2007 ABRIL 27
Acabo de viver duas experiências que dificilmente esquecerei.
1. Ontem, participei na gravação de um programa de rádio – o velhinho Rádio Clube Português, agora em acelerado rejuvenescimento – sobre o meu último livro SALMOS. VERSÃO SÉCULO XXI. O programa vai para o ar no próximo domingo, pelas 22 horas. “OCULTO”, é o nome genérico do programa, mas no que me diz respeito procurei pôr tudo em pratos limpos. Os dois jornalistas que conduziram a conversa, durante cerca de uma hora, a partir dos estúdios de Lisboa (eu estive sozinho no estúdio do Porto), mostraram-se radiantes e surpreendidos, para não dizer edificados com os salmos do livro e puxaram por mim quanto puderem, nomeadamente sobre três temas: o livro e os 50 SALMOS neles incluídos, os quais, que aos ouvidos de muitas pessoas – freiras, frades, bispos e padres incluídos, e em especial – mais parecem blasfémias do que momentos de louvor e de intimidade com o Tu totalmente Outro que é a Fonte de todo o Ser e de todo o Dizer; sobre a Igreja de Bento XVI, enquanto poder oculto ou às claras no mundo deste início de milénio e, concretamente, sobre a minha posição pessoal relativamente à existência de um papa e deste papa concreto na Igreja; e, finalmente, sobre o inevitável tema de Fátima que quase já me irrita, precisamente por não ser tema, por não ser nada, por não passar do maior embuste e da maior mentira que a Igreja católica do século passado produziu e conseguiu colocar com intrigante sucesso – há sucessos que são rotundos fracassos e o de Fátima é um destes – como manchete em muitos media não só do país mas também de outras partes do mundo e que agora nem ela sabe como se há-de ver livre do monstro que criou e que está a devorá-la por dentro, assim como ao Cristianismo de Jesus. Por este andar, o monstruoso sucesso ainda acabará por não deixar da Igreja pedra sobre pedra, para lá do que ela já hoje começa aflitivamente a ser, a instituição religiosa mais antiga onde os velhos e multifacetados Paganismos politeístas do Império romano conseguiram sobreviver e, através dela, conseguiram chegar praticamente a todo o orbe e a toda a urbe, não sem antes, o mesmo Império romano, em aliança com o Templo de Jerusalém, ter feito crucificar pelo ano 30 da nossa era, como o maldito dos malditos, Jesus, o de Nazaré, e, desde então para cá, os dois juntos – o Templo tornado católico e o Império tornado cristão – tudo terem feito para o manterem para sempre crucificado em todo o tipo de cruz, de pedra, de ouro, de marfim, de prata, de madeira, e – crime dos crimes – crucificado ao vivo em milhões e milhões de seres humanos, mulheres e homens de carne e osso, num incontável número diário de vítimas humanas que ambos produzem e depois hipocritamente beatificam e até canonizam. De resto, sempre numa cruel fidelidade àquele demoníaco princípio dos fariseus de todos os tempos, também dos fariseus contemporâneos dos antigos profetas bíblicos que, por não suportarem as suas práticas libertadoras e denunciadoras, rapidamente os constituíam em réus de morte e malditos assassinados, numa liturgia sacrificial que os filhos deles, herdeiros dos lugares e dos privilégios se apressavam a consumar, ao fazer-lhes erguer túmulos, os mais sumptuosos e também os mais hipócritas, sobretudo, se tivermos em conta que, enquanto erguiam túmulos aos profetas amaldiçoados e assassinados pelos pais deles, eles próprios não se cansavam de fazer outro tanto aos profetas seus contemporâneos que tanto os incomodavam com as suas práticas libertadoras e denunciadoras.
O programa já gravado e que vai para o ar domingo à noite vai ser uma saudável bomba, porque nele a palavra continua à solta no meu peito e na minha mente, no meu olhar e na minha boca. Pois que para isto nasci e vim ao mundo, para dar testemunho da verdade, não na necrófila postura dos cruzados que impõem a (sua) Fé a ferro e fogo, mas na biófila postura de um menino que, na sua fragilidade, diz o que o Sopro ou o Espírito quer que seja dito, ainda que muitos não se agradem ao ouvir e muitos outros se agradem, mas porque pensam que as palavras ditas não lhes são dirigidas também, apenas a certos senhores que ocupam lugares de privilégio. Desconhecem que a profecia é um serviço que ninguém escolhe nem se aprende em seminários ou em universidades. É um serviço a que não vemos como escapar e que temos de realizar, no jeito de Paulo de Tarso que dizia, “Ai de mim se não evangelizar!”. O Espírito de Deus é assim e sempre que encontra alguém a jeito faz dele, dela outro Jesus, o Homem por antonomásia.
Bem sei que os meus irmãos bispos e os meus irmãos presbíteros não fazem caso do que lhes digo, vivem de orelhas moucas para tudo quanto eu diga ou escreva e fecham os olhos a tudo quanto eu faça à Igreja e à Humanidade. Mesmo assim, não deixo de agir e de falar, de amar e de servir. É este o meu especial jeito de viver o ministério presbiteral. Um jeito incómodo, que preferia não ter de realizar, mas não sou capaz de resistir ao Espírito. E se Ela/Ele me diz que fale eu falarei, que para isso é que Ela/Ele me deu língua de discípulo e jeito de menino. É grande a minha Paz e a minha Alegria, mesmo no meio de incompreensões sem conta e de desprezos, os mais impensáveis. Prosseguirei. E é assim que mais uma vez vou aparecer neste programa OCULTO, tal como apareço no livro SALMOS, VERSÃO SÉCULO XXI.
Tomara que a minha voz chegasse a todas as pessoas, as todas as casas, a todas as línguas. Porque a Verdade é como um menino, uma menina, a verdade é que nos faz livres e, se não chegamos a ser livres, para que nascemos nós? Confundem muitas pessoas, sobretudo, de formação católica e cristã evangélica que ser livre tem a ver com santidade, com virtude, com cumprimento do dever, com devoções, com piedade, com bom comportamento, com obediência, com respeito pelo estabelecido, numa palavra, com moral(ismo). Nada mais falso e equivocado. Liberdade, segundo Jesus, tem apenas a ver com a Verdade. “Amai a verdade que a verdade vos fará livres”. Tudo o mais sem a liberdade é esterco, é lixo. De nada aproveita. O mais que consegue produzir são fariseus. Da Liberdade todos os ditadores têm um medo que se pelam. E querem fazê-la passar por santidade, por virtude, por obediência, por vassalagem, por respeito pela ordem instituída. Todos os tiranos e ditadores são assim. Porque não são livres nem suportam a liberdade. Fogem da Verdade como o ladrão da Luz, porque são más as suas obras.
Não assim as pessoas livres. As pessoas livres habitam a casa da Verdade. Vestem-se de verdade. E a verdade é que as faz livres. Lá onde há pouca verdade, onde há mais virtude (farisaica), mais autoridade, mais obediência, mais lei, há menos pessoas livres. Há freiras. Há frades. Há súbditos. Há párocos. Há bispos residenciais. Há cardeais. Há chefes. Há ministros. Há poder. Há vassalagem. Não há pessoas livres.
Felizmente, vivo como um menino. Sou um presbítero da Igreja do Porto à solta. O meu desejo maior é que todos os meus irmãos sejam como eu, livres como eu, tão à solta quanto eu, tão responsáveis quanto eu, tão alegres quanto eu, tão livres quanto eu. O resto – acreditem – vem por acréscimo. E sem sermos livres, tudo o que possa vir é peso, é esterco, é lixo. É opressão, tanto pior se sob a forma de virtude. Já foram assim os fariseus do tempo de Jesus. Uns infelizes que infernizavam a vida de toda a gente!
2. E com esta reflexão passo já a relatar o outro episódio que vivi esta semana e que não mais esquecerei. A convite do meu amigo Armando, director de O ARRIFANA, fui almoçar a um restaurante da terra de Miguel Torga, próximo de Vila Real, quase ao lado da casa onde ele nasceu e habitou. O seu amigo e confidente Pe. Avelino completava 93 anos e o restaurante ofereceu-lhe o almoço e aos amigos que se lhe juntassem. Fui um dos felizes contemplados. Não apenas pelo almoço que foi uma delícia, mas sobretudo pelas horas de humanidade que pudemos saborear e que são sempre muito mais saborosas que os mais saborosos manjares. Abracei o Pe. Avelino e revi-me antecipadamente nos seus felizes e meninos 93 anos. Cantei para ele, “Quando for grande vou ser / quero ser como um menino / convidar prá minha mesa / quem p’lo mundo é desprezado / acabar com a pobreza / quero ser como um menino”. Escutou-me surpreso e tornou-se ainda mais menino naqueles seus olhos de sol e naqueles braços sempre abertos que soltam as pessoas mesmo quando as apertam no abraço que dão quente e saboroso.
Umas simpáticas senhoras amigas do Pe. Avelino juntaram-se à mesma mesa e em lugar de duas mesas, fomos uma só. Aconteceu Ternura, Emoção, Lágrimas de festa, Canto, Poema. Tudo à mistura com o bacalhau com natas e os medalhões do céu que nunca encontrei tão tenros em mais local algum do mundo. Só mesmo ali, no Restaurante Constantino, nome de homem, mas restaurante de casal, ela um sol que ri mesmo em dias chuvosos como o do aniversário e que nos aquece a alma, mesmo quando Abril que um dia sonhámos e cantámos anda por aí já aos caídos. Um restaurante que é o nosso Portugal, no seu melhor.
O dia merecia ter sido todo assim. De Festa e de Poema. De Humanidade. Mas não foi. Porque, à chegada ao restaurante, fui apresentado a dois párocos novos, o mais novo dos dois, pelos vistos será até o “sucessor” do Pe. Avelino, já em merecidíssima reforma eclesiástica e em liberdade. Corri para eles, mas eles olharam-me mais nos pés do que nos olhos. E nem sequer foram capazes de se associaram à festa do Pe. Avelino, certamente para não serem acusados pelos seus pares de paroquialidade de andarem em más companhias, nomeadamente, mulheres sem marido e padres sem ofício pastoral oficial, ou de comerem sem primeiro lavarem as mãos.
Quando me disseram que eram padres – nem era preciso, porque a pinta dizia tudo – desfiz-me em ternura e fogo fraterno com cada um, para ver se conseguia que lá dentro o coração deles descongelasse e eles viessem juntar-se à nossa única mesa. Em vão. Meteram-se a comer o seu almoço, na ânsia de quem satisfaz necessidades fisiológicas. Deu para perceber que por ali os afectos ainda não vão à Mesa Partilhada. Por isso estes padres-párocos preferem os Altares solitários rodeados de mulheres zeladoras ou serventes, nada de irmãs de Evangelho, companheiras de comeres e de beberes e de dizeres. A Pureza de coração e de Olhar, de que tanto falam Jesus e o seu Espírito, também não parece conhecer aqueles corpos clericais. Petrificou-se quando os seus corpos foram obrigados pelo Ritual da Ordenação a deitar-se sobre o lajedo da catedral. Lá se foram os afectos. Ainda podem ter ficado necessidades que agora se confundem com afectos, mas que de afectos não têm nada, muito menos têm algo a ver com o dinheiro com que porventura eles pagam a sua momentânea satisfação aqui ou ali. Uma desgraça!
Mesmo assim, atrevi-me a ir buscar dois exemplares do meu novo livro SALMOS, VERSÃO SÉCULO XXI e sentei-me ao lado deles, enquanto os via comer. Mostrei-lhos, como um pai mostra o filho que lhe acabou de nascer. Dei testemunho vivo, de olhos faíscantes. Disse-lhes que dentro das suas páginas vai a Fé que hoje anima e dá sentido à vida e me mantém presbítero da Igreja do Porto. E, sobretudo, vai a revelação do Deus em quem eu creio e que me faz ser assim como um menino.
Nunca consegui que me olhassem nos olhos. Ou me tocassem, nem as mãos. Eu tocava as deles, abraçava-lhes os ombros, sobretudo, àquele ao lado de quem me havia sentado. Nunca consegui que me sorrissem. Ou que se alegrassem pela oportunidade de me terem ali ao seu lado. Disse-lhes como nasceram estes Salmos E da sua importância para este nosso tempo de generalizado ateísmo e de generalizada idolatria. Li-lhes uns versículos do salmo 23, para que eles vissem a diferença entre esta versão século XXI e a versão que está contida nas Bíblias tradicionais. Não consegui um olhar, um apoio, uma palavra, um estímulo. Pareciam dois penedos. Dois Pedros, duas Pedras sobre os quais se edifica esta espécie de Igreja dirigida por clérigos celibatários à força e acabados de formar como executivos na faculdade de Teologia da Universidade católica.
Percebi, perante eles, ainda mais claramente que a Igreja de Jesus não tem clérigos por fundamento. Tem-no a ele, Jesus, o de Nazaré, por fundamento, e à Ternura, casada com a Misericórdia. Respira Graça e Verdade. É Reino de liberdade.
Já quase em desespero de causa, porque não conseguia arrancar-lhes nada de humano, eis que inesperadamente o mais novo dos dois, sempre de olhos no prato, deu ares de que iria dizer alguma coisa. E disse. Isto: Fique lá com os seus SALMOS VERSÃO SÉCULO XXI, que eu prefiro continuar a rezar os salmos que estão na Bíblia.
Olhei o colega dele, um rosto menos durão, mais humanizado, a ver se me dizia outro tipo de discurso ou o mesmo. Não disse nenhum. Ficou tímido, sem audácia. E eu, já sem saber como sair da situação que eu próprio havia criado, sugeri que lhes deixaria os dois exemplares sobre a mesa até final do seu almoço. Que os manuseassem se quisessem e reflectissem melhor o que fazer. Não se opuseram, mas também não anuíram abertamente à minha sugestão. E dirigi-me para a mesa de aniversário, onde me esperava um lugar ao lado do Pe. Avelino, rosto de menino, cheio de afecto.
Dali, dei-me conta que o mais velho dos dois ainda acabou por folhear um dos livros. Mas a verdade é que, quando ambos concluíram o almoço, limitaram-se a entregar os exemplares ao dono do restaurante e saíram porta fora sem sequer se despedirem de mim, nem tão pouco do aniversariante, o conterrâneo deles, Pe. Avelino.
Eis a Igreja católica do século XXI. No seu pior! Pobre povo que tais clérigos tem como pastores. Ou deixa-os a falar sozinhos, ou acabará tosquiado de tudo, sobretudo, da sua própria humanidade e até da sua dignidade. Fujam, povos, a sete pés destes clérigos executivos que a Universidade católica e a Opus Dei estão a formar. Em alternativa, reúnam-se à volta de Mesas Partilhadas em nome e em memória de Jesus, o de Nazaré. E conspirem com ele e como ele.
Acreditem, o Restaurante Constantino, do casal Constantino é muito mais Igreja que todos esses templos paroquiais geridos por clérigos assim celibatários à força e educados/amestrados para serem executivos às ordens de bispos residenciais sem afectos, autoritários, bem nos antípodas dos homens e das mulheres livres! Por alguma razão eles não abandonam nunca o báculo e o anel, nem depois do Concílio Vaticano II. Bispos ou Episcopus? Irmãos, ou Poder? Seres humanos, ou gestores? Homens que se fazem próximo dos demais seres humanos, ao jeito do samaritano, ou estéreis eclesiásticos como o sacerdote e o levita da parábola mais anti-clerical que Jesus contou no Evangelho de Lucas (cap. 10)?
2007 ABRIL 20
Conta a última edição do órgão oficioso da Diocese do Porto que a noite de Vigília Pascal da Igreja que está no Porto foi toda atravessada pela liturgia do Ritual de Baptismo de Adultos, a menina dos olhos do meu amigo e irmão no presbiterado, Pe. Leonel Oliveira que é o responsável, desde há anos, pelo Centro Catecumenal diocesano. Os números de baptizandos não foram por aí além, o que só abona a favor da iniciativa que não se há-de querer de massas, mas de elites no sentido mais evangélico e jesuânico do termo, e no sentido que lhe dá o próprio Espírito Santo. Ao que relata o cronista, foram baptizados sete adultos que também receberam o Crisma e fizeram a primeira comunhão 18 jovens que tinha sido baptizados na infância e seis adultos receberam o Crisma.
O Pe. Leonel terá sido o mais entusiasta de todos os intervenientes, por isso, aquele que estava mais cheio do Espírito de Deus Vivo. Só um homem da mesma Fé de Jesus como ele felizmente tem dado sobejas provas de ser, neste deserto eclesiástico de funcionários e de comerciantes de Deus mais ou menos zelosos, é que é capaz de gastar o melhor dos seus meses do ano a acompanhar mulheres e homens à beira de assumirem a sua plena cidadania política na sociedade e na Igreja, em lugar de se consumir como a maior parte dos demais clérigos em actividades que não acrescentam um côvado à dimensão da Fé jesuânica de ninguém, antes lha roubam até deixarem as pessoas completamente sob o jugo dos novos ídolos, os religiosos e os seculares, todos à compita num mundo de bruxaria e de cretinice que é no que ultimamente está a tornar-se a fé católica em Portugal, orquestrada via tvs por gurus, solnados (com perdão para o pai Raul, meu querido e prezado amigo), cartomantes e padres cantadores ao desafio em tom pimba, sem um pingo de prática jesuânica, daquela que liberta e nos faz de maioridade.
Aquele "Dai de graça o que de graça recebestes", palavra de ordem de Jesus aos que partem em missão, tem muito que se lhe diga, mas os que se têm hoje na conta de pastores fazem outras contas e aritméticas e, no final, saem todos a ganhar tanto em santidade farisaica, como em carros topo de gama e em férias em zonas até há pouco reservadas aos artistas de cinema. Afinal, os bons empregos também estão à espera dos jovens católicos que frequentam a universidade católica e cursam teologia como outros companheiros cursam direito ou economia. O casamento ainda não é um dado adquirido no mercado clerical, mas não faltará muito para que lá se chegue também. E a Fé de Jesus a quem ainda interessará? Negócios em nome de Jesus, muitos e bons, sinal de bênção de Deus, pois claro, do Deus-Dinheiro, já se vê, mas que outro Deus interessa a quem frequenta a universidade católica a pensar numa boa carreira eclesiástica, porventura, bispo, núncio apostólico, cardeal, talvez papa?
O cronista referiu o nome do Pe. Leonel, sim, mas depois nunca mais ele se viu por ali. Toda a atenção foi para o novo Bispo Manuel Clemente, o do Porto, que deixou Lisboa como auxiliar, coisa corniqueira de carreira eclesiástica, já se vê. Não é assim? Perdão, então, se interpretei mal os sinais exteriores que os media na altura da transição de Lisboa para o Porto não se fartaram de mostrar para bom entendedor... E o que quereria dizer aquele báculo bem comprido na mão do bispo todo sorridente e também aquela espécie de "capacete" episcopal que ele ostentava na cabeça, sem que nenhum dos que os aclamavam nas suas pudesse utilizar também, nem sequer como palhaço? Disponibilidade para servir? Disponibilidade para lavar os pés aos pobres da cidade e aos homens da Rua, aos de Emaús, por exemplo? Mas onde estavam estes homens que ninguém os viu por ali e ninguém os procurou para lhes levar os pés de facto?!
A verdade é que o Bispo Manuel Clemente veio de auxiliar de Lisboa a titular do Porto. Agora tem mais poder. É cabeça de Igreja, embora a teologia cristã insista em dizer que a única cabeça da Igreja é Jesus, o que crucificaram, não o outro, o que colocaram, como chefe dos deuses no panteão dos ditos em Roma, para que aí dominasse todo o mundo. As palavras que se registaram foram do bispo, não do pe. Leonel, coisa que me deu um aperto na alma, mas os eclesiásticos maiores têm destas coisas. A Ordem sobe-lhes à cabeça e ficam logo com o exclusivo da palavra, em lugar de adquirirem, como o profeta Isaías, língua de discípulo. Há lá coisa mais bela do que um bispo no meio de uma assembleia a escutar, a ser evangelizado, a ouvir sugestões e a registar compromissos? Em vez disso, lá vêm nas crónicas as habituais banalidades, os narizes de cera, as coisas nenhumas, bocas cheias de nada. Uma tristeza. Nem em Vigília Pascal a palavra andou à solta. E, se nem nessa noite, que deveria ser uma noite de embriaguês do Espírito Santo, então quando é que isso sucederá?
Não me acusem de dizer mal. Não digo mal; reproduzo o cronista de serviço do órgão da diocese do Porto. Mas não se pense que noutras catedrais do país e da Europa foi diferente. Não pode ter sido. Porque quem diz catedrais diz cátedra e quem diz cátedra diz catedrático e quem diz catedrático diz professor, mestre, o que tem a última palavra numa assembleia de analfabetos e de ignorantes em teologia...
E de Jesus, o Crucificado, quem falou nessa noite?? Quem testemunhou? Pelos vistos ninguém. Aquilo era euforias por todos os lados. E só. Nada de memória subversiva e conspirativa. Jesus está morto e bem morto. O Império e o Templo sabem bem o que fizeram e silenciaram-no para sempre. Agora, falam dele, mas como de um vago Cristo de Deus, sem projecto político, sem Reino de Deus em construção, sem Economia, sem Política, sem Ecologia, sem Pobreza/Riqueza, sem Mercado, sem Tirania. É tudo muito lihgt, tudo muito sem dor, tudo muito sem entrega da própria vida.
Ninguém ali disse que aquela é a Noite em que o Velho Império e o Velho Templo ruíram, caíram e deles não ficou pedra sobre pedra. Ninguém disse que Jesus, ao ser assassinado, fez explodir o templo e o Império, os sacerdotes que se governavam à sua pala, e até a Lei de Moisés. E que por isso, esse é, desde então, "o primeiro Dia da Semana", o da Nova Criação, onde a Liberdade e a Maioridade estão já na ordem do dia e quem quiser ser mulher/homem que se chegue à frente, porque o Espírito ou Sopro de Deus é por aí que avança, imparável. Procura adoradoras, adoradores em espírito e Verdade, longe dos templos e dos altares, longe dos eclesiásticos e dos clérigos, próximo dos ateus e dos agnósticos, numa palavra, todos quantos gostam de ser simplesmente humanos, em estado de maioridade, responsáveis, autónomos, numa palavra, do mesmo jeito de Jesus, o de Nazaré, por isso, presenças continuamente subversivas e conspirativas.
Os Bush e os Blairs, os Barrosos e os Sócrates que se cuidem. O chão está a fugir-lhes de debaixo dos pés. A Páscoa é o primeiro Dia da Liberdade, da Maioridade, da Graça, da Sororidade/Fraternidade, da Política. A Propriedade Privada explodiu na Morte de Jesus e em seu lugar congregou-se a PROPRIEDADE PARTILHADA, A MESA COMUM, COMUNHÃO. O AMOR.
Não vemos esta maravilha? Como a poderemos ver, se o Império e o Templo continuam aí a ocupar o lugar da Besta, numa operação de publicidade ininterrupta, e como se fossem eles o Deus que a tudo preside, em lugar de reconhecerem o Cordeiro que é Jesus, o ser humano por antonomásia que levou até ao limite e para lá do limite o seu amor aos seres humanos sem excepção, numa sororidade/fraternidade que abarca todos os povos e línguas e culturas e nações?
O texto que se segue de imediato é o que escrevi como texto de abertura para a edição n.º 165 on-line do Fraternizar. É uma mensagem de ternura e de paz. A pensar sobretudo no meu irmão Bispo Manuel Clemente e na minha Igreja local da qual sou presbítero ordenado. Estas palavras que a precedem e muitas sã leiam-nas como um complemento e como uma partilha teológica. Felizes as que os que hoje e aqui, vivermos a mesma Fé de Jesus. E como ele explodirmos em Páscoa, em PASSAGEM de Deus no mundo. O resultado só pode ser o mesmo: Que desapareça depressa o Império e o Templo, mai-la a sua ordem mundial perversa e homicida. E chegue o Hoje de Deus Vivo que é Jesus, o Ressuscitado. E nós, suas irmãs, seus irmãos, juntamente com ele e com todo o Universo. Vem, Senhor Jesus! O que sucederá, quando a sororidade/fraternidade e a Liberdade e a Maioridade forem tudo em todas, todos.
PÁSCOA COM NOVO BISPO MAS UM POUCO LIHGT
A Diocese do Porto teve bispo novo na Páscoa de 2007. Melhor fora que tivesse tido também bispo profeta. Foi o que o Fraternizar mais desejou, mas ainda não se viu. As entradas foram as habituais, mais do mesmo, simplesmente. O que é pena. E com todos os acólitos dos diversos poderes a chegar-se todos à frente para serem bem vistos pelos homens e sobretudo pelos media. Por mim, não estive presente, o que diz bem com a minha opção de presbítero da Igreja do Porto a viver longe dos templos e dos altares. Uma opção mais do que legítima, por sinal, bem mais legítima do que a dos meus outros irmãos que fazem questão de viver dentro dos templos e sobre os altares, coisa que Jesus, o de Nazaré, como se sabe nunca fez e sempre recusou para os seus discípulos, as suas discípulas.
Ter Bispo novo na Páscoa poderia ter significado ter tido uma Páscoa outra, bem mais jesuânica. Infelizmente, também não aconteceu. Pelo menos, a julgar pelo que nos disseram e não disseram os media, inclusive os da diocese. Houve gestos novos, palavras não muito batidas, discursos com um certo ar de despreocupado e de algum simplismo. Tudo demasiado light para o Espírito de Jesus, que é Ternura e Misericórdia e, por isso, é espada de dois gumes, nomeadamente, quando se trata de se pronunciar sobre economias e políticas que produzem pobres em massa e pobreza em doses de crueldade humana, como hoje notoriamente acontece nosso mundo.
O nosso Bispo Manuel Clemente é novo na casa, na Igreja local. Caiu aqui sem que ela o tivesse escolhido. E ele sabe que isso é uma fraqueza. Pode ser querido, mas também poder ser preterido. Por mim, desejo que se torne querido. Que se saiba fazer amar. Não será fácil. Tem pela frente um mundo de mulheres e de homens que já não vão muito em coisas de bispos nem de párocos católicos. O que, em meu entender, é bem saudável. Saiba o Bispo escutar as razões subjacentes aos actuais e generalizados ateísmos e aos actuais e generalizados agnosticismos. Porque têm muito a ver com as injustiças estruturais que a nossa Igreja católica continua a cometer contra as mulheres, contras os padres a quem obriga a viver tantas vezes hipocritamente um celibato cruel que tem por pai o Diabo, não Deus, o de Jesus, muito menos o Espírito Santo.
Daqui, desta aldeia de Felgueiras que, desde os idos de setenta, se tornou num lugar teológico do Deus que gosta de Política e não de Religião, e desta casinha alugada onde vivo, aqui traço o meu abraço de Paz e de Bem-Vindo. Do Bispo Manuel Clemente é também agora a minha Mesa Partilhada. O meu Pão Partido. O meu Vinho Derramado. Numa palavra, o meu afecto de irmão. Quando por aqui vier, espero que não se faça acompanhar de nenhuma imagem da mítica senhora de Fátima. Venha simplesmente na companhia Jesus, o de Nazaré, esse mesmo que os Sacerdotes do Templo e os grandes do Império de Roma crucificaram, como o maldito. Traga também Maria, a de Magdala. E, com ela, virá certamente também a outra Maria, a de Jesus, a quem Maria de Magdada evangelizou, assim como evangelizou Pedro e os outros dos Doze!
Mesmo que não se faça anunciar antecipadamente, o Bispo tem sempre um lugar à minha mesa de padre pobre e de jornalista reformado. Comeremos do que houver e, sobretudo, comeremos o Pão de Deus Vivo ou do Espírito, o Pão Teológico que é o próprio Jesus Ressuscitado, a quem o seu Deus, que é de Vivos, não se Mortos, arrancou definitivamente da Cruz para sempre e colocou como Primogénito de muitas irmãs, de muitos irmãos, nesta Casa Comum que é o nosso Mundo, felizmente, condenado à sororidade/fraternidade universal.
Seu, no Espírito Santo,
Mário, Presbítero.
2007 ABRIL 14
O que ficou da Páscoa 2007? Alguma frase dita em alguma homilia mais teologicamente bem elaborada, proferida pelo papa de turno, ou por um bispo residencial, ou por um pároco de nomeada, ou por um teólogo, destes que semanalmente assinam uma crónica de opinião num dos diários da capital do país, ou da vizinha Espanha? Algum gesto mais significativamente profético e libertador que tenha permanecido na nossa memória, particularmente, na memória das populações mais empobrecidas e mais deprimidas? Para lá dos folclóricos e anedóticos enterros do Senhor, das bolorentas procissões dos passos com o plangente canto da “Verónica” e o pateticamente estéril encontro entre a mãe e o filho ambos cegos, surdos e mudos a caminho do Calvário e cujo desfecho é por demais previsível nas velhas palavras de um qualquer padre pregador de encomenda cada vez mais fora de moda; o que ficou para lá das milhentas liturgias, todas iguais e rotineiras ocorridas em outras tantas igrejas e catedrais, com leituras proclamadas até à exaustão dos relatos da paixão; o que ficou para lá das missas sem missa em sexta-feira santa e das missas sem profecia em todos os outros dias da semana e do domingo de Páscoa, rotinas sobre rotinas como de resto sucede em todos os domingos do ano; o que ficou para lá dos compassos com rabanadas de cruzes de metal com a imagem dum Cristo pregado nelas (nem como ressuscitado, há maneira do desgraçado abandonar o patíbulo infame a que os sacerdotes seus inimigos o pregaram e de onde nunca mais o querem ver dali fora, porque lá se iria o seu ganha pão e o seu ganha prestígio) transportadas por jovens mais ou menos alouados e sem um pingo de espiritualidade, vestidos de opas vermelhas da cabeça aos pés, dispostos a calcorrear ruas e ruelas, montes e vales para levantarem de todas as casas o folar para os senhores abades que continuam a ser, século XXI adiante, como os donos e os senhores dos servos da gleba que outra coisa não são os respectivos paroquianos (felizmente, já há quem coloque os envelopes sobre a mesa, mas vazios de dinheiro e até com dizeres dentro muito pouco abonatórios de suas reverências, que a vida vai mal, muito mal para os pobres, muito mais do que para os senhores abades que o são hoje de três-quatro-cinco ou mais paróquias, cada qual a mais bem pagante).
Para lá de todos estes nadas, bem pode dizer-se que não ficou nada desta Páscoa 2007 em Portugal e na Europa. E a prova é que os grandes media, que não perdem pitada nestas coisas da eclesiástica, não tiveram matéria que constituísse notícia. Tudo foi mais do que cinzento e triste. Apenas os grandes comerciantes terão ficado com uma gorda conta bancária, já que os seus negócios correram de vento em popa. E para os párocos que andaram lestos a criar comissões e mais comissões de recolha dos folares das casas dos paroquianos também terá ficado uma boa conta bancária, sem que eles próprios tivessem necessidade de sair de casa a recolhê-los, como sucedia antigamente. Os jovens católicos promovidos por um dia a cobradores de folares para os senhores abades sentiram-se um pouco mais importantes nesta páscoa dos negócios e há sempre os que se apresentam à chamada, se convidados pelos párocos. É uma oportunidade para se exibirem pelas ruas e pelos caminhos da freguesia, com as moçoilas por perto. A isto e pouco mais se resume a Páscoa católica, depois dos 40 dias de Quaresma e de paixão. Mas é a este ritual que os clérigos das Igrejas, do maior ao mais pequeno, atribuem – imaginem! – a salvação da humanidade. Retirem às populações este folclore religioso e nunca mais o ano agrícola e o dos negócios poderá correr bem às populações. São crendices sobre crendices que vêm de tempos e tempos imemoriais, muito anteriores ao próprio nascimento de Jesus, e é por isso que o nosso mundo continua assim tão enfermo.
Só a Fé de Jesus, tecida de Luz e de Audácia Política, desbarata e reduz a pó todas estas crendices ancestrais. É por isso a única que pode salvar/humanizar/sororizar-fraternizar o mundo, porque é também a única que alia a Ciência com a Lucidez, o Afectivo com o Racional, a Verdade do ser humano com a Comunhão de esforços a fazer por todas, todos nós, e sobretudo, alia a Acção do Sopro ou Espírito de Deus Vivo, o Amigo dos seres humanos, com a Acção dos próprios seres humanos de boa vontade. É também a única Fé ou Via que é capaz de arrancar os seres humanos da sua desgraçada condição de solidão para progressivamente os abrir à relação confiada uns com os outros e, inclusive, à relação com o Totalmente Outro que nunca ninguém viu nem verá, mas que é à Fonte de todo o Ser (e sem esta abertura/relação dos seres humanos uns aos outros e ao Totalmente outro jamais haverá seres humanos em estado de salvação, apenas lugares para crendices e cretinices de toda a ordem e para alienações, as mais cruéis, alimentadas por religiões, as mais esotéricas e exploradoras por parte de toda a espécie de pastores e clérigos, os mais oportunistas e comerciantes).
Desprovidas da Fé de Jesus, as religiões e as Igrejas em geral alimentam as crendices e as cretinices das populações e medram que se fartam à sombra delas. Por isso todas elas são instituições inimigas dos seres humanos, que apostam tudo na sua infantilidade e na sua ignorância, para que os seus clérigos e pastores sejam reis em terra de cegos. Acertadamente diz Jesus que a Luz (= a Fé de Jesus) veio ao mundo, mas os das religiões gostaram mais das trevas, da ignorância, do que da Luz e não descansaram enquanto não mataram a Luz. Na Treva da ignorância, os das religiões são reis e senhores que bem se governam e fazem fortuna e ainda desfrutam de privilégios sociais, como se fossem santos e pessoas dignas de toda a confiança... Mas bem vistas as coisas, todo o seu esforço, todas as suas prédicas, todas as suas liturgias, todas as suas pregações, todas as suas catequeses, todas as suas acções e intervenções, até todas as suas caridadezinhas mais não visam do que manter a ignorância das populações e fazer delas capachos dos seus pés. Fazem tudo para poderem perpetuar o actual status quo, onde eles são reis e senhores. Por isso, são criminosos, mesmo que vistam de benfeitores e de santos e se façam tratar por Vossas reverências e vossas eminências e vossas excelências reverendíssimas. Querem ter súbditos às suas ordens, em lugar de mulheres e homens livres; querem ter vassalos em quem poder montar, em lugar de pessoas soberanas; querem ter pessoas de joelhos e a rastejar em público, em lugar de mulheres e homens politicamente activos e intervenientes. É por isso que tudo o que seja igrejas, templos, capelas, santuários, catedrais, casas de deus geridas por clérigos e pastores são locais onde o nome de Deus é invocado em vão, pior, é blasfemado. Porque existem para adoecer e manter doentes as populações que os frequentam, mesmo quando dizem que os cultos que lá promovem são de cura.
Em nenhum desses locais alguma vez aconteceu PÁSCOA (= PASSAGEM) de Deus Vivo, nem mesmo nesta Páscoa de 2007. O Deus libertador, de Moisés, dos Profetas e de Jesus, o Deus dos pobres e oprimidos, jamais PASSOU por algum desses locais de luxo e de ostentação. Todos esses locais são outros tantos prostíbulos, antros de negócio, covis de ladrões, casas de rameiras, onde se traficam corpos e vaidades sob o falso nome de Deus. Lá dentro pontificam sacerdotes, clérigos e pastores, todos na continuação dos sacerdotes e doutores da Lei e fariseus que, em uníssono, decidiram matar/crucificar Jesus, o único homem de Deus que os desmascarou até à raiz e que disse que o pretenso sagrado que eles faziam todos os dias era o Perverso, era a Mentira, era o Homicídio, enquanto ele, perseguido e odiado por eles, havia vindo ao mundo para dar vida e vida em abundância.
Todos estes séculos depois destes factos, também depois do passado domingo dito de Páscoa, a verdade é que a vida do país e da Humanidade continua aí ainda mais cinzenta do que antes, mais triste, mais sem horizontes, mais sem comunhão, mais sem sororidade-fraternidade, numa palavra, mais sem Liberdade e mais sem protagonismo político por parte das populações. Quem pode dizer que aconteceu Páscoa em 1007? Apenas as contas bancárias dos clérigos católicos e dos pastores estarão muito mais chorudas. A Páscoa de 2007, a exemplo das dos anos anteriores, não terá passado duma roubalheira mais, sempre com a agravante de ter sido feita, mais uma vez, em nome de Jesus e do Deus de Jesus.
Malditos os que assim actuam, porque, de ano para ano, defraudam a esperança do nosso povo e deixam as populações ainda mais à míngua, mais desesperadas, mais sós, por isso, ainda mais disponíveis para serem carne para tudo o que é santuário, de onde sempre regressarão cada vez mais sozinhas, mais roubadas, mais despojadas, como aquela viúva pobre de que nos fala o Evangelho de Marcos que deixou indignado Jesus por ter sido levada a dar a última moedinha de que dispunha ao Tesouro do Templo, que já estava a abarrotar de riqueza e de ouro e não se importou nada que ela saísse dali para ir morrer de fome naquela mesma noite. Há lá crueldade maior do que a de Templos e de sacerdotes assim?! Malditos sejam todos. E que deles não fique pedra sobre pedra!
Felizmente, Páscoa a valer aconteceu no seio da nossa pequenina Comunidade cristã de Base em Macieira da Lixa. Não por mérito nosso, evidentemente, mas por pura Acção do Espírito de Deus que ressuscitou Jesus, o de Nazaré, e nele, por ele e com ele nos tocou e deixou mais humanos e sororais/fraternos, com grande vontade de passarmos à Galileia, isto é, de passarmos a percorrer hoje e aqui os mesmos caminhos que Jesus anteriormente percorreu e que o levaram à Páscoa do Calvário, a fazermos nossas, hoje, as suas mesmas causas a favor da vida e dos últimos e a travar os mesmos combates duélicos que ele travou até ao final. Porque o que não for assim, não é Páscoa ou PASSAGEM de Deus, o de Jesus, no nosso mundo do século XXI. Haverá, certamente, muito folclore. Muito foguetório. Muita liturgice, muita trafulhice, muita vaidade papal e episcopal, muita parra, nenhuma uva, muito tempo perdido, nenhum proveito, muita agitação, nenhuma fecundidade, muito grão de trigo em celeiro, nenhum lançado à terra para morrer e dar fruto, muita hóstia comungada, nenhuma comunhão sororal/fraterna.
A sala da casa da comunidade foi jardim e foi cenáculo ao mesmo tempo. Foi Mesa Partilhada. Foi Palavra Conversada. Foi Ternura. Foi Afecto. Foi Alegria nos olhos. Foi Acontecimento de salvação. Foi novo nascimento. Foi parto. Foi Testemunho vivo do que o Espírito de Jesus anda por aí a fazer em nós e connosco, todos os dias, não apenas neste dia de calendário. Foi também Suave Insurreição. Foi alegre Anúncio do Mundo que vem, que já está a vir sobre os escombros do Império de turno e do Templo de turno, onde pontificam respectivamente Bush Ratzinger.
Nada nesta pequenina Casa da Comunidade, onde até o nosso amigo e companheiro Carvalho de Felgueiras, apesar da sua notória e inofensiva deficiência, faz questão de nunca faltar em cada ano, mesmo depois que a sua Mãe fisicamente lhe faltou à vista, nos fez lembrar as catedrais, os templos, as igrejas paroquiais, outros tantos feudos dos clérigos, onde ainda se respiram os velhos ares e os velhos tiques dos servos da gleba dos tempos do Feudalismo católico, quando a Páscoa era a tortura dos servos da gleba, trabalhos dobrados em prol dos senhores abades e bispos senhores feudais e do seu anafado juiz da cruz, mai-los mordomos e as mordomas, necessariamente as famílias mais endinheiradas da terra e também as mais corruptas e devassas.
Dizer Páscoa, ao longo destes 20 séculos de cristianismo católico imperial, sempre foi dizer opressão, crueldade, arbitrariedade, humilhação dos pobres que, no máximo, só poderiam esperar pelas migalhas que caíssem da mesa dos seus senhores. A Páscoa sempre foi, através dos anos, a celebração da morte dos pobres, a humilhação dos pobres, o satânico triunfo dos ricos.
Pois Páscoa a valer aconteceu em redor da Mesa Partilhada da casa da Comunidade. Aquelas poucas pessoas todas pobres, sem estudos académicos, sem a presença de nenhum bispo que se dignasse entrar lá e sentar-se connosco àquela mesa de Jesus, mas sob a presidência e a ternura de Maria Laura, a presbítera não-ordenada da Igreja do Porto. Nenhum símbolo do poder eclesiástico ou outro esteve presente. Só vítimas de carne e osso dos poderes, cada qual a mais marcada ao longo das suas sofridas vidas, com destaque para a Amélia que nem a família lhe quer bem e a despreza nos seus frequentes ataques de epilepsia.e para a nossa Irene, já de 26 anos, eterna menina que nos revela a alegria e a incondicional disponibilidade do rosto de Deus que é de vivos e não de mortos. Inesperadamente, descobrimo-nos todas, todos invulgarmente alegres, invulgarmente irmãs/irmãos uns dos outros. Também muito frágeis, muito iguais, muito um só corpo. Nunca uma tarde havia sido com esta tarde, Esta foi uma inesperada tarde de Páscoa/PASSAGEM de Deus que jamais esqueceremos.
Nem foram necessárias leituras bíblicas. A nossa presença em redor da mesa partilhada foi a grande leitura que nos falou a jorros. Uns dois cantos que recitámos e cantámos a abri ajudaram a criar ambiente de intimidade e de escuta, no jeito daquelas virgens sábias de que fala a parábola do Evangelho de Mateus que tinham acesas as suas lâmpadas e ainda azeite de reserva na almotolia. O Senhor que em Jesus, o de Nazaré, derrotou o Templo e o Império estava de novo a PASSAR por entre e por dentro de cada uma, cada um de nós, os seus pobres reunidos conspirativamente em nome e em memória do seu Filho, reduzidos a um tão pequenino número, mas o suficiente para Ele se poder manifestar a nós e, por nós, ao mundo.
Está para sempre revelado (mas nós não temos querido saber!) que são sempre poucos os que seguem o Cordeiro que foi imolado pelo Templo e pelo Império. As multidões preferem seguir os do Templo e os do Império e aclamá-los nas ruas como os vencedores, e aos seus carros de combate. Ainda pensam as multidões que são os vencedores e os seus carros de combate que salvam o mundo. Não descobriram ainda que os vencedores são também os opressores de amanhã e os novos cobradores de impostos de amanhã. E que ainda nos hão-de levar os filhos e agora também as filhas como carne para canhão e carne para santuário.
No encontro, ouvimo-nos uns aos outros em singelas saudações de abertura. Ninguém ficou sem dizer a sua palavra e a sua expectativa. E depois ficámos tarde fora na presença de Jesus Ressuscitado, como Fogo vivo e fecundo, feito prática sororal/fraterna que nos humanizou à medida que se fazia sangue do nosso sangue e carne da nossa carne. Como meninas, como meninos recém-nascidos, despojamo-nos do velho homem que vive identificado com o Ter, o muito ou o pouco que possamos ter, e vestimo-nos do Corpo do Ressuscitado Jesus, tecido só de agapê, aquele Amor-Ser que só o Espírito de Deus Vivo sabe soprar/criar/tecer.
A palavra chave que nos abriu ao Novo e nos deixou mais irmãs, irmãos do que nunca, foi a palavra que é o próprio Jesus em acção, o Verbo feito prática humana e política, exactamente, o verbo/acção ABENÇOAR. As Igrejas sempre nos mentiram, quando reduziram este verbo/acção a um mero fetiche, a um gesto em forma de cruz que clérigos e pastores abusivamente realizam com a sua mão direita sobre uma pessoa ou um objecto, acompanhado ou não de água benta. Nada mais bobo. Nada mais mentiroso. E nada mais beato e também financeiramente mais rentável. Porque por cada bênção assim, lá entra mais dinheiro no saco das “ofertas” do clérigo ou do santuário, que é tudo o mesmo, e lá sobe mais a áurea do homem dito de Deus (mas que homem e que Deus?!) que a realiza. Na verdade, é tudo faz de conta e as próprias pessoas costumam deixar para lá, mas a verdade é que é por estas e por outras deste jaez é que o nosso mundo continua enfermo, porque edificado na mentira sobre mentira e só é governável sob forte bastão de polícia e de exércitos. Porque a sororidade/fraternidade é o pão que deveria existir em todas as mesas, mas em seu lugar, dão-nos overdoses de mentira e, por isso, as pessoas e os povos morremos à míngua do Pão que nos garantiria a vida e a saúde e também a sã convivência. Porque nunca há sororidade/fraternidade sem verdade. Convençam-se disso. Como nunca haverá vida humana a valer sem Verdade. A Verdade é a Mãe de todas as virtudes. E a fonte de toda a Saúde humana e ambiental.
Nesta Páscoa que nos aconteceu no meio da maior simplicidade e da maior ternura, os nossos olhos abriram-se, quando ouvimos o Espírito de Jesus ressuscitado revelar que abençoar é sinónimo de EXPROPRIAR, tirar a propriedade a uma coisa, casa, pão, alimento, pessoa, campo. Foi esta a grande OPERAÇÃO, este o grande ACONTECIMENTO que fez a Páscoa ou PASSAGEM de Deus em Jesus, primeiro, e depois, em nós, suas discípulas, seu discípulos. Por força deste Baptismo no Espírito, Jesus que era judeu, deixou de ser judeu para ser simplesmente Humano, o ser Humano por antonomásia. Deixou de ser homem-sexo-maculino, para ser simultaneamente homem-sexo-feminino, isto é, mulher e homem ao mesmo tempo, melhor, o Ser Humano integral, em masculino e em feminino, em radical igualdade e em indissolúvel unidade. Deixou de ser expressão de uma cultura e de um povo em concreto, para explodir em cada cultura e em qualquer povo. Por isso Jesus Ressuscitado não tira nada a nenhum povo e dá tudo a cada povo. Ele é o Ser Humano em quem todos os outros seres humanos se revêem, em quem Deus, o de vivos e não de mortos também se revê e por isso constituiu-o para sempre como a sua Filha muito Amada, o seu Filho muito Amado, a primeira, o primeiro de muitas irmãs, de muitos irmãos. E com Jesus, e em seu nome e em sua Memória, um nome e uma Memória para sempre constitutivamente conspirativos, ninguém, nenhum povo, nenhuma nação pode alguma vez continuar a chamar seu ao que lhe pertence, tudo o que é produzido pelo trabalho dos seres humanos e pelas suas técnicas é para proveito de todas as pessoas e de todos os povos, segundo as reais necessidades de cada qual. E nada do que sobra é para desperdiçar, mas para juntar, sempre a pensar em todos os povos e nas suas reais necessidades.
A Ressurreição de Jesus é, assim, o acto politico mais revolucionário de todos os actos da História: é a Nova Criação! Fez explodir em pedaços a propriedade privada e tornou comuns todos os bens de que necessitamos para viver. Na Páscoa, aconteceu uma nova Criação, também uma nova Economia em que pessoas e bens são agora umas para as outras e umas com as outras, sem que ninguém fique defraudado nem mais beneficiado do que outro. Uma nova Ordem mundial nasceu. Haja agora peritos e humanistas com ciência que lhe dêem corpo, no respeito a este novo Sopro ou Espírito de Jesus Ressuscitado. E que a façam andar em frente. Uma nova humanidade nasceu. Tem por casa a Graça e a Liberdade/Maioridade. E por mesa comum a Sororidade/fraternidade.
Tudo o que não for assim é o regresso ao velho folclore, aos velhos mitos. É, como diz S. Paulo, tornarmo-nos os mais infelizes dos seres humanos, porque é continuarmos a viver à escala mundial como se Jesus não tivesse ressuscitado, ou dito por palavras negativas, é como se ainda continuássemos sob o domínio da lei e o domínio do Templo e do Império, quando, afinal, um e outro foram destruídos para sempre pela Páscoa/Insurreição/Ressurreição de Jesus, o de Nazaré.
Desde então para cá, é com Jesus que Deus, o de vivos está para sempre. Não está mais nem com o Templo nem com o Império, nem com os sacerdotes, nem com os privilegiados do Império. Muito menos, com a sua (des)Ordem económica e política mundial. É com a Liberdade e a Maioridade humana que Deus está.
Viva, pois, Jesus, o de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado a quem Deus, o de Vivos constituiu para sempre o Senhor e o Salvador de todos os povos sem distinção. Fora dele, há outro nome nem outra prática política libertadora e integradora que nos possam salvar, isto é, humanizar e sororizar/fraternizar. É por ele que vou. Ele e só ele é o Caminho, a Verdade e a Vida para mim! Venham daí comigo também! E haverá Paz como nunca houve! A Paz das mulheres, dos homens reconciliados.
2007 ABRIL 04
1. Acontece a qual qualquer uma, qualquer um. Desta vez, aconteceu também a mim. Participei no almoço de aniversário duma pessoa amiga em S. Pedro da Cova e, das onze pessoas à mesa, só eu me senti mal com a comida. Lá vieram as tonturas e os vómitos. Aquele assado talvez estivesse saturado de mais para o meu organismo, mais habituado a comidas à base de vegetais e leguminosas. Soube-me bem, mas o pior foi no dia seguinte, ao levantar. Ainda fiz a minha higiene matinal e vesti-me, mas depois não me segurava de pé com as tonturas. E ainda não estou a cem por cento. Mas já consigo estar aqui sentado ao computador a partilhar esta minha fragilidade tão própria dos seres humanos.
A doença pode acontecer quando menos esperamos. Assim como a morte. Digo-o, sem alarme. Com naturalidade. É a verdade maior dos seres humanos. Uma verdade que hoje somos levados a não admitir com naturalidade. Porque temos medo da verdade, esquecidos de que só a Verdade nos faz livres. E só quem é livre é que é humano e sororal/fraterno. Por isso, hoje, somos tão pouco livres e, consequentemente, tão pouco humanos e sororais/fraternos. A imagem de marca dos homens, das mulheres, mais deles do que delas, deste nosso século XXI é a arrogância, em lugar da humanidade; o distanciamento em lugar da proximidade; a prepotência em lugar da sororidade/fraternidade; o corre-corre em lugar da fidelidade recíproca. Já nem nos matrimónios há fidelidade recíproca!...
A doença, como a morte, fazem parte dos seres humanos. Deveríamos reconhecê-lo com simplicidade. O desenvolvimento tecnológico e científico nunca deveria afastar-nos desta realidade. Pelo contrário. Deveria torná-la mais manifesta e mais consciente. Será até a única maneira de nos tornarmos mais humanos e sororais/fraternos. Só a fragilidade nos salvará como seres humanos e nos converterá em irmãs/irmãos uns dos outros. Porventura, muito desenvolvidos e com muita ciência, mas sempre frágeis uns com os outros. Aliás, a ciência e o desenvolvimento tecnológico só são dignos de nós, se nos tornam mais humanos e sororais/fraternos, por isso, se nos tornam mais conscientes da nossa fragilidade. O que, infelizmente, não tem acontecido.
É bom ter saúde e viver muitos anos com saúde. Mas sem nunca perdermos a nossa dimensão de seres humanos sororais/fraternos, por isso, a nossa condição de seres humanos fragilizados. A saúde sem esta consciência e os muitos anos de vida sem problemas podem levar-nos a comportamentos ao jeito do Império, com toda a crueldade de um Bush ou de um Blair, ou, em estilo mais caseiro, de um Sócrates ou de um Portas. Confundem saúde com arrogância. E deixam-se possuir por pensamentos/projectos que são autênticos demónios à solta, geradores de pobreza/opressão/homicídios em massa. Com os recursos de que hoje o nosso mundo dispõe, poderíamos ser uma espécie de paraíso. Somos cada vez mais um inferno. Porque eles e outros como eles e com eles esquecem que são seres humanos, negam a própria fragilidade e por isso não se abrem nunca à sororidade/fraternidade, pelo contrário, fazem da arrogância a sua marca e o seu estilo. Uns infelizes que infernizam a Humanidade e o Mundo.
Remetido ao leito, sem me segurar de pé, acolhi com alegria os gestos solidários de pessoas que se aproximaram de mim, à medida que souberam da minha situação. Aconteceu sororidade/fraternidade ao vivo. E eu vi-me ainda mais mergulhado no silêncio e na intimidade com o Abbá/Mãe-Pai que Jesus, o de Nazaré, nos deu a conhecer na sua vida de completa proximidade, fragilidade e sororidade/fraternidade com os mais fragilizados do seu tempo e país. Mais do que nunca me reconheci seu filho muito amado. Por isso, não esqueço os gestos e os cuidados do Rogério, da Lena e da Maria Laura, as pessoas que vieram a saber da minha situação e logo correram para mim. A presença destas pessoas, sem que eu reclamasse a sua presença, uma presença totalmente gratuita e desinteressada, feita de serviços e de cuidados, foi um sacramento da Presença maior do Abbá/Mãe-Pai. Tornei-me ainda mais como um menino. E quando assim é, o mundo está em vias de salvação. Porque só quando somos como meninas, meninos é que estamos a salvar o mundo, isto é, estamos a dar corpo à proximidade, à sororidade/fraternidade, ao amor. Somos o oposto do Império. Somos seres humanos. Por isso, faço minha a oração de louvor de Jesus: Bendigo-Te, ó Mãe/Pai, porque escondestes estas coisas aos arrogantes e aos poderosos do Templo e do Império e as revelaste aos pequeninos, suas vítimas. É por isso que os do Império Te não (re)conhecem nem podem (re)conhecer. E o seu deus só pode ser um ídolo à imagem e semelhança deles.
2. O calendário destes dias fala de Páscoa. Os centros comerciais do mundo ocidental estão a abarrotar de amêndoas e de outros sinais de Páscoa. Podiam ser sinais/sacramentos de Presença, de Proximidade, de Humanidade, de Sororidade/Fraternidade. São vazio. Se não forem acompanhados de Ternura e de Fidelidade recíproca, são vazio. E cavam vazio. Destas Páscoas sem Páscoa, sem Passagem do Sopro ou Espírito de Deus Vivo e Criador de seres humanos à sua imagem e semelhança, tenho medo.
Num mundo assim, nem as Igrejas sabem estar à altura das novas exigências. Perdem-se com espectáculos sado-masoquistas nas ruas e nos templos em torno de imagens de Cristos flagelados e mortos, transportados em andores de incrível mau gosto, sem coragem e lucidez para descrucificar e acolher nas suas vidas o Cristo vivo que continua aí a ser crucificado a toda a hora pelo Império e pelo Templo. O que fizeram a Jesus, o de Nazaré, é o que fazem sistematicamente a milhões e milhões de seres humanos, ano após ano, século após século. O Império e o Templo deveriam ter desaparecido, depois que crucificaram e mataram Jesus. Mas continuam aí para nossa vergonha e para nossa desgraça. A Morte de Jesus na Cruz, por decisão de um e de outro em aliança, revelou, duma vez para sempre, que ambos são o Perverso em acção, o Inumano em acção, o Anti-Deus em acção, o Mal(igno) em acção. Deveriam ter desaparecido da História. Mas não. Continuam aí à solta, a fazer das deles. Servem-nos Mentira a toda a hora e instante. Celebram anti-Eucaristias de exclusão e de morte através das suas Economias sem entranhas de humanidade e das suas Políticas sem afectos e sem Verdade. E ainda têm os aplausos e os votos das populações intoxicadas pela sua propaganda assassina.
Não alinho nestas Páscoas sem Páscoa. Mergulho na Páscoa de Jesus. Longe dos templos e dos altares. Próximo dos seres humanos, particularmente, das vítimas, dos crucificados em toda a espécie de cruz. Não mudarei o mundo, eu sei. Mas, pelo menos, não sou cúmplice de tanta Mentira organizada e de tanto homicídio em massa. Na minha simplicidade e fragilidade humana e de presbítero da Igreja do Porto, ficarei como um pequeno Sinal a apontar que não é pela Arrogância do Templo e pelo Império que vamos, mas pela Fragilidade, pela Proximidade, pela Humanidade, pela Sororidade/Fraternidade, numa palavra, pelo Amor desinteressado e recíproco que vamos.
Venha por este caminho quem quiser. Será bem-vindo! Por mim, não sei de outra Páscoa. E esta aprendo-a cada vez mais com Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império, no mesmo instante Ressuscitado por Deus Vivo, que é Deus de vivos, não de mortos, e constituído para sempre como o seu Filho Muito Amado e o Primogénito de muitas irmãs, muitos irmãos. E saibam que só por esta via há Futuro para os seres humanos. E para o Universo.