Na condição de discípulo do Filho. Outro Jesus, no meu jeito, na minha medida, e nas circunstâncias deste nosso século XXI. Nesta direcção vai também, felizmente, o sábio trabalho da Companhia de Teatro Seiva Trupe, do Porto. E vai esta nova peça que ontem foi apresentada em antestreia e à qual tive a graça e a responsabilidade de assistir, de saborear cada momento, como alimento de alta qualidade. A cidade do Porto e o resto do país, se quiserem desistir de serem rebanho de ovelhas e de carneiros; se quiserem desaprender de serem clones de Sócrates e de Cavacos Silvas, ou de papas e de sacerdotes, de analfabetos pretensamente ilustrados que nem sabem distinguir entre Poder e Política, têm de ir a correr ver a peça "Um Merlim", com os Actores por excelência António Reis e Isabel Nunes. Mergulhem neste Rio e neste Mar de Cultura. Deixem-se baptizar por estas águas. Não esperem ver lá os Cavacos Silvas ou os Sócrates da nossa desgraça e do nosso pesadelo. Nem os sacerdotes do nosso Obscurantismo que são todas as Religiões e toda a Fé religiosa com os seus sinistros santuários. Corram, antes que a peça tenha de terminar por falta de comparência das pessoas. Apanharão um banho de humanidade. E perceberão que não adianta construirmos cidades cheias do último grito em tecnologia e de câmaras de vigilância, se as pessoas que as habitam não tiverem alma. Vão ao teatro. A este teatro. Vão ao Seiva Trupe. Vão abraçar o António Reis e a Isabel Nunes. E despertar com eles para a vida com humanidade, com palavras de honra, com ternura, com afectos. Se começarmos a ser muitas, muitos a ir ao teatro, os Sócrates e os Cavacos Silvas entrarão em pânico. Porque o chão que pisam começa a fugir-lhes de debaixo dos pés. Ainda não será o fim deles, ou de outros clones deles. Mas será o princípio do fim. Para alegria dos Povos.
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2008 ABRIL 29
Na noite de 24 de Abril, estive na cidade de Lourosa, concelho de Santa Maria de Feira, minha terra natal. A convite da Juventude do Bloco de Esquerda do concelho. A crónica teológica que escrevi e editei nesse dia aqui neste meu Diário Aberto foi já para ser dita lá, na abertura do debate sobre o 25 de Abril, 34 anos depois. Estive na mesa, na companhia do conhecido Major Tomé, então um dos capitães de Abril, hoje já na patente de coronel. A minha intervenção teológica dificilmente será esquecida por quem se deslocou ao auditório da Junta de Freguesia de Lourosa. E pelo próprio Mário Tomé. Ele abriu o debate, no tom saudosista duma certa viagem ao passado. Mas eu não só não lhe segui as pisadas, como levei o debate para outras paragens, as do próximo Futuro, a partir do nosso Presente, hoje e aqui, infelizmente, cada vez mais sem sentido, sobretudo, por culpa dos Executivos das nações, qual deles o mais demagogo e subserviente ao Grande Capital. Não quis saber para nada do 25 de Abril de há 34 anos, embora o considerasse e considere importante, mas como uma etapa histórica, hoje definitivamente coisa do Passado, do museu da História. Porque com o que todos os dias vivo preocupado é com o 25 de Abril que continua por fazer, que nunca ninguém nem nenhum povo fizeram. O 25 de Abril ou a Revolução que corte a cabeça ao Império do Deus Dinheiro, em lugar de ir a correr negociar com ele no dia seguinte à Insurreição, e que parta a espinha ao Grande Poder e à Grande Religião, em lugar de ir a correr ocupar os respectivos trono e altar. Não há Revolução a sério, enquanto não for capaz de fazer isto. As minhas palavras escandalizaram e alegraram. Escandalizaram, porque soaram a loucura e a utopia. Alegraram, mas só no íntimo das consciências. Não sei se chegarão a mobilizar algum dos corpos humanos vivos ali presentes. Porque - disse-o com todas as letras - só quem escolher ser pobre e permanecer pobre a vida inteira e entre desarmado neste combate, nesta Insurreição-Revolução, é que poderá levar por diante um Abril assim, uma Revolução assim. Esta é a via de Jesus, da qual, 20 séculos depois, continuamos a não querer ouvir falar, muito menos queremos fazer nossa. Mas a Revolução que não for assim mais não faz do que mudar os rostos dos nossos opressores e dos nossos exploradores. A primeira e mais forte reacção contra este Evangelho de Jesus que agora também é o meu Evangelho e, por isso, anunciei e anuncio sorridente e alegre como um menino, veio do próprio Mário Tomé, meu companheiro de mesa, no debate. Não pôde entender que haja alguém que pense mudar o mundo, transformar a História por essa via. Primeiro, porque, segundo ele, ninguém vai à luta para ser pobre. E o Poder não irá nunca abaixo sem o recurso ao poder. Testemunhou também que uma das coisas mais belas do 25 de Abril de 1974 foi não ter hostilizado nunca o clero católico e a Igreja católica. Disse exactamente o que eu esperava e por isso não me surpreendeu. Surpreender-me-ia, se o tivesse visto e ouvido acolher o Evangelho que anunciei, porque isso significaria que o Mundo do século XXI estava já à beira de nascer de novo, do Alto, do Espírito, o de Jesus. A reacção dele contra a minha intervenção, por sinal, uma reacção muito mais vigorosa e convicta do que a dos demais presentes na sala e no debate, foi imediata, antes ainda das dos demais. Ele terá percebido que estava em jogo a sua própria vida e as suas próprias convicções, mais Poder do que Política. E não pôde ficar sem reagir a ele e delicadamente rebatê-la. Mas a surpresa maior do debate estava ainda por vir. E veio, quando eu voltei a usar a palavra, precisamente para repor e reafirmar ainda com mais veemência e fundamentação o Evangelho que havia anunciado antes. O que o deixou espantado e quase do meu lado. Pelo menos, na formulação. A prática, será muito mais difícil, porque obriga a muitas mudanças do estilo de vida, cada qual a mais radical. Fi-lo com firmeza e com ternura, mas sem que a voz me tremesse. Olhos nos olhos. E com o testemunho do meu próprio ser-viver de filho da Ti Maria do Grilo e do Ti David, a minha mãe e o meu pai que os meus conterrâneos presentes bem conheceram. Sublinhei, firme e lúcido, que ninguém, muito menos um coronel do Exército, a partir da posição do Poder e de um viver de não-pobre poderá, em algum momento, entender sequer as minhas palavras, que são também as de Jesus. É por isso que o Evangelho é anunciado aos pobres, antes de a mais ninguém. E, a partir deles e com eles, também aos que aceita(re)m ser pobres por opção, a vida inteira. É a primeira condição fundamental para alguém chegar a protagonizar na História a Revolução a sério. Reafirmei e fundamentei também que o Poder nunca será derrubado, se alguma vez se recorrer a ele para o fazermos. Porque quem recorre ao Poder para derrubar o Poder, o que faz é simplesmente dar ainda mais poder ao Poder. É por isso que ninguém que não esteja disposto a viver toda a vida em deserto - não no deserto físico, mas em deserto, isto é, despojado de tudo o que não é Essencial - jamais chegará a ser Homem novo em feminino e em masculino, jamais será sujeito da Revolução, por mais revolucionário que se diga e se pense. Tudo o que fizer será sempre mais do mesmo, porventura, um pouco reciclado, mas só para que esse mais do mesmo possa continuar a perpetuar-se no Tempo. Aliás, essa foi a luta de Jesus com os seus próprios discípulos. E ele acabou sozinho, sem conseguir chegar a ver, ao menos um deles, nascer de novo, do Alto. Todos, com o próprio Pedro à cabeça, sonhavam com o Poder e com os lugares de destaque no Reino. Derrubariam o Império, mas para serem eles o Novo Império. E, hoje, não lhes podemos querer mal, porque é ainda isso que continuamos a fazer nós também. Quem de nós se atreve a prosseguir Jesus e a dizer a si mesmo e aos demais que é perversa a Trindade que domina o Mundo, constituída pelo Grande Dinheiro, pelo Grande Poder e pelo Grande Templo (Religião)? Quem de nós? Não achamos todos, pelo contrário, que fora desta Trindade não há salvação, não há futuro? Não nos pelamos todos por agradar a esta Trindade? Não estamos prontos a sacrificar tudo, até os filhos e os pais, a mulher e o marido, a própria vida, para agradar a esta Trindade, em algum dos seus múltiplos Executivos, fazer carreira à sua sombra, e quanto mais poderosos e ricos melhor? Não é esta a grande ambição, o grande sonho, a grande aspiração da generalidade das pessoas? Não é isso que todos os pais e todas as mães sonham e ambicionam para as suas filhas, os seus filhos? Mário Tomé, na sua reacção à minha intervenção, chegou a lembrar, a seu favor, que todos os teóricos da revolução, Marx e Lenine incluídos, sempre advogaram que a tomada do Poder é fundamental para se garantir êxito à Revolução. E que sem o recuso ao Poder nunca se poderá derrubar o Poder dominante. Aproveitei, por isso, para dizer-lembrar que, desde o princípio do mundo até agora, todos os teóricos da Revolução jamais chegaram a romper-cortar com a Trindade que domina o Mundo. Ninguém o fez, a não ser Jesus, o de Nazaré. Todos foram, uns mais outros menos, mais do mesmo. Nunca se atreveram a ser-viver em deserto, à intempérie. Nunca cortaram o cordão umbilical mental e afectivo que nos liga a todos os que nascemos sob o seu domínio à Trindade e ao seu estilo de ser-viver na Opulência, até porque ela, embora seja intrinsecamente perversa, sempre se faz passar por santa, por boa, por indispensável, por fundamento de tudo o que existe. Quando ela apenas é o que há de mais Demente em nós e em tudo o que possamos ser-pensar-criar-reproduzir com ele. Nunca antes de Jesus, a Humanidade se havia dado conta, alguma vez, de que as coisas são assim. E, depois de Jesus, também não. Por isso a Trindade, nos seus três Executivos maiores, correu a matá-lo e daquela maneira. Para que ninguém mais, alguma vez, se atrevesse a ver-descobrir o que ele viu-descobriu e a dizer o que ele disse. E assim tem sido, sempre. Aliás, as coisas estão de tal modo pensadas e organizadas, em cada tempo e lugar, para que nunca alguém mais, alguma vez, volte a ver-descobrir e a dizer o que Jesus viu-descobriu e disse. Provavelmente, assim continuará a ser não sei por quantas gerações mais. É que nem as Igrejas que hoje se reclamam de Jesus, se atrevem a anunciar semelhante Evangelho, o dele. Só o delas, à maneira delas. No início, ainda tentaram, mas depressa as Igrejas claudicaram. Todas. O poder de sedução da perversa Trindade é total. E até as Igrejas correram todas a integrá-la, porque ela sempre se apresenta como santa e divina. Inclusive - abominação das abominações - as Igrejas conseguiram meter o próprio Jesus nessa perversa Trindade, sob a designação oficial de Cristo, de Jesus Cristo, o novo e único Deus oficial do Império romano e do Ocidente cristão, ou Cristandade Ocidental. Ainda aí estamos, neste nosso século XXI. Com a agravante de que nem os ateus assumidos, como é o caso do meu amigo Mário Tomé, hoje coronel do Exército, se dão conta disto. Até para eles, Jesus, não é nunca o de Nazaré, mas o Jesus Cristo das Igrejas, feito Deus único, primeiro, do Império Romano, depois da Cristandade Ocidental que lhe sucedeu. Não se dão conta da marosca. E rejeitam Jesus, o de Nazaré, ao recusarem todo o tipo de Deus, assim como todo o tipo de Fé. Porque para eles, Fé só pode ser fé religiosa. Não chegam a perceber a Fé de Jesus que é essencialmente PRÁTICA POLÍTICA MAIÊUTICA, que leva quem dela anda possuído e animado a ocupar-se não de Deus, dos deuses, muito menos do Senhor Deus Dinheiro, mas exclusivamente da Terra, dos seres humanos, da História, da Economia, para que a Terra seja Casa Comum, Mesa Comum, Fraternidade/Sororidade Universal. Não podem entender este Evangelho. Enquanto se mantiverem na deles, e não optarem por ser-viver em deserto, pobres, isto é, não-ricos, por toda a vida, reduzidos ao Essencial. est(ar)ão completamente impedidos de ver e de entender o Evangelho e Jesus, o de Nazaré. Porque, ou se salta fora daTrindade e se vê, como num relâmpago na noite, todo o Perverso Organizado que ela é, ou se faz coro com ela e se come à sua mesa. Ora, hoje o próprio Ateísmo integra a Trindade, nos lugares cimeiros, é cada vez mais Trindade, sob a forma de Idolatria, a do Senhor Deus Dinheiro e a do Senhor Deus Poder. Com a Religião, o Ateísmo já não quer nada, ainda que a respeite e não hostilize os seus funcionários religiosos, por mais mafiosos que eles sejam e por mais que a Religião sirva para lavar dinheiro sujo e enriquecer obscenamente os respectivos pastores e santuários. Até fazem e aprovam leis especiais para as Religiões. Mas com o Senhor Deus Dinheiro e o Senhor Deus Poder, o Ateísmo já quer tudo. Hoje, os ateus são até os novos Papas e os novos Bispos. Sob outros nomes, obviamente. Poder e Riqueza, Privilégio e Decisão são exclusivamente com eles. As multidões ou as maiorias empobrecidas e oprimidas, bem como os povos empobrecidos e oprimidos não são nem nunca chegam a ser Nada nem Ninguém! Hoje, quase já nem carne para canhão são, porque cada vez mais são desnecessários, excedentários. A Robótica faz melhor, muito melhor, e não chora, não reivindica, não tem família, não sabe de sentimentos nem de afectos. No decurso do debate, aproveitei ainda para testemunhar, embora só de raspão, que eu próprio, quando cheguei a ser Poder, no Executivo da Religião católica, concretamente, no ofício de pároco, felizmente, percebi a tempo que esse ofício era perverso, fazia parte do Perverso Organizado, fazia-me Poder sobre os demais, não ser humano simplesmente com os demais e para eles. E, então, em lugar de me dar ao respeito e de me fazer respeitar, passei a parodiar o Poder que eu próprio era. O meu bispo de então depressa se deu conta da subversão, da implosão que estava em curso com o meu ser-viver assim e acabou com a paródia em três tempos. Primeiro, pôs-me na situação de pároco com "jurisdição permissiva, portanto, precária" e, meses depois, como nem assim eu tive emenda, retirou-me a paróquia de um momento para o outro, precisamente, quando eu mais testemunhava o Evangelho de Jesus no Pretório, ou Tribunal Plenário do Porto. O que seria o Mundo e a Igreja sem o Poder, terá pensado então o Bispo António Ferreira Gomes e, com ele, todos os outros Bispos e o próprio Núncio Apostólico em Lisboa? Vi-me, assim, de um momento para o outro na rua, à intempérie. A ter de ganhar o Pão com o suor do rosto, como eu sempre havia desejado e o Bispo não queria. Por isso, a perda do título e da função de pároco não me soube a castigo, mas a libertação e a festa. Passei, desde então a viver em deserto, no Mundo dominado pela perversa Trindade, mas sem ser dele nem dela. Nesta nova condição de presbítero sem ofício canónico, pude entender ainda mais e melhor Jesus e o Evangelho vivo que ele é. E o Perverso Organizado que é a Trindade do Poder, do Dinheiro e da Religião que o matou e fez dele o maldito dos malditos. Pude também passar a anunciá-lo a tempo e fora de tempo e a denunciar a tempo e fora de tempo a perversa Trindade. Quem me ouve? Quem me acolhe? Quase ninguém. E mesmo os que me acolhem fazem-no cada qual à sua maneira, com muita contenção, com conta, peso e medida. Sem a radicalidade que Jesus nos propõe, na pessoa do chamado homem rico dos Evangelhos Sinópticos. E, se alguém, entre os meus amigos e amigas, é um pouco mais ousado e vai mais longe na sua entrega, em lugar de o apoiarem e se alegrarem, criticam-no, para poderem prosseguir com um pé dentro e outro pé fora. Preferem continuar a pensar lá para eles que fora da Trindade não há salvação. Não vêem que dentro da Trindade só há Opressão-Alienação-Assassínio. O que há em nós de ser e de viver humanos é na medida em que já escapamos da influência dessa preversa Trindade. Mas a nossa alegria só será completa, quando vivermos, como Jesus, totalmente em deserto, à intempérie. É dura esta linguagem? Parece. Mas creiam que é doce, embora pareça amarga. Até o nosso paladar tem de ser reeducado para vivermos alegremente em deserto. Façam isso e verão. Quem alguma vez experimentou o paladar deste ser-viver em deserto nunca mais quer outro manjar. Sei do que falo, porque é por aí que procuro andar. E dou o meu testemunho, ainda que poucos o queiram receber. Problema deles. Porque na Trindade, tudo é Mentira e Assassínio, a começar pelo seu Deus que pai de mentira e pais de nados-mortos, de robots com os quais mata os que lhe resistem e teimam ser-permanecer humanos. Oxalá também o meu amigo Mário Tomé entre nesta via. E, com ele, todos os que se têm na conta de Esquerda e de Esquerda Revolucionária. De contrário, não passam de mais do mesmo, aos quais a Trindade paga bem, até para funcionarem como Oposição a ela. Domesticada e Estéril, já se vê.
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COMENTÁRIOS:
1. Mário: Acabei de ler a tua crónica sobre a deslocação a Lourosa. Sabes que concordo contigo sobre a análise que fazes sobre a situação actual. Também penso que todos vivemos dominados pelos senhores do dinheiro que, para fazerem valer os seus interesses, se aliaram aos senhores do poder político e das religiões. Todos aqueles que não se querem envolver nesta "trindade", como lhe chamas, são marginalizados. Há ainda a maioria das pessoas, pobres na sua maior parte, que vivem naturalmente alheios a estes jogos, uma vez que a sua principal preocupação é a sobrevivência. Eu penso que pertenço à 2ª categoria, àquela que não se quer envolver na tal "trindade". Como ainda não encontrei maneira de dar a volta a este enredo, vou observando, participando solidariamente nas actividades do meu sindicato e, sobretudo, vivendo a solidariedade com as pessoas que me estão mais próximas. É uma atitude conformista? Não sei, mas percebo que é assim que eu sei viver, olhando para pessoas concretas. Não sei como fazer para mudar o mundo, acredito que este vai evoluindo na medida em que cada pessoa também evolui. Não acredito em revoluções nem em revolucionários, mas sim na transformação pessoal e no testemunho por palavras e por actos. Não estás sozinho na procura de um mundo diferente. Como sabes, entendo que hoje não tem muito sentido falar em Fé, em Jesus, ou nas práticas religiosas, sejam elas o que forem. O que interessa é anunciar e viver os valores da justiça, da verdade, da solidariedade, da paz... Neste campo não há divisões entre todos aqueles homens e mulheres de boa vontade. Só se excluem a si próprios as pessoas que querem dominar sobre as demais.
M.ª Celeste
2. Padre Mário,
O poder, no melhor sentido, é poder de decisão. Talvez um dia seja possível tecnicamente uma sociedade que funcione harmoniosamente com base em decisões tomadas ao nível de cada pessoa. Por agora é imprescindível definir espaços e âmbitos de decisão comunitária, em função da cultura predominante. Idealmente esses espaços deveriam ser ocupados pelas pessoas mais capazes da sociedade. Provavelmente tal não acontece por múltiplas razões, nas quais a atracção pelo dinheiro não estará ausente. Mas continua a haver pessoas que, onde quer que estejam, dão o seu melhor, mesmo quando os proventos não são tão elevados quanto seria de esperar. Há um néctar que tudo vale, e tudo resolve e esse néctar abunda por aí, em muitos dos que tomam a sua vocação como um bem maior. Devemos recusar a competição predatória, mas o que de facto move o mundo é a competência. Venha pois a competência evangélica, aquela que radica na perene dinâmica criativa de todos e cada um.
Cordiais saudações.
Albino
3. Albino: Biblicamente, o Poder anda sempre ligado ao Demoníaco, ao Demente. Historicamente, também. Conhece algum período da História em que o Poder não tenha sido Isso? Nem o Poder do Papa. Menos ainda o do Papa! Veja que o Poder até aparece como o Tentador de Jesus, no relato teológico das tentações, logo no início da sua Missão. O Poder não vem de Deus. O que vem de Deus é a Liberdade. Alternativa ao Poder e sua cura é a Política, enquanto cuidado da Terra e cuidado da Vida dos Humanos uns pelos outros e da vida em geral. É por aqui que vai a Missão messiânica de Jesus, enquanto Filho do Homem/de Deus, não enquanto filho de David, de resto, uma postura totalmente rejeitada por Jesus. Esse foi o grande combate que Jesus travou com Pedro e os outros onze do Grupo dos Doze que Pedro liderava/manobrava. E que Jesus historicamente perdeu!
Mário
2008 ABRIL 24
Trinta e quatro anos depois, mais do que continuarmos a tentar enganar-nos uns aos outros, com falsas consolações de que, apesar de tudo, valeu a pena, pois conquistamos a Liberdade e pusemos fim à Guerra Colonial, é muito mais salutar e digno das gerações que nasceram depois de Abril de 1974, concretamente, da geração que em 2008 está na casa dos 20-30 anos, tentarmos descobrir juntos porque é que Abril falhou, porque foi uma festa que acabou e hoje está em vias de redundar numa devastadora tragédia, dentro de uma Europa cada vez mais agressivamente Unida à volta do Grande Capital, e dentro de um Mundo cada vez mais violentamente oprimido/esmagado pela Pobreza em massa, produzida e imposta pelo Império do Dinheiro - disse "Dinheiro", não disse "Riqueza", e é bom que percebamos a diferença, porque, pela primeira vez na História, o Dinheiro tornou-se independente da Riqueza, pertence ao reino da alta finança, não ao da Economia, cuida de crescer a qualquer preço, sem nunca se preocupar minimamente com o cuidado da nossa Casa Comum, o Planeta, como sempre terá de ser timbre de qualquer Economia que se preze - para cúmulo, Dinheiro cada vez mais acumulado e concentrado nas mãos de muito poucos. Ora, são estes muito poucos os efectivos senhores que hoje dominam o Mundo e estão a levá-lo e aos respectivos povos, cada vez mais alienados e manipulados, para onde eles muito bem querem, porque, em lugar de serem desmascarados e combatidos, como inimigos, assassinos e genocidas, ainda são diligentemente servidos por todos Executivos das nações e têm à frente das suas empresas transnacionais o que hoje há aí de mais refinado em inteligência humana e em investigação científica, só que uma inteligência humana e uma investigação científica com tudo de demente, nada de sapiente, por isso, sem um pingo de humanidade e de misericórdia, de afecto e de utopia, de espiritualidade e de mística, apenas Idolatria a rodos, a do Dinheiro, do Senhor Deus Dinheiro, e que, se não for travada a tempo pelos povos - ainda haverá tempo?! - irá culminar na mais densa Treva Cósmica e no mais horrendo Ranger de dentes Cósmico, o que poderemos chamar com total propriedade, uma Cósmica Descriação do Mundo e dos seres humanos. Não me tomem por profeta de desgraça. Tomem-me por vosso irmão, lúcido, atento aos sinais dos tempos, mergulhado de pés e de cabeça no Hoje e Aqui, com os olhos da Mente bem abertos, de Coração a pulsar com o coração dos Povos, de todos os povos sem excepção, mas sempre a partir dos mais empobrecidos dos povos. Eu sei que há por aí quem, nestes dias, insista em dizer-nos palavras bonitas. E nos cante canções de embalar e de encantar. Sei que há quem insista em cantar Abril, o de 1974, que as novas gerações nunca viveram e nunca chegarão a conhecer, por mais que haja quem lhes conte tim-tim-por-tim-tim o que se passou. E tão pouco lamento que as novas gerações o não conheçam, nem nunca cheguem a conhecer. Até me alegro. Já me lamentarei, e muito, e chorarei inconsolável, se as novas gerações, nomeadamente, as que neste ano de 2008, estão na casa dos 20-30 anos, não se atreverem a sair resolutamente do sono, da alienação, da preguiça, da droga, da resignação, do conformismo, das novelas rascas, dos estádios do Grande Império do Dinheiro, disfarçados de jogos de Futebol, das catedrais do Consumo, da competição assassina por um lugar de destaque dentro do Grande Império do Dinheiro, do ateísmo ou da religião sem causas e sem Mundo, e aceitarem ficar aí, pelo resto das suas vidas, instalados-estatelados no Vazio, no Nada, no Narcótico, sem nunca se atreverem à Rebeldia, à Dissidência, à Insurreição, à Revolução Desarmada, feita, antes de mais, de Pobreza voluntária e por opção, ou - o que é o mesmo - de Não-riqueza voluntária e por opção, por toda a vida, ponto de partida fundamental para que todos os seus neurónios passem a funcionar na linha da Sapiência, não mais na da Demência, e assim se revelarem capazes de conceber-inventar Projectos Alternativos, bem à altura deles e de todos os povos, Projectos que nos mobilizem a todas, todos, por inteiro cada dia, como se fosse o último e o único que temos para viver. Eu sei que há por aí quem, ao contrário de mim, insista em negar o Presente, este duro Presente concebido, gerado e imposto pelo poderosíssimo Império do Dinheiro, pai de Mentira e Assassino por natureza, que eu vejo cada vez mais duro e cada vez mais sem saída, e prefira refugiar-se edilicamente no Passado. Não contem comigo para esse peditório. Não alinho nessa romagem de falsa e doentia saudade. Sou Amanhã, no Hoje. E é desde o Amanhã que vivo o Hoje, que é cada dia que me vem. E procuro vivê-lo como se fosse o último (já se deram conta de que o último é que é o primeiro? Aliás, não foi já Jesus, o de Nazaré, o tal que mataram na Cruz, quem nos revelou que os últimos são os primeiros, e os primeiros os últimos?). A minha aposta vai inteira para as mulheres, os homens que hoje estão na casa dos 20-30 anos. Também para as outras mulheres e os outros homens que se mostrem capazes de perceber o Tempo Presente. E que estejam(os) dispostos a transformá-lo de raiz. Temos de resgatar o Tempo Presente e o Próximo Futuro das garras do Império do Dinheiro que, enquanto ingenuamente festejávamos Abril e combatíamos o Império norte-americano e outros Impérios territoriais menores, cresceu, não a olhos vistos, mas habilmente escondido, e hoje continua aí a crescer de forma imparável, com o apoio de todos os Executivos das nações, de todas as universidades e Escolas, de todas as Igrejas-Religiões, de todos os Partidos políticos à direita e à esquerda que não desistem das estafadas estratégias suicidas e assassinas da conquista do Poder, e, sobretudo, de todos os media, desde os canais de televisão aos telemóveis cada vez mais sofisticados e absorventes, dos DVDs à internet com os youtube em sessões contínuas, que nos cercam por todos os lados, nos lavam permanentemente o cérebro, nos formatam por completo aos gostos do seu dono e senhor, o Império do Dinheiro. No entusiasmo da festa, nem nos lembrámos de decapitar e de partir a espinha à Opressão, ao Grande Dinheiro, à Alienação. Deixamos que continuassem aí à solta e cada vez mais organizados. Fomos atrás dos desgraçados agentes da Pide, uns pulhas sem nome e sem dignidade, mas meros paus mandados, e deixamos o Senhor Deus Dinheiro à solta. E ele, como o grande Inimigo dos povos que é, lá prosseguiu o seu trabalho descriador do Mundo e dos seres humanos. Como falso Deus que é, o ídolo dos ídolos, está em toda a parte, até mesmo dentro de nós, e em parte nenhuma, ao mesmo tempo, porque não tem mátria-pátria, é invisível, omnipotente e até omnisciente, só que daquela omnisciência perversa, demente, a Demência em acção. Até hoje, desde que o mundo é mundo, ainda não houve uma única Revolução a sério que cortasse cabeça ao Dinheiro, ao Grande Dinheiro e ao Poder, ao Grande Poder, nem à Religião, a Grande Religião. Todas deixam esta perversa Trindade intacta e até entram logo em secretas negociações com ela. De modo que mudam sucessivamente os rostos dos nossos opressores e dos nossos exploradores, mas mantêm-se a Opressão e a Exploração, a Mentira e o Assassínio, cada vez mais reforçados. Se quisermos ter futuro, temos de sair deste círculo vicioso, saltar fora do Grande Império do Dinheiro. Temos de retomar à via de Jesus, o Político por antonomásia, que resistiu por toda a vida ao Tentador/Inimigo, na sua Trindade, o Dinheiro, o Poder e a Religião/Templo, e viveu sempre não no Deserto, como nos mentem, mas em deserto, atreveu-se a ser pobre a vida inteira ou não-rico por opção, em vez de ser rico, a ser Político de Práticas Políticas maiêuticas, não Poder, e a ser-viver cheio de Espírito Criador e Libertador, o de Deus Vivo, não do Deus-Ídolo, que o fez viver todos os dias como se Deus não existisse. Temos de resgatar as pessoas e os povos das garras assassinas do Império do Dinheiro. Decapitá-lo, em lugar de negociar com ele ou - o horror dos horrores - decapitar os verdadeiros profetas que teimosamente nos alertam, mas cujos alertas não queremos ouvir. Temos de partir a espinha ao Império do Dinheiro e pensar-gerar-edificar um Mundo de vida e de vida em abundância e de vivos, em redor da mesma Mesa comum, feita de muitas mesas comuns. Numa palavra, temos de fazer o Abril que nunca ninguém fez, mas que já está iniciado em Jesus, o de Nazaré, o qual, apesar de assassinado ou precisamente porque assassinado, é, desde então, aquela semente estrangulada que dá milhões de sementes a florir. As mulheres e os homens que hoje estão na casa dos 20-30 anos, e as outras, os outros que quisermos ir com elas e com eles, têm, temos, a palavra. Cumpre-nos fazer o Abril que ainda ninguém fez. Vamos fazê-lo? Atrevemo-nos a viver em deserto por toda a vida, totalmente blindados à doutrina/ideologia-fermento envenenado do Império do Senhor Deus Dinheiro?! Se sim, haverá futuro humano para este nosso Presente. Porque o Império do Dinheiro será decapitado e verá partida a sua espinha dorsal. Para esta Causa, sim, podem contar comigo. Aliás, é já nela que vivo, melhor, que procuro viver todos os dias.
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2008 ABRIL 23
Terão sido quatrocentos, no dizer das próprias fontes eclesiásticas católicas, os padres de Braga e de outras dioceses do país que se juntaram no início desta semana, na vetusta e sinistra Sé de Braga, para as exéquias em memória do Cónego Eduardo Melo, falecido inesperadamente aos 80 anos de idade, em Fátima, a conhecida cidade-sede da Idolatria católica e do Obscurantismo teológico mais crasso, aonde ele, de momento, se encontrava a acompanhar activamente certos trabalhos promovidos pelos Cursos de Cristandade, os tais que, durante três dias de total clausura, cuidam de converter os ricos ao catolicismo, sem entretanto nunca lhes exigirem, como fez Jesus, o dos Evangelhos Sinópticos, ao Homem rico que o procurou angustiado e preocupado com as questões da vida eterna, que eles deixem de ser ricos, partilhem a riqueza que têm capacidade e engenho de produzir, em lugar de continuarem demencialmente a acumulá-la e a concentrá-la cada vez mais nas suas mãos, como se as outras pessoas e os outros povos não existissem, e decidam-se a ser, simplesmente, pessoas humanas e irmãs universais. O cadáver terá sido encontrado, de manhã, estendido na cama do quarto onde, na véspera, o Cónego Melo se havia deitado para dormir. Por isso, a sua Páscoa definitiva aconteceu assim, sem ninguém por perto, que a Morte, quando chega, é como um ladrão, quase nunca dá sinais de que está a chegar. Também vários bispos do nosso país e um de Espanha marcaram presença na Sé catedral de Braga e nas exéquias solenes. Assim como muitas centenas de pessoas católicas da cidade e da Arquidiocese, que tiveram de ficar do lado de fora, porque a Catedral, oriunda da Idade Média, e ao contrário da nova e feérica basílica de Fátima, a tal que custou 80 milhões de euros, não teve lugar para elas, uma vez que teve de dar toda a prioridade ao clero e às individualidades especialmente convidadas pelo colectivo de Cónegos que nela mandam. Ou as regras e as conveniências eclesiásticas assim não determinassem, em eventos fúnebres deste tipo e desta imponência. O povo nunca é a primeira escolha dos clérigos. Apenas serve para fazer número, aplaudir, dar peso às estatísticas oficiais. Conta muito, mas nas estatísticas e na hora de contribuir com o seu dinheiro para a sustentação dos clérigos. Nunca são Igreja de primeira linha. E o povo católico acha bem, conforma-se, acha natural. Afinal, os clérigos é que têm o poder das chaves e os saberes, são intermediários entre ele e Deus, são os íntimos de Deus, são os que têm os livros, o Missal e o Ritual, as fórmulas sacramentais e mágicas, os que presidem a tudo, sobem ao altar, vestem diferente, numa palavra, são clérigos, o que quer dizer, povo sacerdotal à parte do outro povo, sempre pecador, profano e, por isso, impuro, são a minoria do Poder e do Privilégio e tudo, absolutamente tudo na Igreja, gira em redor deles e sob a batuta deles. Sempre foi assim, desde que Portugal é nação independente. E nem a República, em 1910, desfez este cozinhado. Nem o 25 de Abril de 1974. Nem tão pouco o Concílio Ecuménico Vaticano II. Não fossem assim as coisas desde o início da nação portuguesa e da Cristandade Ocidental onde a nação portuguesa brilha como a mais atrasada e a mais idólatra, também a mais católica romana e a mais subserviente ao clero, e nunca o Cónego Eduardo Melo teria sequer existido, pela simples razão de que não haveria cónegos, apenas Igreja com ministérios, mas não com cónegos, nem bispos residenciais senhores feudais. Ele é, porventura, um dos últimos frutos mais acabados deste Sistema, desta Engrenagem eclesiástica que, se não abrirmos os olhos da mente a tempo, depressa nos trucida por completo e faz de nós gato-sapato, vítimas e verdugos simultaneamente, e verdugos, porque, primeiro, vítimas. O Arcebispo Jorge Ortiga presidiu às exéquias e ao funeral. Na circunstância, disse nada, embora usasse da palavra tempo bastante para dizer alguma coisa de substantivo. Mas disse nada. Não saiu daqueles habituais narizes de cera e daquelas habituais palavras que sempre se hão-de dizer, quando o que temos para dizer não convém que seja dito. E, neste particular, ninguém melhor do que os clérigos maiores da Igreja católica romana que, nestes momentos finais, sempre canonizam quem melhor os serviu e se lhes dedicou, quaisquer que tenham sido os meios de que para isso lançou mão; sempre canonizam quem mais prestígio e dinheiro granjeou para eles e para a instituição, quem mais se bateu na defesa dela e deles, quem mais a canonizou e a eles. Não foi assim que recentemente fizeram, estão ainda a fazer, com a desgraçada Irmã Lúcia, a da pantomina de Fátima de 1917 e, sobretudo, a das "Memórias da Irmã Lúcia" que eles habilmente cozinharam em seu nome e difundiram por todo o mundo, também através das Missões e dos Missionários católicos portugueses? O arcebispo falou e disse nada. Porque nada havia a dizer. Deveriam ter gritado então as pedras, mas nem elas gritaram, que o Momento era todo de luto, não de luta, era de absoluto Obscurantismo, não de Ilustração, era de densa Treva, não de Luz, era de absoluto Necrotério, não de Jardim Florido, era de Morte total, não de Ressurreição, era de esmagadora Opressão, não de libertadora Revolução. Por isso, nem as pedras gritaram. E, se gritaram no seu ensurdecedor silêncio, os presentes fizeram de conta que nada ouviram. Obviamente, não estive lá, nem sequer pelas redondezas. Mas não deixei, nem deixo, desde então, de sorrir para o meu irmão Eduardo Melo, presbítero da Igreja de Braga, agora, definitivamente liberto de todo o esterco e de todo o pecado que tantos anos de fidelidade e de entrega aos perversos Interesses Eclesiásticos, sem nunca olhar a meios para alcançar os seus sinistros fins, desde cedo se lhe colaram ao corpo e o impediram, por toda a vida dentro da História, de ver a Luz. Sorrio para ele e sorrio-me com ele, porque, agora já definitivamente reabilitado pelo Amor Criador de Deus Vivo, Eduardo Melo é um dos seus Filhos muito amados, não é mais Aquilo que o Pecado do Mundo fez dele, quando, no seu frenético viver na História, demencialmente aceitou pactuar com ele e chegar a ser até um dos seus rostos mais visíveis e mais influentes, porque clérigo, vigário geral da Arquidiocese, presidente da AG do Clube de Futebol de Braga e cónego, tudo ao mesmo tempo, ele próprio Poder eclesiástico que até bispos e arcebispos temiam e por isso se lhe submetiam, incapazes da rebeldia e da liberdade que só florescem em quem for todos os dias assim como um menino, sem nada para preservar, a não a ser a Liberdade e a Dignidade que só a Liberdade Praticada todos os dias nos dá. Não estive lá, que só os mortos é que se ocupam com outros mortos. Preferi, em vez disso, usufruir do fraterno abraço que Eduardo Melo e Maximino, o que foi presbítero da Igreja de Vila Real e que acabou assassinado à bomba, já lá vão 32 anos, finalmente trocaram entre si, que o Amor Criador de Deus Vivo é Coisas Belas destas que faz, ainda que elas, de tão belas e de tão humanas que são, permaneçam habitualmente invisíveis aos nossos olhos, estes nossos olhos que apenas servem para vermos o visível, o que a Realidade tem de mais prosaico e de mais tosco. O moralmente assassino e o assassinado de facto, finalmente juntos, finalmente irmãos, finalmente luz na Luz, finalmente vivos no Deus Vivo, finalmente rios desaguados-mergulhados no Mar, no Oceano, cada qual com a sua identidade única e irrepetível e também com as suas marcas, as do assassinado, em Maximino, as do moralmente assassino em Eduardo Melo, mas ambos reabilitados, ambos filhos de Deus Vivo, que o Pecado do Mundo só é coisa do nosso aqui e agora, é criação da Besta, do que há de Demência e de Besta em todas/todos nós, também em mim, uns mais outros menos, não é nunca criação de Deus Vivo, que só pode ser o seu Destruidor definitivo. Quem esteve na Sé de Braga e nas exéquias a fazer de conta que o Pecado do Mundo nunca existiu, também no Cónego Melo, esse Pecado que é, de sua natureza, mentiroso, pai de Mentira, e Assassino, cometeu ainda mais pecado, porque negou a Evidência, não teve a lucidez, a audácia e a humildade da Verdade que todos os "filhos pródigos" havemos de ter, pelo menos, quando regressamos de vez à Casa do Pai/Mãe,.nossa Fonte e nosso Mar.. Mentir é pecado, o acto específico do Poder, também e sobretudo, do Poder Eclesiástico. Espantam-se por eu escrever isto? Mas, afinal, o que são as missas, as liturgias, os ritos religiosos senão Mentira? Quem os faz, quem os promove, não é em obediência a certos interesses corporativos que os faz e promove? Não pretende, com tudo isso, esconder o que, se fosse revelado, nos faria progressivamente livres e, assim, nos faz progressivamente mais escravos? Rezam ainda as crónicas do Pecado do Mundo que os seus maiores de Braga já estão de novo a pensar em levar agora por diante o projecto de levantar na cidade dos arcebispos a estátua do Cónego Melo que, há anos, não conseguiram concretizar. É o Pecado do Mundo a trabalhar continuamente. É o Poder mentiroso e assassino que não desiste de canonizar e eternizar os que mais lhe foram fiéis e melhor serviram os seus interesses corporativos, todos eles Mentira e Assassínio. Por mim, digo que avancem quanto antes, para assim mostrarem toda a sua Desfaçatez, toda a sua Hipocrisia, toda a sua Mentira, todo o seu Assassínio. E também toda a sua Sem-Vergonha. São intrinsecamente cruéis e por isso erguem estátuas à Mentira e ao Assassínio. Mostram bem Aquilo que são e Aquilo que fazem das pessoas humanas onde conseguem entrar e instalar-se. No caso, mostram bem Aquilo que de Hediondo e de Inumano, conseguiram fazer no Cónego Eduardo Melo que já não existe mais. Agora, só existe, definitivamente ressuscitado, Eduardo Melo, meu irmão e filho muito amado de Deus Vivo. E este, já sem nada do Cónego Melo, será o primeiro a vomitar a estátua que vierem a erguer na cidade dos arcebispos, a perpetuar Aquilo que de Hediondo e de Inumano o Poder mentiroso e assassino conseguiu fazer dele, depois que entrou nele e o possuiu como um Demónio, Demência em acção, quando ele poderia e deveria ter sido Sapiência em acção. Ergam, pois, a estátua. Já. E quando as vítimas do Pecado do Mundo que é o Poder Organizado lá passarem por perto terão oportunidade de cuspir para o chão a sua Cólera e o seu Desprezo. E se elas o não fizerem, de tão vítimas que são, fá-lo-ão as próprias pedras da calçada e as silvas, mais os musgos e o verdete.
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1. Olá boa tarde,o meu nome é Nelo Andrade e tenho 47 anos de idade.Costumo visitar o seu site,inclusive de ler o seu Diario Aberto.Em primeiro lugar,gostava de comentar o diário aberto de ontem.O conego em questao,era um grande admirador de salazar,logo para mim era um homem que nao prestava.Depois,foi um dos que assassinou Maximino,logo ai eu me questionei:Como pode o Padre Mário dizer,que ele e maximino estavam agora juntos(salvos)?Como pode Deus salvar um assassino?Agora, fora esta minha questao,eu leio os quatro evangelhos e tenho notado que há contradiçoes entre uns e outros.As contradiçoes onde eu noto mais sao entre o evangelho de S.Mateus e S.Lucas.Gostava de fazer uma pergunta simples ao meu querido padre Mário,os evangelhos foram manipulados?Qual deles o mais manipulado?Por agora é tudo e desejo-lhe muita saude e um grande abraço de
Nelo Andrade.
2008 ABRIL 22
O homem, como já aqui escrevi há dias, disse que estava farto de ser sucessivamente apunhalado pelas costas e bateu estrondosamente com a porta. Mas o País tomou a denúncia como uma metáfora, porque ninguém viu o sangue a correr. Se tivessem visto, até entrava a Polícia Judiciária a investigar. Assim, não. O País ouviu, mas deixou para lá. Afligiram-se apenas alguns dos mais próximos do homem, porque se o homem, farto de ser sucessivamente apunhalado pelas costas, se vai mesmo embora, os lugares que eles agora ocupam também ficam em perigo. Virão a ser ocupados por outros, acompanhantes-colaboradores de outro homem em tudo semelhante ao seu amo e senhor. E eles lá terão de regressar à sua vidinha de antes, a de sempre. O impressionante é que, desde que o homem disse que se ia embora, começou nesse mesmo momento a corrida ao lugar deixado vago por ele. O que revela que há sempre quem esteja disposto a ser sucessivamente apunhalado pelas costas. E já são mais do que muitos os candidatos, embora depois acabem por ficar pelo caminho, a troco de benesses que quem estiver melhor posicionado para conquistar o lugar deixado vago generosamente reparte, como recompensa, pelos que desistem. Por sua vez, os que se vêem obrigados a ter de desistir não se ralam por aí além. Se forem novos, ficam à espera da sua oportunidade no próximo futuro. Se a idade vai avançada, já se dão por satisfeitos com os cinco minutos de fama que tiveram. Isso basta-lhes. Poucos, muito poucos são aqueles que, nestas alturas e fora delas, se apresentam dispostos a derrubar o lugar deixado vago, de modo que ninguém mais chegue a ser apunhalado pelas costas. Afinal, se o Poder é assassino, se o Poder mata e até mata pelas costas, porque havemos de o defender? Porque havemos de lhe dar corpo? Porque havemos de continuar a correr por ele? Porque não o derrubamos de vez? Porque não o destruímos? Porque não concebemos um outro modelo de viver humano em sociedade, em que o Poder não entre, nunca mais entre? Porque não nos dispomos a pensar o país, cada país, e o mundo, todo o mundo, sem o Poder? Porque havemos de teimar, geração após geração, em mais do mesmo, como se fora do Poder não houvesse salvação, não houvesse futuro? A História, até hoje, mostra à saciedade que o Poder nunca foi, não é e nunca será parte da solução. Sempre foi, é e continuará a ser parte do problema. Mostra ainda mais a História. Mostra que o Poder é o problema, nunca a solução. Aliás, podemos dizer sem qualquer exagero que, enquanto não desistirmos do Poder, continuaremos na pré-história da Humanidade. Sem chegarmos nunca à História. Luís Filipe Meneses é esse homem de quem, nestes dias, se fala. Pelas piores razões. Denunciou perante o país que se ia embora do lugar para que foi eleito apenas há seis meses pelas bases do seu próprio Partido, porque estava mais que farto de ser sucessivamente apunhalado pelas costas. Mas o que ele verdadeiramente pretendia era que as mesmas bases, agora, seis meses depois de o elegerem, se erguessem numa poderosa vaga de fundo e o confirmassem no lugar do Poder. Por outras palavras, pretendia, não alertar o país e o mundo para os males do Poder e acabar de vez com o Poder, mas ter ainda mais Poder. Pretendia que as bases do seu Partido, numa poderosa vaga de fundo, esmagassem os opositores internos ao seu Poder. Pretendia ter na sua mão a faca e o queijo. Não apenas o queijo. Pretendia ficar sem opositores internos. Apenas bajuladores. Pretendia tornar-se Poder absoluto. As bases, porém, desta vez, não corresponderam ao apelo do seu novo amo, do seu novo patrão. E já se movimentam para dar o seu voto a outro, porventura, com rosto de mulher. (Já repararam que o Poder é sempre macho, mesmo quando se apresenta em corpo de mulher?!). O espectáculo a que estamos a assistir é triste e deprimente. Como é hoje triste e deprimente o país (des)governado por Sócrates, onde tudo isto está a acontecer. Andam por aí abutres no ar. Anunciadores de mais morte. As espadas estão afiadas e oleadas. Tudo, obviamente, no campo da simbólica. Mas por isso é que é ainda mais deprimente e triste. Porque é pela simbólica que vamos. E nos entendemos como humanos. Ou nos desentendemos. Sem simbólica, é o reino da pura selva, da morte efectiva. Então, já nem há lugar para o triste, nem para o deprimente. Só para o sangue derramado, para a morte real, para o desastre total, onde os sobreviventes, se os houver, tentarão, depois, começar de novo. Nos séculos passados, já estivemos, como Humanidade, algumas vezes, em momentos desses. E os sobreviventes - sempre houve sobreviventes, mas hoje podemos criar situações tais em que já nem sobreviventes haverá - começaram de novo. Penosamente. Veio a concluir-se depois que não foi um começar de novo. Foi apenas mais do mesmo. Como se estivéssemos programados para sermos sempre assim. Mas não estamos. Isso só acontece, porque o que há de Demente em nós é que tem sido mais ágil e mais eficiente do que o que há de Sapiente em nós. Porque é sempre muito mais fácil repetir do que criar, destruir do que edificar. E nós, como seres humanos, ainda estamos maioritariamente na fase do infantil, do mais fácil, do demente. O Poder é o Demente organizado e em acção. Só tem sucesso, porque ainda permanecemos no Infantil. Ainda não crescemos em idade, em estatura, em sabedoria e em graça. Permanecemos no Infantil. Na credulidade. Na ingenuidade. Ainda tomamos a nuvem por Juno. A aparência pelo Real. O maravilhoso pela Verdade. O nosso papinho cheio por Felicidade. E dormimos descansados. E divertimo-nos. E vamos ao futebol. E vemos novelas. E vamos de peregrinação a santuários de nomeada. Enquanto os nossos dominadores e opressores, os nossos amos e patrões, trabalham dia a noite, sem descanso. Para que nunca cheguemos a acordar, nunca cheguemos a crescer, nunca cheguemos à maioridade, nunca se abram os nossos olhos da mente e da consciência, nunca cheguemos à autonomia, numa palavra, nunca cheguemos a SER. Há séculos e séculos que patinamos, que não saímos do sítio. As mudanças são contínuas e em ritmo cada vez mais acelerado, mas sem nunca chegarmos a sair do sítio. Não são no SER. Mudamos continuamente, mas para melhor permanecermos indefinidamente infantis. Houve, porém, um Homem que um dia nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da Verdade. Ele próprio era a Verdade. Cedo, deu nas vistas. Os amos e patrões do país e do Mundo aperceberam-se do perigo. Tentaram-no. Seduziram-no. Mas ele resistiu-lhes sempre. Ao mesmo tempo que passou a trabalhar, sábados e domingos, dia e noite, como eles faziam, mas para despertar-acordar-puxar-desenvolver o Sapiente que há em nós, em lugar do Demente. Ele era o Sapiente, a própria Sabedoria em carne e osso e conseguia, maieuticamente, mexer com as pessoas, acordá-las, despertá-las, fazê-las crescer até à maioridade. A sua palavra e a sua acção eram fermento, mas libertador, que fazia as pessoas crescer em idade, em estatura, em sabedoria e em graça. Não era um fermento como o dos amos e patrões que mantinha as pessoas e e os povos no Infantil, na Menoridade, no Medo, no Demente, por isso, na Religião e dentro do Templo. Ao contrário, a palavra e a acção deste Homem eram fermento que fazia acordar, crescer, de dentro para fora, as pessoas e os povos. Libertavam-se do Medo, desenvolviam o Sapiente, deixavam o Templo e metiam-se no Mundo e na História. Ele próprio era a Política-Acção que maieuticamente fazia políticas as pessoas e políticos os povos. Nos antípodas do Poder. E as pessoas e os povos, assim crescidos-desenvolvidos, sapientes, deixavam de precisar dos amos e patrões, nem queriam mais ser amos nem patrões. Tornavam-se pessoas e povos autónomos, sábios, autodeterminados, em estado de maioridade. Nunca se tinha visto coisa assim. Esse Homem deu ainda mais um passo na sua palavra e na sua acção: passou à ofensiva e atreveu-se a desmascarar a palavra e a acção dos amos e dos patrões que tinham as pessoas e os povos sob o seu férreo controlo. Ao mesmo tempo que advertia as pessoas e os povos sobre o perigo que eram para elas e para eles toda aquela doutrina-fermento e toda aquela acção dos seus amos e patrões. Disse-lhes concretamente, assim: "Atenção! Muito cuidado com o fermento [= doutrina-acção] dos fariseus e dos saduceus" (cf. Mateus 16, 6). Estes fariseus e saduceus eram os amos e os patrões do país, na altura. Era a doutrina deles e os actos deles que mantinham as pessoas e os povos no Infantil, por toda a vida, e geração após geração. Os amos e patrões em causa não lhe perdoaram. E mataram-no. Não pelas costas. Mas bem à vista de toda a gente. E não de forma meramente simbólica, mas real, efectiva. Na Cruz. Bem levantado da terra, para que todos vissem e servisse de lição. Mas esse Homem que eles mataram realmente é que é O HOMEM. Os que o mataram são O PODER. Mesmo que se invoquem do nome dele, são O PODER que nos mantém no Infantil, para melhor continuar a reinar-dominar sobre nós. Temos que lhes resistir. E ao Poder que todos eles são. Mais: Temos que os enfrentar e desmascarar. E temos que decapitar o Poder que os faz amos e patrões, para os libertar até a eles e às suas inúmeras vítimas. A melhor maneira de o fazer é atrevermo-nos a organizar a nossa vida como se eles e o Poder que eles são não existissem. Para tanto, precisamos de nos deixar trabalhar maieuticamente pelo Espírito da Palavra-Acção do Homem que eles mataram na Cruz. Precisamos de nos deixar trabalhar maieuticamente por Jesus, o de Nazaré, pelo seu Espírito. Pensavam que Jesus já estava fora de moda? Que já estava ultrapassado? O que está fora de moda e ultrapassado são estes modelos de Igrejas e de Executivos das nações que por aí proliferam. E a doutrina-fermento sem Espírito que todas elas e eles se atribuem e lhe atribuem. Foi o Poder, o Inimigo dele, que fez isso, que corrompeu e perverteu, até as Igrejas. Saibam que Jesus, o Homem, é o nosso futuro, é o futuro da Humanidade. Ele já é o que todos ainda havemos de ser e que o Poder, com os seus amos e patrões - os fariseus e os saduceus de todos os tempos e culturas - sempre nos tem impedido de sermos. Como é que vamos conseguir que a doutrina-fermento de Jesus maieuticamente nos toque, nos desperte, nos acorde, nos faça crescer em idade, em estatura, em sabedoria e em graça, até chegarmos a ser Homens-Mulheres como ele, mas agora, no século XXI? Cada qual terá de descobrir. Porque as próprias Igrejas que aí estão não passam de mais do mesmo, são Poder, são doutrina-fermento que nos mantém no Infantil, são doutrina-fermento dos fariseus e dos saduceus. Fazem parte dos amos e patrões que trabalham dia e noite para que não cheguemos nunca a sair do Infantil, não alcancemos nunca a maioridade. Deles, temos que nos defender, acautelar. E do seu fermento-doutrina. São mais do mesmo. São o Poder com toda a sua doutrina-fermento que nos infantiliza e aliena. Temos de descobrir como chegarmos a ser maieuticamente tocados por Jesus. Cada qual tem de descobrir. O próprio Jesus apontou, uma vez, uma maneira através da qual ele nos trabalhará maieuticamente e nos fará crescer até à estatura e à sabedoria dele. Disse-nos: "Quando dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles". Maieuticamente. Por isso, sem amos, nem patrões. Pelo seu mesmo Espírito ou Sopro. Experimentemos com simplicidade e com verdade esta sua sugestão. Reunir em seu nome, significa reunirmo-nos dispostos a prosseguir, hoje e aqui, as suas mesmas Causas, as quais, como sabemos, estão nos antípodas das do Poder, dos seus amos e patrões. Uma Terra sem amos e sem patrões - sem Poder - está, pois, ao nosso alcance. Assim nós nos deixemos trabalhar maieuticamente por Jesus, o Homem. Pelo seu Sopro, ou Espírito. Ateus que sejamos, experimentemos ir por Jesus, o genuíno, aquele mesmo que os amos e os patrões do seu tempo e país, todos unidos, mataram na Cruz, para que ninguém mais se atrevesse a ser como ele, nem prosseguisse mais as suas mesmas causas. É esse Jesus, o de Nazaré, que havemos de encontrar, melhor, que havemos deixar que se encontre connosco, nos nossos diferentes caminhos de Emaus, e fique connosco para sempre. Os amos e os patrões de hoje não nos perdoarão, sobretudo, quando perceberem que já não vamos pela sua doutrina-fermento, porque nos vêem crescer em idade, em estatura, em sabedoria e em graça. Em lugar de permanecermos, do nascer ao morrer, no Infantil e no Medo, como eles pretendem. Não os temeremos. Pelo contrário, eles é que nos temerão a nós, apesar de vivermos desarmados e à intempérie, e nos perseguirão com todo o poder do seu ódio e do seu desprezo. Porque sabem que, com as nossas práticas políticas maiêuticas, estamos a fazer implodir o Poder, sem o qual eles também não serão. Nunca mais.
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2008 ABRIL 21
O papa Bento XVI fartou-se, durante os seis dias que durou a sua viagem de chefe de Estado e pastoral aos Estados Unidos da América, de dar porrada na Igreja norte-americana, nomeadamente, nos milhares de padres pedófilos e nos bispos que também o foram, em alguns poucos casos, ou que tudo fizeram para tentar esconder os milhares de casos de que tiveram, sucessivamente, conhecimento. Não foi uma nem duas vezes que o papa se pronunciou sobre o sucedido. Chegou quase à dezena de vezes, o que dá em média mais do que uma vez por dia, dos dias que lá esteve. O que vale é que a visita não durou mais tempo, de contrário o discurso da flagelação dos padres e dos bispos e da autoflagelação eclesial prosseguiria até à demência generalizada e redundaria, muito provavelmente, em mais e mais práticas pedófilas, de padres e de outros cidadãos. Todos acabariam a querer provar o que será isso que o papa tanto condenou e proibiu na sua viagem ao país. Tanta insistência papal neste caso, objectivamente horrendo, quase acabava por levar as vítimas concretas dele, hoje quase todas bem adultas e, na sua maior parte, já detentoras de pequenas fortunas em dinheiro que lhes foram atribuídas pelos Tribunais, a título de compensação pelos danos morais causados na altura dos actos praticados (é uma coisa que nunca compreendi, como é que danos morais podem ser reparados com compensações em dinheiro, mas, se calhar, sou eu que sou obtuso e não entendo o que toda a gente parece entender!), a quase terem pena dos seus abusadores. Por sua vez, o mundo, pelo menos, o mundo ocidental que foi estes dias bombardeado pelas notícias da visita papal e desta sua obsessiva postura, sente-se muito justificadamente perplexo perante este comportamento do antigo cardeal Ratzinger e Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé. Afinal, o que leva hoje este papa, de 81 anos de idade, a falar tão repetidamente deste caso, nos seis dias que permaneceu como um deus-ídolo na terra, e logo nos EUA, a sede do Império? Será que o papa fez tão seu o trauma das vítimas, que acabou tão traumatizado quanto elas, ou mesmo mais do que elas? Ou, pelo contrário, terá ele próprio um trauma, na área da sua sexualidade, de que nunca se conseguiu libertar e que, agora, inconscientemente, o faz falar uma e outra vez, e mais uma e outra vez, neste caso? Ao condenar com tanta insistência e com tamanha arrogância, sem o mais leve sinal de misericórdia e de compreensão humana para com os padres prevaricadores norte-americanos, sem, entretanto, nunca chegar a condenar explicitamente, uma vez que fosse, em todos estes seis dias, a Guerra do Iraque que o presidente Bush desencadeou há anos, inclusive à revelia da ONU e do parecer público do papa João Paulo II, uma Guerra hedionda que já fez e continua a fazer vítimas sem conta, sobretudo, entre os iraquianos, directamente, e, indirectamente, em todos os povos do mundo ocidental, os que se envolveram nela ao lado dos EUA e os que não - a actual recensão económica ocidental ainda em crescendo é, sem dúvida, uma das piores consequências e pode acabar por arrastar com ela os povos para uma catástrofe mundial de contornos diluvianos e apocalípticos, como nunca se conheceu antes - é assim como se o clérigo Ratzinger, hoje, papa de Roma, estivesse a proceder a um inconsciente ajuste de contas contra a própria Igreja católica que, desde criança, o moldou moral(istica)mente e à sua personalidade. A Igreja católica, nas suas catequeses moralistas e na sua teologia moral(ista), tê-lo-á ofendido tanto e ao seu harmonioso desenvolvimento humano, desde menino, particularmente, ao seu desenvolvimento sexual e afectivo, que ele, hoje, mesmo aos 81 anos de idade, não pode deixar de a acusar, e com ferocidade, uma e outra vez, na pessoa de todos aquele padres pedófilos e daqueles bispos norte-americanos que, mesmo depois se serem sabedores do que se passava, pactuaram com eles e os encobriram. Por mim, não descortino outra razão para tanta insistência do papa Bento XVI neste flagelo clerical eclesiástico católico romano, em sucessivas intervenções públicas. E isto, em flagrante contraste com a hedionda Guerra do Iraque que o papa nunca condenou com idêntica veemência, pelo contrário, acabou até por se ficar por uns vagos e hipócritas apelos à paz e por umas orações formalistas sem qualquer substância e sem o mínimo de profecia. Por pouco, o papa não se referia à hedionda Guerra do Iraque como uma Cruzada, ou como uma Guerra Santa contra o Islão e pela difusão da fé católica romana e do império. E por pouco não abençoou os soldados norte-americanos como cruzados e mártires que estão a levar a Guerra por diante no terreno, em cúmplice obediência assassina às genocidas ordens do presidente dos EUA que, na sua demência política e religiosa, sabe o que faz e, por isso, não dá sinais nem de arrependimento, nem de desistência. E não é que a própria opinião pública norte-americana que se indignou tanto - e com razão - contra os padres católicos pedófilos, já não é capaz de outro tanto contra a Guerra do Iraque e até entrega os seus filhos para que eles vão matar os iraquianos que nunca lhes fizeram mal? "Gente perversa e idólatra", chamou Jesus, o de Nazaré, à classe dirigente do seu país, representada ao mais alto nível nos fariseus e nos saduceus, numa das muitas diatribes teológicas que manteve contra ela, na pessoa deles (cf. Mateus 16, 4). O mesmo teria ele de chamar hoje a esta classe dirigente, concretamente, aos Executivos das nações, que estão aí a dirigir o mundo, a começar no papa Bento XVI e a acabar no presidente Bush, isto, se nos cingirmos ao Mundo ocidental, este mesmo que hipocritamente se reclama de raízes cristãs e evangélicas. Todos eles, filtram mosquitos e engolem camelos. Deveriam continuar a filtrar os mosquitos, mas sem nunca engolirem os camelos, como sistematicamente engolem. Aliás, fazem ainda pior. Filtram os mosquitos, mas para se darem ares perante os povos que enganam, oprimem e exploram, de que são eticamente irrepreensíveis e de que estão acima de toda a suspeita. Quando, ao engolirem os camelos, eles, todos eles, a começar no papa Bento XVI do Vaticano e a acabar no presidente Bush dos EUA, não passam de sepulcros caiados, cheios de podridão, de corrupção, e por isso tudo o que fazem leva sempre as marcas da podridão, da corrupção, da mentira, do assassínio. É ver como eles estão aí sempre prontos a dar "sinais do céu" aos povos, para, assim, provarem perante eles que são os homens certos nos lugares certos. Sinais portentosos, riquezas cada vez acumuladas e concentradas, poderio bélico sofisticadíssimo e de fazer desistir à primeira o mais politicamente atrevido, luxos e ostentações sem medida e quanto mais obscenas melhor, prostituições de todo o tipo, as mais refinadas e às escâncaras e para todos os gostos. "Sinais do céu" = sinais do Poder Total, do Dinheiro Total, da Religião Total, tudo sempre em grande, de muito luxo, e tudo-sem-um-pingo-de-misericórdia-e-de-humanidade. Porque eles, todos eles, desde o papa Bento XVI ao presidente Bush, são a gente mais perversa e mais idólatra que há à face da terra. Vejam como todos eles pairam sempre acima dos povos e se protegem uns aos outros corporativamente. Como se fossem deuses, que os povos, nas suas inseguranças e nos seus medos, inventam, imaginam, projectam e depois materializam nestes Executivos que, desde que os povos nasceram, sempre viram à frente deles, acima e por cima deles, inacessíveis. E eles deuses são, mas falsos, ao mesmo tempo que todos são também adoradores de Deus, o Ídolo Dinheiro/Poder/Religião. Tudo o que dizem é Mentira, é Hipocrisia. Tudo o que fazem é Crime, é Assassínio. Parecem Abel. São Caim. Parecem Homens. São monstros. Parecem cordeiros. São lobos. Mas uma coisa todos eles sabem que têm: pés de barro. E a prova é que nunca dão um passo fora dos palácios-prisão em que vivem, rodeados de seguranças e de alarmes de todo o tipo, sem terem um exército de polícias e de militares a protegê-los, para lá de utilizarem carros blindados com vidros à prova de bala e ainda disfarçados coletes individuais à prova de bala. Fossem eles homens, seres humanos, simplesmente, como Jesus, o de Nazaré, e todas as suas palavras, decisões e acções seriam para levantar os caídos, fortalecer os desfalecidos, consolar os tristes, aliviar os sobrecarregados, fazer ver os de mentes cegas, acompanhar os sozinhos, curar os adoentados, libertar os oprimidos, repartir a riqueza acumulada e concentrada e partilhar a mesa diariamente com os pobres. Estas, e muitas outras acções como estas - "sinais da terra", "sinais dos tempos", não "sinais do céu" - seriam promotoras de mais humanidade e de mais protagonismo das pessoas e dos povos. Preparariam um Amanhã sem Poder, sem Dinheiro concentrado e acumulado, sem Religião (= clérigos e outros pastores-mercenários). Preparariam um Amanhã densamente humano, onde Deus Vivo, o de Jesus, viveria como num templo, não para ser adorado pelos povos, mas para pontenciar os povos, desde dentro deles para fora, de modo que eles continuassem a crescer tanto em sabedoria e em liberdade que chegassem a organizar o mundo e a vida como se Ele não existisse. Está visto que, com estes Executivos das nações, os mais poderosos como o papa de Roma e o presidente dos EUA, e com todos os outros, seus satélites, cada qual o mais perverso e idólatra como os fariseus e os saduceus do tempo de Jesus, em lugar de caminharmos para a realização histórica desta Utopia, afastar-nos-emos cada vez mais dela. A menos que nós, os povos, suas vítimas, descubramos que todos eles têm pés de barro. Porque então, em lugar de os adorarmos-idolatrarmos-temermos-obedecermos e de sairmos ao encontro deles a saudá-los nas ruas e nas praças, ou de irmos a correr participar nas suas liturgias laicas e sacras de mentira, passaremos a fazer como Jesus fez aos fariseus e aos saduceus do seu tempo e país que lhe pediam "sinais do céu": foi-se dali e deixou-os a falar sozinhos. Acreditem. Sem multidões a aplaudi-los, os Executivos que se fazem passar por deuses, desabarão como um baralho de cartas. Mas para isso acontecer, também nós, os povos, temos de deixar de ser gente perversa e idólatra e assumirmo-nos como povos de olhos abertos, cultos, autónomos, senhores dos nossos próprios destinos. Os Executivos sabem disso. E tudo fazem para nos desviarem dessa via, a de Jesus, e nos arrastarem para a deles. Se continuarmos a ir por eles, permaneceremos sucessivamente na Treva, de geração em geração. Fiquemos, porém, a saber que não foi para isso que nascemos e que viemos ao mundo. Todos nós, mulheres, homens e povos, nascemos e viemos ao mundo para sermos outros Jesus, seres humanos em plenitude, com o Espírito de Deus Vivo dentro de nós a guiar-nos para a Verdade-Liberdade total, em redor duma Mesa Comum, feita de muitas Mesas comuns. Está nas nossas mãos escolher. Escolhamos bem. Já é tempo! Não estamos já no século XXI? Porque havemos de continuar a proceder como os antigos homens das cavernas, ou ainda pior do que eles?!
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2008 ABRIL 18
Vêem como eles se matam uns aos outros? Como se apunhalam pelas costas? Os Homens do Poder perdem tudo, a partir do momento em que aceitam tornar-se homens de Poder. Perdem tudo, precisamente, quando pensam que passaram a ter o mundo a seus pés. Nunca mais são Homens, seres humanos. Apenas Homens do Poder, o Inumano-em-acçãol Nem os amigos que antes tinham se mantêm. Quando passam a Homens do Poder, perdem-nos todos, um após outro. Em seu lugar, passam a ter rivais, traidores, espiões, controladores, lacaios, súbditos, judas, sempre à espera duma benesse, duma promoção para os seus, dum emprego, dum favor, duma distinção, duma atenção. E à primeira desilusão, aliam-se logo e pela calada aos seus rivais, e passam a minar-lhes o chão, embora sempre com aquele ar de dedicação fingida, de quem parece ser o mais fiel dos colaboradores. Luís Filipe Meneses, actual presidente do PSD, aí está a confirmar/dizer esta verdade à boca cheia. Ao país estupefacto e incrédulo. Até ontem, fartou-se de dizer que em 2009 iria ser o primeiro-ministro de Portugal, depois de derrotar Sócrates e o PS nas eleições legislativas desse mesmo ano. No seu dizer, eram favas contadas. Ontem, anunciou abruptamente ao país que se vai embora, que desiste, que está farto de ser apunhalado pelas costas. Pelos partidos rivais? Não! Pelos barões e baronetes do seu próprio partido. Invocou, na ocasião, que, além de político (?!) - cá está mais outro a confundir Poder com Política, quando o Poder é sempre o assassino da Política - também é médico e que, nesse estatuto, cumpre-lhe lutar sempre pela vida. Como tal, nunca apunhalou ninguém pelas costas, nem está disposto a fazê-lo alguma vez. Um cordeiro, portanto! Vai daí, prefere ir-se embora. Semelhante candura, saída da sua boca sem escrúpulos e dos seus olhos de raposa - são sempre assim a boca e os olhos dos Homens do Poder - está longe de ser uma desistência anunciada. É sobretudo um hábil convite dirigido aos seus "fiéis" que façam aos seus rivais internos, os barões e os baronetes que o atacam a apunhalam pelas costas, o mesmo que estes lhe têm feito a ele. Os apunhalem também pelas costas. Quanto antes. Então, já sem eles, ele poderá prosseguir como Homem do Poder, aparentemente, de mãos limpas e, sobretudo, sem mais rivais internos. Se isto fizerem, já, verão como ele virá outra vez falar ao país e dar o dito por não dito. Porque, nessa altura, já poderá ser Homem do Poder sem rivais internos, tal e qual como o eng.º Sócrates, hoje, dentro do PS, onde todos os potenciais rivais foram silenciados e apunhalados. Ou simplesmente tratados como bobos da corte. A jogada parece de mestre, mas já é tão velha como o próprio Poder. Não há Poder que se afirme por sucessivos mandatos, sem ser autoritário, absoluto, assassino, sem rivais. Os "fiéis" de Meneses terão ingenuamente descuidado este facto e ainda não apunhalaram suficientemente todos os potenciais rivais dele dentro do próprio partido. Ou o fazem, agora, a todo o vapor, ou Meneses vai-se mesmo embora. Contrariado e desiludido. Mas o que ele verdadeiramente quer não é ir-se embora. O que ele quer é continuar mais poderoso do que nunca, por isso, sem rivais internos. Ou as "bases" que o elegeram em Congresso entendem isto e actuam em consequência, sem mais perdas de tempo e ele comunica ao país que, afinal, não pode abandonar as suas hostes, ou Meneses vai-se mesmo embora. Preparem-se então para assistirmos ao extermínio fratricida dentro do PSD. Quais e quantos os apunhalados pelas costas. Quais e quantos os carrascos que executam as ordens do seu Chefe. Os dados estão lançados. A guerra foi declarada e já está em curso. E vai subir em espiral. É a calamidade do Poder no seu pior. O dramático, em tudo isto, é que o Poder já se apoderou tanto dos seres humanos, das sociedades e dos povos, que nem hoje, século XXI adiante, nós continuamos visceralmente incapazes de pensar o nosso viver colectivo sem ele. É como se o Poder já fizesse parte do nosso ADN. E, no entanto, o Poder é um "demónio", melhor, é "o" demónio. Só que nós, os seres humanos e os povos, nunca demos - alguma vez daremos?! - por isso. E tomamo-lo por uma espécie de histórico anjo da guarda que nos vem proteger e salvar. Ele sempre nos vem perder, roubar a alma, a identidade, o eu único e irrepetível que somos Mas nós, nem perante a evidência dos factos, como este de agora, abrimos os olhos da nossa Mente. Prosseguimos absolutamente incapazes de pensar o nosso viver colectivo em sociedade fora do Poder, da estrutura do Poder. Temos medo de crescer e de nos assumirmos, de alcançarmos a maturidade e a maioridade. O caminho para sermos seres humanos e povos em estado de maioridade é exclusivamente o da Liberdade praticada, nunca o do Poder. Mas nós temos um medo que nos pelamos da Liberdade praticada. E preferimos o Poder que tudo pensa e decide por nós. Preferimos ser escravos toda a vida e, geração após geração, a sermos livres, praticantes da Liberdade. Ora, só Práticas Políticas Maiêuticas nos farão mulheres, homens e povos autónomos, em estado de maioridade e praticantes de mais e mais Liberdade. Mas nós nem vamos por elas, nem toleramos que haja no meio de nós quem vá e defenda que esse é o caminho a ter se ser seguido por nós, por todos nós. A Ordem Mundial imperante é a Ordem do Poder global. Nascemos nela e morremos nela. Sem chegarmos nunca a ser. E ai daqueles que se atrevam a saltar fora dela e a pô-la em causa. São logo acusados de tudo. E, finalmente, eliminados. Jesus, o de Nazaré, é o paradigma do ser humano. É por isso que foi eliminado em três tempos. Felizmente, abriu o caminho, mais, constituiu-se no Caminho, que, se percorrido por nós, nos fará seres humanos integrais, praticantes de Liberdade, por isso, Homens Políticos, nunca Homens do Poder. Ponhamos os olhos nos Homens do Poder, mas descobrirmos o que nunca haveremos de querer ser. Todos eles são os nossos algozes. Os nossos carrascos. Todos eles são o máximo do que há de demónio, de demoníaco, de demente em nós. Todos eles existem para roubar, matar, destruir, enganar, seduzir. E são tanto mais perigosos, quanto, perante nós, vestem de "cordeiro", de "pastor", de "político". Eu disse "vestem". Não disse "são". Porque os Homens do Poder nunca são cordeiro, pastor, político. Só se vestem assim, para melhor enganarem e seduzirem as pessoas e os povos. Jesus, o de Nazaré, nunca se vestiu assim. Pelo contrário, sempre foi assim. Sempre é assim. Constitutivamente. Vejam: "Eu sou o bom pastor". "Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo". "Práticas Políticas Maiêuticas quero, não Poder/Religião/Privilégios". "Ninguém me tira a vida, sou eu que a dou". "Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos seus amigos". "Estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos, isto é, sempre". Connosco, não em nossa vez, como fazem os Homens do Poder que nos tiram/roubam a voz e a vez. Connosco, para que nós sejamos cada vez mais autónomos, em estado de maioridade, praticantes de Liberdade. Entre Jesus, o Homem, e os Homens do Poder, a incompatibilidade é total. Mas nós, nem depois de termos visto em Jesus o Homem em toda a sua plenitude, optamos por ele e por sermos Homens como ele. Em vez disso, continuamos, infantilmente, a escolher os Barrabás, os Herodes, os Pilatos, os Anás e os Caifás, os Sócrates, os Cavacos, os Meneses, os Marcelos, os Aguiar Branco, os Manuela Ferreira Leite, os Bush, os Ratzinger. Apunhalam-se uns aos outros pelas costas e apunhalam-nos a nós também? Tudo lhes perdoamos. Tudo aplaudimos. E, quando chegar a hora, vamos sempre a correr sado-masoquisticamente votar neles. Em nós próprios, é que nunca. Porque a Liberdade tem o que se lhe diga. E nós preferimos os Homens do Poder a governar-nos. Quanto mais mãos-de-ferro, melhor. Deixem-me, por isso, chorar. Inconsolável.
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2008 ABRIL 17
E o Papa Bento XVI, todo vestido de branco, lá foi ontem (ingenuamente?!) pelo seu pé, e rodeado de pompa e de circunstância - não preso e humilhado como Jesus, quando os seus algozes o levaram ao palácio de Pilatos, ao tempo governador da Judeia - à Casa Branca, nos EUA, sem dúvida, a Casa teologicamente mais impura e mais porca do mundo ocidental. E, uma vez lá, limitou-se a falar vagamente de Religião e de Deus, o da Religião, não o de Jesus, que, como sabemos, do que verdadeiramente gosta é de Práticas Políticas Maiêuticas, não de Religião, muito menos de Papas. Antes dele, o anfitrião da Casa, o Presidente mais politicamente demente e genocida do mundo ocidental, G. W. Bush, todo de negro vestido, havia falado de Evangelho, o do Grande Capital que empobrece sistematicamente os povos e os humilha e mata, sempre que achar por conveniente para o florescimento dos seus negócios e dos seus lucros. O sangue gela-se-me nas veias e nas artérias perante tamanha Hipocrisia e tamanha Obscenidade. As fotos que correm mundo, mostram os dois sentados lado a lado, em amena conversa a sós, depois dos discursos da Hipocrisia e da Mentira. Todo eu vomito de enojado. E nem eu próprio sei como ainda consigo escrever, de tão enojado que estou. Foi preciso chegarmos ao século XXI, para finalmente podermos ver o Assassínio e a Mentira vestirem de branco. Disfarçados de puros. De estadistas. De homens de Deus. De homens de paz. De crentes em Deus. Os dois, cada qual ao seu estilo, dissertaram coloquialmente para todo o mundo sobre Religião. Sobre Deus. Sobre Evangelho. Como se fossem homens de bem, a Bondade em intenção e em acção. A Encenação não podia ser mais perfeita. Nem mais atrevida. Nem mais obscena. Os dois chefes maiores do mundo ocidental e com aspirações a serem os chefes do mundo inteiro são, afinal, apenas um só. Os dois num só são o Genocídio feito homem. Um homem com dois rostos: Bush e Ratzinger, Ratzinger e Bush, de seus nomes humanos; Presidente Bush dos EUA e Papa Bento de Roma, Papa Bento de Roma e Presidente Bush dos EUA, de seus nomes de Genocídio, de Crime Organizado e Institucionalizado. Quando um dia, há uns dois mil anos, a Humanidade conheceu Jesus, o de Nazaré, e as suas Práticas Políticas Maiêuticas que sempre libertam e humanizam quem ainda hoje e sempre as acolhe e se deixa fazer por elas, logo proclamou aos povos do Mundo, com incontida alegria, pelo menos naquelas pequenas e frágeis Comunidades de dois ou três que se constituíram por força do seu mesmo Sopro ou Espírito e que viviam determinadas a prosseguir aquelas suas mesmas Práticas Políticas Maiêuticas: "E o Verbo de Deus, a Sabedoria de Deus, fez-se carne, fez-se ser humano e habitou entre nós e connosco. E o seu nome é Jesus! Ontem, na Casa Branca, foi-nos dado ver, melhor, deram-nos a ver exactamente o inverso do que vimos há dois mil anos em Jesus, o de Nazaré. Deram-nos a ver o Abominável por antonomásia. Podemos por isso dizer que ontem o Genocídio/a Demência/o Demoníaco/o Perverso fez-se carne, fez-se ser humano, e está mais activo do que nunca entre nós. E o seu nome, de momento, é G. W. Bush e Ratzinger, os dois como um só. Esta dupla é a abominação da abominação. Por isso, a Guerra do Iraque, com todo o seu macabro e cada mais infindável cortejo de vítimas iraquianas, norte-americanas e mundiais/globais, bem pode prosseguir no tempo, até que não reste mais nem um só muçulmano que resista a ser ocidentalizado. Não só não foi condenada, como abominável, como até passou a contar com a bênção do Abominável feito carne, feito Papa de Roma e Presidente dos EUA. Por isso, o Senhor Deus Dinheiro conseguiu ontem o seu maior feito na História, e que nunca antes havia conseguido. Conseguiu unir num só, fazer uma só carne, Bush e Ratzinger. Mais. Conseguiu fazer-se adorar pelo Papa Bento XVI/Ratzinger e pelo Presidente dos EUA/G. W. Bush. Os dois num só são, de momento, a encarnação-em-acção do Ídolo dos ídolos, o Senhor Deus Dinheiro. Consequentemente, Deus Vivo, o de Jesus, teve ontem a sua maior derrota da História. Nunca antes a vitória do Senhor Deus Dinheiro sobre Deus Vivo, o de Jesus, havia sido tão total, tão completa, tão global. Em Jesus, o de Nazaré, Crucificado pelo Templo e pelo Império, nunca antes nem depois os povos do mundo tinham alguma vez visto Deus Vivo. Ele mostrou-se inteiro e em definitivo em Jesus, o Crucificado. Ontem, porém, na mais obscena das casas, a Casa Branca dos EUA, nós vimos, os povos do mundo viram o seu antípoda, o Senhor Deus Dinheiro, o Ídolo dos ídolos, em todo o seu esplendor idolátrico. Vimos todo o Horrendo, todo o Perverso, todo o Inumano, todo o Cínico, todo o Cruel, todo o Abominável que ele é. Mas, assim vestido de Papa de Roma e de Presidente do Império norte-americano, tão cândido, tão cordeiro, tão sorridente, tão de braços mecanicamente abertos e sempre a acenar, como um boneco articulado, tão aparentemente familiar, tão próximo, e tão uma só carne, como é que, agora, depois de toda esta Encenação, os povos do mundo hão-de chegar a perceber que ele é o Assassínio-em-acção, o Pai-da-Mentira-em-acção, o Abominável-em-acção, o Obsceno-em-acção, o Ladrão-em-acção? Só lhes resta caírem todos de joelhos, a adorá-lo como o seu único Senhor e Deus, fora do qual não há saída, não há salvação para ninguém. A Mentira é, por isso, total/global. A Abominação alcançou o seu ponto mais alto, o cume dos cumes. Foi consumado o Crime dos crimes. Haverá ainda quem, depois de toda esta imensa Noite, de toda esta imensa Idolatria, de toda esta imensa Abominação, de toda esta imensa Treva, ainda se mantenha humano, visceralmente ateu, e/ou praticante da mesma Fé de Jesus, o de Nazaré, num viver feito de Práticas Políticas Maiêuticas? Conta o Evangelho de Lucas que, no caminho para o Calvário, onde seria finalmente executado na Cruz, algumas mulheres batiam no peito e se lamentavam por ele. E que Jesus, o Homem por antonomásia, voltou-se para elas e disse-lhes: "Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos, pois dias virão em que se dirá: Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram". Pois bem, estes nossos dias são já esses dias, de que falou Jesus, o do Evangelho de Lucas. Na verdade, para gerar filhos como estes, Bush e Ratzinger, que, mais tarde, se vieram a transformar, respectivamente, em Presidente dos EUA e em Papa Bento XVI, melhor fora que as mulheres que os geraram e os deram à luz tivesse sido estéreis e os seus peitos nunca tivessem dado leite. Se não é para que os nascidos da Mulher venham a ser, quando crescidos, pelo menos, tendencialmente, outros Jesus, o filho de Maria, mas sim outros Bush e Ratzinger, melhor será então que todas elas sejam estéreis e sem peitos para amamentar. Porque assim é a Abominação das abominações que elas dão à luz e amamentam com os seus peitos. Ai, meus irmãos, Bush e Rattzinger, o que a Trindade do Senhor Deus Dinheiro, do Senhor Deus Poder e do Senhor Deus Templo, fez de vós! E tanto pior, para vós e para os povos de mundo, se nem vós nem os povos do mundo caírmos rapidamente na conta de que tudo isto que ontem vos consumastes perante o Mundo é a Abominação das abominações, a Idolatria das idolatrias, a Mentira das mentiras, o Assassínio dos assassínios. Porque então, a História chegou ao fim e, daqui em diante, será toda ela desumanização sobre desumanização até à desumanização total/global. Digo-vos isto com lágrimas, meus irmãos. Com indignação. E com esperança de que ainda ireis conseguir cair em vós, mudar de Deus e de rumo, deixar o Deus-Ídolo, na sua Perversa Trindade, e regressar ao Deus Vivo, o de Jesus. E, juntamente convosco, também os povos do mundo, a quem, na vossa mais completa Demência e na vossa mais completa Idolatria, estais a conduzir para o abismo.
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2008 ABRIL 16
Elas lá estavam bem juntinhas à chegada do Papa Bento XVI ao aeroporto. As duas bandeiras. A dos Estados Unidos da América (EUA) e a do Estado do Vaticano. As duas como uma só. O presidente Bush e a sua mulher, mais uma filha de ambos, também lá estavam a receber o chefe da maior Igreja do Mundo. Como uma só família. Tudo muito edílico. Harmonioso. Mas tudo encenação. Tudo hipocrisia. Tudo cerimonial de Estado. Tudo postiço. Depois disto, o que quer que o Papa diga e faça nesta sua visita de seis dias aos EUA está viciado à partida. As imagens da encenação à chegada correram mundo. E, na força do seu simbolismo, dizem que as duas potências são como uma só. Não creio que tenha sido descuido, por parte da diplomacia da Cúria Romana. Ela não se descuida. Nunca dá ponto sem nó. Se as coisas foram encenadas assim, foi porque lhe convinha que assim fosse. Os discursos que vierem a seguir e os contactos que se vierem a realizar nesta visita estão, por isso, esvaziados de qualquer força e de qualquer significado, por estas imagens da chegada do Papa. É bom que o Mundo do Poder e do Grande Dinheiro saiba disso e não se preocupe com esta aproximação das duas potências. Não é esse Mundo que está em perigo. Em perigo estão os povos, suas vítimas. É a eles que esta aproximação afecta. E muito. O nosso é o tempo das imagens e estas dizem mais do que mil discursos. O presidente Bush, o louco e o assassino/genocida que desencadeou a hedionda Guerra no Iraque, apresentou-se à chegada do Papa como um homem de paz, cordial, um marido e um pai exemplares. Quem será capaz de lhe dizer, olhos nos olhos, o que profeta Samuel disse ao rei David, o da Bíblia, depois que ele mandou matar Urias, para se apoderar da mulher dele, Tu és esse homem! Tu és o assassino de Urias!? No caso do Presidente Bush, Tu és o genocida, Tu és o que continua a matar, roubar e destruir o Iraque? Que Papa se atreveria a tanto, depois de toda esta encenação à sua chegada? O Estado do Vaticano, presidido na altura do início da Guerra, por João Paulo II, condenou abertamente a invasão, mas foi mais uma condenação para mundo ouvir, sem quaisquer consequências. Ficou bem ao Papa João Paulo II e à Igreja católica, mas nada mais do que isso. Houve quem não quisesse perceber que se tratava duma mera jogada diplomática. E até chegasse a pensar que as relações entre as duas grandes potências estavam em perigo. Puro engano. Tudo foi encenação. Porque a Guerra avançou e o Papa calou-se. O mais que fez depois foi passar a rezar pelas vítimas!!! Nunca foi capaz de um gesto concreto que travasse a Guerra. De certo modo, abençoou-a com a continuação do seu silêncio. Poderia, por exemplo, ter transferido a sua residência para a capital do Iraque, ou para uma das aldeias da periferia da capital, expor-se voluntária e desafiadoramente ao risco de ser bombardeado juntamente com as populações indefesas; poderia ter iniciado um jejum ou mesmo uma greve de fome; poderia ter chamado toda a Igreja a acompanhá-lo nesse jejum ou nessa greve de fome, até que a Guerra fosse suspensa e se regressasse à via negocial, mas nada disto aconteceu. E poderia, agora na pessoa de Bento XVI, depois de todos estes anos de Guerra - porque a Guerra do Iraque continua, embora cada vez mais se fale menos dela! - anunciar o seu desejo de visitar os EUA, mas condicionar a concretização da visita à suspensão da Guerra. Mas nada disto se fez nem faz. Porque o que é bom para os EUA é bom para as outras potências que vivem na sua órbita e na órbita das quais os EUA vivem. Se a Guerra contribui para enfraquecer e dizimar os muçulmanos, pode, indirectamente, dar mais força aos católicos. E estes poderão ver crescer o seu número e a sua influência no Mundo. Se dúvidas houvesse de que, apesar daquela momentânea discordância entre o Papa de Roma e o Presidente dos EUA, o entendimento e a união entre ambas as potências continua(va)m perfeitos, esta visita de seis dias, iniciada com todo este protocolo tão em família e tão cheio de mesuras e de salamaleques, aí está a desfazê-las. Digo-o com dor. Mas alguém consegue conceber sequer a hipótese de que pudesse ser de outro jeito? Não disse Jesus, o de Nazaré, o grande ausente nesta viagem do Papa, que um reino dividido contra si mesmo vai à ruína? Poderiam estas duas grandes potências ocidentais dividir-se entre si e destruir-se reciprocamente? É isto sequer imaginável? Mas se Jesus que assim pensa e argumenta, tão nos antípodas do Papa Bento XVI e do Presidente Bush, fosse incluído nesta viagem, alguma vez ela poderia ter tido lugar? E, se tivesse, poderia ser iniciada com uma recepção como esta? Mas alguma vez Jesus, o de Nazaré, poderia ser convidado para integrar a comitiva do Papa-chefe-de-Estado-do-Vaticano em visitas de Estado como esta? E se fosse e aceitasse ir, não seria de imediato preso pela CIA, à sua chegada, julgado sumariamente, condenado à morte e executado? Quantos norte-americanos, condenados à morte pelos respectivos Tribunais, é que o Presidente Bush já não fez executar na cadeira eléctrica ou com a injecção letal, durante os seus dois mandatos? Não teria Jesus a mesma sorte, se hoje vivesse nos EUA e protagonizasse práticas políticas maiêuticas subversivas e conspirativas como as que realizou, vai para dois mil anos, no seu pequeno país? Matar, roubar e destruir não é a grande especialidade do Império, de qualquer Império, mesmo que já esteja em decadência como este de Bush? O Império não diz sempre: Quem não é por mim, já é contra mim? E aos que estão contra ele, o Império não os mata? O Papa, uma vez em solo norte-americano, confessa-se envergonhado com os crimes de pedofilia de milhares de padres católicos e até de alguns bispos. Fica-lhe bem, mas até essa sua postura é protocolar e hipócrita. Porque não tem a audácia, muito menos a lucidez de dizer que se sente envergonhado com a Lei eclesiástica do celibato obrigatório para os padres e para os bispos. As suas são por isso lágrimas de crocodilo. Não vai às causas do Mal. E ainda cai em cima das vítimas duma Lei anti-natural e inumana que, depois, acabaram a fazer outras vítimas suas também. Por outro lado, o Papa não disse, nem dirá certamente durante toda a visita, que se sente envergonhado com a hedionda Guerra do Iraque. Semelhante dualidade de comportamento parece dizer que a pedofilia praticada por uma grande parte do clero norte-americano é o supremo mal, quando, neste caso, o supremo mal é a própria Lei eclesiástica do celibato obrigatório que está na origem de tudo. E, porque o Papa não é capaz de dizer pelo menos o mesmo em relação à Guerra do Iraque, é como se esta deixasse de ser hediondo crime e passasse a ser uma Cruzada cristã católica contra os "infiéis muçulmanos". Ora, uma Cruzada não é de condenar, nem de se envergonhar dela. É de abençoar, pelo menos, tacitamente e de se orgulhar dela, pelo menos, discretamente. Nem os 81 anos que o Papa Bento XVI hoje completa e celebra lhe dão a sabedoria e o desassombro de se tornar um homem jesuânico. Ele vive tão ofuscado pelo obscurantista brilho do Poder e da idolatria de que é constantemente alvo - até o Presidente Bush está rendido a seus pés, ainda que seja só para Cristandade Ocidental ver! - que fica cego, e dos piores cegos, porque pensa que vê, que é até o que mais vê. Mas é o mais cego. Está, por isso, a levar a Igreja para o barranco. E, com ela, o Mundo, que ainda lhe continua a dar excessiva atenção, pelo menos, na pessoa do papa, enquanto chefe de Estado do Vaticano e da Cúria Romana. Ei-los, o Papa Bento XVI e o Presidente Bush, estes dias, os dois como um só. Os povos empobrecidos e oprimidos do mundo que se cuidem, quando os chefes das duas maiores potências ocidentais comem juntos, rezam juntos ao seu Deus-Ídolo, discursam juntos, mentem juntos, representam juntos. Já foi assim no tempo de João, o Baptista e de Jesus, o de Nazaré. Então, Herodes, pequeno rei com tudo de tirânico, atraiu a si Herodíades, mulher do seu irmão. Juntou Poder com Poder. E porque essa espúria e idolátrica aliança anunciava ainda mais opressão e mais desgraças para o povo já de si tão oprimido e deprimido, esgotado com tantos impostos e com tanta violência, João, o Baptista, que também era profeta - por isso, via, não era cego - não fez como hoje o Papa Bento XVI perante Bush. Foi pessoalmente ao palácio do rei dizer-lhe olhos nos olhos que não lhe era permitido levar por diante uma tal aliança. Herodes estremeceu perante este Homem desarmado e mandou metê-lo na cadeia. O Poder é assim, cruel e sádico, incapaz de conversão. Herodíades foi sabedora desta audácia de João e ficou ainda mais furiosa do que Herodes. A aliança interessava-lhe sobretudo a ela e aos cortesãos oficiais que estavam com ela e com Herodes. E, no dia dos anos de Herodes, João, o Baptista, ficou sem cabeça na cadeia, por exigência de Herodíades. As Igrejas todas têm-nos escondido que João, o Baptista, foi assassinado por razões de Estado. Não por razões moralistas, de um adultério de carácter sexual entre Herodes e a mulher do seu irmão. Nunca elas quiseram entender que o adultério de que se fala no Evangelho está por idolatria-culto-fo-Poder, por infidelidade ao Deus Vivo e ao Povo oprimido. O que afligiu e levou João a intervir, com risco da própria vida, foi constatar que Herodes estava a juntar Poder com Poder. E o Poder concentrado, seja económico-financeiro, seja político, traz inevitavelmente, mais miséria, mais opressão, mais desgraça para os povos. Não foi por Herodes juntar cama com cama que o profeta João se afligiu. Mas por juntar Poder com Poder. A denúncia desse adultério, dessa idolatria, custou-lhe a vida. Precisamente, no dia do aniversário de Herodes, e por exigência de Herodíades. Também esta aliança, este adultério, esta idolatria entre o Papa Bento XVI que faz hoje 81 anos de idade, e o Presidente Bush, por isso, entre o Estado do Vaticano e o Império norte-americano vai nesta mesma linha. O Poder das grandes potências concentra-se, entende-se, casa-se. E dessa sua aliança, só pode resultar mais opressão e mais tirania, mais moralismo, mais guerra, mais genocídio, mais cadáveres sobre a terra, mais destruição. Ou os povos acordam e viram costas aos poderosos, resistem-lhes activamente, ou estão-lhes cada vez mais no papo. Só uma Igreja outra, profética, jesuânica, será a parteira de povos assim. Mas quem está disponível para lhe dar corpo com o seu próprio corpo? Quem está disponível para ser Jesus, hoje e aqui?
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COMENTÁRIOS:
1. Olá, Mário!
Você está chegando cada vez mais perto da questão crucial que é juntar poder com poder! É de estremecer pensando nesta realidade! Como pode alguém se dizer cristão e pactuar com o império do poder? Como pode alguém achar que é cristão ostentando esta vaidade? Como pode alguém querer dirigir uma Igreja, dizendo-a de Jesus Cristo, o Nazareno, fazendo figura ao lado de um genocida? Não consigo mais engolir esta patacoada! Ou assumimos a nossa vida cristã por conta própria, unindo-nos em pequenas comunidades com a presença de Jesus vivo e ressuscitado, ou estamos todos fritos na mesma meleca destes poderosos! Que Deus nos preserve de tal falsidade e injúria! Que tenhamos coragem de caminhar com os próprios pés, de amar com os próprios corações e nos tornar denunciadores de tais aberrações que acontecem hoje no mundo! Façamos a nossa parte e sejamos luz e força nesta pobre humanidade ainda tão dependente!
Meu abraço com estima!
Celia.
2008 ABRIL 15
Quando se entra pelo Poder dentro perde-se a cabeça. Não que se fique sem ela. Fica-se com ela, mas perdida, e, cada dia que passa, cada vez mais perdida. O Poder, além de assassino e mentiroso, é também gerador de loucura, de demência. É inteligente, mas demente. Confunde Sabedoria com Saber. É perito em Saber, totalmente analfabeto em Sabedoria. Quem entra por ele, sempre acaba louco/demente. Na condição de chefe, se for da minoria dos eleitos e vencedores. Na condição de Oposição, se for da minoria dos derrotados. E na condição de capacho, ou abaixo de capacho, se for do número hoje quase incontável das suas vítimas. Aos derrotados na luta por ele, o Poder não os mata, como antigamente, por exemplo, no tempo do rei David, o da Bíblia e, mais tarde, no tempo dos Césares de Roma. Hoje, o Poder "civilizou-se" e não mata os derrotados na luta por ele. Reconhece-lhes o estatuto de "Oposição". E paga-lhes para o serem. Não lhes paga tanto como aos vencedores, mas ainda assim o bastante para seduzir os derrotados a aceitarem ser Poder derrotado, na Oposição. Há quem passe a vida inteira, depois que se meteu a lutar pela conquista do Poder, na condição de Poder derrotado, com o estatuto de "Oposição". Podiam ser árvores de fruto, a vida inteira, discretos e fecundos entre as vítimas e com elas, mas preferem ser espinheiros, a vida inteira, frenéticos e estéreis. O Poder derrotado é o que há de mais trágico-cómico. Porque vê a maçã do Poder ali diante dos olhos, quase ao alcance da mão, mas, quando vai para a agarrar, ela foge-lhe do alcance e mantém-se na mesma distância de sempre, sedutora, mas inacessível. As frequentes sondagens que o Poder manda fazer, para dar o ar de que ouve as inúmeras vítimas dele, dizem, mês após mês, ano após ano, que os derrotados do Poder lá estão, figuram no quadro, mas na condição de Poder derrotado e no estatuto de Oposição. Bem pagos, por sinal. Não sei quantos salários mínimos, mês após mês, enquanto as vítimas do Poder, tanto do Poder vitorioso, como do Poder derrotado, uma grande parte delas nem um salário mínimo por mês tem para viver, juntamente com a sua família, quase sempre mais numerosa do que a família dos que são o Poder, vitorioso ou derrotado. Essa pode ser uma, entre muitas outras razões, que explicam porque sempre houve homens - e, hoje, também cada vez mais mulheres - que se pelam por ser Poder. E, se não puderem ser Poder vitorioso, pelo menos, Poder derrotado, na Oposição. O que perdem em humanidade, em verticalidade, em dignidade, em liberdade, em honra, em honestidade, ganham em privilégios, em gordos salários, em mordomias, em ajudas de custo, em prestígio de Estado, em influência. Se são Poder derrotado, na Oposição, também têm de tudo isto, mas um pouco menos, e ultimamente, como o Poder vitorioso nunca dá ponto sem nó, começam a ser, aqui e ali, publicamente desrespeitados e humilhados pelo Poder vitorioso, inclusive, tratados por "um bando de loucos", como acaba de fazer o impagável Alberto João Jardim, já tão politicamente bestializado por anos e anos de exercício de Poder vitorioso, que se permite tratar o Poder derrotado, no estatuto oficial de Oposição, tal e qual como trata todas as suas inúmeras vítimas, que nunca tiveram voz nem vez, apenas votam no seu carrasco, de mandato em mandato, a troco do que ele lhes dá para que possam continuar a sobreviver como vítimas suas e escravos seus, todos os dias. As suas vítimas e os seus escravos são-no tanto e em tão alto grau, que ainda por cima acham graça e até aplaudem tudo o que ele diz e faz. Nas suas frustrações e humilhações sem conta, geração após geração, as vítimas e os escravos já há muito que perderam a capacidade de SER. De humanos, só lhes resta o corpo. A identidade há muito que o Poder lha roubou. Resta-lhes apenas a condição de bestas de carga, vítimas humilhadas, escravos que de vez em quando se divertem em dias e horas e locais agendados ao longo do ano para esse fim. De resto, o seu papel é apenas esse. Achar graça a tudo o que o seu chefe diz e faz, votar nele enquanto ele entender que há-de manter-se pessoalmente como Poder vitorioso, e aplaudi-lo nas ruas sempre que ele aparecer a inaugurar mais uns sanitários ou uns infantários ou umas escolas, onde os filhos das vítimas e dos escravos são preparados/mentalizados/domesticados/amestrados para continuarem em tudo iguais aos seus pais e mães, que para isso, é que existem todas essas instituições financiadas pelo Poder vitorioso, o mesmo que também financia o Poder derrotado, para que ele seja Oposição. Domesticada, já se vê. Educada, já se vê. Amestrada, já se vê. Civilizada, já se vê. Ou assim, ou são um bando de loucos, no dizer impune do Poder vitorioso e em exercício. O que mais me dói em todo este carnaval do Poder vitorioso e derrotado na Madeira é ver homens que em tempos foram uma luz, porque homens, simplesmente, não Poder, metidos hoje neste bando de loucos que acabam por ser todos os que se deixam seduzir pelo Poder. Os mais loucos de todos, ainda que nunca se reconheçam como tais, são, obviamente, os do Poder vitorioso, no caso em questão, Alberto João Jardim, depois o presidente Cavaco Silva, cujo passeio de Estado à Região, suportado financeiramente por todos nós, fez despoletar todo este vomitado político que nos arranca as tripas e que, como Poder vitorioso que é, o maior no país, em tudo isto limitou-se apenas a tentar apaziguar as partes em confronto, não vá acontecer que as suas vítimas e os seus escravos se dêem conta de que o Poder vitorioso e derrotado, além de ser assassino e mentiroso, também enlouquece quem se deixa seduzir por ele e o serve como vitorioso ou como derrotado. E, finalmente, o próprio primeiro-ministro José Sócrates que assobia para o ar, impante de satisfação, porque bem sabe que, com com estas e com outras distracções, quem mais beneficia é ele e a sua demência política cada vez mais acentuada e também cada vez mais insuportável. Entre esses homens que já foram luz, antes de serem Poder, o chefe do Poder regional da Madeira citou o nome do Pe. Edgar e fez questão de o chamar exactamente assim, num manifesto propósito de o humilhar ainda mais. Não suporta que ele represente no Parlamento regional o PCP, o Poder eternamente derrotado e por isso eternamente Oposição ao Poder vitorioso e à espera de ser um dia Poder vitorioso. Sobretudo, não suporta a Luz que ele foi, antes de se ter tornado Poder na Oposição. Ao ouvir o seu nome pronunciado pela politicamente conspurcada boca do chefe do Governo regional da Madeira, fiquei com saudades do tempo em que o Pe. Edgar, ainda em exercício presbiteral, era próximo dos miúdos das "Caixinhas", uma presença política maiêutica como a de Jesus, o de Nazaré, que ameaçava pôr o Arquipélago da Madeira de pernas para o ar, tal a força simbólica e de sinal que o Movimento estava a adquirir na Região, nomeadamente, junto dos inúmeros turistas estrangeiros que sempre a visitam. A jogada do Poder para matar o Movimento e o Sinal que ele começava a ser cada vez mais pode por isso dizer-se que foi genial, dentro, obviamente, da genialidade perversa e demente em que o Poder é sempre perito. Em vez de matar fisicamente o Pe. Edgar e, assim, decapitar o Movimento, como fez o Império romano com Jesus, o de Nazaré, aliciou-o a ser Poder derrotado na Oposição, nas fileiras do PCP. E ele aceitou,