Diário Aberto
2006 ABRIL 28
O novo presidente da república chegou e
disse: Proponho a criação de um compromisso
cívico contra a pobreza. E logo o primeiro
ministro apareceu a esfregar as mãos em sinal
de Apoiado! Ambos falam em justiça social mas
é na rasca política da Caridadezinha que os dois
estão a pensar. Eis então a Hipocrisia no seu pior!
Foi na manhã de Abril que Cavaco pregou na
Assembleia da República despido do cravo
vermelho na lapela e nas palavras do sermão.
Foram de crocodilo as lágrimas que verteu pelos
pobres e excluídos já que nunca teve a audácia
e a lucidez de perguntar quem é que os fabrica
e à pobreza em massa. Será que não há Quem?
Os representantes do Dinheiro aplaudiram de pé
e muitas palmas o sermão. E teceram elogios.
Como se o país tivesse finalmente encontrado
o presidente e o primeiro ministro de Abril. De
Abril são certamente. Do 24 não do 25. São por
isso de chumbo estes dias que vivemos. E é
Inverno. Por mais que grite aí o garrido das flores.
Aperta-se-me o coração pelo meu país. E pelos
pobres que o são à força. Quando a Política
absolve a Economia e o Mercado que fabricam
pobres e pobreza em massa só posso vestir de
luto e chorar. Não me falem mais de Abril nem
de Revolução. Com Cavaco e Sócrates ao leme
é o país inteiro sob a tirania do D. Dinheiro.
Práticas libertadoras e justas quero e não
discursos. Por mais enfeitados de chavões de
Esquerda que os discursos se apresentem. Não
basta ficar sem aplaudir no Parlamento a
hipocrisia e a mentira dos dois homens do leme.
É preciso agir. Ou mobilizamos as populações
contra a tirania do D. Dinheiro ou perecemos.
Com Caridadezinha em lugar de Partilha da
riqueza segundo as necessidades de cada qual
até as multinacionais da nossa desgraça estão
de acordo e aplaudem. Sem relutância de
maior deixarão cair algumas migalhas do seu
orçamento para os pobres. Mas ninguém lhes fale
em Justiça e em equitativa Partilha da Riqueza.
Caridadezinha foi sempre a grande aposta
das Igrejas. Não de Jesus o de Nazaré. Nunca
as Igrejas olharam a Riqueza acumulada e
concentrada como uma perversão das relações
entre pessoas e povos. E se ela dá esmolas aos
pobres é até olhada como bênção de Deus. Mas
foi assim que se chegou à tirania do D. Dinheiro.
Jesus o de Nazaré constituiu-se como a via
de salvação ao revelar a total incompatibilidade
entre Deus e o Dinheiro. Assim como entre os
seres humanos e o Dinheiro. Ou regressamos a
Jesus e ao seu Sopro libertador ou regredimos até
ao nada. Pior. D. Dinheiro é um deus tão sádico
que fabrica os pobres só para depois os sacrificar.
2006 ABRIL 25
Canto o Abril que ainda ninguém cantou
muito menos protagonizou. O de setenta e
quatro já lá vai e foi engodo. Vivemo-lo como
festa de liberdade e como Páscoa. Mas tudo
não passou de simulação e faz-de-conta para
enganar oprimidos e integrar revolucionários com
fome de Poder. Hoje é já o Sadismo no seu pior.
Nascemos sob o terror do Templo e do Império.
Temos o Medo por mãe e a Mentira por pai. E
quando já crescidos saímos por aí a dizer que
não queremos ser mais filhos do Medo e da
Mentira ninguém no formigueiro nos toma a sério
e todos à uma meneiam a cabeça e esboçam
um sorriso como quem diz Coitado! este já pirou!
Como pode haver Abril e Império e Templo
tudo junto? A Luz quando brilha não dissolve
a Treva? A Liberdade quando acontece não
dissolve a Alienação? A Maioridade quando
se apresenta não dissolve comportamentos
infantis? Um Abril que não dissolve o Império
nem o Templo é Mentira e Medo à rédea solta.
Conheço um Homem que recusou todo o Poder
e não quis nada com o Dinheiro. Praticou a
Verdade em privado e em público e não hesitou
em tirar a máscara ao Templo e ao Império. E
quando os dois saíram coligados ao seu encontro
para o prender e matar logo ele se lhes adiantou e
disse Eu sou! E ambos caíram por terra dissolvidos.
Bem sei que o Templo e o Império estão de novo
aí mais poderosos e cruéis que nunca a fabricar
vítimas aos milhões. E assim será enquanto durar
a História. Porque a História é sobretudo do Templo
e do Império coligados que têm o Medo por mãe e a
Mentira por pai. Como acontecer então Abril? Só com
homens/mulheres que dêem toda a primazia ao Ser!
Eu disse Ser. Não disse Ter. O Império e o Templo
é que trocam as letras e lá onde está Ser escrevem
Ter e lá onde está Ter escrevem Dinheiro. Não sobra
nenhum lugar para o Ser. A menos que haja mulheres
homens que ousem constituir-se Alternativa viva
ao Templo e ao Império. Coisa rara hoje porque
o primeiro passo a ser dado é escolher ser pobre!
É este o Abril em que aposto. Pois é o único
que jamais deixará de conjugar o verbo Ser e
sempre impedirá que o Ter usurpe a primazia
ao Ser. Mas para que este Abril possa crescer
na História tem que haver cada vez mais mulheres
cada vez mais homens resistentes ao Templo e
ao Império e uma só carne com as suas vítimas.
Não chorem mais por Abril de mil nove setenta e
quatro que deixou intactos o Templo e o Império e
pôs-nos a cantar/dançar nas ruas enquanto aqueles
dois coligados preparavam a institucionalização
da democracia do D. Dinheiro que logo se apoderou
das novas tecnologias para melhor matar roubar e
destruir. Ousemos ser Abril. O Abril do Ser. Sempre!
2006 ABRIL 19
Os chefes das Igrejas não se cansam
de repetir em cada Páscoa - e a de 2006
não foi excepção - que Jesus venceu a morte.
Mas como é isso possível se nem Jesus se
livrou de morrer e da morte mais intolerável?
E se todas / todos sem excepção depois dele
continuamos aí a morrer sem apelo nem agravo?
E porque haveria Jesus de vencer a morte
se ela faz parte do natural ciclo da vida como
o nascimento? A quem pretendem as Igrejas
agradar com esse tipo de discurso com sabor
a falso evangelho? Aos pobres? Mas não são os
ricos quem tem mais medo da Morte? Os pobres
o que mais temem é não terem Pão para comer.
O que quer o Evangelho revelar quando nos
anuncia que Jesus ressuscitou dos mortos? Que
viu reanimado o seu cadáver e que voltou à vida?
Assim pensa a generalidade das pessoas e das
Igrejas. Mas a expressão teológica "Ressuscitar dos
mortos" quer simplesmente revelar que o Deus Vivo
é com Jesus que está. E não com quem o matou!
Os chefes do Templo e do Império foram os que
deram a morte a Jesus. Não lhe perdoaram que
ele os identificasse com o Perverso e o Mentiroso.
Em lugar de se aliarem a Jesus contra o Perverso
e o Mentiroso aliaram-se entre si contra Jesus. E
tentaram fazer dele o Maldito de Deus. Mas logo
aconteceu o Espírito de Deus e proclamou-o Bendito!
Ao dar razão a Jesus e não aos chefes do Templo
e do Império que o crucificaram Deus subverteu
a História mandada escrever por eles. E ficou
para sempre desvendado que o que é bom para
os chefes do Templo e do Império é perverso para
os povos. Sábios então seremos se fugirmos deles
e como Jesus fizermos corpo com as suas vítimas.
Na morte crucificada de Jesus pudemos ver que
a única Morte que mata é o Ódio e não a morte física.
A morte física é o culminar do nascimento e há-de ser
experimentada por nós como a nossa Hora em que
nos tornamos Corpo-Sopro-que-se-entrega-aos-demais
para ficarmos com eles para sempre. E porque só
o Ódio é homicida ele é a Morte que Jesus venceu.
Aprendemos com Jesus Ressuscitado que
passamos - PÁSCOA - da morte à vida porque
amamos os irmãos. Podemos então deduzir que
quem não ama permanece na Morte. Uma outra
coisa essencial aprendemos também com Jesus:
que quem diz que ama a Deus a quem não vê
e não ama os irmãos a quem vê é mentiroso.
Foram muitos os cultos realizados nos templos
nesta Páscoa. Por nenhum deles se ouviu dizer
que PASSOU o Sopro de Jesus o Crucificado pelo
Templo e pelo Império. Apenas o sopro do Perverso
e do Mentiroso que faz dos clérigos comerciantes de
Cristo e dos povos alienados. Quando os povos do
que precisam é de Jesus. E do seu Sopro libertador.
PÁSCOA 2006
A cruz só entrou na vida de Jesus porque
o Templo e o Império lha impuseram. Os dois
não lhe perdoaram que Jesus os identificasse
com o Perverso e o Mentiroso. Havemos por
isso de nascer/viver longe dos Templos e dos
Impérios. Em frátrias de bens Partilhados que
nos façam crescer em ser e em liberdade.
O Templo e o Império não se deram por
vencidos e prosseguiram indiferentes a ser o
Perverso e o Mentiroso. Sabem os seus chefes
de turno que esses são os meios mais eficazes
para perpetuarem uma Ordem mundial que lhes
garante privilégios e ainda os trata como deuses.
E até as suas inúmeras vítimas lhes prestam culto.
A traição maior é a das Igrejas. Aconteceram um
dia por obra e graça do Sopro/Espírito de Jesus
para prosseguirem na História a sua subversiva e
libertadora postura contra o Mentiroso e o Perverso
que são o Templo e o Império. Mas acabaram elas
próprias templo e império. E até da cruz fizeram a sua
identidade. Em lugar das frátrias de bens Partilhados.
O mandamento maior de Jesus é que as Igrejas
Partam o Pão e o Vinho em Sua Memória num clima
de amor recíproco. Para se consolidarem como
frátrias de bens Partilhados no meio do mundo. E
fazerem crescer a vida dos povos em ser e liberdade.
Mas logo vieram os Ritos e os Rituais soprados
pelo Templo e o Império. E tudo se perverteu de novo!
Sem Igrejas-frátrias de bens Partilhados crescem
mais e mais o Templo e o Império. E o Perverso
e o Mentiroso que eles são. Os séculos tornam-se de
chumbo e não têm conta os crucificados. São de
sangue e lágrimas os rios e os mares. A Terra
enlouqueceu e desistiu de ser jardim para ser túmulo.
E hoje até a História parece ter chegado ao fim.
São já vinte os séculos sobre a Páscoa de
Jesus e nunca como hoje o Império e o Templo
produziram tanta Perversão e Mentira à escala
global. Por isso ou regressamos a Jesus e à via
libertadora que ele abriu ao identificar o Perverso
e o Mentiroso com o Templo e o Império ou não
chegaremos nunca a ser homem/mulher. Nem povos.
Tudo o que decidem e fazem o Templo e
o Império é Perverso e Mentiroso. E só não
chegamos a reconhecer tão hediondos crimes
porque tudo nos é habilmente apresentado como
conquistas e sucessos. E na História mandada
escrever pelos seus chefes de turno jamais constará
um só registo sobre as suas inúmeras vítimas.
É subversiva e perigosa a Memória de Jesus mas
quando realizada em ambientes de clandestinidade
longe do Templo e do Império e como alimento de
fecundas conspirações contra eles. Quem come daquele
Pão Partido e bebe daquele Vinho Derramado torna-se
outro Jesus pronto a desmascarar perante o mundo o
Perverso e o Mentiroso que são o Templo e o Império.
2006 ABRIL 09
Ontem estive mais uma vez na FNAC do NorteShopping. A apresentar o mais recente livro do jornalista da revista Visão, Miguel Carvalho. Como se trata de um livro sobre Álvaro Cunhal, o autor entendeu e bem que o convite iria mexer comigo. Mexeu. Comecei por lhe perguntar: Mas porquê eu que, embora seja amigo de muita gente filiada no PCP, nunca fui do PCP? Porquê eu, se sou conhecido na praça pública como padre católico eclesiasticamente e politicamente incorrecto? Queres arriscar-te a não ter ninguém na sessão? Mas o Miguel insistiu e disse que era também por todas essas razões que me convidava. Aceitei e deixei-me interpelar não só pelo seu livro, ÁLVARO CUNHAL ÍNTIMO E PESSOAL (edição Campo das Letras), mas sobretudo pelo camarada Álvaro. Não me limitei a viajar pelo passado. Procurei agarrar este nosso presente português, europeu e mundial. Com o camarada Álvaro por companhia. E o resultado aí está na comunicação que ontem partilhei na sessão e que aqui divulgo na íntegra, a seguir. A sessão foi muito concorrida. A mais concorrida em que alguma vez estive como apresentador. Senti que as minhas palavras calaram fundo nas pessoas. E quase tiraram a respiração. E impediram grandes manifestações no final, mesmo quando, já depois da sessão ter terminado, andei fraternalmente por entre as pessoas, a cumprimentar e a ser cumprimentado. O próprio Miguel disse, a iniciar a sua intervenção, por sinal, muito na linha da minha, que era preciso muita coragem para ter/dizer este discurso hoje, e logo ali, numa das mais conhecidas catedrais do consumo. Mas não podia ser de outro jeito. A missão de Evangelizar os pobres assim mo exige. E a comunhão viva com o camarada Álvaro, também. Não fosse assim e ele certamente não me perdoaria, como certamente não perdoa a muitos dos que hoje ainda se dizem seus companheiros de bandeira e de partido, mas não prosseguem, aqui e agora, nem as suas causas nem as suas lutas. São como aqueles meus irmãos católicos de missa ao domingo, que depois, na vida do dia a dia, vivem de cócoras perante o D. Dinheiro e não querem saber das suas vítimas. E desconhecem o que seja viver a Partilha dos bens!... Leiam a comunicação. E deixem-se Evangelizar/Libertar pelo Sopro de Jesus Ressuscitado que passa (Páscoa) através das palavras. Antes que seja tarde. Eis.
1. “Íntimo e pessoal”, é como se pode definir este surpreendente livro sobre o camarada Álvaro, concebido e realizado pelo grande-repórter da revista Visão, Miguel Carvalho, e em boa hora editado pela cada vez mais prestigiada Campo das Letras, do meu querido amigo Jorge Araújo. Um “Dicionário” sobre o camarada Álvaro, chama-lhe o autor. Por mim, preferiria chamar-lhe um Vade-mecum, uma espécie de livro-vai-comigo, vai-com-a-gente, ou, melhor ainda, uma espécie de Bíblia sobre o camarada Álvaro íntimo e pessoal. Como o título indica, não estão aqui as grandes teses do camarada Álvaro Cunhal, nem nenhum dos seus densos discursos políticos que tantos ódios suscitaram naqueles seus contemporâneos que, ao contrário dele, escolheram enriquecer à custa do empobrecimento dos trabalhadores. Em contrapartida, está aqui, nestas 200 páginas, íntimo e pessoal o camarada Álvaro que, a bem dizer, nunca se escondeu perante quem dele se fez próximo e comungou das mesmas Causas que foram a razão de ser de toda a sua vida militante e totalmente entregue aos operários e ao povo empobrecido e sofredor, embora sempre permanecesse discreto perante os olhos da praça pública, certamente, para que, aí, sempre aparecessem, no seu melhor e no seu pior, a Política e o País que havia e há que refazer desde os fundamentos. Um país, que o camarada Álvaro sabia ter nascido torto, sob o completo domínio do clero e da nobreza e que, oito séculos depois, continua aí confrangedoramente anestesiado sob a tirania da D. Mediocridade e do D. Dinheiro – o deus que hoje praticamente não conhece ateus, nem entre os da chamada Esquerda – e é conduzido, em estilo simplex, por elites pseudo-sexy, peritas em demagogia e com tanto de incompetentes como de cínicas.
2. Quis o calendário que esta sessão de apresentação ocorresse no mês de Abril que outrora foi de águas mil e que, desde 1974, pretendeu dar início a um país que deixasse de ser da Alienação e da Repressão e passasse a ser da Poesia e da Revolução libertadora dos cravos e da Dignidade do nosso Povo e dos Povos do mundo. E foi até graças a essa substantiva mudança, que pudemos passar a ter entre nós até à sua explosão final o camarada Álvaro e tantos outros irmãos nossos que a pátria amordaçada havia obrigado a viver fora de portas, como filhos enjeitados. Porque os ditadores nunca gostaram nem gostarão de poemas nem de Dignidade dos povos e tudo fazem para que a vida dos povos, lá onde triunfam os seus Tacões e os seus Medos, seja cinzenta e de grossos e altos muros, sem horizontes, como prisões (cuidemo-nos, porque hoje com um presidente da República e um primeiro ministro que não frequentam a Poesia maior da nossa Sophia de Mello Breyner Anderson, nem os sonetos de Camões nem os sonetos de Florbela Espanca, e confundem o provocador e sensual canto dos melros com os ruídos e a gritaria que o D. Dinheiro provoca nas Bolsas em todo o mundo onde é rei e senhor absoluto, segundo regras que ele próprio cria e descria a seu bel-prazer, já deixou de ser preciso recorrer a prisões políticas e proibir que se cante nas ruas a Grândola vila morena. Agora, é o país todo que é uma prisão. E um túmulo).
3. O drama, porém, é que Abril, trinta e dois anos depois, voltou a ser outra vez simplesmente de águas mil. O Abril da Poesia e da Dignidade, da Liberdade e da Maioridade humana voltou a exilar-se, agora, já não em França nem na Suíça, ou na Alemanha, uma vez que tudo hoje é a União Europeia do D. Dinheiro; tão pouco se exilou em algum país fora da Europa, uma vez que tudo hoje é Globalização e o D. Dinheiro não conhece fronteiras e tudo devora sem a mais leve hesitação, numa sofreguidão de Vampiro e de Monstro que nunca se viu antes na História da Humanidade. Ainda não demos por isso? E como haveríamos de dar, se as televisões do D. Dinheiro nos bombardeiam dia após dia com overdoses de novelas rascas e “prós e contras” domesticados e imbecis, cada qual o mais politicamente correcto, e com futebóis sem limite, sob o douto comando das SAD’s que habilmente “comeram” os velhos Clubes desportivos, espaços de debate e de participação popular, e com funerais em primeira e segunda edição do cadáver da portuguesa mais alienada e manipulada do século XX, Lúcia, de seu nome, da freguesia de Fátima (esperem mais uns meses, e haverá ainda uma terceira edição, quando, naquele recinto mais desgraçado de Portugal, entrar em funcionamento a nova Catedral, S. A., da SS. Trindade), ou com documentários e filmes a granel do novo santo súbito, o papa mais fatimista de todos os papas, João Paulo II.
4. Eu sei, e todos sabemos, que não foi para isto que viveu e lutou o camarada Álvaro. Mas a verdade é que o grande Capital, que aceitou o seu regresso ao país e que não se poupou a hipócritas declarações de louvor, por ocasião da sua explosão final, nunca se deixou tocar pela sua vida de militante e totalmente entregue às grandes Causas da Humanidade. Habilmente, acolheu-o, mas para depois, de ano para ano, melhor poder controlar todos os seus passos e assim impedir que o Abril que ele e tantos outros camaradas, mulheres e homens, ajudaram a acontecer, fosse por diante, e com a Abril, também a Liberdade e a Maioridade humana, a Justiça Social e a Igualdade, numa palavra, o Socialismo e o Comunismo. E nem sequer foi preciso voltar a criar cadeias políticas. Bastou transformar progressivamente o país numa cadeia.
5. Mas será que ainda não nos apercebemos que vivemos sob a ditadura de D. Dinheiro? Que hoje é o D. Dinheiro que tudo controla e dita as regras do jogo? Que somos um país que continua a ter uma bandeira, mas que esta pouco mais é do que um pano verde-vermelho a flutuar ao vento, sem qualquer autonomia e nenhuma independência? Só cegos que o queiram ser é que não vêem que hoje quem tudo decide é o D. Dinheiro, indiferente aos clamores e às manifestações de protesto. Na sua democracia – a democracia avançada do D. Dinheiro – também há lugar para o protesto e para a greve, para partidos políticos e para novas e velhas Religiões. Só não há lugar é para a Política, a menos que esta aceite ser a escrava do D. Dinheiro e se limite a executar as suas leis e as suas orientações. Política que escute os clamores das vítimas e realize os seus legítimos anseios, meta na ordem o D. Dinheiro, é coisa que já foi, quando a Humanidade ainda vivia sob a influência do Sopro ou o Espírito da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, e a Solidariedade se tecia com gestos efectivos que iam de encontro à fome e sede de justiça das populações e dos povos. Hoje, nesta democracia avançada do D. Dinheiro, nem lugar há para seres humanos com entranhas de humanidade. E se ainda aparecem alguns, verdadeiras excepções à regra, são tolerados e ostracizados e olhados pelo conjunto do rebanho humano como tolos, uns extra-terrestres, bichos exóticos, seres fora de época e em vias de extinção.
6. Está então tudo perdido? Não creio. Se assim fosse, a História teria chegado ao fim. E seria o Inverno absoluto e definitivo. Mas então nem o D. Dinheiro teria sobre quem reinar, nem sobre quem exercer a sua acção descriadora em que é perito. Não deixo, no entanto, de dizer que esse perigo da História ter chegado ao fim, é real e está aí sobre as nossas cabeças como a espada de Dámocles. Não! Não é o inferno nuclear que nos pode destruir como humanidade e como planeta. Esse é um outro perigo real e tremendo, mas já não é nem o mais perigoso, nem o mais perverso. Querem convencer-nos disso e distrair-nos com isso, para não nos darmos conta do que é verdadeiramente perverso para a Humanidade, hoje. Ora, o que é verdadeiramente perverso para a Humanidade hoje é o D. Dinheiro. O D. Dinheiro é o deus mais perverso, muito pior que a Religião e os deuses da Religião. A Religião é o ópio do povo. Mas o D. Dinheiro, como ídolo ou falso deus, é mil vezes pior que o ópio. É o Perverso que perverte os seres humanos que se deixarem fazer por ele, pior, é o Perverso e o Mentiroso que descria os seres humanos. É o anti-Deus vivo e Criador. Enquanto o Deus vivo e criador cria seres humanos à sua imagem e semelhança, por isso, criadores e livres e fraternos e políticos, o deus Dinheiro descria os seres humanos e converte-os em coisas, euros, dólares, seres sem entranhas de humanidade, monstros, robots, joguetes na mão de títeres que fazem de dirigentes das nações e do mundo.
7. Num mundo assim, não temos para onde fugir. Estamos sob a globalização do Dinheiro. Do deus Dinheiro. Ele está em toda a parte, como deus/ídolo que é. Tudo vê. Tudo controla. Tudo governa. Tudo submete. É a democracia avançada do D. Dinheiro. Vejam que até os que se dizem de Esquerda estão hoje totalmente à sua mercê. Ainda se agitam e discursam, mas é tudo estéril. É tudo vaidade. O D. Dinheiro é que lhes paga para eles se agitarem e falarem assim. E paga bem. A tempo e horas. Não só em ordenados, mas também em privilégios para o hoje e para o amanhã. Por isso, as novas clandestinidades e as novas conspirações que é urgente começar a protagonizar quanto antes, têm que ser mesmo novas. Não podem ser uma simples reprodução das do camarada Álvaro e dos seus companheiros. Na democracia avançada do D. Dinheiro, é preciso muito mais audácia e muito mais lucidez. Concretamente, a audácia e a lucidez de escolhermos ser pobres e mantermo-nos pobres a vida inteira. A audácia e a lucidez de resistirmos ao Dinheiro e às suas seduções. A audácia e a lucidez de sermos humanos com entranhas de humanidade. A audácia e a lucidez de nos deixarmos fazer e construir por um outro Sopro, que não o do Dinheiro e que, por isso, só pode ser o perturbante mas fecundo Sopro que vem das vítimas humanas. A audácia e a lucidez de sermos fraternos/sororais, todos os dias. A audácia e a lucidez de sermos solidários. A audácia e a lucidez de sairmos dos ghetos e dos túmulos que são hoje as nossas casas cheias de coisas para nos entreter e estiolar. A audácia e a lucidez de fecharmos a televisão quando nos servem mediocridades e imbecilidades, e tornarmo-nos criadores. A audácia e a lucidez de sairmos por aí, como Diógenes, outrora, de lanterna/telemóvel/e-mail na mão, à procura de homens e mulheres que já resistem ao D. Dinheiro e às suas seduções e criarmos laços de comunhão viva edificada sobre a gratuidade do amor fiel até para lá da morte.
8. O mundo hoje é do D. Dinheiro. Precisa de voltar a ser dos seres humanos, mulheres e homens, e dos povos. Mulheres e homens novos. Povos novos. Políticos. Livres. Em comunhão. Em pequenas comunidades de Partilha de vida e de bens. Resistentes ao Dinheiro e ao Poder e aos privilégios que ele dá a quem lhe obedece. Insubornáveis. Unha e carne com as vítimas mais vítimas. Será longa, sem dúvida, a travessia do deserto, mas não vejo outra via para derrotarmos de vez o deus D. Dinheiro e voltarmos a colocar os seres humanos e os povos no centro e como objectivo último do nosso viver quotidiano e da Economia.
9. O exemplo do camarada Álvaro, aqui bem presente nesta Bíblia sobre ele, é um estímulo. Ousemos ser, no nosso aqui e agora, o que ele foi no seu aqui e agora. Bem sei que foi apenas ontem que ele explodiu definitivamente. Mas a verdade é que entre o seu ontem e o nosso hoje aconteceu a maior contra-revolução da História. O Dinheiro passou a ocupar o lugar do Ser Humano e desalojou-o. A Política cedeu o seu lugar ao Poder financeiro. O Humano deu lugar ao Cínico. E o mais cínico dos cínicos é quem se atreve a manter o cartão e o título de comunista, ou de Esquerda, mas vive sob o sopro e as ordens do deus D. Dinheiro.
10. Que fazer? Em palavras proféticas e teológicas, certamente, bem mais profundas e radicais que as do próprio Lenine, num livro com este título, direi: É imperioso regressarmos a Jesus. O de Nazaré, evidentemente, crucificado pelo Templo e pelo Império do seu tempo. Não o Jesus light que as Igrejas criaram depois que se amancebaram com a Religião e o Império. São de Jesus, o de Nazaré, estas mais sábias palavras que alguma vez se ouviram à face da Terra: Ninguém pode servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro. Ou em tradução mais secular e por isso mais jesuânica: Não podeis servir as Vítimas e o Dinheiro que as fabrica em massa. Não podeis ser políticos e poder.
11. Bem sei que Jesus, hoje, está demasiado prisioneiro das Igrejas e das Religiões. Por isso o que há a fazer já é resgatá-lo das Igrejas, tanto a católica romana com a sua Cúria vestida com o vermelho do sangue de incontáveis vítimas que ela produziu ao longo dos séculos, como as mais recentes com sotaque brasileiro, cujos dízimos cobrados aos fiéis são um pecado que brada aos céus. Resgatemo-lo e deixemo-nos fazer pelo seu Sopro libertador e humanizador. Ele é o caminho (estreito, por isso, por onde poucos entrarão), a verdade (que nos liberta para a liberdade e para a maioridade) e a vida (que nos faz ser mulheres/homens-para-os-demais). Não há outro fora dele. E, se pensarmos que isto é beatice, só nos prejudicamos. Mesmo aos ateus, deixem que vos diga com toda a ternura e com toda a violência do sopro libertador: Sejam ateus, sim, mas do deus Dinheiro e dos deuses da Religião. De Jesus, o de Nazaré, e do Deus de Jesus, ousemos ser companheiros e prosseguir as suas causas, que têm a ver com levar a Criação ao seu termo. Nem que nos aconteça o que historicamente aconteceu com Jesus. Que também a nós nos mate o D. Dinheiro e o Templo. Porque a morte só é abjecta, quando é sem causas ou, pior ainda, quando acontece ao serviço do D. Dinheiro e do seu Império.
12. Tomemos este livro. Levemo-lo connosco. E ousemos ser no nosso hoje e aqui o que o camarada Álvaro foi no seu hoje e aqui. E, se possível, ousemos ser ainda mais do que ele. Ousemos ser como Jesus. Homens, mulheres do mesmo jeito. Ao Miguel Carvalho que nos deu este precioso livro e me dirigiu o convite para estar hoje aqui a apresentá-lo, o meu Parabém. E o meu Bem-haja! O Parabém pelo livro. O bem-haja pelo convite.
2006 ABRIL 05
Deram-nos um Jesus light sem espinha
dorsal e sem Sopro. Inventou-o o Império
de Roma e divulgou-o a Igreja católica
romana ao longo dos últimos dezasseis
séculos que foram de Cristandade. E os povos
que deveriam tornar-se subversivos e criadores
afundaram-se na Alienação e na Subserviência.
Temos que regressar a Jesus o de Nazaré
e ao seu Evangelho revolucionário que canta
um Deus que derruba todos os Impérios e deixa
de mãos vazias os Ricos. O Império matou-o
como subversivo e os Ricos como louco. Mas ele
tornou-se Sopro e é assim que atravessa a História
numa Páscoa de libertação que não conhece ocaso.
Fujam do Jesus light inventado pelo Império e
divulgado urbi et orbi pela Igreja católica romana
e pelas demais Igrejas que dela nasceram. Quem
se perde em semelhantes cultos não chegará nunca
a ser mulher/homem-para-os-demais. Permanecerá
eunuco a vida inteira. E só a Morte quando chegar
poderá fazê-lo explodir e torná-lo Sopro para sempre.
Felizes os que desde muito cedo se deixam
encontrar e seduzir por Jesus o de Nazaré e pelo
Sopro que fez dele o dissidente por antonomásia
dentro da Ordem criada pelos poderosos do Império
e pelos ricos. Acabaremos tão dissidentes quanto
ele. E tão pobres. E tão felizes. Enquanto os ricos e
poderosos acabarão sozinhos com a sua loucura.
Até agora temo-nos deixado seduzir pelo Poder
e pelo Dinheiro. Confundimos felicidade com
riqueza acumulada e concentrada. E Política com
assalto ao Poder. Deveríamos ter-lhes resistido até
ao sangue. E com a mesma alegria com que Jesus
o de Nazaré lhes resistiu. É hora de passarmos de
escravos a senhores. E à Fraternidade globalizada.
São de Treva os dias que correm. É o Império na sua
máxima arrogância. A Ordem que ele criou e impôs
ao mundo movimenta-se nos antípodas do Reino de
Deus anunciado por Jesus o de Nazaré e tornado logo
presente na sua Prática libertadora e solidária. Temos
que regressar a Jesus e à sua Política amor e serviço
maiêutico. E o Império que vá para a Puta que o pariu.
Fujam das Igrejas que nos acenam com um Jesus
sem Reino de Deus e sem Política amor e serviço
maiêutico. Não passam de Igrejas do Império e do
Dinheiro. Por isso andam tão ocupadas com cultos
sem profecia e com acções de caridadezinha longe
dos conflitos. São Igrejas nos antípodas de Jesus e
na continuação dos sumos sacerdotes Anás e Caifás.
Aceitemos ser Igreja viva que faz sua a causa das
vítimas do Império e do Dinheiro. Conheceremos
o ostracismo dos poderosos e dos ricos como
prova de que já não somos nem do Império nem
do Dinheiro. E que nos tornamos grão de trigo que
morre para dar muito fruto. Numa Páscoa feita
Liberdade e Pão e Vinho para a vida do mundo.
2006 ABRIL 02
O convite chegou-me dos promotores da sessão pública no Porto (Cooperativa Árvore), em Memória do Pe. Maximino e de Maria de Lurdes, assassinados à bomba há trinta anos. O convite só me foi formulado na passada 5.ª feira, 30 de Março e a sessão foi ontem, 1 de Abril, à noite. Mesmo assim, aceitei. Era o dia do almoço solidário com o Barracão de Cultura, mas, por mais que este se prolongasse pela tarde dentro, deveria dar tempo para eu poder ir ao Porto, partilhar de viva voz o meu indignado e desassombrado testemunho pessoal. Um testemunho com Sopro, como convém nestas iniciativas, pois só onde o Sopro de Jesus acontecer é que há verdadeiramente Evangelho ou Boa Notícia de Deus aos pobres, às vítimas e má notícia aos seus opressores e fabricadores. Por pouco não chegava a tempo. O convívio cultural e espiritual no pós-almoço foi tão intenso e tão único e tão cheio do Sopro de Jesus libertador, que nem demos pelas horas a passar. Tive que ir a correr para o Porto, por auto-estrada, para poder chegar a horas. Valeu a pena esta entrega à vida e às causas da vida. No final do dia, estava exausto, mas incrivelmente feliz. Na sessão, fui encontrar na mesa de intervenientes, onde também tive que me sentar, o meu querido Amigo e companheiro Mário Brochado Coelho, que já não via há bastante tempo, ainda que sempre esteja em comunhão viva com ele e ele comigo. O Jornal Fraternizar que ele recebe, desde o princípio, faz a ponte entre nós e alimenta a relação fraterna que nos faz ser mais humanos. O meu último livro, Na companhia de Jesus e de Ateus, também foi adquirido por ele e digerido. O que nos torna cada vez mais irmãos no Espírito e nas Causas. Fiquei edificado com a sua intervenção na sessão, feita logo a seguir à minha. E pedi-lhe, à despedida, que não deixasse de escrever tudo o que sabe (e muito é!) sobre o Padre Maximino e o processo judicial. O país precisa de saber o que anda por aí de desonestidade intelectual e moral, de cobardia e de crime encapotado. A morte do Pe. Maximino é um sinal de contradição que veio revelar o podre de muitos corações e monstruoso de muitas vidas aparentemente normais. Partilho, a seguir, na íntegra, as palavras que preparei para a dizer na sessão. Deixem-se tocar por elas, sobretudo, pela força libertadora do Sopro que as atravessa. Eis.
1. Foi já há 30 anos que os mataram à bomba, ao Pe. Maximino e à estudante Maria de Lurdes que vinha com ele das aulas que ambos davam à noite a trabalhadores na Cumieira, nas proximidades de Vila Real. Mas o crime continua aí em carne viva. E a clamar por justiça.
2. Não escutar semelhante clamor que se levanta do chão de Portugal e daqueles dois corpos jovens destroçados pela bomba é um outro crime não menos hediondo que o de há 30 anos. Ora, um país cuja História seja tecida de crimes e de sangue de vítimas inocentes que clamam, em vão, por justiça será sempre um país sem remissão, sem dignidade, sem humanidade, mais pesadelo do que comunhão. E tal tem sido o nosso país, apesar de Abril, um Portugal de pequeninos e de chico-espertos a caminho da cauda da Europa, um país de consumidores compulsivos de novelas e de futebol e de Religiões, cada qual a mais esotérica e exploradora, um país de apostadores compulsivos nos jogos da santa casa (quando a casa mãe de todos os jogos a dinheiro é santa, porque não há-de ser santo, e santo subito, o fatimista papa João Paulo II, cujo longo pontificado não deixou pedra sobre pedra do promissor e revolucionário Concílio Vaticano II?)
3. O pior é que quando não nos atrevemos a ser e a viver como seres humanos, depressa ultrapassamos as bestas em inumanidade e em crueldade. Por mais que nos enfeitemos de beatos e de santos, e de outros títulos secularizados cheios de pompa e de circunstância. Aliás, os títulos só assentam bem em quem tem montes de inumanidade a esconder e mãos cheias de sangue a disfarçar. Aos seres humanos com espinha dorsal e frontalidade, os títulos só atrapalham e depressa ficam pelo caminho, com os seus portadores a ser excomungados e votados ao ostracismo. É assim: Ou somos irmãos e companheiros e comportamo-nos como tal todos os dias, ou constituímo-nos em inimigos dos demais. Quem não se faz próximo dos que sofrem e estão para aí votados ao ostracismo torna-se um aborto humano. Pode não matar, não roubar, nem destruir, mas dele não se poderá dizer que é um ser humano integral. Ser mulher, ser homem a valer é comprometer-se com os demais, até que todos sejamos gente. Não se trata de subir, de fazer carreira dentro do Sistema e desta Ordem Mundial intrinsecamente perversos. Trata-se de descer para se chegar a ser. Quando nos promovem e, assim, nos distanciam dos últimos e das vítimas, despromovem-nos em humanidade. A melhor receita para fazer um canalha é promovê-lo a chefe do bando e atafulhá-lo de privilégios e outras benesses. Na Igreja, é fazer de um cristão bispo. Na Sociedade é fazer de um político ministro. Na empresa, é fazer de um trabalhador patrão. Com o passar dos dias, veremos diminuir o ser humano e desenvolver-se um monstro, cada vez mais distante e arrogante na sua relação com os da base e todo mesuras e salamaleque na sua relação com os do vértice da pirâmide que são também os donos de D. Dinheiro.
4. A menos que sejamos como o nosso querido Maximino mártir. Padre, mas com uma salutar prática quotidiana de anti-padre. Padre, mas com coração e braços e cabeça e mãos e pés e corpo de irmão e de companheiro. Escandalosamente próximo das pessoas da base e longe dos templos e dos altares. Sobretudo, longe dos privilégios que a batina e a estola sempre dão a quem se apresenta vestido/disfarçado com uma e com outra. Com ele, aprendemos que podemos assumir serviços, nunca privilégios. Os privilégios corrompem e acabam por fazer desaparecer o ser humano. Ou recusamos os privilégios que o Poder faz questão de conferir a quem exerce determinada função, ou tornamo-nos progressivamente menos humanos. Por isso, quando não nos deixam recusar os privilégios inerentes à função, só nos resta recusar a função. Se a aceitamos, assinamos nesse instante, o nosso próprio processo de despromoção de ser humano, para nos tornarmos progressivamente um funcionário do Sistema e do Dinheiro mais ou menos subserviente.
5. Na sua rebeldia e juventude, o Padre Maximino nunca se deixou enrolar. O seu jeito de ser padre era o seu jeito de ser homem. Como um menino. Atrevido. Indomável. Alegre. Gaiato. Solidário. Desprendido. Pobre. Comprometido. Insubornável. Dissidente. No Sistema, mas sem ser do Sistema. No Sistema, mas para o fazer implodir, nunca para se aproveitar dele. Um padre-para-os-demais. Para que os demais crescessem como pessoas, como seres humanos, em toda a sua originalidade e em toda a sua graça e verdade.
6. Não lhe perdoaram semelhante ser e viver. Tentaram domesticá-lo. Funcionalizá-lo. Clericalizá-lo. Em vão. Onde ele estivesse, estava o Sopro, o Vento, o Espírito. Ainda hoje, trinta anos depois, o seu nome continua a ser maldito. Como Jesus, o de Nazaré (não se iludam. O que hoje é por aí o mais bendito de todos os nomes não é Jesus o de Nazaré crucificado pelo Império e pelo Templo do seu país; é um Jesus light, habilmente reciclado pelo Império de Roma e pela Igreja católica romana que lhe sucedeu). Aliás, a morte violenta com que executaram o Pe. Maximino deixou bem claro urbi et orbi que padres assim nunca mais. A sua curta mas intensa vida histórica deveria ser bênção, exemplo a seguir, alfobre. E é maldição, vergonha, terreno maninho. Os bispos e a Igreja institucional tiveram e têm nojo dele. Nenhum deles apareceu a dar a cara no seu funeral. E hoje, trinta anos depois, continuam aí todos a ter vergonha de pronunciar o seu nome. É como se ele nunca tivesse existido.
7. E, no entanto, é de homens e de mulheres como o pe. Maximino que o nosso mundo precisa. Padres (e homens/mulheres) misseiros e funcionários do religioso, sempre tivemos que bastasse, séculos e séculos. E bispos também. E papas. Hoje, são menos em número, pelo menos os padres (ainda não há crise de vocações para bispo nem para papa!...), mas ainda são demais. Um só que seja e já é demais. Do que precisamos é de padres/presbíteros (homens/mulheres) que sejam seres humanos, irmãos e companheiros dos da base, pais com entranhas de mãe, com cabeça e mãos de parteira, que na relação com os demais ajudem a vir à luz o ser humano que anda em gestação em cada mulher, em cada homem que veio a este mundo. E que corre o risco de abortar e nunca chegar a vir à luz. Porque o Sistema da Alienação e da Mentira trabalha dia e noite, sem fins de semana e sem férias, para fazer abortar todos os que um dia nasceram neste mundo. O Sistema sabe que lá onde houver seres humanos a valer não há lugar para ele. Nem futuro! Por isso tudo faz para que nunca cheguem a ser seres humanos. Fiquem abortos, sempre.
8. Trinta anos depois do assassinato de Maria de Lurdes e do Pe. Maximino, a Igreja a que pertenço e a que eles pertenceram continua aí gritantemente calada. Envergonhada. Sem audácia para se rever no Pe. Maximino. Sem audácia para fazer dele o paradigma de padre/presbítero para o século XXI. Ainda em vida, atirou-o cruelmente para a valeta, quando foi por ele informada que iria fazer da Política (não do Poder!) a sua Intervenção e a sua Eucaristia. Em lugar de o apoiar e reforçar a comunhão fraterna com ele, abandonou-o às feras. Foi como dizer aos seus inimigos: podeis fazer com ele o que quiserdes, que nós não diremos uma palavra, nem esboçaremos um gesto. Ou, pior ainda: podeis cometer o hediondo crime de o matar pelas costas, à falsa fé, que nós jamais condenaremos esse crime. Pelo contrário, esse crime constituirá até um alívio. Para o país. E também para a Igreja institucional que nós, bispos católicos, somos.
9. O terreno ficou livre e a descoberto. E os inimigos do Pe. Maximino puderam avançar e matá-lo à vontade. Provavelmente, terão celebrado festivamente a sua morte. Pela calada. Numa liturgia inumana como eles. E com a bênção de algum cónego de nomeada e de algum bispo residencial. Não é verdade que também os sumos sacerdotes Anãs e Caifás, em Jerusalém, no tempo de Jesus, celebraram festivamente a sua morte violenta na cruz?
10. E agora? Trinta anos depois, tudo está consumado. Está? Não, não está! Tudo está apodrecido. Trinta anos depois, ele é corrupção por toda a banda. Ele é hipocrisia e mentira a jorros. Ele é Idolatria sem limites. O senhor D. Dinheiro não tem mãos a medir para atender tanta clientela. Como país, vamos a pique para o abismo, agora com Cavaco e Sócrates ao leme. Silenciaram os poetas e os profetas. Mataram o Debate. Nos seus medos da Liberdade e da Responsabilidade e na mais completa subserviência ao grande Capital (Às suas ordens, mau Capital, diz a manchete do último FRATERNIZAR!), esta dupla de dirigentes sem entranhas de humanidade tem o condão de tornar as almas das portuguesas, dos portugueses ainda mais pequenas. Até quando? Até quando nós consentirmos. Soprasse todos os dias em nós o Vento/Espírito que um dia fez acontecer e viver o Pe. Maximino e este país seria outro. Mas o que hoje sopra forte por aí é o Vento/Sopro de D. Dinheiro. Quem se atreve a resistir-lhe e a ser e a viver pobre até ao fim dos seus dias? Quem se atreve a ser ateu deste deus cruel que se alimenta de gente? Por mim, aqui estou, pobre, longe dos templos e dos altares, amigo, irmão e companheiro, no jeito do Pe. Maximino. Contem comigo para as novas clandestinidades que urge voltar a viver e para as novas conspirações que urge voltar a iniciar. Na companhia de Jesus e de ateus. E do Pe. Maximino e de Maria de Lurdes e de todos os outros mortos ressuscitados. Cuidem-se, porque os dias que vivemos são de chumbo. E é Inverno.