2004 ABRIL 30
Há já alguns dias que não visitava a página oficial da Igreja católica em Portugal, a conhecida Agência Ecclesia. Fi-lo ontem. A minha curiosidade levou-me a ler quase tudo o que lá encontrei sobre a beatificação de Alexandrina de Balasar. Fiquei simplesmente enojado. Nem um pingo de sentido crítico, como é timbre de todo o jornalismo que se preze. Apenas e só a voz do dono. Apenas e só mera correia de transmissão do pensamento eclesiástico oficial. A tecnologia e a inteligência ao serviço do poder eclesiástico episcopal e da sua ideologia moralista. Ninguém, de quantas, quantos escrevem na Ecclesia, se mostra capaz de discordar desta beatificação/canonização que mais não é do que a beatificação/canonização do sofrimento e da infelicidade dos seres humanos. Na verdade, a pobre mulher de Balasar foi bem o exemplo vivo de toda a perversão que o moralismo católico é capaz de cometer impunemente contra as pessoas, quando elas se mostram incapazes de lhe resistir. Ou o moralismo católico não fosse assim como um demónio que se apodera da consciência das pessoas e faz delas gato-sapato. Ninguém, nem mesmo entre os muitos padres e alguns bispos que se aproximaram de Alexandrina de Balasar, durante a sua malograda vida, foi capaz de ser, junto dela, como a parteira junto da mulher que está para dar à luz. Tê-la-ia libertado e ela, mesmo doente, teria podido crescer em sabedoria e viver em liberdade, a única maneira de glorificar o santo nome de Deus, no inspirado dizer de St.º Ireneu, no remoto século II. Assim, esta pobre mulher da arquidiocese de Braga cresceu desmedidamente em moralismo e na opressão praticamente ininterrupta. Em consequência, a única saída que depois encontrou para poder sobreviver no meio de tanta infelicidade foi recorrer até ao inimaginável para tentar sublimar a desgraça e o sofrimento a que se viu irremediavelmente condenada, como se a desgraça e o sofrimento humanos alguma vez pudessem ser sublimados pelas discípulas, pelos discípulos de Jesus. Não podem. Pelo contrário, têm que ser ferozmente combatidos por todas, todos nós, a exemplo do que sempre fez o próprio Jesus, inclusive, nos dias de descanso sabático, em que era terminantemente proibido realizar tais acções, inclusive, sob pena de morte!
De todos os textos que li, decidi trazer para este meu DIÁRIO ABERTO dois nacos de prosa episcopal, extraídos da homilia que o arcebispo de Braga, D. Jorge Urtiga, proferiu, no dia imediatamente a seguir à cerimónia oficial da beatificação da infeliz "santinha de Balasar", durante a missa a que presidiu no altar duma das mais ricas e pagãs basílicas católicas de Roma. São dois nacos de prosa que dão bem para perceber quanto continuam a ser infantis as preocupações dos bispos portugueses do século XXI. E se pensam que os bispos católicos portugueses são já cidadãos entre cidadãs, cidadãos, desenganem-se. Pelos vistos, continuam a ser destacados e privilegiados eclesiásticos que vivem cercados de "inimigos" e não quaisquer inimigos, mas "inimigos que dispõem de armas" que os outros católicos nem sequer conseguem imaginar! Tal e qual. O mais dramático é que nem por um momento os nossos bispos são capazes de admitir que todo este seu mal-estar eclesiástico pode provir do facto de todos eles continuarem inteiramente desfasados da realidade; de se imaginarem ainda em plena Idade Média, quando a sociedade era obrigatoriamente eclesiástica; ou de andarem preocupados com coisas que já não interessam nem ao menino jesus.
Evangelizar, para eles, é igual a clericalizar as pessoas e a sociedade, de modo que logo ficam fora deles, sempre que constatam que cada vez menos isso é conseguido; é também igual a reduzir as pessoas a súbditas dos seus moralismos; ou é igual a conseguir contagiar o maior número de pessoas com os fantasmas e os temores que os habitam. Felizmente, as pessoas, na sua esmagadora maioria, já não vão por aí e passam ao largo dessa sua visão doentia e esquizofrénica da realidade. As pessoas podem continuar à deriva, sem terem ainda descoberto por onde querem ir, mas uma coisa elas já sabem: é que não querem ir por onde os bispos católicos portugueses insistem em ir e em levar todas as outras pessoas a ir também. Entretanto, o arcebispo de Braga já parece pressentir que a sociedade portuguesa é hoje muito mais autónoma, relativamente às orientações moralistas dos bispos e do próprio papa de Roma. Mas pensam que se alegra com esse facto? Lamenta-se! E atira-se às pessoas, inclusive, católicas, que são capazes de aplaudir o papa, mas depois não cumprem as suas directrizes moralistas, nem as directrizes moralistas do conjunto dos bispos portugueses, por mais que eles se esforcem.
Fiquem então com o primeiro dos dois nacos de prosa da homilia do arcebispo de
Braga em Roma: "Os tempos são adversos e os
inimigos [da Igreja] dispõem de armas que não conseguimos imaginar. O ambiente
que nos rodeia não só não facilita a missão da Igreja mas cria, permanentemente,
dificuldades. Talvez ainda não tenhamos reflectido seriamente sobre esta
verdade. O mundo determina as suas leis e dispõe de argumentos que amarfanham a
voz da Igreja. Esta ainda vai sendo ouvida mas como notícia de curiosidade que
passa ao esquecimento. Vejamos o que acontece com o Santo Padre. O seu
testemunho é eloquente. Quantos o seguem? Onde chega a doutrina dos Bispos em
Portugal? Procura-se o sensacionalismo e há prazer em mostrar o que se apelida
de ruptura. Não se ouve o que a Igreja quer comunicar, mas aquilo que gostaria
de se ouvir. As frases são interpretadas e esquecem-se os valores que
pretendemos anunciar.
Onde estará a nossa coragem? Só a união a Jesus Sacramentado, como «escolha da
melhor parte», permite que demonstremos o amor que temos a Cristo. Daí que a
Eucaristia tem de adquirir a força duma presença que motiva e estimula. Aí
robustecemo-nos e partimos para a vida com outra convicção e ardor. Talvez
tenhamos de reconhecer que o testemunho no mundo é pouco convincente por uma
vivência demasiado habitual e formal.
O nosso coração «não arde» com a presença do Ressuscitado e, como consequência,
os dinamismos do mundo em vez de serem permeados pelo Espírito Evangélico são
conduzidos por leis e comportamentos estranhos e contraditórios à Boa Nova."
O segundo naco de prosa é ainda mais revelador do que o primeiro. Começa por reconhecer que "muitos cristãos só olham para as imagens" dos santos e "esquecem" o essencial da Fé cristã. Mas, depois, o que é que em concreto propõem, quer ele próprio, que os outros bispos portugueses seus pares, quer o próprio papa em Roma? Apresentam-lhes ainda mais imagens de santos e de santas, para as pessoas olharem, adorarem, idolatrarem!... Em lugar de esforçadamente despertarem e educarem as pessoas para o essencial da Fé cristã, continuam a pôr à disposição delas overdoses de imagens de santas e de santos - agora, também as imagens da desgraçada Alexandrina de Balasar - nas quais as populações, particularmente, as menos ilustradas, inconscientemente, se reencontram com os cultos idolátricos do velho Paganismo religioso que o Cristianismo oficialmente baniu por decreto imperial, no século IV, mas de modo algum conseguiu banir das suas mentes, as quais, ainda hoje, se mantêm aflitivamente pagãs.
Atentem, de modo especial, no teor de cada um dos "pedidos" concretos que o arcebispo de Braga fez àquelas pessoas que, como ele, foram a Roma testemunhar a beatificação de Alexandrina de Balasar e, no dia seguinte, não foram capazes de faltar à missa a que ele presidiu. Vejam em que atitudes concretas de vida ele coloca o acento tónico, para fazermos face aos graves problemas com que, como Humanidade, estamos hoje enfrentados. Vejam também o que há ainda de mágico e até de pueril no seu pensamento pastoral. Vejam a ingenuidade das suas propostas. Mesmo quando se refere à Eucaristia, como "acção de Cristo-total", depois não consegue ir além do esquema meramente ritual a que a Eucaristia continua sacrilegamente reduzida, o que faz dela uma "obrigação" dominical que quanto mais se repete mais aliena e infantiliza as pessoas que em grande número ainda não conseguiram deixar de a frequentar. E que dizer do seu patético apelo ao aparecimento de "adoradores" diante dos sacrários, até como forma de manter as igrejas abertas sem o risco de roubos? Mas será que é para que se ocupem com acções deste jaez, que o Espírito Santo continua a convocar a Igreja e a fazer de algumas mulheres e de alguns homens, cristãs e cristãos? Haja modos, senhor arcebispo de Braga! Atentem, pois, nos pedidos que ele faz às pessoas que o acompanharam a Roma:
"Gostaria de deixar [aqui] alguns pedidos.
1 – Que o culto aos Santos não ofusque a Eucaristia e o Sacrário. Muitos
cristãos só olham para as imagens e esquecem a presença de alguém que apaixonou
e foi a razão de ser da vida daqueles que queremos homenagear.
2 – Urge tornar a celebração eucarística como encontro com Cristo Palavra e Pão.
A Palavra terá de ser mais perceptível e ambientada; o Pão tem de ser recebido
com outra reverência e sentido de compromisso. Como encontro da comunidade, a
festa deve resplandecer como acolhimento de todas as pessoas e dos seus
problemas num intuito de proporcionar a tranquilidade que se torna coragem para
enfrentar o «duro» encenado no dia a dia.
A Eucaristia é acção de Cristo-total e, neste sentido, nunca pode ser
responsabilidade exclusivamente clerical. Os padres devem imprimir outra
espiritualidade no celebrar e os leigos têm de sentir a alegria duma colaboração
corresponsável. É cristão um agir segundo as capacidades e talentos numa Igreja
que se quer plural e, por isso, onde cada um faz «só e apenas» o que lhe
compete. Quanto caminho percorrido e quanta vida nova a procurar!!
3 – Torna-se necessário redescobrir a importância do Sacrário. O mundo necessita
de Adoradores que, pessoalmente ou em grupo, se colocam em atitude de
contemplação. As igrejas começam a estar vazias fora dos actos do culto. A
segurança recomenda muitos cuidados. Um mínimo de organização e a existência de
Cenáculos de oração que, dum modo generalizado, não necessitariam da presença do
padre, permitiria que elas estivessem abertas e acessíveis.
Também os lausperenes necessitam dum interesse maior e duma dedicação mais
esmerada. As Confrarias do Santíssimo têm aqui um espaço onde investir as suas
capacidades e energias. Não seria oportuno que todas as festas tivessem este
momento de encontro com o sacrário como núcleo central dum programa que não se
preocupe só com o exterior?
Nestes momentos de adoração, as vocações de especial consagração nunca podem ser
esquecidas. O Senhor da messe manda pedir e nunca nos poderemos cansar."
Eis! Como vêem, o que é preciso é que, no século XXI, regressemos séculos atrás, à Idade Média, sobretudo, às devoções pagãs em redor da hóstia e do cálice. Como se Jesus, quando se fez Pão Partido fosse para depois ficarmos inactivos a adorá-lo, e não fosse para o comermos, de modo a ficarmos possuídos do seu Espírito, esse mesmo que o fez viver a ele e o levou a protagonizar acções políticas fecundamente subversivas e radicalmente libertadoras, antes de mais, contra as causas que, em cada tempo e lugar, provocam intolerável sofrimento nos seres humanos. Já foi mau que tivesse havido uma Alexandrina de Balasar. Já foi mau que o papa João Paulo II, acolitado pelo nosso cardeal Saraiva, a tenha beatificado e, nela, beatificasse o sofrimento humano, em lugar de nos mobilizar a todas, todos contra ele. Mas é de todo intolerável que, agora, ainda venha um bispo pedir às pessoas que trilhem os mesmos caminhos obscurantistas e moralistas que Alexandrina de Balasar foi perversamente levada a percorrer por certos clérigos católicos do seu tempo. Aqui temos que dizer: Basta!
2004 ABRIL 25
Completaram-se hoje 30 anos sobre a Revolução de Abril de 1974. Dos múltiplos acontecimentos que marcaram este dia, dois ficam, em meu entender, a gritar simbolicamente ao mundo o estado desgraçado em que o país volta a encontrar-se. Um: A duas jornadas do fim do campeonato, os adeptos do FC Porto sentiram-se no direito de invadirem as ruas da cidade, para festejarem sem quaisquer escrúpulos e com a maior das naturalidades o 20.º título de campeão nacional da Super-liga, a revelar assim que, 30 anos depois, o futebol, com que o fascismo habilmente distraía e alienava o povo, juntamente com overdoses de Fátima e de Fado - os famosos três "ff" - já consegue sobrepor-se à própria memória da Revolução, inclusive, no próprio dia que lhe é oficialmente dedicado. Dois: O Papa João Paulo II avançou hoje em Roma com mais uma das suas caricatas fornadas de beatas e de beatos, entre os quais se inclui a chamada "santinha de Balasar", enquanto, à mesma hora, milhares de pessoas católicas de Portugal, com destaque para os distritos de Braga e do Porto, quase se esmagavam umas contra as outras na aldeia onde a infeliz Alexandrina nasceu e viveu. O que, a meu ver, constitui uma das mais perturbantes manifestações de obscurantismo, crendice e paganismo religioso, por isso, um verdadeiro insulto à inteligência humana e à Fé cristã jesuánica do século XXI, assim como um insulto à Revolução de Abril 74. O país oficial não só não reagiu a este insulto, como até enviou a Roma duas delegações, umas das quais em representação oficial do Estado português, chefiada pela ministra dos negócios estrangeiros, dra. Teresa Patrício Gouveia.
Para cúmulo, as sessões solenes oficiais que hoje se multiplicaram por todos os municípios do país, terão sido todas bastante hipócritas e meramente rituais, à semelhança do que geralmente sucede com as missas católicas ao domingo - pessoalmente, estive presente na sessão oficial do Município de Felgueiras e foi exactamente isso que me foi dado ver - durante as quais a palavra é dada exclusivamente a um representante de cada partido com assento na assembleia municipal, sem que ninguém, mesmo dos partidos políticos, tenha a liberdade de o contradizer, nem sequer quando ele faz disparatadas interpretações da História de Abril, ou profere descaradas mentiras. Em Lisboa e Porto, ainda se mantiveram, da parte da tarde, as habituais manifestações de rua, com palavras de ordem gritadas por milhares de bocas, mas até estas já não têm qualquer força revolucionária que nos recrie como povo. Houve ainda as tradicionais cerimónias oficiais na Assembleia da República, este ano, com algumas inovações cosméticas que serviram sobretudo para ajudar a esconder a realidade desgraçada em que o país se encontra. (Curiosamente, uma dessas inovações cosméticas foi a presença da fadista Marisa no Parlamento, a convite do respectivo presidente, dr. Mota Amaral do PSD, que entoou, na sua voz de fado, "A Portuguesa"; nunca o anterior regime levou tão longe o seu atrevimento na promoção do Fado!) Salvaram-se, no meio de todo este cinzentismo, as vaias populares que se fizeram ouvir, durante a parada militar oficial, e de que as televisões se fizeram eco, contra o ministro da defesa, dr. Paulo Portas, e contra o primeiro ministro, dr. Durão Barroso. Terão sido o que de melhor teve este dia. Elas revelaram que, felizmente, ainda há um resto de dignidade, pelo menos, em alguns sectores da população. É este resto de dignidade que pode muito bem vir a tornar-se a porta por onde a Revolução de Abril, devidamente actualizada para o século XXI, voltará a entrar, a fim de incendiar/mobilizar o país e nos libertar a todas, a todos para a liberdade, mas, desta vez, sem se chegar a cair na tentação de há 30 anos, que foi deixar intactos certos feudos e privilégios de casta, nomeadamente, da Igreja católica romana, cuja Concordata, invenção do fascismo salazarista, terá que ser banida, duma vez por todas, em lugar de prosseguir aí em vigor depois de revista, como, pelos vistos, está para suceder nos próximos dias.
Já o tenho dito e não me cansarei de repetir: uma revolução, como a do 25 de Abril 74, que nos fez nascer como povo irmão de todos os povos do mundo, não é para comemorar, muito menos, com cerimónias rituais e oficiais despojadas de alma revolucionária. Uma revolução como a de Abril 74 é para actualizar/fazer todos os anos. A tendência das sociedades, como das pessoas, é para nos instalarmos nas conquistas adquiridas, quando o que é preciso é que nos apoiemos nas conquistas alcançadas para conseguir outras e outras, numa dinâmica sem fim. Uma revolução como a do 25 de Abril 74 tem que ser contínua. Mesmo que as populações caiam na tentação de adormecer sobre o já conseguido, é necessário que, no aniversário da revolução sejam de novo sacudidas, na raiz. Para tanto, a sociedade portuguesa haveria de gerar um núcleo de pessoas, de preferência, poetas e profetas particularmente especializados em economia, política e teologia jesuánica - anti-idolátrica e anti-sacrificialista - cuja acção principal fosse assumirem-se como sentinelas no meio do povo, para garantirem à revolução de Abril o seu percurso sem cedências à preguiça, aos comodismos, aos egoísmos individuais, de grupo ou de massas. Infelizmente, nem em Portugal, nem no Ocidente, um tal núcleo de pessoas alguma vez chegou a constituir-se. Houve, em certos períodos, vozes isoladas aqui e ali, numa ou noutra área. Por isso, continuamos hoje tão desequilibrados e tão desumanizados, também ao nível da Europa.
Para cúmulo, no nosso tempo, há sinais de que está de regresso em força um certo clericalismo católico. Os tempos são de crise e é já notório que há em andamento uma tentativa para arrastar de novo o país para a Igreja católica, colocar o país sob a protecção dos bispos e dos clérigos, fazer regressar em força a religião católica tradicional, com a promoção das peregrinações a pé aos santuários, com missas difundidas em directo pelas televisões e pelas rádios (neste particular, certas rádios locais deveriam merecer mais atenção por parte do ministério da cultura e do ministério da educação, porque as suas programações são quase contínuas agressões à inteligência e à dignidade das pessoas), e com a clonagem de imagens da senhora de Fátima que proliferam não só nos templos católicos, mas também fora deles, nos caminhos e estradas de Portugal, e à entrada de muitas casas, certamente, como amuleto, ao qual a crendice atribui poderes de protecção às pessoas que residirem à sua sombra!!! Mas não só. Também e sobretudo com a permanência em directo nas televisões de certos clérigos católicos que, influenciados pelo sucesso de alguns clérigos católicos do Brasil, avançam pela mesma via de clérigos cantores em Portugal. Neste particular, espanta-me como o país político, inclusive, da Esquerda, continua tão escandalosamente calado perante o triste espectáculo diário ou quase, da programação da manhã no Canal 1 da RTP. Pelos vistos, parece ponto assente, para a actual administração do canal público de televisão, nomeada pelo actual governo da maioria política católica (CDS-PP/PPD-PSD), que quem poderá salvar o país da banca rota iminente é nossa senhora de Fátima, mai-los seus devotados clérigos, mai-las cantigas com que eles adormecem o povo, à mistura com as suas catequeses despolitizadas e moralistas. O despudor começa a ser escandaloso, mas a verdade é que ninguém tuge nem muge. Um pouco mais, e teremos a programação das televisões a abrir com a reza de um Pai Nosso e de uma Avé Maria, ou com a celebração diária duma missa, quanto mais ritmada e borguista melhor.
Continuemos a deixar-nos conduzir pelos caminhos destes e de outros clérigos da senhora de Fátima e veremos o tombo que o país vai dar. Já em 1917, foi com a senhora de Fátima e à sombra dela que os clérigos católicos manobraram as populações contra a República e conseguiram criar um clima social favorável à implantação do Estado Novo de Salazar que, por sua vez, implantou o regime fascista e assassino, durante longos e penosos 48 anos!. Foi contra este regime que se fez a Revolução de Abril 74. Mas parece que já nos esquecemos e voltamos a consentir que as coisas avancem por aí fora.
Bem sei que hoje, a chamada juventude está de costas voltadas para os templos católicos. E não vai nas missas dos clérigos, nem nas suas catequeses moralistas. E se as frequenta de quando em vez, é sem convicção e sem qualquer compromisso militante. Mas deixem-me dizer que é precisamente por isso que eu me mostro preocupado. A História revela que os piores inimigos da Liberdade não são os que agem por convicção, mesmo quando as suas convicções são erradas. São os que agem sem convicções fundamentadas. São estes que agem ao sabor do vento, precisamente o vento que lhes acena com privilégios, com poder, com riqueza acumulada, com regalias, com facilidades. E também com os deuses e as deusas do Paganismo religioso que não lhes exigem nada, apenas que eles lhes permitam continuar a manter as populações oprimidas no medo e pelo medo.
É para aqui que as coisas correm o risco de se encaminhar de novo. Trinta anos depois da Revolução de Abril. O dia de hoje revelou que este risco já é mais do que isso. É um facto em progressivo andamento. Quando uma população é capaz de trocar a festa da libertação que a Revolução de Abril 74 lhe proporcionou, pelo culto à imagem duma mulher que, durante a sua vida histórica, certos clérigos católicos criminosamente catequizaram para que se assumisse como uma mulher de sofrimento em honra de um Deus que tem tudo de vampiro e de carniceiro, o país mais esclarecido e mais lúcido tem que perceber que já se acendeu o sinal vermelho. Os fantasmas do passado estão aí em força. Vestidos com outras roupas. E a falar outra língua. Mas com overdoses de veneno que matam a alegria e a vida de qualidade. O futebol, com os seus novos estádios e com o Euro 2004, pode servir de ópio que ajuda a aguentar a falta de habitação, de trabalho, de saúde, de educação, de alegria de viver e, sobretudo, de dignidade humana. A senhora de Fátima, com as suas estúpidas e cruéis catequeses, a pedir a quem já sofre os olhos da cara, mais e mais sacrifícios pelos pecadores, idem aspas. Alerta, pois. Os clérigos católicos, agentes paganizados da senhora de Fátima, andam de novo à solta. E mostram-se sorridentes e de falinhas mansas nas televisões com o à vontade dos tiranos. Será que vamos fazer de conta? Ou pegamos no resto de dignidade que hoje se exprimiu naquelas revolucionárias vaias contra o ministro da defesa e contra o primeiro ministro e voltamos a fazer acontecer a Revolução de Abril, não a de 74, evidentemente, mas a do século XXI?
2004 ABRIL 23
Ontem andei a fazer de "carteiro" na freguesia. Juntamente com Maria Laura, Deolindinha e Irene. Fui ajudar a distribuir a minha CARTA PRESBITERAL n.º 1, referente ao mês de Abril. Hoje, da parte da tarde, depois de receber a visita do senhor Fernando, de Guimarães (há anos que não aparecia para conversar comigo e partilhar da sua vida), voltei sozinho para a estrada com mais exemplares da Carta, até ao pequeno lugar da freguesia onde se situa a casa paroquial. Apenas nesta casa tinha já colocado um exemplar na respectiva caixa do correio, mas faltavam todas as outras casas das redondezas. Por uma questão de princípio e de atenção, quando me dei conta de que já não dispunha de tempo para cobrir todas as casas do lugar, fiz questão de, ao menos, passar pela casa paroquial, para que o respectivo pároco não ficasse privado do seu exemplar, no mesmo dia em que ela foi distribuída na maior parte da freguesia. Não quis que ele fosse levado a pensar que o desconsiderava. Dada a sua função institucional, é previsível que algumas pessoas, ao darem pela Carta Presbiteral em suas casas, logo comuniquem com ele. E assim ele poderá dizer que também já tinha recebido um exemplar. Creio que foi mais correcto da minha parte.
É certo que, em todas estas semanas que já levo de vida em Macieira da Lixa, nunca fui bater-lhe à porta, por uma audiência, nem por um simples cumprimento. Reconheço-o como padre/presbítero da Igreja, em tudo igual a mim. Mas enquanto pároco, é uma das peças fundamentais do sistema eclesiástico herdado da velha Cristandade que eu denuncio e combato em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus. De modo algum, quero contribuir para fortalecer o sistema de que ele é o principal rosto aqui em Macieira da Lixa. Nem mesmo com uma simples visita de cortesia. Encontrar-me-ei com o Pe. André - é assim que ele se chama - as vezes que for preciso, na rua, ou na casa onde moro (se ele me procurar), ou em locais públicos, ou nas casas particulares aonde por coincidência ou não ambos nos desloquemos. Mas na casa paroquial, ou no templo paroquial, não. A menos que seja para lhe dizer frontalmente que esses locais são parte do sistema eclesiástico e do poder clerical, como tais, locais que os padres/presbíteros da Igreja que se prezem não só não devem ajudar a manter como propriedade eclesiástica, mas, pelo contrário, devem devolver às populações, para que elas os convertam em espaços ao serviço da vida, da criatividade e da liberdade.
Eu sei que, hoje, nem as populações estão para aí viradas. São séculos e séculos a respirar cristandade por todos os poros e as populações nem chegam a acreditar que esses espaços são seus, como efectivamente são, muito menos saberão que uso lhes dar para lá daquele que sempre viram ser-lhes dado. Mas nem por isso esta minha luta deixa de ser justa e oportuna. Pode levar séculos a ser entendida e seguida, mas é uma luta com futuro. Quando a Humanidade for liberta para a liberdade, tudo será diferente da pasmaceira católica romana que hoje conhecemos. As populações serão esclarecidas, libertas de deuses e de chefes sobre elas, donas de si próprias. Aliás, há-de chegar um tempo em que ninguém aceitará sequer ser clérigo. Em que ser clérigo romano será considerado uma desonra.
Recordo-me do tempo em que fui pároco aqui e que habitei aquela casa que hoje é ocupado pelo Pe. André. Não consegui, nos poucos anos que aqui estive, expropriar a Igreja diocesana do Porto, nem da casa paroquial, nem do templo paroquial. Era um propósito, muito para além das minhas competências, evidentemente. Mas uma coisa consegui: que tanto a casa paroquial, como o templo paroquial fossem convertidos em espaços abertos às pessoas da freguesia, espaços seus, que elas podiam e deviam frequentar e usar, de forma descontraída. Foi assim que a sala de jantar da casa paroquial se transformou numa pequena biblioteca e sala de reuniões/encontros de jovens, crianças e casais; a varanda da casa, toda envidraçada, passou a ser espaço onde se fazia e editava o Jornal de Parede, da responsabilidade do grupo de jovens; e toda a casa estava aberta ao povo. Muitas vezes disse que a casa que me tinha sido confiada como residência, era muito grande para um homem sozinho e que a frequentassem à vontade, porque era da população. Algo de semelhante, sucedeu com o templo paroquial. Na minha boca, deixou de se chamar casa de Deus, para passar a chamar-se casa do povo de Deus, ou simplesmente, casa do povo. Neste sentido, as pessoas eram convidadas a entrar à vontade, a conversar umas com as outras - dizia-lhes muitas vezes: estais em vossa casa, conversai, interessai-vos uns pelos outros, escutai-vos uns aos outros - e a darem largas à sua alegria, sem medo de profanarem o lugar. As missas eram progressivamente participadas - na homilia, cheguei a promover o uso livre e espontâneo da palavra, por parte de quem se mostrava com audácia para o fazer - e os encontros uma vez por mês nas noites de sábado deram brado na diocese, precisamente, porque as pessoas comportavam-se durante eles com o à vontade de quem estava em sua casa, ou numa casa comunitária. Foi todo este modo de fazer Igreja viva, mais o anúncio da palavra carregada de profecia, e ser de graça tudo o que eu fazia como pároco, até as missas diárias, que levaram o bispo a tirar-me a paróquia. Ele deve ter percebido que, ou estancava a tempo esta salutar subversão, ou podia perder o controlo desta paróquia. Como Igreja local que está no Porto, só teria a ganhar, se deixasse a experiência prosseguir. Mas como cristandade, tinha tudo a perder. E o bispo não esteve com meias medidas. Tirou-me a carta de pároco, primeiro. E depois, tirou-me a paróquia.
Volto outra vez ao dia de hoje e à distribuição pelas casas da Carta Presbiteral n.º 1. Ao contrário de ontem, em que a operação decorreu sem nada de especial, para lá da alegria de muitas pessoas quando me identificavam, a distribuição complementar de hoje teve dois episódios que não resisto a registar aqui. Começo pelo último, sem dúvida o mais surpreendente.
Estava eu na estrada que passa em frente à casa paroquial, mesmo a chegar à casa que foi do senhor Julinho (o presidente da Junta de freguesia do tempo em que fui aqui pároco e que me entregou à PIDE). Procurava a caixa do correio, duma casa com aspecto de abandono, quando, de repente, sinto um motão parar junto de mim. Olhei. Era um homenzarrão, alto, forte, de porte atlético, na casa dos trinta e picos anos, de capacete na cabeça. Perguntou, com alguma familiaridade: Não me conhece? Olhei mais atentamente. E nada. Ele tirou o capacete para que eu pudesse ver melhor o seu rosto. Disse-lhe: dá-me ares de já o ter visto, mas não consigo relacioná-lo com família nenhuma. Foi então que ele disse: sou o Pe. André, o pároco de Macieira. No mesmo instante, abri os braços e abracei-o efusivamente, tanto quanto me foi possível, com ele sentado no motão. A conversa estendeu-se por alguns minutos. Mostrei a Carta que andava a distribuir. Confirmou que já a tinha visto no dia anterior e que a tinha lido. Ainda começou por querer dizer que eu o atacava na carta e eu logo cortei cerce: Não, Pe. André, não digas que te ataco. Não te metas por uma leitura dessas. Afirmo-me, com toda a legitimidade, na diferença eclesial, dentro da mesma Igreja. E coloco bastante ênfase em certas atitudes que me proponho viver aqui, mas atacar-te pessoalmente não. Ele emendou a palavra. Mas deu para perceber que está deveras preocupado com o que poderá suceder a partir daqui. Se eu me mantivesse aqui calado todo o tempo, até nem haveria problemas, mesmo ao nível dos católicos mais ferrenhos, alguns dos quais integram a Comissão Fabriqueira. Mas assim, com cartas como esta, nem ele sabe o que irá acontecer. Sosseguei-o. E apelei a que se coloque na postura eclesial correcta. Sem fazer guerras. No respeito pela diferença. Sobretudo, à escuta da Palavra. E que saiba educar as pessoas para a tolerância, para a abertura ao Espírito Santo, para o Evangelho de Jesus. Disse-lhe ainda: Sabes que numa concepção piramidal de Igreja, somos levados a pensar que Deus nos fala de cima para baixo, a começar no papa, logo a seguir, nos bispos e, finalmente, nos párocos. Mas essa é uma concepção de Igreja que não tem a marca do Espírito Santo. Na Igreja do Espírito Santo, Deus fala-nos sobretudo das margens, dos últimos, das vítimas, de fora do sistema eclesiástico. Temos que estar atentos ao que nos vem de fora, dos não-credenciados eclesiasticamente. O Pe. André ouviu. Não se pôs de fora do que lhe disse, mas fiquei com a impressão de que esta mensagem soa-lhe a coisa nova. Ao mesmo tempo que lhe falei, continuei a mostrar por gestos toda a minha alegria por este encontro. E a terminar, disse-lhe: Ainda nos vamos encontrar e entender no Evangelho. Sorriu, cumprimentou-me de mão e arrancou no motão. E eu prossegui, cheio de alegria, o meu trabalho de salutar subversão evangélica e eclesial. Consciente de que as coisas começam a não estar fáceis para este meu colega. Esta é a sua grande oportunidade para ele se livrar do sistema eclesiástico. Se não for capaz, então o mais previsível é que ele comece a fazer tudo para se livrar de mim. O que seria muito mau para ele. E também para a Igreja que está no Porto. Se esta Igreja não tem capacidade para me integrar e reconhecer, será como a sinagoga do tempo de Jesus, relativamente a ele e às comunidades cristãs primitivas. Mostrará todo o seu fanatismo de seita. Pela minha parte, farei tudo para que isso não aconteça. Sem quaisquer cedências ao sistema eclesiástico. Mas com a máxima fidelidade que eu puder ao Evangelho. E ao Espírito Santo.
O outro episódio, ocorreu, quando eu ia a passar diante da casa da família Rito, muito conhecida na freguesia, desde o tempo em que aqui fui pároco. Uma das famílias que então nunca foram muito comigo. Creio que por estarem na dependência do então presidente da Junta de Freguesia - era o caciquismo que o fascismo tanto alimentou - mais do que por convicção. No caminho, estavam várias pessoas juntas. Até parece que me esperavam. Quando me aproximei, saudei-as a todas efusivamente. E mostrei exemplares da Carta Presbiteral. Não foi preciso mais, para logo uma delas, mulher na casa dos trinta e muitos, quase se "atirar" a mim com notória agressividade na voz. Pelos vistos, era menininha, quando eu foi pároco. E terá sofrido alguns dissabores, concretamente, terá sido obrigada a fazer a comunhão fora de Macieira, pelo facto dos familiares mais velhos não me aceitarem, nem aceitarem as mudanças libertadoras que fomentei na paróquia. Na boca dela, eu é que era o grande culpado! Tentei cativá-la. Esclareci-a com paciência e com ciência. Ela começou a ficar atrapalhada. E a reconhecer a sua ignorância. Entretanto, chega o seu sogro, o senhor Rito, do meu tempo. Regressava duma saída à cidade. Parou e meteu-se na conversa. Quis acusar-me, depois de todos estes anos. Ri-me muito com ele e para ele. As coisas que dizia não eram como ele as dizia, mas como ele então foi levado a vê-las. Esclareci-o com gosto. Ele ouviu. E começou a tolerar-me. A nora voltou à carga. Já conhecia a carta, distribuída no dia anterior. "Vem para fazer guerra? Vem para dividir a freguesia? O que é que pretende?" Eu ouvi. Acolhi. E respondi: Venho para unir, para compor, para libertar. Venho para continuar a anunciar o Evangelho. Só acolhe quem quiser. Sou presença de paz, mas ao jeito de Jesus. Ela ainda puxou pelo assunto dos santos e das santas. E da cruz. Mostrou-se furiosa porque, segundo ela, eu digo que os santos e as santas são de caco ou de madeira. E que a cruz paroquial é de metal. Interrompi-a, para lhe perguntar: E não são? Ela ficou atrapalhada de novo. Até que começou a aproximar-se de mim. O que tinha para dizer estava dito. Sem resultado, dado que não conseguiu pôr-me contra ela. Pelo contrário, quanto mais ela me atacava, mais eu lhe sorria e a acolhia. E a esclarecia com alegria. De olhos nos olhos dela. E do senhor Rito. Envolvi-os a ambos na ternura que me habita. Queria abraçá-los, mas não me deram oportunidade. Abracei-os com o meu olhar de companheiro e de irmão. Até que ela se virou para mim e disse: Dê-me lá um exemplar da carta para eu levar para a minha casa. Aí, percebi que ela já estava quase ganha para a causa e arrisquei: Vê? Qualquer dia ainda vai convidar-me para ir comer em sua casa com toda a sua família e Partirmos juntos o Pão e o Vinho em memória de Jesus. Ela ficou manifestamente perturbada com estas minhas palavras, mas não se pôs de fora. Até acrescentou: Lembre-se de mim, como padre, porque eu ando com muitos problemas e não sei como os encarar e vencer. Garanti que não a esqueceria. E assim estou a fazer. Na comunhão com o Espírito, ela e o senhor Rito estão continuamente presentes. Se uma e outro deixarem de ser contra a minha presença/intervenção e vierem a participar em algum das iniciativas que dinamizo no âmbito da Comunidade, será meio caminho andado para o Evangelho entrar na vida de muitas outras pessoas na freguesia. A Carta Presbiteral n.º 1 só agora foi distribuída e já está a dar os seus frutos. Não é a agitação social e familiar que me assusta. O que me assusta é o marasmo, são as águas paradas. Também aqui, como na emblemática piscina do Evangelho de João, é preciso que as águas sejam agitadas. Para que as pessoas se libertem. E se curem. Para isso vim e estou aqui. Estou animado e feliz. E em grande expectativa.
2004 ABRIL 20
Um velório. Hoje estive presente num velório. No salão que está a fazer também de igreja paroquial de Mogege, freguesia do concelho de V. N. Famalicão. Não foi por muito tempo. Mas o suficiente para me sentir interiormente mal. Não é a morte em si que me faz sentir mal, particularmente, quando ela acontece, como neste caso, em pessoas de idade avançada e quase já só com vida vegetativa, em consequência de sucessivos ataques cerebrais. O que me faz sentir mal é a maneira como as pessoas lidam com a morte. Melhor, como não lidam. Como entregam tudo à agência funerária e lhe dão carta branca para que ela faça como muito bem entender. E a agência funerária não entende nada. Limita-se a cumprir o tradicional, o rotineiro, o sempre o mesmo, passado a papel químico. Na fidelidade a um ritual que deve beber a sua falta de inspiração no paganismo religioso que ainda continua a comandar o quotidiano da generalidade das pessoas e dos povos, apesar dos dois mil anos de Cristianismo e de civilização cristã de que o Ocidente tanto gosta de se orgulhar. É uma lástima. Um desastre de todo o tamanho. O momento cume da vida de um ser humano, para mais, de um ser humano, a quem outros seres humanos estão particularmente ligados pelo afecto e pela gratidão, é assim deixado aos cuidados de uma agência funerária, com fins exclusivamente lucrativos, despojada de alma e de entranhas verdadeiramente humanas. Para mim, isto é um crime de lesa-humanidade e de lesa-cultura. Que a nossa Igreja católica tem alimentado e promovido. E que a nossa sociedade aceita, ao abrigo da lei do menor esforço. E as famílias de tradição católica também. No caso a que me refiro aqui, as coisas poderiam ter sido completamente distintas. Bastava que me tivessem consultado e responsabilizado pela animação. Ou que os familiares mais próximos do falecido - viúva, filhas e filhos que já são portadores de outra consciência - se dispusessem a conduzir eles próprios este momento, como felizmente conduziram os longos meses da doença, em lugar de, como toda a outra gente, abdicarem da sua iniciativa e entregarem tudo à agência funerária.
É verdade. O pai das minhas amigas Quina e Zeza, mais conhecido na sua aldeia por senhor Marques, faleceu hoje e o seu cadáver será sepultado amanhã à tarde. Não poderei estar presente no funeral. Por isso fui hoje até ao velório, comungar da orfandade das minhas amigas e expressar-lhes, à sua mãe Laura e aos seus vários irmãos, cunhadas e sobrinhos, de quem também sou amigo, toda a minha activa solidariedade. E, sobretudo, testemunhar-lhes, ao vivo, a minha esperança. Era já noite, quando apareci. O velório tinha poucas pessoas, para lá dos familiares mais chegados. À entrada no local, deparei com a urna aberta, com o cadáver em exposição. O que, só por si, me parece um costume cultural de muito mau gosto em terras de arreigada tradição católica. Quem, como eu, conheceu o senhor Marques na força da vida e na velhice antes dos ataques cerebrais, dificilmente encontra o seu rosto e a sua identidade naquele cadáver já em acelerado estado de decomposição. Mas mesmo que estivesse com outro aspecto, já não é mais o senhor Marques. É apenas o seu cadáver. Por isso, a urna deveria permanecer fechada todo o tempo. Era também mais respeitador da sua memória.
O cadáver é uma coisa, já não é um ser humano. É uma coisa que vai ser dada à terra (há quem prefira a cremação, mas a nossa tradição portuguesa e europeia continua a privilegiar a sepultura dos cadáveres). Para que há-de ser exposto, durante o velório? Se cremos na vida que se transforma e na ressurreição dos mortos - o Ocidente cristão é para aí que aponta e o padre que preside ao funeral é isso que anuncia, embora o costume fazer no envergonhado tom de quem se limita a ler o ritual dos defuntos, por isso, sem qualquer convicção e sem uma ponta de alegria - havemos de crer também que a pessoa a quem o cadáver se refere é já, no momento do velório e do funeral, do número dos ressuscitados. Mais uma razão, por isso, para que a urna se mantenha fechada. Quem quiser pensar na pessoa em causa há-de pensar nela já como ressuscitada, não mais como um defunto, como um cadáver. O cadáver não é a pessoa, mas uma coisa que a pessoa deixa, quando explode - morrer é explodir! - para se tornar corpo glorioso, ressuscitado, vivente para sempre.
Às incontidas lágrimas das minhas amigas Quina e sua irmã Zeza, com que ambas me acolheram à chegada, procurei corresponder com o meu abraço e o meu beijo, acompanhados duma festa nos cabelos de cada uma. Também com o meu sorriso. Mais o meu convincente convite à alegria. Afinal, a morte é mais um momento da vida. O derradeiro, dentro da História que é, simultaneamente, o primeiro dum novo começo, em condições que desconhecemos, dada a nossa limitação de seres históricos. Mas desconhecer não é igual a não existir. Acho que somos muito atrevidos quando, em lugar de reconhecermos as nossas limitações de criaturas humanas, as convertemos em certezas. E dizemos sem mais: Com a morte tudo acaba! Como assim? Não é a morte uma explosão? Não é a morte uma passagem da vida que vivemos em dimensões históricas para novas dimensões sem dimensão? Não é a vida que explode para ser ainda mais, já sem os limites do espaço e do tempo? Não é um novo parto, na sequência do primeiro parto que nos fez sair do útero materno? Não é um êxodo, uma saída dos limites do espaço e do tempo, por isso, uma páscoa em toda a força da palavra? Não é a maior afirmação da vida? Não é verdade que só morre o que vive? E se só morre o que vive, morrer não é para o que vive poder viver ainda mais, em condições outras, mais conformes às novas exigências que a vida, quando amadurece, naturalmente precisa? Crescemos em idade, estatura e, sobretudo, em consciência. Não exige esse crescimento um outro tipo de corpo, não idêntico ao que temos no espaço e no tempo, mas totalmente outro, glorioso, ressuscitado, invisível a estes nossos olhos, já que estes nossos olhos estão feitos para ver o exterior da realidade, não a realidade na sua essência, sempre invisível a estes nossos olhos? E não é verdade que todas, todos nós, à medida que crescemos em corpo, abandonamos como cadáveres as roupas que deixam de nos servir? E vamos chorar por isso? Pelo contrário, não nos alegramos? Então, porque havemos de chorar, quando alguém que muito amamos, passa a viver num tipo de corpo de qualidade superior ao que abandona à corrupção, para que ele, desse modo, possa prosseguir inserido no processo de transformação contínua que a vida sempre faz acontecer? Quem então se atreve a dizer que morrer é cair no nada? Deixem-me por isso gritar a plenos pulmões ao mundo: Senhoras, senhores, nascemos para nascer! Saibam que nestas coisas da vida, até a morte é um novo nascer. Por isso, alegrem-se. E se quisermos chorar, por ocasião da morte de alguém que nos é muito querido, choremos de alegria, de confiança, de esperança. Sim, porque em nós, também a alegria, a confiança e a esperança podem e devem dizer-se com lágrimas!
É claro que estou para aqui a dissertar a propósito do velório do cadáver do pai das minhas duas amigas Quina e Zeza de Mogege, e não posso nem quero impedir o meu pensamento de saltar quase de imediato para o relato do Evangelho de João que nos remete para uma experiência em tudo semelhante, mas só aparentemente, como vou demonstrar a seguir, a esta e que toda a gente conhece das catequeses da infância e das rotineiras homilias dos párocos nos funerais, mas, infelizmente, só de forma folclórica e boba, já que, até hoje, tanto a nossa Igreja católica, como as outras Igrejas do ramo protestante jamais tiveram a audácia de penetrar na profundidade teológica que esse relato esconde/revela. Refiro-me, evidentemente, ao relato conhecido por "ressurreição de Lázaro". Também aí se fala de duas irmãs, amigas de Jesus. Aqui, são duas irmãs, minhas amigas. Lázaro é o irmão de ambas, e também amigo de Jesus. Aqui, é o pai de ambas, de quem eu também era amigo.
Em todos estes 20 séculos de Cristianismo, a Igreja tem-nos aldrabado, ao levar-nos a pensar que Jesus, um belo dia, resolveu reanimar o cadáver de um seu amigo, para mais já com quatro dias, e já encerrado no túmulo. Nunca a Igreja nos disse que o relato é, exclusiva e intensamente, teológico, não histórico ou jornalístico. O que quer dizer que a notícia de Lázaro morto há quatro dias, cujo cadáver já se encontrava encerrado no túmulo, e a quem Jesus, mesmo assim, faz sair vivo de lá, é uma notícia exclusivamente teológica, não jornalística. Como tal, nunca ocorreu como facto histórico. O próprio Evangelho que redige a notícia e no-la dá, deixa pistas que nos levam a perceber o acontecimento como meramente teológico. Uma dessas pistas é o facto do relato assinalar que o morto ouviu a palavra de ordem de Jesus - "Lázaro, vem cá para fora!" (onde já se ouviu dizer que os cadáveres sepultados ouvem palavras de ordem e as executam?!) - e que saiu do túmulo "de mãos e pés atados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário". A outra pista é a subsequente palavra de ordem de Jesus a favor de Lázaro: "Desligai-o e deixai-o ir". Mas a pista mais decisiva e mais eloquente de todas é, sem dúvida, a reacção por parte dos sumos sacerdotes e dos fariseus a este feito atribuído a Jesus. Diz o relato (reparem também que só o Evangelho de João nos conta estas coisas; se tivesse sido um facto histórico, acham que os outros três Evangelhos iam deixar de se lhe referir?!) que eles convocam de imediato o Conselho - na altura, o órgão máximo do poder religioso e político dos judeus - e deliberam por unanimidade matar Jesus e Lázaro! Se porventura se tratasse, como a Igreja sempre nos tem querido convencer, da reanimação do cadáver de Lázaro, já sepultado e a cheirar mal, acham que a deliberação dos chefes máximos do judaísmo alguma vez poderia ser esta? Não correriam, pelo contrário, a promover uma homenagem pública a Jesus e a entrevistar Lázaro, para que ele contasse o que lhe havia sucedido naqueles quatro dias em que tinha estado morto? Se eles deliberam matar Jesus e o próprio Lázaro (tinha acabado de ressuscitar e já ia ser morto?!), não é porque a morte de que o relato fala é outra, o túmulo é outro, e a ressurreição que Jesus faz acontecer é outra, politicamente bem mais subversiva e perigosa, e sem nada a ver com a espectacular reanimação de um cadáver?
Efectivamente, a boa notícia que o relato do Evangelho de João nos dá é uma notícia exclusivamente teológica. Aponta para um tipo de morte mil vezes pior que a morte natural, que se abateu sobre Lázaro, amigo de Jesus, irmão de Maria e Marta (uma comunidade de três pessoas que nos representam a todas, todos nós, em todos os tempos e lugares). Adverte-nos que todas, todos nós podemos estar a viver como mortos dentro do túmulo, atados de mãos e pés, e com o rosto envolvido num sudário. E, se pensarmos bem (podemos estar tão mortos e tão enterrados, que já nem conseguimos pensar!) não são assim hoje as vidas quotidianas da maior parte das pessoas? Não são vidas de mortos encerradas e atadas em túmulos, em templos que são túmulos, em casas que são túmulos, em ideologias que são túmulos, numa Europa fortaleza que é um túmulo, em privilégios individuais e de classe que são túmulos, em egoísmos que são túmulos? Não são vidas mortas para a actividade política? Não são pessoas que outros condenam a viver de mãos e de pés atados, a quem tiraram toda a vontade de darem corpo a acções políticas concretas que mudem o mundo e a vida? Não são pessoas condenadas a ter que viver à sombra do poder dos partidos políticos e das minorias dirigentes, dos bispos e dos clérigos que estão à frente das paróquias e dos pastores das novas igrejas-seitas que por aí continuam a proliferar como fungos? Não são pessoas condenadas a viver sob a ditadura das televisões e das programações estúpidas e estupidificantes com que elas dia e noite nos bombardeiam? Não são pessoas completamente dominadas e comandadas pelo futebol, como se o futuro das suas vidas e a sua felicidade aqui e agora dependessem da vitória do seu clube (seria fatalmente a desgraça dos adeptos do clube derrotado) e da vitória da nossa selecção? Não são pessoas totalmente à mercê da demagogia de uns quantos espertos, totalmente alienadas, sem vontade própria, espoliadas da sua consciência, todas maria-vai-com-as-outras? Não são pessoas horrivelmente dominadas pelo medo, sem um pingo de liberdade, sem um pingo de iniciativa, sem um pingo de criatividade, sem um pingo de iniciativa política, totalmente ao sabor do capricho de deuses e deusas, de nossas senhoras disto e daquilo, especialmente, da cruel senhora de Fátima, de santinhas como a desgraçada mulher de Balasar e de santinhos como o folclórico s. bentinho da porta aberta?
Se as coisas hoje, dois mil anos depois, ainda são assim, como seriam no tempo e no país de Jesus, totalmente dominado pelos sumos sacerdotes, pelos fariseus e pelos doutores da lei, pelo templo de Jerusalém e pelas sinagogas espalhadas por todo o território? E, como se isto não bastasse, ainda havia que contar com a presença do Império Romano, cujas tropas assassinas ocupavam e aterrorizavam o país, tal como hoje as tropas norte-americanas ocupam e aterrorizam o Iraque! Pois bem, numa sociedade em que as pessoas viviam como mortas, numa sociedade fechada como um túmulo, com as pessoas ideologicamente atadas de mãos e pés, de olhos vendados por uma espécie de sudário, isto é, pelo sistema da Lei de Moisés que era considerado sagrado e por isso inamovível, como acontece hoje com os muçulmanos relativamente ao Alcorão, é mais do que garantido que a intervenção política de Jesus, com palavras de ordem como as que o relato regista - Lázaro, sai do túmulo!; Desligai-o e deixai-o andar! - só podia ser experimentada como politicamente subversiva pelas minorias dos privilégios que coincidiam com as minorias que dirigiam a religião, a política e a economia do país. Os Lázaros, as Martas e as Marias que fossem por Jesus, que se atrevessem a ser homens ao jeito de Jesus, eram inevitavelmente mulheres, homens ressuscitados, viventes, resistentes, autónomos, independentes, livres, por isso mesmo, marcados para morrer.
A arte e o génio literário e teológico do autor do Quarto Evangelho canónico consistem em ele ser capaz de, a partir da experiência da morte natural e do túmulo onde se encerram os cadáveres, construir uma parábola como a da ressurreição de Lázaro, para falar da força subversiva e libertadora da vida/intervenção de Jesus na História. Se, hoje, ao ouvirmos essa parábola, nos deixarmos tocar pelo sopro ou espírito que ela encerra/revela, também ressuscitaremos, soltaremos as mãos e os pés que nos ataram, daremos um coice na merda de vida/morte em que, trinta anos depois do 25 de Abril, nos querem mergulhados e ousaremos viver ao jeito de Jesus, o ser humano integral a quem poder algum, em momento algum, conseguiu dominar. Então, a nossa vida e a vida da nossa sociedade, em lugar de ser como o velório do cadáver do pai das minhas amigas Quina e Zeza de Mogege, V. N. Famalicão, será uma insurreição/ressurreição como a de Lázaro, ou uma insurreição/revolução como o 25 de Abril de 1974!
2004 ABRIL 17
Ainda antes de voltar a viver aqui em Macieira da Lixa, já ouvia as companheiras que integravam o ministério dos doentes falarem de Márcia, uma menina deficiente profunda, actualmente, com 14 anos de idade, que vive com a família numa casa relativamente próxima da Casa da Comunidade, e manifestava desejo de a visitar e conhecer pessoalmente. Agora que aqui resido, falei de novo nela a Maria Laura, quando ela, hoje, ao início da tarde, juntamente com a Deolindinha, me convidou para ir com elas visitar doentes. Mostraram ambas alguma hesitação perante a minha insistência. A família de Márcia não havia sido avisada e a menina poderia não se encontrar nas melhores condições de higiene para receber visitas. Mas nem isso me demoveu. Insisti que queria conhecer/contactar Márcia. E elas acabaram por ir comigo lá a casa. Em boa hora o fizemos.
A mãe de Márcia estava em casa e, quando nos viu à porta, logo correu a abrir. As duas companheiras, já por várias vezes, lá têm ido pela menina. Eu, pelo contrário, era a primeira vez. Mesmo assim, a mãe de Márcia, Lurdes, de seu nome, não tinha mais que não fizesse para acolher bem em sua casa quem ali inesperadamente se apresentou com vontade de ver a sua menina. Márcia estava ainda a dormitar. Era a hora da sesta. A mãe, que conhece todos os seus hábitos conduziu-nos de imediato ao seu quarto, instalado na parte nova da velha casa arrendada. Efectivamente, Márcia dormitava. Com o ar mais sereno do mundo. Logo me sentei ajoelhado sobre a sua cama - é larga e dá para estarmos sobre ela à vontade, sem incomodar a menina - e me debrucei sobre o seu rosto. Todo o tempo que permaneci na casa - e foi bastante - mantive-me nesta posição, por ser a que me deu mais jeito para me entregar por inteiro a Márcia. A mãe deveria estar espantada comigo, mas não resisti. A menina está praticamente imóvel. Passa os dias, ou estendida na cama, rosto para cima, como agora a encontrámos, ou sentada numa cadeira de rodas adaptada ao seu corpo, de modo a nunca cair desamparada para a frente. Márcia não vê, apesar dos olhos enormes espantosamente bonitos que brilham no seu rosto, como dois sóis num universo que é o seu corpo vivo, mas imobilizado. Não articula qualquer palavra. E só quando sente dores mais agudas é que emite um enigmático som gutural. Fora disso, permanece em silêncio. A mão direita chega a mexer-se de vez em quando e executa algum movimento, mas muito lentamente. Uma das acções que realiza é pegar na mão da pessoa que lhe está próxima para a levar junto do nariz. Supõe-se que é assim pelo cheiro que ela identifica quem a rodeia, ou a visita.
Estabeleci intensa relação pessoal com Márcia. A mãe admite que ela ouve, embora não identifique os sons. Mas mexe a cabeça na direcção de onde vem a voz. Falei muito com ela, ao mesmo tempo que lhe acariciava os cabelos com a minha mão direita. Toquei-lhe reiteradamente na face, nos olhos, nos ouvidos. Como quem queria comunicar-lhe a minha própria vida, para que ela se levantasse sobre os seus pés. Bem sei que isso é impossível. A menina nasceu com hidroencefalia, mas fazia a sua vida quase normal, até que foi vítima de um acidente de automóvel, quando os pais dela viajavam com ela numa estrada. Tinha uns três anitos. A sua situação de saúde agravou-se rapidamente. Febres altas e contínuas, que não baixavam nem mesmo à força de apropriada medicação. Os sucessivos ataques de meningite acabaram por fazer o resto. Márcia ficou neste estado, depois de quase um ano em coma num hospital do Porto. Ninguém admitia que ela sobrevivesse, mesmo entre a equipa médica que a acompanhava. Mas a verdade é que Márcia aqui está, num desafio à vida e a uma certa ciência de vistas curtas, num grito de ressurreição que não pode deixar de espantar o mais céptico. Melhor seria que não tivesse sobrevivido nestas condições? Isso diz quem não sabe amar, quem não entende a vida como um dom, como uma graça, como vida dada. Quem, pelo contrário, é capaz de descobrir toda a beleza que se esconde na vida, mesmo e sobretudo, na vida feita um ser humano concreto como Márcia, jamais será capaz de proferir tal blasfémia e tal obscenidade. Só mesmo quem estupidamente reduz a vida a cifrões, a vantagens financeiras, a quantidade de empreendimentos, a projectos altamente rentáveis, a mercado e mais mercado, é que jamais poderá chegar a compreender a vida e o mistério que a vida é, sobretudo, em vidas concretas como a de Márcia.
Márcia, felizmente, rebenta com este conceito tão redutor de vida humana. Na sua completa inacção, na sua total imobilidade, na sua total ausência de eficácia, na sua radical improdutividade, Márcia é a maior afirmação do Mistério. Ora, pelo Mistério é que vamos, nós, os seres humanos. Não pelos cifrões e pelo mercado. Basta ver como fica o mundo, como fica a vida, como fica a Humanidade e até a própria Natureza, quando insensatamente matamos o Mistério, apunhalamos a poesia, silenciamos a profecia. Ficamos reduzidos a um montão de escombros, lixo aos montes, sucata que nem para esterco serve. Márcia, pelo contrário, é a afirmação viva do Mistério. Como tal, é aquela que vive, é aquela que está mais próxima da fonte da vida. É a presença mais eloquente de Deus Vivo, o Deus que é Deus de vivos, não de mortos. E que até aos mortos chama à vida em plenitude.
Desdobrei-me em múltiplas linguagens para tentar estabelecer relação com Márcia. E tanto insisti, que ela, minutos depois, já começou a querer abrir os olhos. Até que os abriu de par em par. Foi para mim uma visão indescritível e inesquecível, por mais que viva. Toda a beleza do mundo criado está concentrada nos dois olhos de Márcia. Nenhum artista do mundo alguma vez conseguirá uma obra de arte como os olhos desta menina de 14 anos, completamente imobilizada. E ela oferece gratuitamente esta infinita beleza a quem a visita. Vale bem a pena deixar tudo para vir em peregrinação até à casa onde Márcia vive silenciosa, mas fecundamente. A beleza que desfrutamos junto dela compensa todos os esforços. Nenhum museu dos que os turistas sofregamente procuram merece um instante de nós, comparado com esta maravilha que podemos ver, ao perder-nos nos olhos de Márcia. Afundei-me neles. E caí em fecunda contemplação. Fiquei quase paralisado, perante tanta beleza. E ela está sempre ali ao alcance de uma visita. Senti-me crescer em humanidade. Tornei-me mais eu próprio, mais humano, mais fraterno, mais mistério. Vi-me a mim mesmo nos olhos de Márcia. E comovi-me até às entranhas. Um deslumbramento completo. As estrelas que brilham nos espaços siderais brilham também nos olhos de Márcia. Sem jamais ofuscarem, nem queimarem os nossos olhos. Aqui, tudo é harmonia, comunicação, revelação. Márcia sobreviveu, melhor, ressuscitou/saiu do estado de coma, para ser entre nós e connosco presença viva do Mistério, revelação viva da Presença que jamais poderemos ver com os nossos olhos, nem estes que a terra há-de comer, nem os outros que o futuro corpo glorioso porventura utilize para comunicar com outros corpos gloriosos. Com ela e junto dela, podemos desfalecer e partir deste mundo, à semelhança do que o Evangelho de S. Lucas diz que ocorreu ao velho Simeão e à profetisa Ana, perante Jesus recém-nascido, já então sinal de contradição levantado sobre a terra, a revelar o que se passa no coração de muitas, de muitos. No frenesim em que se tornou a vida de quase toda a gente, somos capazes de correr este mundo e o outro, mas não encontramos tempo para tomarmos a direcção da casa de Márcia e para pararmos junto do seu corpo vivo mas imobilizado, fecundamente imobilizado, até descobrirmos finalmente os seus olhos e toda a beleza que eles gratuitamente nos oferecem. A vida e a beleza estão ali ao nosso alcance e não damos por elas. E acabamos por gastar a vida inteira sem jamais nos apercebermos que nascemos para contemplar a beleza que os olhos de Márcia atestam que existe e que nos atrai para si. Só quando este momento viera a acontecer, é que cairemos na conta de que sempre havíamos sido filhas, filhos da Beleza e que para a Beleza é que caminhamos a passos largos. Por isso sentimo-nos sempre tão órfãs, tão órfãos, enquanto esse momento não acontece. Tão deprimidas, tão deprimidos. Tão sem o brilhozinho nos nossos olhos. Márcia é a ressurreição de quem a visita e acolhe, é o reencontro connosco mesmas, connosco mesmos, é a faísca de que precisamos para espevitar o nosso viver quotidiano. Afinal - dou-me conta agora - não fui eu que levantei Márcia, foi Márcia que me levantou a mim. Como um guindaste que permanece imóvel no seu sítio, mas para melhor e mais seguramente realizar a função que dele se espera.
Não ficou por aqui a minha comunhão com Márcia. Os muitos beijos que lhe dei na face, nos olhos, na testa, nos cabelos, acordaram-na de vez e ela finalmente entreabriu também os lábios e deixou escapar um sorriso, como um botão fechado que lentamente se abre em flor. Vi o sorriso nascer no seu rosto e desabrochar. Tudo em câmara lenta e ao vivo. Nada daqueles sorrisos comerciais que por aí se vendem como prostituição sofisticada nas grandes catedrais do consumo. Aqui, no corpo de Márcia, o sorriso aconteceu como vida e vida em abundância! E eu cantei baixinho, como quem grita um segredo que só o coração consegue escutar: Quando for grande vou ser / quero ser como um menino / convidar prá minha mesa / quem pelo mundo é desprezado / acabar com a pobreza / quero ser como um menino. A mãe de Márcia e as duas companheiras perceberam que eu cantava e sintonizaram comigo. Mas nem assim eu interrompi a relação com a menina que me fascinou. Delicadamente, procurei-lhe as mãos, para as afagar e receber do seu calor. Até que, de repente, sinto a mão direita de Márcia mexer e abrir-se à minha, num cumprimento de comunhão que me atingiu a alma. Por momentos, toquei na Fonte da vida. Melhor, a Fonte da vida tocou-me. Comovi-me então até às lágrimas que derramei para dentro de mim, numa alegria que não é deste mundo e que só pode ser fruto do Espírito Santo. Fiquei numa grande paz, não daquela paz sinónimo de inactividade, mas da paz que nos lança para novas iniciativas, para acções criadoras de justiça e de comunhão, para combates libertadores de potencialidades adormecidas.
Beijei a mão de Márcia e os seus olhos de fogo e de beleza. Voltei a acariciar-lhe os cabelos. E levantei-me. O encontro havia terminado. Márcia enviava-me de novo para a rua, para a acção, para a missão. Assim misteriosamente alimentado, poderei caminhar, como o profeta Elias outrora, mais quarenta dias e quarenta noites. Vi o Ressuscitado nos olhos de Márcia. Toquei-o, na mão de Márcia. Melhor: Fui visto pelo Ressuscitado e tocado por ele. E agora não haverá escuridão que eu não possa enfrentar, não haverá obstáculo que eu não possa enfrentar e ultrapassar.
Aproximei-me de Leonor, a mãe de Márcia (o pai da menina, Luís, havia aparecido, quando eu estava debruçado sobre ela e inteiramente ocupado com ela. A mulher disse-lhe quem eu era; num primeiro instante, pareceu-me perturbado; mas quando viu a ternura com que eu recebia a sua filhinha e a relação que se fez entre mim e ela, soltou o seu sorriso de felicidade e voltou a sair cheio de confiança para as tarefas laborais que o esperavam). Agradeci-lhe o dom da sua filhinha. A ternura com que se relaciona com ela. Disse-lhe que tem em casa o grande sacramento de Deus vivo. Ela confirmou que é isso mesmo que experimenta, pois quanto mais se debruça sobre Márcia, mais vive e mais alegria tem de viver. E prometi-lhe que, quando os dias forem mais quentes, irei buscar Márcia lá a casa, se ela e o pai concordarem, para a levar a percorrer os caminhos de Macieira da Lixa, na sua cadeira de rodas especial. Leonor disse logo que sim, que achava muito bem e que autorizava. As pessoas de Macieira da Lixa precisam de descobrir o dom de Deus que temos no nosso meio. Sobretudo, precisam de fazer comunhão real com este dom de Deus, de nome Márcia. Com ela, o Evangelho quase nem precisará de palavras. Márcia é Evangelho vivo. A sua presença, o seu corpo imobilizado mas super-activo, daquela actividade que o Mercado não conhece, é a grande Palavra que interpela, desafia, questiona, chama, provoca todas as pessoas que não forem capazes de lhe resistir.
Saímos para a rua. E já na rua, ainda a dizer as últimas palavras de despedida a Leonor, a mãe de Márcia, eis que aparece Daniel, um menino de oito anitos, olhar de reguila, corpo carregado de futuro. É o irmão de Márcia. Estava a chegar de um momento de brincadeira com outros meninos. Falamos-lhe da sua irmã. E os olhos dele brilharam. A mãe testemunhou que ele é inseparável da irmã. Não era preciso que o dissesse. São os olhos dela que fazem brilhar os dele. E alumiam toda a terra.
Afastámo-nos, em direcção a outra casa, para visitar uma outra pessoa que sabemos estar doente. Fizemos parte do percurso em silêncio. Como quem com dificuldade regressa ao quotidiano da vida e a todas as suas inércias e rotinas, mas disposto a não lhes fazer cedências. Até que chegámos à casa que foi do senhor Abreu, meu amigo dos tempos em que fui cá pároco. A senhora Ana, que foi sua mulher e hoje é viúva é que está doente. Teve um ataque cerebral e ficou paralisada. Já recuperou parte da fala e dos movimentos. E, durante o dia, está quase sempre sentada no sofá da sala. Conta já 87 anos de idade. Nesta casa, já eu entrei muitas vezes, sobretudo, nos anos de pároco. E, quando, recentemente, o senhor Abreu se encontrava muito doente, fui avisado e vim visitá-lo. O que o deixou numa alegria que rebentou em copiosas lágrimas. Recordo-me que lhe falei, a pedido dele, do sentido da vida e da morte, desde que Jesus, o Cristo, ressuscitou. Escutou-me com enlevo e assimilou a Boa Notícia muito bem. Fugiu-lhe toda a angústia e, poucos dias depois, já era corpo ressuscitado.
Abriu-nos a porta a filha Laura, já à beira dos sessenta anos. Conheço-a bem. Foi catequista no meu tempo de pároco. Integrou o grupo que, durante um ano, ajudou a dar corpo a um catecismo muito original. Cada encontro semanal era preparado e escrito à máquina e discutido no grupo. No final do ano, tínhamos um volume. Veio a ser publicado, mais tarde, com o título: Nascer de novo. Ensaio de catequese libertadora, edição da Afrontamento, Porto.
Subimos para a salinha, ao encontro da senhora Ana. E quem fomos encontrar lá, junto dela? Isaurinha, a mãe de Maria Laura. Há meses, que se afastou da Comunidade, zangada com um dos netos, filho de Maria Laura e também com ela. R. Filipe disse-lhe umas quantas verdades que ela não gostou de ouvir (foi no decorrer duma reunião da Associação As Formigas, onde eu também estava presente, assisti a tudo e ainda tentei deitar água na fervura dela, mas ela não quis ouvir) e ela afastou-se intempestivamente. Desde então, passou a dizer por aí coisas que nem ao diabo lembra contra a filha, contra a comunidade e até contra mim, enfim, nada que eu já não esteja habituado. E nunca mais apareceu nem a casa da filha, nem aos encontros da Comunidade. Maria Laura que ia na frente, ao topar com a mãe, saudou-a com dois beijos que ela recebeu, mas sempre com aquele ar de mau humor. Deolindinha também a beijou. E eu fiz a minha algazarra do costume, beijei-a e abracei-a, ao mesmo tempo que lhe disse: Abrace-me sem medo, Isaurinha! O que ela fez, mas sem o entusiasmo de outrora.
A senhora Ana passou a ser o centro das nossas atenções. Com Isaurinha sempre presente. Entretanto, a presença dela funcionou como um desafio para mim e o encontro desenrolou-se de modo surpreendente. Depois de ouvir e de fazer falar a senhora Ana (o seu genro, marido da filha Laura que nos abriu a porta, também esteve presente), propus-lhe que ouvíssemos um relato do Evangelho de Marcos. A senhora Ana achou bem e proclamei o relato parabólico que nos fala de um mudo que também era surdo, a quem Jesus, com saliva sua, fez falar e ouvir. Foi um bom momento. Porque logo ali lembrei que a esmagadora maioria das pessoas continua sem falar e sem ouvir. Ou falam, mas continuam mudos para aquelas palavras que comunicam vida aos demais. O que dizem mata, agride, faz desfalecer as pessoas, quando precisamos de palavras que nos levantem, recriem, estimulem, libertem, curem, nos arranquem da solidão e da depressão.
Tinha comigo exemplares do Canto que entoámos na Ceia de Páscoa. Puxei por eles. Distribuí-os e cantei-os até ao fim. E não é que a senhora Ana, nos seus 87 anos, tentava cantar connosco também? O diálogo prosseguiu com a participação de todos. Isaurinha estava estupefacta. Dei-lhe a folha com a letra, para que a levasse com ela. Aceitou. Mas o seu rosto continuava pesado e muito sofrido. As coisas que tem dito caem-lhe todas em cima e, agora, dificilmente, voltará a sentir-se com à vontade para regressar. Mas a Graça tem os seus caminhos. E, se calhar, este encontro inesperado pode ser o início de um regresso, duma conversão que nos deixaria com muita alegria. À despedida, voltei a ser todo ternura para com ela. Como quem lhe diz: Emenda a mão e vem, companheira. A minha alegria é que assim aconteça. Quanto antes.
2004 ABRIL 15
Voltei a Vilar, o lugar da freguesia de Borba da Lixa. Comigo, foram também Irene, Deolindinha e Maria Laura. Sabrina não foi. Da vez anterior veio de lá incomodada com a situação da Tatiana, a filhinha de Emília que continua a viver em função da mãe com deficiência. E logo anunciou que, para continuar a vir de lá triste, preferia não ir mais. Terá sido um desabafo de momento. Mas a verdade é que, durante a semana, não se desdisse e hoje, nem sequer se lhe perguntou se ela queria ir. E não foi. O encontro estava destinado para a casa da sogra de Emília, que fica próxima. A senhora Carolina havia feito questão, há uma semana atrás, que o encontro se realizasse na casa dela, com lanche incluído. Segundo disse, tinha uns assuntos a partilhar e queria ouvir o meu parecer. A nora é que não gostou da proposta e mostrou o seu desagrado, depois que nos afastámos de junto dela, mas o compromisso estava assumido e manteve-se. De resto, as razões que Emília invocava para justificar o seu desagrado eram razões sem razão. Para mim, funcionaram até como razões a favor. Na missão, não podemos guiar-nos por preconceitos moralistas de nenhuma espécie. Ou melhor: O que em geral na boca do povo é apontado como razão para não nos aproximarmos de alguém ou de alguma casa, deve funcionar como razão para nos aproximarmos ainda mais depressa e até de forma ostensiva. Porque a missão, em nome de Jesus, há-de destruir todo o tipo de preconceitos moralistas, derrubar todo o tipo de barreiras, encurtar todo o tipo de distâncias entre as pessoas. Não há pessoas boas, puras, santas, de um lado, e pessoas más, impuras, pecadoras, de outro lado. Há pessoas. E, se, na missão, alguma vez, quisermos dar ouvidos a essa visão maniqueísta da sociedade, então, sempre havemos de preferir as pessoas que os preconceitos apontam como más, impuras e pecadoras. Jesus de Nazaré, o mestre em missão ao serviço do Reino/Reinado de Deus, é assim que procede. E nunca mudou de postura, nem sequer quando os fariseus do seu tempo e os doutores da lei o acusavam de acolher os pecadores e - escândalo dos escândalos na sociedade judaica de então - de comer com eles à mesma mesa. Para Jesus, as coisas são claras: "Os sãos não precisam de médico, mas os doentes". E ainda: "Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores". Inclusive, Jesus não se livrou da fama de glutão e de bebedor de vinho, e nem sequer se importou quando o acusavam de ser amigo de publicanos e de pecadores. Pelo contrário, fez dessa acusação a sua bandeira. Por isso, sempre tem sido também a minha bandeira, ao longo da minha vida de discípulo de Jesus, na condição de padre/presbítero da Igreja. E há-de continuar a ser. Nem que, por via disso, escandalize muito boa gente e fique excluído dos seus círculos de influência. Ou continue a ser ostracizado pela hierarquia eclesiástica que, geralmente, gosta de conviver com os grandes deste mundo, ter à sua mesa as minorias do poder e dos privilégios como ela, tudo gente muito limpa e perfumada por fora e muito bem vestida, com que tentam disfarçar os crimes de que são responsáveis, ou, pelo menos, de que são cúmplices.
Felizmente, Emília hoje, à nossa chegada, não levantou problemas e acompanhou-nos à casa da sua sogra, juntamente com a filhinha que, entretanto, havia ficado manifestamente triste, quando nos viu chegar sem a Sabrina. Ao vê-la assim triste, comovi-me, tomei-a nos meus braços (é leve como uma pena, de tão magra que se encontra), beijei-a com muito carinho e deixei falar o coração. Disse-lhe: Deixa lá, Tatiana, se estiveres de acordo, no final do encontro, levo-te a casa de Sabrina, para a poderes ver e estar um bocadinho com ela. E então, já que Sabrina não veio estar contigo, vais tu estar com ela. Deste modo, Sabrina irá perceber, duma vez por todas, que nunca devemos afastar-nos das pessoas, quando elas se encontram em situações que nos fazem sofrer, pelo contrário, devemos correr ainda mais para elas, para que essas situações mudem e as pessoas que estão nelas se libertem. Só então é que podemos afastar-nos, porque já não somos mais precisos. Curiosamente, Tatiana ouviu-me como uma mulherzinha, disse que sim e logo passou a caminhar mais descontraída ao lado da mãe, em direcção à casa da sua avó paterna. Quando chegámos junto da casa, foi até ela quem espontaneamente correu à frente, bateu à porta e entrou com ar de grande familiaridade. Segui atrás dela, ao mesmo tempo que chamava pela senhora Carolina que, de dentro da cozinha, nos mandava entrar. Mas quem encontrei, logo que franqueei a porta de entrada, foi um adolescente que fazia as honras da casa, Octávio, um outro neto de Carolina, que vive com ela. Mal eu sabia que ele iria ser a porta viva que nos havia de introduzir na grande conversa que Carolina acabou por ter connosco, sentada à mesa da sua cozinha. Numa Eucaristia que pode bem vir a mudar por completo a vida dela e fazer dela uma nova mulher.
Da conversa curta que Carolina manteve comigo/connosco, há uma semana atrás, já tinha dado para perceber que se trata duma mulher representativa do tipo de pessoas educadas sob a nefasta influência das catequeses moralistas católicas. Ela própria é catequista de crianças na paróquia de Borba da Lixa. Trata-se duma mulher viúva, próximo dos cinquenta anos. Mãe de filhos e filhas. E avó de netos, dos quais Octávio é o mais visível, uma vez que vive regulamente com ela, como se ela fosse não a sua avó, mas a sua mãe. Tem todo o ar de mulher determinada, a roçar pelo autoritário. Aguerrida. Com muita da energia do falecido marido, o senhor Crispim que, pelos vistos, embora fosse um homem muito sociável, tinha fama de andar sempre com arma de fogo no bolso, para o que desse e viesse. Porém, todos estes valores que saltam de imediato à vista de qualquer pessoa que lide de perto com Carolina são valores estranhamente envenenados, devido ao moralismo com que ela anda possuída e que nela funciona como um demónio. Mas ela tem esse moralismo como fonte de grande virtude. Tanto assim que não admite que se lhe aponte a mais pequena falha na sua vida. Tem-se como exemplar em tudo o que faz. Domina por completo a sua casa. Educou os filhos nesse moralismo e, desde que ficou viúva, dirige a sua casa com mão de ferro. Trabalha muito para poder viver de cara levantada. E faz gala de ser intolerante para com as pessoas, inclusive filhos e filhas, que tenham certo tipo de comportamentos que ela considera imorais e de pecado, especialmente, na complicada vivência dia a dia dos afectos e da sexualidade. Casamento, para ela, só o que é feito na Igreja. O que não for assim é pecado, o mais feio dos pecados.
Por outro lado, na sua condição de viúva, não suporta que alguém lhe aponte a mais pequena falha na vivência dos afectos. Nem que para tanto, não tenha afectos! Prefere não ter afectos, a ter algo que se lhe aponte em matéria de costumes. Tem que estar sempre acima de toda a suspeita. E, se alguém se lembrar de inventar o que quer que seja a esse respeito, logo ela se altera, fica fora dela e é capaz de mover vales e montanhas para tirar o caso a limpo. Nem que faça o maior escândalo do mundo. Deus, para ela, é o mesmo dos fariseus e dos doutores da Lei, do tempo e do país de Jesus. Ela cumpre com os deveres para com Ele. Ele tem de cumprir para com ela. De contrário, chama-O a capítulo. E se não consegue mudá-lO, submete-se-lhe, mas como um cão com o rabo entre as pernas. A Graça é realidade desconhecida na sua vida. Só o dever! A lei. A norma. A tradição que vem dos pais, avós e demais antepassados. Numa palavra, Carolina movimenta-se numa Ordem moralista de valores onde tudo está previamente classificado, onde se sabe antecipadamente o que é virtude e o que é pecado, o que é bem e o que é mal, o que é verdade e o que é mentira. Como num código de estrada à escala mundial, que ela respeita escrupulosamente e exige que as outras pessoas respeitem escrupulosamente também. Se não respeitarem, deixam de ser pessoas dignas da sua amizade e da sua confiança. Nem que sejam suas filhas ou seus filhos, ela não cede, até que mudem os seus comportamentos, voltem a comportamentos de acordo com o código moralista que ela tem como a última palavra em matéria de vida humana digna. Se não mudarem, podem correr Seca e Meca, que nada adianta. Ela não conhece ninguém. Não é sensível a ninguém. Fica sozinha no pedestal da sua virtude, à espera. Nem que as pessoas "pecadoras" morram ao abandono. Não são pessoas de carne e osso. Para ela, são o pecado, o demónio, o mal, a perversão.
O encontro de hoje confirmou tudo isto a seu respeito. Mas também revelou que Carolina não anda bem, pelo menos, desde que soube, através da sua nora Emília, da existência da Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa, concretamente, de Maria Laura, sua presbítera não-ordenada, e, sobretudo, quando soube que também eu estou metido neste jeito outro, radicalmente libertador, de se ser Igreja dentro da Igreja católica. Tudo o que ela ouviu a sua nora contar acerca destas pessoas e deste jeito de se ser Igreja vem pôr em causa o que ela é e vive. Inclusive, faz referência a um Deus que ela não conhece, apesar de ser catequista há vários anos na paróquia. De repente, Carolina percebeu que todo o edifício moralista em que sempre se tem apoiado e pelo qual tem pautado os seus comportamentos de mulher, de mãe, de avó e de cidadã assumidamente católica romana, é um edifício que a tem ajudado a manter-se de cabeça levantada, mas ao mesmo tempo tem feito dela uma mulher quase cruel, dura, autoritária, com tanto de virtuosa como de intolerante. Descobriu-se muito diferente dessas poucas pessoas que têm como referência a Comunidade Cristã de base e que têm acolhido e acompanhado com tanto carinho a sua nora Emília e sua filhinha, coisa que ela, até hoje, não foi capaz de fazer, apesar de ser a mãe do marido dela e a avó de sangue da filhinha de ambos e de morar perto deles todos. Foi por tudo isto que Carolina pediu um encontro em sua casa com pessoas da Comunidade, mas nas quais eu também estivesse incluído. Pretendia abrir-se diante de mim, de nós, e confrontar-se. A baralhação em que anda tem que acabar. Ela não pode mais viver assim.
O encontro acabou por acontecer esta tarde. Na cozinha da sua casa. À volta da sua mesa. Como numa Eucaristia. Pareceu-me - já me pareceu há uma semana atrás, quando o encontro foi marcado - que Carolina pretendia, com esta iniciativa ver-se confirmada nas suas posições. Pretendia que, depois de eu a ouvir e conhecer da sua boca todos os actos de virtude que ela tem realizado, logo me curvasse diante dela e proclamasse a grande santidade da sua vida. Que a elogiasse por todo o bem que tem feito. E muito é, pelo menos, no seu entender.
O neto Octávio que nos abriu a porta foi o ponto de partida para a longa conversa, de mais de duas horas. Foi por ele que a conversa começou. Contou-me/nos que ele ficou entregue a ela, desde que os pais dele se separaram. A mãe dele é filha dela. Há alguns anos, deixou tudo e fugiu para França, onde se "juntou" com outro homem ainda solteiro, por sinal, irmão de Emília, com quem sempre se havia dado muito bem, desde a infância que foi passada em conjunto, por serem vizinhos. O marido dela e o pai de Octávio, é bom homem, quando não está alcoolizado. É bom artista no ramo de construção civil, mas só quando lhe dá para trabalhar. E quase nunca dá! Depois que a mulher o deixou - na altura, estavam separados e já decorria o processo de divórcio que, assim, foi interrompido até hoje - andou por aí desorientado e acabou por se "juntar" a outra mulher, com quem vive maritalmente numa casa, aqui em Macieira da Lixa, no Lugar da Maçorra. Nem o pai, nem a mãe de Octávio têm querido saber do filho de ambos. Pelo que a verdadeira mãe de Octávio tem sido ela, a avó. Contou múltiplos pormenores, a este propósito, para evidenciar toda a sua dedicação, todo o seu zelo, todo o seu amor pelo rapaz, numa palavra, toda a sua virtude. Entretanto, da nova relação da mãe do Octávio com o companheiro em França, nasceu uma menina. Nasceu com grave deficiência no coração. Uma deficiência que poderá ceifar-lhe a vida precocemente. Como se isto não bastasse, também a saúde da mãe da menina andará pelas ruas da amargura. Ao que ela tem contado por telefone, nas poucas vezes que liga para algum irmão ou mesmo para ela, diz que os médicos já nem querem operá-la, o que pode indiciar que está marcada para sofrer muito e, porventura, também para morrer precocemente. Carolina contou, depois, que por estes dias de Páscoa, ela terá ligado para um irmão, o marido de Emília, vizinho dela, a mostrar grande vontade de vir a Portugal com o companheiro matar saudades da mãe, do seu filho e dos irmãos. Apenas por três dias. Mas acabou por não vir, porque ela, sua mãe, do alto do pedestal moralista por que se rege, determinou que ela poderia vir, mas na casa dela é que não entraria, muito menos dormiria com o companheiro com quem vive e de quem tem a filhinha com deficiência. Segundo esse seu código, a filha vive em pecado, dado que nunca chegou a realizar-se o divórcio do primeiro casamento. E, como tal, não tem entrada na sua casa. O que iriam dizer as pessoas, quando soubessem? Não iriam pensar que ela, se tal coisa consentisse, era tão boa como a filha, uma desavergonhada? Aliás - sublinhou com algum orgulho por eles pensarem assim - os seus próprios filhos, quando souberam desse propósito da irmã, foram os primeiros a dizer que nas suas casas ela não teria lugar, a não ser que aparecesse sozinha, sem o companheiro. E chegaram a propor-lhe, pelo telefone, que viesse, mas sem o companheiro. Só, nesse caso, poderia dormir, por exemplo, em casa do irmão, marido de Emília, que vive perto dela.
A juntar a este rol de virtudes, Carolina ainda contou outras acções, para me/nos convencer que é uma mãe exemplar, mesmo se algum dos filhos o não é para com ela. Concretamente, contou pormenores do bem que tem feito a um filho que viveu lá em casa com a namorada e que, um dia, decidiu sair, zangado com ela. Nunca mais lhe dirigiu a palavra até hoje, apesar de trabalhar com um irmão nos fundos da casa dela. Porém, quando há tempos soube que ele estava a passar fome, mais a namorada com quem vive maritalmente, afligiu-se sobremaneira e decidiu tirar à boca para repartir com o filho. E como fez? Não foi ter com ele como mãe que tudo perdoa. Concebeu um outro plano, com que não perdesse a face, mas também não deixasse o filho mergulhado na fome: Juntou tudo o que é de mercearia e que faz falta numa casa, dentro de um grande recipiente, colocou o recipiente cheio na varanda da casa e disse ao filho, marido de Emília, que vive perto da casa dela, para que telefonasse ao irmão a avisá-lo que tinha à porta da casa dela toda aquela mercearia; que viesse por ela, se quisesse. O filho, esfomeado, meteu pés a caminho e veio carregar o recipiente com a mercearia dentro. E assim tem acontecido por muitas outras vezes. Sem nunca se falarem, nem se encontrarem. "Não podia permitir que um filho meu estivesse a passar fome", diz para mim a senhora Carolina com grande ênfase na voz e nos gestos, como quem exibe a sua virtude. Ouvi e todo eu estremeci por dentro, perante tamanha humilhação feita ao filho dela. Mas continuei à escuta. Até que a senhora Carolina, depois de muitos outros pormenores que acrescentou no seu relato, me interpelou directamente: "Diga-me, senhor padre Mário, o que acha de tudo isto, se eu não tenho sido uma boa mãe, se não tenho sido uma boa mulher, se não estou a cumprir com os meus deveres?"
Fiquei perplexo. Que haveria de dizer senão o Evangelho de Deus, do Deus de Jesus, que é todo misericórdia, não religião, que é todo tolerância e perdão, não poder e lei, que é todo amor, não tradição, que é todo liberdade, não moralismo, portanto, tudo ao contrário do que Carolina me/nos acabara de exibir? Mas haveria de lho dizer assim, logo na primeira vez que me sentei à sua mesa, na cozinha da sua casa? Ela ouvir-me-ia, ou escorraçar-me-ia? Ainda aceitaria partilhar comigo o lanche, como havia dito, quando fez questão que eu fosse lá a casa, ou atiraria com a mesa ao ar? Olhei-a nos olhos com a ternura de que fui capaz. Fiz silêncio durante o tempo que foi possível. Mas ela insistia. Esperava, certamente, um grande aplauso da minha parte. Mas o que ouviu foi um profundo convite à conversão! E como a senhora Carolina é catequista de crianças, abri o Evangelho de Lucas e comecei a ler a parábola dos dois filhos, em que o mais novo exige ao pai que reparta com ele a herança. Ela logo me interrompeu para dizer que já tem falado dela às crianças. Lembrei que Jesus contou a parábola aos fariseus que se tinham na conta de pessoas cumpridoras da lei de Moisés (de Deus) e o criticavam por ele, ao contrário, acolher os pecadores e comer com eles. Que ela visse se entre ela e o pai da parábola (Deus, o de Jesus) há alguma semelhança. E que reparasse que nem a filha dela nem o filho com quem ela não fala, apenas lhe faz chegar comida, jamais se comportaram como o filho mais novo da parábola. Convidei-a a reparar na reacção do filho mais velho da parábola (os fariseus do tempo de Jesus), o que se tem na conta de filho exemplar, cumpridor da lei, o filho que sempre se comportou de acordo com a lei, as tradições, os deveres, mas que agora nem sequer é capaz de chamar irmão ao irmão, em cuja honra o pai fez um grande banquete. Pelo contrário, trata-o com desprezo, assim como ao pai. Diz: "Esse teu filho". E lembra o que ele considera os mais graves pecados ou desvios que alguém pode cometer contra o código moral que ele sempre cumpriu e que o pai como tal deveria fazer respeitar: "Esse teu filho que gastou os teus bens com prostitutas..."
A partir daqui, ajudei-a a perceber que o Deus que ela conhece é o Deus da lei, da norma, do dever, do moralismo, um Deus cruel e inventado por pessoas e Igrejas hierárquicas igualmente cruéis, sem entranhas de misericórdia. Convidei-a a abrir-se ao Deus de Jesus que está todo empenhado em que as pessoas vivam e vivam em abundância, pois a sua glória é que os que habitualmente são desprezados pelos que se têm na conta de bons, vivam, se levantem, sejam integrados, dignificados. Adverti-a para o tipo de Deus que ela tem seguido e feito os filhos e as crianças da catequese seguir: um Deus cruel, que faz cruéis às pessoas que O seguem e o temem, porque ficam capazes de recusar dormida às próprias filhas, no caso delas aparecerem com os companheiros com quem vivem todos os dias, numa relação de amor, só porque essa relação não tem a bênção duma Igreja. Ou então porque de modo algum estão dispostas a pôr em causa a sua imagem de mães cumpridoras das orientações moralistas da sociedade hipócrita que é capaz de tudo para filtrar mosquitos mas não se importa nada de engolir camelos! Acrescentei depois: reconheço que a senhora Carolina tem feito tudo para ser boa mulher, boa mãe, boa vizinha. Mas dentro de um código moralista de valores que não tem nada a ver com Deus, pelo menos, com aquele Deus que se nos revelou definitivamente em Jesus de Nazaré. Veja que os seus comportamentos situam-se nos antípodas dos de Jesus. A senhora Carolina põe o seu bom nome acima das pessoas, nem que essas pessoas sejam a sua filha e o seu filho. Isto não é virtude, não é santidade. É crueldade. Se a senhora Carolina fosse discípula de Jesus, passaria por cima de tudo, só para acolher, reabilitar, libertar, acompanhar as pessoas em aflição, sem querer saber para nada da situação moral delas. Bastará que sejam pessoas em situação de aflição e de necessidade. Por isso, digo-lhe: Mude de Deus. Abra-se ao Deus de Jesus. E a sua vida, com as qualidades que tem, passará a ser evangelho vivo, boa notícia para os pobres e excluídos. Se por via disso disserem mal de si, feliz será. A sua alegria será sem fim. Porque nunca como então será mulher de Deus e das pessoas que Deus mais ama, essas mesmas que não têm onde cair mortas e que já nem nome têm para defender.
A senhora Carolina ficou sem fala. Sem pinta de sangue. Mas surpreendentemente serena. E guardou tudo no seu coração. A hora ia adiantada, mas ela fez questão de preparar e servir o lanche. Comemos todos em comum. Na sua mesa da cozinha, a mesa principal da casa. Numa Eucaristia que ela não esquecerá nunca, por mais anos que viva. Por proposta minha, cantámos o canto da nossa Ceia de Páscoa. Ela acompanhou com interesse. E vibrou com a mensagem que a letra transmite. Quis ficar com um exemplar. Para fotocopiar e levar às crianças de catequese. Pedi-lhe que atentasse bem na letra e na mensagem. Não interessa sermos consumidores. Mas seres vivos que se alimentam para mais e melhor servir libertadoramente as pessoas. À despedida, dei-lhe o beijo da Paz e da comunhão. Saí de junto dela, confiante no Espírito Santo. Carolina vai nascer de novo, do alto, do Espírito de Jesus. E haverá grande alegria na terra, onde Deus, o de Jesus, vive e trabalha continuamente, sábados e domingos incluídos. Com o objectivo declarado de derrubar o moralismo católico romano e outros moralismos igualmente perversos e pagãos que continuam por aí muito activos e que tornam cruéis as pessoas que se deixam guiar por eles. Para assim libertar e dignificar todas as suas vítimas.
2004 ABRIL 13
Hoje fui ao Porto. A três dos seus Hospitais. Visitar três pessoas lá internadas, um homem e duas mulheres. Provenientes de três freguesias. Convidei Maria Laura e ela foi também. O ministério que ela vive na Comunidade, mais os carismas da alegria e do acolhimento que a vestem permanentemente fazem dela uma presença imprescindível nestes momentos. Por outro lado, é assim que as pessoas progressivamente a reconhecem como presbítera não-ordenada da Comunidade. E ela própria se toma cada vez mais a sério e passa a viver mais profundamente o que é, por pura graça do Espírito Santo de Deus.
O mistério da doença, do sofrimento e da dor acompanhou-me por toda a tarde. Desafiou-me. Que sentido pode ter sofrer? Que sentido pode ter a doença? Que sentido pode ter a dor humana? Porque sofremos? Porque temos dores? Porque morremos? Porque choramos? Muitas perguntas. Respostas muito poucas. Sobretudo, sempre muito pouco convincentes. Provavelmente, muito mais do que encontrar respostas para estas e outras perguntas semelhantes, importará saber viver com as perguntas. Com o mistério/desafio/interpelação que elas escondem e gritam ao mesmo tempo. Foi, por isso, uma longa meditação esta viagem, quase peregrinação, a estes três locais de sofrimento humano. Também locais de esperança, que hão-de ser todos os nossos hospitais. Locais onde o ser humano se apresenta sem disfarces, sem máscaras, em toda a sua verdade. Neste aspecto, apetece-me dizer que os Hospitais são a Humanidade no seu melhor. Talvez por isso, quem lá entra, na condição de doente ou de visitante, torna-se logo muito mais humano, mais solidário, mais solícito, mais compreensivo, mais irmão. A verdade liberta, diz Jesus no Evangelho de João. E assim é, também aqui nestes espaços tão densamente humanos e humanizadores.
Comecei pelo Instituto de Oncologia. No oitavo piso, lá está o senhor Pires, da Maçorra, este mesmo lugar de Macieira da Lixa onde fica também a minha casa alugada e a casa dos meus senhorios. Foi internado no passado domingo de Páscoa, da parte da tarde, poucas horas depois de ter estado com a esposa na Ceia de Páscoa da Comunidade Cristã de Base. Foi operado ontem de manhã. Ao intestino. Um cancro que o aflige e faz sofrer há já alguns anos. Pelos vistos, já não é a primeira vez que é operado ao intestino e pela mesma razão. Da primeira vez, foi operado no Hospital de Amarante. Agora, como o problema se agravou um pouco mais, a intervenção ocorreu no Hospital da especialidade. A cirurgia terá corrido bem, o que explica que o senhor Pires já se encontre na enfermaria, melhor, no quarto situado no oitavo piso. É um quarto de duas camas, mas só está lá ele, o que lhe dá um certo ar de quarto particular. Apareci-lhe ao começo da tarde. Com ele, uma filha e duas netas, uma das quais enfermeira no próprio Instituto de Oncologia. Foi uma surpresa para as três familiares. Não contavam comigo tão cedo e tão sobre o tempo pós-operatório. "Olhó padre Mário!", disse com viva alegria a filha, minha conhecida desde que fui cá pároco. Na altura, era jovem e andou pelo grupo dos jovens. E nunca mais nos deixamos de ver, já que, por muitas vezes, tenho reunido em casa dos seus pais e estes sempre fazem questão que as filhas e os filhos também apareçam e participem. Por isso, liga-nos o afecto. Nunca a minha relação com as pessoas é de funcionário. Sempre ponho afecto no que faço. E quando se trata de pessoas, muito mais. Não sei ser e viver de outro jeito. Acho que o afecto é a grande alavanca do mundo. Tirem o afecto e desaparecem os seres humanos. Ficam robots. Máquinas. Funcionários. Coisas que se movem. Mesmo que vistam de padre ou de Bispo. Ou de Papa. Aliás, quanto mais funcionários se sentirem, tanto mais vistosas e monumentais costumam ser as vestes com que se fazem cobrir. E disfarçar.
Entrei no quarto com o sorriso no rosto. A alegria que misteriosamente rebentar no mais fundo de nós será sempre o grande sacramento de Deus, do Deus vivo. Mesmo num hospital e num hospital tão especial como o Instituto de Oncologia, que só se ocupa de pessoas portadoras de cancro, sempre havemos de entrar com alegria, de sorriso no rosto. Eu sei que há pessoas que não conseguem entrar neste Instituto sem começar logo a chorar. Só em pensarem que estão ali tantas pessoas e todas às voltas com problemas de cancro, não se controlam e desatam a chorar. Por mim, entendo que a minha simpatia com quem sofre e está em risco de desesperar, por se ver mergulhado num presente aparentemente sem futuro, há-de ser dada de sorriso no rosto, anunciador de que o futuro dos seres humanos não é o sofrimento, a tristeza, a depressão, mas a vida em plenitude, a alegria, a festa.
Nos olhos do senhor Pires, li comoção, quando me viu. E quando viu Maria Laura, nem se fala! Pude confirmar assim que a vida humana é feita destes momentos. Não são precisas muitas palavras. São precisos pequenos gestos. Discretas presenças. Sacramentos vivos. Contactos pele na pele, olhos nos olhos. Mãos que se tocam e se apertam. Abraços que se dão. Beijos que se permutam. É para aqui que apontam os sacramentos da Igreja. Mas depressa os convertemos em ritos frios, em rituais sem alma, sem profecia, sem dimensão humana. Depressa fizemos deles anti-sacramentos, onde até o pão é substituído por uma hóstia quase transparente e a ceia a sério deu lugar à missa sem qualquer emoção, coisa mais boba e estéril. Jesus quis dar realce, valor ao quotidiano, quis que o quotidiano das pessoas fosse ocasião de graça, comunicação de vida, acontecimento de salvação que havemos de dar e receber uns dos outros, e nós, em vez disso, corremos a substituir o quotidiano por ritos e rituais, que são caricaturas do quotidiano. E o que seria salvação, humanização, torna-se perdição.
Não falei muito. Nem fiz o senhor Pires falar muito. Toquei-o muito. Nas mãos. Nos braços. No rosto. Beijei-lhe as mãos. Olhei-o nos olhos. Fui sorriso. Quis que ele sentisse que está acompanhado. Que é amado. Que está em relação. Comuniquei-lhe o meu ser, o meu viver, a minha esperança, a minha saúde. Para que ele viva. Maria Laura fez outro tanto. Os doentes não são peso para os familiares, amigos, vizinhos. São graça. São desafio. Puxam pelo que há de melhor em nós. "Obrigam-nos" a sermos humanos. São a nossa salvação, no sentido de que nos humanizam. É claro que podemos fechar-nos à graça que eles são para nós. Nesse caso, desumanizamo-nos e ficamos mais doentes do que os próprios doentes. Porque a pior doença é o egoísmo e o ódio. A carta de João, no Novo Testamento, chega a dizer que quem não ama permanece na morte. E que quem odeia a seu irmão é homicida. É verdade. Mas a inversa também: Quem ama, vive e faz viver. Quem ama a seu irmão é criador de vida, chama à vida, ressuscita os mortos. Junto do senhor Pires, fui presença de paz. Sem o mais leve sinal de angústia. Paz, foi o que lhe dei. E muita confiança. Vida. Para que ele passe da doença à saúde, da ansiedade à serenidade, da angústia à confiança, da perturbação à paz.
Deixei Maria Laura com ele e as familiares dele, e avancei para o Hospital S. João. Esperava-me a senhora Rosa. Foi uma espécie de S.O.S. que me chegou no passado fim de semana, para que fosse visitá-la. Quem me transmitiu o recado, apenas me deu o nome e o nome do serviço: Cuidados terapêuticos. Acrescentou que a senhora em causa é de S. Pedro da Cova. Só por estes dados, não sabia em concreto quem é que ia encontrar. Mas avancei na expectativa. Tive de andar à procura do serviço. À entrada, duas funcionárias levantaram alguma questão. Não me reconheceram logo e exigiram que eu me identificasse. Disse que era o pe. Mário. É assim que digo sempre. E as portas logo se abrem. Mas elas, ainda novas neste serviço e na idade, hesitaram e pediram que exibisse o respectivo documento de identificação. Ri-me com vontade. E disse-lhes que não tinha. Que sou padre sem esse documento eclesiástico. Bilhete de identidade, só o comum a todos os cidadãos, a todas as cidadãs. Mais nenhum. Sei da existência desse outro cartão de identidade, mas não tenho, nunca tive. E acrescentei, bem humorado: Fosse eu funcionário eclesiástico e certamente o cartão de identificação, passado pela Cúria da Diocese do Porto, ter-me-ia sido enviado. Mesmo que eu fosse um funcionário explorador do povo, vendedor de missas e de sacramentos, distribuidor de ópio para o povo e pregador de mentiras. Felizmente, não sou padre funcionário eclesiástico. Sou padre, simplesmente. Ao serviço do Evangelho de Deus. E padre de graça. Elas riram-se muito, ao mesmo tempo que se mostravam surpreendidas. Uma terceira pessoa, enfermeira do Hospital, que ia entrar ao mesmo tempo que eu e ouviu toda esta conversa, olhou-me com mais atenção e confirmou com satisfação: "Mas é o padre Mário, que vai muitas vezes à televisão!" Perante testemunho tão espontâneo, as duas funcionárias quebraram a sua exigência. E franquearam-me a porta. Entrei a rir como um menino. O testemunho ficou. Creio que foi um bom momento de Evangelho. Que pode dar os seus frutos na vida daquelas duas jovens.
Localizei o serviço. Não se pode entrar sem autorização. Tive que me anunciar e ficar a aguardar que me chamassem. Quem me atendeu, logo me reconheceu. E sorriu de alegria e alguma cumplicidade. Aguardei, a pensar que todos estes cuidados revelam que a situação da doente em causa será de bastante cuidado. Finalmente, abre-se a porta e eu entrei. Dirijo-me à cama 4 e deparo com a senhora Rosa, que foi minha vizinha, enquanto morei na casa-sede da Associação Padre Maximino e que fez parte da Comunidade cristã das quartas-feiras, durante muitos anos, avó de muitos netos, cada qual o mais problemático. Afinal, era pessoa familiar para mim. A quem dei muito do meu tempo e de mim. A ela e à sua casa. Lembro-me de ter reunido uma vez por semana em sua casa, durante um ano inteiro, sem nunca desfalecer. Ela tem tudo isso gravado na memória e no coração. E quase chorava de comoção, quando me viu aproximar. Apercebi-me no primeiro olhar que ela havia sido operada à garganta. Falava com alguma dificuldade. Em tom baixinho. Mas de olhos vivos, como quem se certifica que eu não sou um fantasma, que sou mesmo eu. Beijei-a com afecto. Beijou-me com afecto. Muitos beijos seguidos. Como quem sabe que tem consigo não um homem qualquer, mas um irmão, um amigo, um companheiro. Partilhou comigo estes últimos tempos da sua vida. Confiou-me as suas dores. As suas preocupações. Alguma angústia. Conheço a vida dela há uns dezoito anos e sei que tem sido uma vida quase em estado de doença. Mas também de muita resistência. Na casa dela, sou uma referência evangélica. Nunca deu para se ver grandes frutos. Mas foi muita a minha doação e a minha entrega. Ela sabe disso e di-lo ao seu jeito: "Ver aqui comigo o senhor padre Mário é como ver Deus do céu". Ouvi e ri como um menino. Exageros dos pobres que estão habituados a ser chutados por todos, nomeadamente, pelos que se têm na conta de grandes, e que ficam sem jeito, quando alguém se coloca ao mesmo nível deles e faz questão de ser simplesmente um irmão mais.
A visita tinha que ser curta. O regulamento daquele serviço assim o exige. Para bem do doente visitado. Mas foi intensa, enquanto durou. Ouvi-a com carinho. Fiquei a par dos últimos passos que deu. Sente-se muito debilitada, mas confiante. E com saudades da sua casa e dos seus. Ainda não sabe quando regressará. Deixei-lhe toda a minha alegria e a minha confiança. Na certeza de que a vida é que nos mantém. É na vida que somos e existimos. Assim como é a vida que continuamente nos transforma em seres cada vez mais vivos, até nos reduzir ao essencial, invisível aos olhos. É para aí que avançamos. E havemos de avançar com serenidade. Não temos aqui morada permanente. A vida, quando estiver à beira de atingir uma patamar de qualidade superior, torna-se invisível aos olhos. E nós com ela. Invisíveis, mas vivos, mais ainda do que agora. E tudo isto dentro de um processo sem fim. É assim que me experimento. E procuro viver cada dia, cada momento. Isto mesmo deixei semeado na senhora Rosa. Para que ela também se abra ao essencial. Com toda a serenidade.
Cá fora, junto da carrinha, já me aguardava Maria Laura. Contente pelo senhor Pires. Também ela confia que, em breve, voltará a estar no meio de nós, na sua casa da Maçorra. Com a Miquinhas, sua esposa. E a frequente companhia das filhas, dos filhos, netas e netos. Segui com ela para o Hospital Magalhães Lemos. Ao encontro da Vera, de Paredes de Viadores. Pelos vistos, foi vítima de um acidente no seu carro e, em consequência disso, o seu sistema nervoso alterou-se profundamente. A depressão em que tem vivido ainda não estava vencida e tudo se terá agravado, ao ponto dela chegar a perder o andar. A equipa médica que a viu no hospital da região entendeu que era preciso tratamento mais profundo e prolongado, num hospital da especialidade. Soube ontem destes pormenores e aproveitei a deslocação ao Porto, para lhe aparecer de surpresa. Maria Laura, com quem ela e a mãe mantêm estreita relação de afecto e de entreajuda, era imprescindível também.
Procurei-a por todo o recinto do Hospital, uma vez que ela se encontrava fora do pavilhão em que habitualmente está internada. Acabei por dar com ela no bar, na companhia da mãe, da filha mais novinha, Patrícia, uma cunhada e outros dois doentes. Pela aragem, as coisas já se mostravam bem melhores. Já a vi rir e andar. Encostei-me à coluna mais próxima da mesa onde estavam todos em grande convívio. E ali fiquei a olhar para ela, sem fazer sentir a minha presença. Até que os olhos dela fixaram os meus que lhe sorriam desde que havia chegado. Deu um salto de emoção e de contentamento, ao mesmo tempo que abriu os braços em direcção a mim. O abraço foi longo e apertado. Os beijos foram muitos. A mãe e demais pessoas que isto viram, correram também para mim. Foi um momento forte. Muito emotivo. Que faz viver. É o que Vera mais precisa neste momento. A depressão só a deixará se houver emoções fortes de intensa alegria que a expulsem. É a minha aposta. Para lá de tudo o que a medicina e fármacos possam fazer. Quando nos desprendemos dos braços uns dos outros, disse-lhes que havia uma surpresa. Chamei Maria Laura pelo telemóvel que, entretanto, se havia perdido de mim, no meio de todos aqueles pavilhões. Veio e a emoção voltou ao rubro. Foi fecunda a conversa. Até a filhinha dela, Patrícia, se soltou e ria de alegria. À despedida, deu-me um beijinho nos lábios, com aquela inocência que só as crianças conservam e, depois de se afastar um pouco, voltou atrás para dar ainda outro, tamanho era o seu contentamento. Vi neste seu gesto, a fome de carinho do pai que, pelos vistos, continuará sem saber estar à altura deste difícil momento por que atravessa a família. Fiquei de aparecer de novo com Maria Laura, se Vera se mantiver por mais tempo no Hospital. Quando lhe disse: Como vês, estás com gente que te ama a sério, ela, de lágrimas nos olhos, confirmou: "Eu sei, agora, eu sei que assim é". Com estas minhas palavras, quis dizer-lhe que em mim, na Maria Laura e na Comunidade de base em geral, ela encontrou companheiros, amigos, não funcionários eclesiásticos, como costumam ser os párocos que residem nas paróquias e que só se interessam pelas pessoas concretas, se elas os chamarem. E, mesmo assim, sem nunca criarem laços. São sempre funcionários, especializados em certos ritos, o que faz deles quase monstros humanos! (Que me desculpem os meus colegas, mas é isso que o sistema eclesiástico faz deles. Digo-o assim, com toda esta rudeza, para que se dêem conta e reajam. Enquanto é tempo. De contrário, o que ainda resta neles de humanidade acaba por ser devorado pelo sistema. E lá se vai tudo. Porque o sistema eclesiástico do que mais gosta é da alma dos padres e dos bispos. Ele sabe que quando se apodera das almas dos padres e dos bispos, rola sobre rodas. Mas para desgraça de toda a Humanidade. Alerta, pois!)
Regressei com Maria Laura a casa. Numa viagem que foi de intensa escuta e de intimidade com o Espírito. A doença que atinge os seres humanos é um mal que havemos de combater. Com todas as nossas forças. Juntamente com os doentes concretos onde ela se manifesta e faz os seus estragos. Uma das formas de a combater é esta que vivi esta tarde e que Maria Laura também viveu. Prosseguirei. Ela prosseguirá. Na certeza de que quem ama, vive e faz viver; quem fica indiferente ou foge de quem sofre, morre e faz morrer.
2004 ABRIL 11
"A ceia de Páscoa é sempre um perigo para quem a faz. Aliás, não só a ceia de Páscoa. Todas as ceias que fizermos em memória de Jesus. Em todas elas há algo de politicamente conspirativo e, por isso, quem as faz a sério só pode ser para se tornar politicamente conspirativo, subversivo, perigoso". Foi com esta afirmação que abri o encontro-celebração da Páscoa 2004, iniciado ao fim da tarde de ontem e prolongado pela noite adiante, na espaçosa sala da Casa da Comunidade. Para esta celebração, a pequenina Comunidade local convidou pessoas que lhe andam mais próximas, quer da freguesia de Macieira da Lixa, quer de outras bandas do concelho e mesmo de mais longe. Fê-lo de viva voz, olhos nos olhos, e também por meio de um convite escrito. O convite dizia expressamente o seguinte:
"A Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa vem por este meio convidá-la, convidá-lo a juntar-se a nós, para celebrar connosco a Páscoa 2004. A celebração é este sábado, 10 de Abril. Abre com uma Ceia em comum, por volta das 8 horas (veja se consegue chegar pelo menos meia hora antes) e prolonga-se noite dentro, sem pressas, em ambiente de convívio e de reflexão, de alegria e de partilha da Palavra, em ordem a fazer de nós PÁSCOAS VIVAS ao jeito de Jesus, o Ressuscitado, como primícias de todas, todos nós. Para participar na celebração, pedimos-lhe que traga consigo, se puder, uma pequena ceia já confeccionada que colocará, logo à chegada, na MESA COMUM, da Casa da Comunidade, junto das outras pequenas ceias que as demais pessoas também vão trazer. Traga igualmente consigo a sua esperança e a sua alegria, pois estamos a viver num mundo onde já está presente e actuante o Sopro ou Espírito de Jesus Ressuscitado. É claro que este nosso convite é extensivo às suas familiares, aos seus familiares, às suas vizinhas, aos seus vizinhos e às suas amigas, aos seus amigos."
Estivemos para cima de trinta pessoas, de todas as idades. Mas poderiam ter estado muitas mais, se todas as que souberam da iniciativa e foram convidadas a integrá-la, tivessem correspondido. Nesse caso, teríamos sido mais do dobro. O mais perturbador é que das pessoas da freguesia, algumas das que falharam à última hora haviam garantido que iriam estar presentes. Das pessoas de fora, concretamente, do concelho de Felgueiras, de Gulpilhares (V N Gaia) e de S. Pedro da Cova, falharam todas. A mim, surpreendeu-me sobremaneira que não viessem as pessoas de S. Pedro da Cova, a freguesia e vila onde vivi e trabalhei durante dezoito anos e de onde saí para regressar a Macieira da Lixa. Sempre pensei que pelo menos algumas pessoas da Comunidade Cristã das Quartas-feiras e da Associação Padre Maximino (ainda sou o presidente da Assembleia Geral) não deixariam de vir. Assim como do grupo de Gulpilhares, que há anos acompanho em encontros mensais. Bem sei que esta ausência não significa desinteresse. A data é que não é propícia, uma vez que as pessoas que gostariam de ter vindo têm responsabilidades familiares que não podem abandonar assim sem mais. Ou então têm visitas de outros familiares que, tradicionalmente, lhes aparecem nesta data da Páscoa. Fiquei, por isso, ainda mais feliz, quando vi que uma família de Gondomar que havia sido convidada directamente por mim fez questão de vir ao encontro, embora só há poucos meses é que mantém contacto comigo. É uma família que conheci através da filha, Rute, de seu nome, uma jovem de dezanove anos, estudante da Universidade do Porto que há meses me procurou e desde então tem mantido regular contacto comigo, para que a esclareça sobre certas questões relacionadas com a Igreja, a Bíblia e a Fé cristã, questões essas que a têm trazido bastante perturbada, mesmo psiquicamente. Enviei-lhe o convite por correio electrónico e ela logo mostrou interesse em vir. Com ela, vieram também a mãe e o pai. E só não veio a irmã gémea, porque teve que ficar a estudar para um exame de direito que tem muito proximamente.
Mas se compreendo as ausências das pessoas que residem longe de Macieira da Lixa, já me custa mais compreender as ausências das pessoas vizinhas da Comunidade. Aqui, é sobretudo o medo que impede as pessoas de aceitar o convite. A paróquia territorial, com o pároco residente, é uma estrutura opressiva e opressora. E as pessoas estão tão condicionadas pela pressão que ela exerce e pela pressão da vizinhança católica que controla os passos de cada uma delas, que é preciso muita coragem e muita audácia para romper com tudo isso e avançar. Quem o faz - para já, ainda são poucas as pessoas que o fazem - revela já bastante liberdade, o que me alegra. Continuarei a trabalhar junto das pessoas, para que elas sejam pessoas, o que só acontecerá, se forem livres, também da pressão da paróquia. O mais surpreendente para mim foi que nem mesmo do grupo de mulheres da Maçorra com quem já reuni duas tardes, houve uma sequer que fosse capaz de romper com o medo. Não as condeno. Mas já condeno este modelo paroquial-territorial de Igreja católica que controla a consciência das pessoas e as obriga a cumprir tradições religiosas sem qualquer sentido, em lugar de as despertar para a liberdade e para a criatividade, também ao nível eclesial.
O encontro-celebração abriu com palavras minhas que foram de saudação e de sentido teológico sobre a ceia e sobre aquela noite de Páscoa que íamos protagonizar em conjunto. Aqui as deixo na íntegra: "A ceia de Páscoa é sempre um perigo para quem a faz. Aliás, não só a ceia de Páscoa. Todas as ceias que fizermos em memória de Jesus. Em todas elas há algo de politicamente conspirativo e quem as faz a sério só pode ser para se tornar politicamente conspirativo, subversivo, perigoso. Por isso, aqui fica, desde já, esta advertência: Se alguém entender que deve sair, desertar, abandonar esta ceia de Páscoa, ainda está a tempo. Ficar e participar nela é um perigo. Vai comprometer-nos, pois ela visa fazer de nós pessoas politicamente conspirativas, subversivas, perigosas na sociedade actual. Ninguém sai? Ficamos todas, todos? Felicito-vos efusivamente, pois, se ficais, sois pessoas muito corajosas. Mas então que não seja apenas por esta noite, apenas por uma vez. Sejamos pessoas politicamente conspirativas, subversivas, perigosas sempre. Todos os dias. Em todos os locais. Seja este o nosso jeito de ser e de viver. Não é por estarmos a fazer este encontro-celebração na Casa da Comunidade, em vez de no templo da paróquia, que esta ceia de Páscoa é um perigo para nós que a fazemos. Este pormenor também ajuda, porque representa audácia, atrevimento, dissidência em relação ao modelo tradicional de Igreja e abertura em relação ao modelo comunitário de Igreja, o que, aqui em Macieira da Lixa, ainda tem uma certa dimensão de perigo, sobretudo, devido a continuar a ser, por agora, uma opção manifestamente minoritária. Mas a ceia de Páscoa é um perigo para quem a faz essencialmente porque é a ceia em que fazemos memória de Jesus Crucificado a quem Deus ressuscitou. E não se pode fazer memória de Jesus Crucificado a quem Deus ressuscitou, sem ficarmos mulheres, homens como ele, até corrermos o risco de acabarmos como ele historicamente acabou.
Na Bíblia, há duas ceias de Páscoa e ambas foram um perigo para quem as fez. A primeira, foi há mais de três mil anos. Aconteceu no Egipto dos faraós e das pirâmides em fase de construção. Os escravos que as construíam sublevaram-se contra a ordem estabelecida que achava natural a existência de escravos. Liderados por Moisés - um guerrilheiro de libertação, no dizer dos escravos rebeldes; um terrorista, no dizer dos egípcios e do faraó que ficaram sem os escravos - organizaram uma ceia, a sua última ceia no Egipto, antes da fuga/expulsão. Mas vede: Enquanto eles nas suas casas, comiam de pé, à pressa, com os rins cingidos, as sandálias nos pés e o cajado na mão, prontos para fugirem, diz a narrativa bíblica do Êxodo que nas casas dos egípcios ouvia-se um clamor sem igual, pois em todas elas sem excepção, a começar pela casa do faraó, o filho primogénito da família apareceu morto. Com este dizer literário-teológico, a Bíblia anuncia que aquela ceia de Páscoa dos escravos em insurreição contra a escravatura e pela sua libertação decapitou as famílias dos seus opressores egípcios. Deixou-as sem o filho mais velho, portanto, sem herdeiro, sem continuador, sem futuro. Até os animais ficaram sem o primogénito, pois também entre os animais a cria mais velha apareceu morta nessa noite. Certamente, não se trata duma narrativa histórica, mas literário-teológica. Com ela, o que se anuncia é que aquela Ordem faraónica, imperial, que achava natural a existência de escravos, ficou sem cabeça, foi decapitada, no decorrer da ceia de Páscoa dos escravos em luta de libertação, o mesmo é dizer, ficou sem futuro, sem mais hipóteses de continuidade. A ceia dos escravos em insurreição coroou a Páscoa ou a Passagem do Senhor que decapitou aquela Ordem mundial inumana. Vede a Força conspirativa, subversiva e perigosa que teve aquela ceia de Páscoa dos escravos no Egipto! Vede como eram politicamente conspirativos, subversivos, perigosos aqueles escravos organizados em insurreição.
Demos um salto no tempo e aterremos aqui, em 2004, em Macieira da Lixa, nesta sala da Casa da Comunidade, onde já está a decorrer a nossa ceia de Páscoa 2004. Pergunto: O que vai sair desta nossa Ceia de Páscoa que se pareça com o que aconteceu com a primeira ceia de Páscoa dos escravos no Egipto? Será que esta nossa ceia de Páscoa vai ter tanta força politicamente conspirativa, subversiva e perigosa como aquela dos escravos em insurreição no Egipto? Será que esta noite e no decorrer desta ceia de Páscoa vamos decapitar o sistema faraónico e piramidal que hoje domina o mundo, a Europa, o nosso país, porventura, a nossa casa e até a vida individual de cada uma, de cada um de nós? Iremos ficar tão unidos e tão em comunhão uns com os outros, que nunca mais o sistema faraónico e piramidal conseguirá nada connosco? Vamos ficar tão companheiras, tão companheiros com esta ceia de Páscoa que, a partir dela. nos constituiremos, aqui, em Macieira da Lixa, sinal vivo, sacramento vivo de um outro jeito de se ser mulher, homem, família, sociedade, país, mundo?
A segunda Ceia de Páscoa de que nos fala a Bíblia - neste caso, só a Bíblia dos cristãos, ou Segundo Testamento - é a ceia de Páscoa de Jesus com o grupo dos Doze. Aqui, o perigo é ainda maior do que na primeira ceia. Aqui, quem é politicamente subversivo, conspirativo, perigoso é o próprio Jesus. Tão conspirativo, tão subversivo, tão perigoso, que até pelos seus discípulos de origem israelita, o grupo dos Doze, foi traído, renegado e abandonado. Tornou-se tão politicamente conspirativo, subversivo, perigoso, que foi traído, renegado e abandonado por todos. Os Doze sonhavam com um Político, isto é, com um Messias ou um Cristo - sabeis que estas três palavras: Político, Messias, Cristo, são sinónimas, por isso, tanto faz dizer uma como outra?! - todo poderoso, à rei David ou à rei Salomão (hoje, diríamos, à Bush ou à Sharon) e ele, no decorrer da sua ceia de Páscoa que antecipou simbólica e teologicamente o acontecimento histórico da Crucifixão, já se assume em definitivo como Político/Messias/Cristo integralmente desarmado e exclusivamente apaixonado pelo povo (no povo de Israel incluiu todos os povos do mundo) como o esposo pela esposa, a esposa pelo esposo, ao ponto de dar a vida por ele. Revelou duma vez por todas que Político/Messias/Cristo a valer (= Ser Humano a valer) só quem ama o seu povo (sempre há-de incluir todos os povos do mundo e o próprio Universo) até dar a vida por ele. Ou, dito em palavras mais eucarísticas, só quem faz do seu corpo Pão, alimento de quem luta, e do seu sangue Vinho, alegria de quem luta.
Com esta sua maneira de ser e de fazer, Jesus situa-se po