2005 MAIO 31
1. A minha passagem pela Feira do Livro de Lisboa, na tarde do passado sábado, 28 de Maio, é para mim uma experiência inesquecível. Por mais que viva. As horas que permaneci junto do stand da Campo das Letras, nunca estive desocupado. As pessoas eram sempre a chegar e a partir. Queriam abraçar-me, beijar-me, apresentar-me as filhas, os filhos, conversar, esclarecer dúvidas, dizer da sua alegria e da sua gratidão por me terem visto e ouvido no HERMAN-SIC, felicitar-me pela coragem, pela lucidez, pelo desassombro, pela denúncia da Mentira e pelo anúncio do Evangelho da Verdade que nos faz livres. Foi uma festa. Um Baptismo e uma Confirmação e uma Ordenação presbiteral no Espírito, para que eu prossiga a Missão de Evangelizar os pobres fora dos templos e longe dos altares. Vieram mulheres e homens de diferentes idades, famílias inteiras (mãe, pai, filha, filho, ou filhos), jovens em feminino e em masculino. Uma família houve que pediu que eu dedicasse o meu novo livro ao filho-menino que estava ali presente, a olhar-me com aqueles seus olhos grandes. Emocionei-me e deixei falar o coração. No final, levantei-me e li em voz alta aos três (mãe, pai e filho) a dedicatória acabada de escrever. Até o pai do menino ficou de lágrimas nos olhos. E lá se foram os três com uma alegria difícil de conter. Uma boa parte das pessoas foi a primeira vez que se aproximou de mim. O brilho no olhar não enganava. Tinham sido tocadas no decorrer do Programa do Herman. E não puderam passar sem esta Páscoa ou Passagem. Quiseram tocar-me, ver que eu sou de carne e osso, irmão e companheiro desarmado, sorriso rasgado, assim como um menino. Quiseram levar com elas O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO, mas autografado. Garantiam que o vão ler de imediato. E ao final do dia, já me chegou um sinal. Era um homem que, numa breve mensagem de telemóvel, partilhava o seu testemunho: “Já li O OUTRO EVANGELHO. Bem-haja por me ter ajudado a recuperar a Fé”. Fiquei em acção de graças e respondi, também por mensagem de telemóvel: Só por si, já valeu a pena ter escrito este livro. E é verdade. Se o livro ajudou um homem a recuperar a Fé, essa é a maior alegria que posso ter como autor. Porque só pode ser uma Fé longe dos templos e dos altares, como a de Jesus, o de Nazaré. Só pode ser uma Fé entrega da própria vida à vida. Um despertar para a Política, para as grandes Causas da Humanidade. Um compromisso com a Verdade. Uma abertura ao Mistério, ao Infinito, à Realidade mais real, por isso, invisível aos olhos. Só pode ser um tornar-se progressivamente humano e fraterno. Um passar a gostar de mesas partilhadas, para que a Vida tenha oportunidade em todas as vidas concretas onde ela já aconteceu e onde ainda venha a acontecer.
Na parte final da tarde, ainda me desloquei para junto de outro stand, da ECL, onde se encontrava o meu outro livro EM NOME DE JESUS, editado pela Arca das Letras. Aqui a procura já foi mais comedida, mas ainda deu para entusiasmar. Aliás, houve um leitor que já tem comunicado comigo por telemóvel e que fez questão de aparecer na Feira. Para meu espanto, adquiriu todos os livros meus que encontrou, para que eu os autografasse. Quando partiu, depois de várias fotografias tiradas comigo, lá se foi para casa com as sacas cheias de livros, a dançar num pé só, de alegria. O mesmo sucedeu com uma senhora residente no Barreiro, esta já na idade de reformada como eu. Também só a conhecia por telefone. A alegria foi indescritível. Para ela e para mim. Creio que para ela, este terá sido o dia mais feliz da sua vida. É daquelas pessoas que parece beber as palavras que lê. E testemunha sem inibição alguma que as palavras que lê nos meus livros são o alimento que lhe faltava para poder viver com alegria e com sentido.
Infelizmente, o meu último livro, EM NOME DE JESUS, de 608 páginas, foi posto à venda com um preço bastante elevado. Decisão da exclusiva responsabilidade do Editor. Mas neste dia da minha passagem pela Feira, o responsável do stand decidiu, de acordo com o Editor, colocá-lo como “livro do dia”, o que fez baixar o seu preço para pouco mais de metade. Assim, o preço tornou-se acessível e foram bastantes as pessoas que puderam adquiri-lo sem lhes custar tanto. O que me alegra. Mas tenho de reconhecer que, para lá das muitas pessoas que me procuraram e adquiriram livros meus (o mais procurado foi sem dúvida O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO), foram incomensuravelmente mais as outras pessoas que passaram, olharam para mim e para todo aquele movimento em meu redor, mas que não se aproximaram, nem adquiriram qualquer dos meus livros. Ou porque não têm disponibilidade financeira, ou porque não se revêem no Evangelho de Jesus que eu procuro testemunhar e anunciar oportuna e inoportunamente, ou porque não têm hábitos de leitura. Tenho para mim que a maior parte das pessoas, no nosso país, não tem hábitos de leitura, nem sequer tem na sua casa um espaço para livros. A Escola ensinou a ler, mas nem sempre ensinou a interpretar e a entender o que as pessoas lêem, muito menos terá despertado nas crianças e nos jovens, elas e eles, o gosto pela leitura. É dramático constatar este facto real no nosso país e em muitos outros: as pessoas, na sua esmagadora maioria, conseguem passar a sua vida inteira sem nunca terem lido um livro, para lá dos manuais escolares. Inclusive, a generalidade das católicas, dos católicos, mesmo que tenham em suas casas uma Bíblia, nunca se dispuseram a ler, do princípio ao fim, algum dos livros que a compõem.
O livro deveria ser como o Pão. Assim como ninguém dispensa o Pão, também nunca deveria dispensar o livro. Mas não é assim. Infelizmente. E em Portugal, pior, relativamente a Espanha, França, Itália e a quase todos os outros países da União Europeia. Este é talvez o nosso maior desastre nacional. Que a nossa Escola e as Igrejas não têm conseguido evitar. Parece que o que conseguem é até fomentá-lo. É um desastre que não leva ninguém ao banco dos Hospitais, mas quase sempre é um desastre bem pior que muitos dos desastres da estrada, com feridos ligeiros. Enquanto os desastres da estrada apenas podem estragar o corpo ou até matá-lo, o desastre de não ter nem ler livros impede que as populações se tornem populações reflectidas, espiritual e culturalmente alimentadas, que sejam populações que valorizem a vida com qualidade e com dignidade, que sejam maduras e conscientes, capazes de tomar decisões livres e responsáveis. Tornam-se um desastre vivo e ambulante. Por isso, o nosso país não descola da cauda da Europa. E será sempre assim, enquanto cada casa que se constrói continuar a não ter um espaço para uma generosa biblioteca, uma espécie de santuário cultural da família. Sem este espaço, não há família que se aguente e progrida na sua dimensão de humanidade ilustrada e em constante actualização. Depressa descambaremos para o fácil, para a preguiça mental, para as aparências, para o fogo de vistas. Cresceremos no PARECER em lugar de crescermos no SER. Por isso, passamos a vida de desastre em desastre até ao desastre final. E não sei quando é que este estado de coisas no nosso país conhecerá a mudança radical que se impõe. Nem o Ministério da Educação, nem o Ministério da Cultura dão mostras de estarem a trabalhar nesta direcção. Ficam-se pelo costume, por mais do mesmo. E lá vamos nós, como povo, para o abismo. Por entre copos e cigarros. Muita boémia. Muitas noites perdidas. Muitas “directas” sem um pingo de cultura, nem um pingo de humanidade. São overdoses umas atrás das outras, de variadíssimas “drogas”, que deixam completamente “rotas” as pessoas que se metem por esses atalhos. E com as suas bocas confrangedoramente estéreis.
Perdessem-se as pessoas com livros. Fizessem farras com livros. Com debates a partir dos livros. Apanhassem overdoses de livros. Encharcassem-se com poemas. Cantassem poemas até ao amanhecer. Bebessem poemas, na companhia de um bom vinho. Crescessem em humanidade e em liberdade. E o Império depressa estremeceria. O Templo também. As deusas e os deuses deixariam de ter clientela. E os governos e os autarcas medíocres teriam os seus dias contados. Como, infelizmente, estamos longe desse dia, o Império está aí de pedra e cal. O Templo, nem se fala. E os governantes e autarcas quanto mais medíocres, melhor. Porque só concebem políticas que alimentam a mediocridade das populações. E as populações, ingenuamente, agradecem. E continuam a dar-lhes o seu voto.
2. Da Feira do Livro, em Lisboa, dei um salto à Baixa da Banheira. Já fui lá dormir. Sabia que a minha amiga Alzira tem estado gravemente doente. A idade avança e com ela os achaques habituais. O coração anda fraco. O Parkinson não pára de avançar, o equilíbrio do corpo é cada vez menor, o cérebro enfraquece. Conheci Alzira, há uns 30 anos atrás, quando naquela freguesia do concelho da Moita, ajudei a nascer uma pequenina Comunidade Cristã de Base, de seu nome “Padre Camilo Torres”. O que não houve de comunhão, de festa, de debate, de militância solidária e libertadora, naqueles primeiros anos. Alzira sempre foi uma das mais entusiastas, desde a primeira hora. O Alentejo da exploração e da opressão corria-lhe nas veias, desde quando ela, menina e moça, serviu em casa de donos de herdades, ainda o Fascismo era lei no nosso país. O pai e a mãe dela carregavam então no corpo já doente os pecados da exploração e da opressão. E ela sabia de cor o que era ter de viver disponível, 24 horas sobre 24 para fazer a vontade aos senhores e às senhoras da Herdade. O contacto com a Comunidade e com o Evangelho de Jesus despertaram-na e fizeram-na nascer de novo. Deixou a Paróquia católica, cuja catequese ensinava a resignação e a obediência “aos legítimos superiores” e abriu-se ao Evangelho de Jesus, cujo Sopro ou Espírito é como um ciclone, quando depara com a exploração e a opressão instituídas em regime. Nunca mais foi a mesma.
Infelizmente, a experiência, bonita até mais não, não resistiu às pressões de fora e às contradições internas. Os maridos não desistiram nunca do seu papel de donos das respectivas mulheres, nem do seu papel tradicional de machos. As mulheres ainda ousaram iniciar passos nunca antes andados por elas, no campo da liberdade e da gratuidade, mas não levaram até ao fim a sua audácia. Quando as pressões dos maridos foram mais agressivas, fizeram como a mulher de Lot: olharam para trás e preferiram a segurança e a estabilidade do lar outra vez fechado sobre si mesmo, aos riscos da liberdade vivida à intempérie. A Comunidade ainda tentou sobreviver, mas pouco mais seria do que mais do mesmo da Paróquia católica. E isso não fazia qualquer sentido. Por isso foi dada como extinta.
Alzira é das que sobreviveu, mas está praticamente sozinha. Nestes dias de doença cada vez mais grave, é com uma vizinha do rés-do-chão, Gracinda de seu nome, que conta para as coisas mais imediatas do dia a dia. E com uma companheira de luta das mulheres do MDM, Eugénia, para as outras coisas que têm a ver com Hospital, Segurança Social, Médico de família e papelada burocrática. Felizmente, a minha passagem pela casa de Alzira juntou-as a ambas em simultâneo. E foi um bom momento esse. Creio que cada uma delas ficou ainda mais disponível para acompanhar Alzira na sua doença. São estas três companheiras, hoje, a "nova" Comunidade Padre Camilo Torres. Nem elas sabem que o são. Mas a dedicação que vivem, com aquela simplicidade que só os pobres são capazes, é fruto do Sopro que um dia passou por Camilo Torres na Colômbia e fez dele um padre guerrilheiro na montanha, longe dos templos e dos altares. Um padre que desistiu de celebrar a Eucaristia na Paróquia católica, enquanto o Pão (= a riqueza) do mundo não fosse Pão Partilhado por todas as pessoas. Recusou, assim, a Mentira da Missa, alimentadora do Sistema de exploração que é hoje o neo-liberalismo, ao mesmo tempo que, em alternativa, foi dar corpo à Revolução libertadora que, nas montanhas do seu país latino-americano, visava o fim da exploração e a instauração da Partilha dos bens segundo as necessidades reais de cada pessoa e de cada povo. Tombou vítima de vários tiros nessas montanhas, com a Utopia nos olhos e na mente.
A Revolução foi depois interrompida, praticamente, em toda a parte. E o Mercado está aí mais forte e agressivo do que nunca. Esta é bem a sua hora, a hora do Mercado e do Império. Mas a Revolução voltará. E com ela a esperança. A Utopia só tem Amanhã. Chegará de novo a sua Hora. Contra o Poder das Trevas. O Sopro de Camilo Torres assassinado nas montanhas do seu país, como o Sopro de Jesus Crucificado são Sopros de Ressuscitado que agitam os povos da fome e levantam o mundo. A Hora da nossa libertação está mais próxima do que pode parecer. E o Império sabe disso. É por isso que tudo faz para distrair e adormecer os povos da fome com seitas de todo o tipo e feitio. E com futebol de profissionais ingénuos pagos a peso de ouro. E com novelas cor de rosa. E com droga pesada. E com deusas e deuses. E com religiões, as mais esotéricas. Felizmente, a Mentira, hoje aí à solta, tem os dias contados. Como as Trevas. Bastará um relâmpago na noite para pôr tudo a nu. E será a Revolução, como nunca foi antes. Por mim, já lhe sinto o cheiro. E não é no nosso país, nem na Europa, demasiado acomodados, que ela mexe. É no resto do mundo, hoje, todo ele a nossa aldeia global. Duvidam? Andem mais atentos aos Sinais dos tempos como eu ando. E deixarão de duvidar.
Depois de deixar a Baixa da Banheira a caminho de Lisboa rumo ao Porto, ainda passei de fugida e de surpresa por casa de um padre que, há muitos anos, pediu a "recondução ao estado laical", para poder casar. Hoje vive divorciado. E completamente sozinho. Tem-me escrito. Confessa-se como um "padre apóstata", mas que agora se sente interpelado pela minha Fé vivida na dissidência perante o Sistema eclesiástico e em comunhão com a Igreja. Toquei à campainha. Ele abriu e subi até ao 10.º andar. Quando viu que era eu (não nos víamos há mais de 30 anos) caiu-me nos braços, tal como eu caí nos dele. Conversámos. Por mais duma hora. Comunguei-o. E a sua revolta. Ao seu desencanto. À sua solidão. Convidei-o a abrir-se à Graça, a deixar a Lei. A viver a Fé na escuridão. A fazer da apostasia uma límpida proclamação de Fé. Escutei-o como um menino. Bebi-lhe as palavras. São sangue. Montanhas de sofrimento. De esmagamento. A Igreja foi pior que madrasta para ele. Como coisa de machos que é, desconhece a ternura e a Misericórdia. Os seus chefes maiores chegam a ser cruéis que se alimentam de crueldade e acabam a dar crueldade a comer ao mundo. O meu amigo não cabia em si de contentamento. E disse, no final, que nunca mais esquecerá este meu gesto. Voltaremos a encontrar-nos, certamente. Nem que, para tanto, eu volte a passar as águas do Rio Tejo para chegar de novo à sua casa. Também sou presbítero para ele. E ele faz questão de me reconhecer nesta dimensão. A "confissão" que me fez através duma carta, recebida por mim há uns 15 dias atrás, confirmou-me ainda mais no ministério presbiteral. Cada vez fica mais claro para mim que a Dissidência é que salva o mundo. Porque só a Dissidência coloca a Lei no seu lugar, sempre para as pessoas e nunca as pessoas para a Lei. Quando deixei este meu colega, eu próprio me sentia transfigurado. O encontro foi a três. O Espírito de Deus foi quem nos aproximou e nos fez verdadeiramente irmãos. É uma alegria sem fim viver assim como eu vivo, ser padre assim como eu sou. À intempérie. Conduzido pelo Sopro de Deus criador. Longe dos templos e dos altares. Próximo dos seres humanos. Também dos apóstatas, como este meu amigo padre que foi casado e hoje é divorciado, numa situação de grande solidão.
3. Dormi na casa de S. Pedro da Cova. E ontem de manhã, já de regresso a Macieira da Lixa, ainda passei pela Coopicart, no Porto, junto do meu amigo Alberto, por mais uma ajuda sua na técnica de lidar com a minha página na Internet. É um amigo de verdade. Sem ele, provavelmente, nem sequer teria criado este espaço de intervenção, o meu “púlpito” longe dos templos e dos altares, um púlpito contra a alienação dos púlpitos nos templos e contra a alienação dos altares. E depois, aproveitei e dei um salto à nova “catedral” de consumo, que abriu recentemente naquela cidade, paredes meias com o Estádio do Dragão. Quis conhecê-la com os meus olhos. E o que vi foi de me deixar de boca aberta. O Poder das trevas sabe que já não pode contar com as velhas catedrais das Igrejas tradicionais, para alienar as novas gerações. Não é que as velhas catedrais tenham deixado de lhe ser fiéis. São-no de forma subserviente e vergonhosa. O problema é outro: as novas gerações é que deixaram definitivamente de frequentar esses espaços. Por isso o Poder das trevas, hábil como é, e activo dia e noite, depressa criou as suas próprias catedrais de consumo. O Continente das Antas é o último grito em catedrais deste tipo em Portugal. Aquilo é de um requinte esmagador. Espaços enormes. Cientificamente concebidos para nos cativar, prender, aprisionar, esmagar e, finalmente, devorar. Espaços cheios de cor. De conforto. Sempre a temperatura conveniente. Uma despudorada manifestação de riqueza e de poder. Uma espécie de céu aberto, mas real, não mítico. E tudo ao alcance da mão, assim a bolsa de cada pessoa o permita. Apetece ficar por lá. E dizer: Descontrai-te, compra, come, bebe, regala-te. Deixa as preocupações. Entrega-te ao prazer, à comodidade, ao bem-estar, que nós cuidamos do resto. Está visto: as novas gerações chegam ali e já não querem outra coisa. Ali é o paraíso. Marcam encontros para lá. Deixam lá couro e cabelo. Tal como os devotos da senhora de Fátima, em Fátima. Mas sem o masoquismo e sem o sadismo da basílica de Fátima. Se em Fátima é o requinte do masoquismo e do sadismo, no Continente das Antas é o requinte do conforto e do bem-estar. Mas num e noutro local, a mesma alienação. O mesmo esmagamento das pessoas e das populações. Quem não cai numa catedral, cai na outra. A menos que frequente assiduamente os livros, aqueles que são feitos de luz e de palavras, não apenas de palavras. E palavras com o Sopro do Ressuscitado, o único que é capaz de fazer duma montanha de ossadas um exército de libertação do mundo. Cujos membros avançam armados de pensamento criador e de consciência ilustrada e evangelizada. E calçados com a audácia da justiça e protegidos com o capacete da Verdade.
Saí daquele espaço para o ar livre. E com redobrada vontade de mergulhar na montanha. A mesma que fez o Padre Camilo Torres. E, antes dele, já tinha feito Moisés. E sobretudo, fez Jesus, o de Nazaré. É esta Montanha que as novas gerações têm que descobrir e passar a frequentar, como alternativa a todo o tipo de catedrais, as antigas e as contemporâneas. Porque serão as novas gerações que vierem a frequentar a Montanha que haverão de dar uma nova topia histórica à Utopia que sempre nos puxa para diante, até à plenitude do humano. Eu confio. E canto.
4. Ontem e ainda hoje, não se fala de outra coisa no país e certamente na Europa. O “não” do povo francês deixou os líderes da União Europeia à beira de um ataque de nervos. Os profetas da desgraça que tudo fizeram para que triunfasse o “sim”, falam agora de crise e de catástrofe. A Europa pára, dizem com ar compungido. O euro desvaloriza, garantem. E todos eles não sabem o que fazer com o “não” do povo francês, esse mesmo que há mais de 200 anos protagonizou a Revolução da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade que mudou a mundo. Será bom que se os líderes europeus não sabem o que fazer com o “não” do povo francês, um dos povos mais lúcidos do planeta, então que se demitam. O povo francês sabe o que quis dizer com o seu voto. Simplesmente, que não quer este modelo de Europa que os líderes cozinharam nas suas costas e agora pretendem impor a todos os povos. O povo francês não diz “não” à Europa, mas apenas a este modelo de Europa cozinhado pelos líderes. Tão simples como isso. Querem uma Europa de cidadãs, de cidadãos iguais, livres, fraternos. Tão simples como isso. Mas o grande capital não é um modelo de Europa assim que quer. Quer uma Europa de desempregados, de subsidio-dependentes, de empobrecidos, de enfraquecidos, de alienados. O grande capital nunca se deu bem com o protagonismo das cidadãs, dos cidadãos. Nem com a cidadania. Só gosta de lacaios, de súbditos, de gente com mão estendida, de vassalos. Pobre capital. Tem no bojo um demónio que sempre estrangula quem o serve, mesmo que o vista de luxo e o rodeie de privilégios. O capital é o anti-Deus, criador de morte e de infernos, que quer substituir o Deus de Jesus, destruidor de infernos e Criador de vida e de protagonismos humanos. Por isso digo: Bem-aventurado Povo francês! O teu exemplo fica como luz a abrir, mais uma vez, o caminho ao resto da Europa e ao mundo. Vem aí uma crise? Melhor. É com as crises que os pobres podem safar-se. Vêm aí muitos sarilhos e muitas convulsões sociais? Melhor. São as convulsões sociais e os sarilhos que abrem brechas no Sistema para que o Sopro ou Espírito da Vida possa passar e fecundar novos amanhãs. Vem aí grande instabilidade social? Melhor. Sem ela, tudo corre de feição para o grande capital. Ao passo que com ela há mais oportunidades para os famintos de Pão e de Justiça. Por isso o que agora é preciso é que sejam muitos outros povos da União Europeia a repetir o “não” do povo francês. Haverá então razões para termos esperança. E para confiarmos. O Amanhã não será do grande capital, mas das cidadãs, dos cidadãos. Palmas ao “não” do povo francês, que, afinal, é um grande sim a um outro modelo de Europa, bem mais à medida das pessoas e dos povos. E o grande capital que se lixe!
2005 MAIO 26
1. No dizer oficial da Igreja católica, hoje é o dia do corpo de Deus. É assim todos os anos. Melhor seria que fosse o dia do corpo humano. Porque a Deus nunca ninguém o viu nem verá. E não há outra maneira de honrar e glorificar a Deus, pelo menos no dizer do Cristianismo de Jesus, que não seja cuidar do corpo humano, nas mulheres e nos homens concretos e históricos que somos, em cada tempo e lugar. Mas como é que a hierarquia da Igreja católica celebra o dia do corpo de Deus? Vejam só. Praticamente, repete neste dia o que costuma fazer todos os domingos. Convoca os fiéis, mulheres e homens, sob pena de pecado mortal, para os seus templos e atira-lhes em cima com aquelas missas ritualizadas de sempre, as quais têm o triste condão de deixar tudo como dantes, por isso, cada vez mais enfermo e degradado. Depois, nalguns locais, junta às missas uma procissão pelas ruas, a que chama do corpo de Deus. Mas, é claro, ao corpo de Deus ninguém o vê nessa procissão. O que as pessoas efectivamente vêem, e em grande destaque, são os clérigos, vestidos a rigor litúrgico, e por ordem hierárquica, do mais baixo no grau de ordem até ao mais alto nesse grau, que, como se sabe, na diocese, é sempre o bispo residencial. E junto do bispo residencial, vê-se também, com idêntico destaque, a pequena corte de súbditos ou vassalos de luxo, na qual se incluem, evidentemente, as autoridades políticas, civis e militares da região. Todos fazem questão de ir ao beija-mão do bispo da diocese, embora hoje ele já não seja mais o senhor das terras e das gentes, de tempos idos, que foram tempos de grande vergonha para a Igreja católica, completamente identificada não com Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império, mas com o Império e com o Templo que o crucificaram. Hoje, felizmente, o bispo já não é o senhor das terras, mas a verdade é que as populações, depois de séculos e séculos de servidão, ainda se não libertaram de vez (e quando se libertarão?!) de todo esse passado de desumanidade. Tão pouco as autoridades oficiais que as enquadram. O Estado português é oficialmente não confessional, mas depois continua aí em vigor a Concordata reciclada entre ele e o Estado do Vaticano que desdiz na prática o que a Constituição da República diz na letra. De modo que as autoridades, nestas horas, lá vão todas ou quase todas ao beija-mão do bispo, que para tanto são convidadas por ele e pelos seus serviços da Cúria diocesana. E se a procissão é numa simples sede do concelho ou numa simples freguesia, onde não há bispo residencial para o beija-mão, as autoridades locais já se contentam com o beija-mão na pessoa do pároco ou do vigário da vara. Sempre, é claro, bem à vista das populações. Para que estas entendam – é a força da linguagem simbólica – que entre o poder eclesiástico e o poder político há total harmonia e total entendimento. E se é assim numa procissão do corpo de Deus, então a conclusão a tirar só pode ser uma: é o próprio Deus que quer que as coisas sejam assim, uns poucos a viver com privilégios e como senhores de todos os outros, naturalmente seus súbditos e a viver para aí como calhar. Já viram o crime que estas coisas, aparentemente inofensivas, consumam?
Tenho desgosto que continuemos a ser Igreja católica assim. Os vícios do Império apoderaram-se de tal modo de nós, das nossas consciências, nomeadamente, das consciências dos clérigos, do mais alto ao mais baixo, que agora não somos capazes nem sequer de ver a pedra de tropeço em que nos tornamos. Se houvesse possessão demoníaca, esta seria sem dúvida a pior de todas. Porque nos desfigura por completo como Igreja e converte-nos em Império. Com a mais mortífera e a mais temida de todas as armas: a arma da simbólica religiosa! Como tal, torna-nos uma instituição que sistematicamente oprime e aliena as populações que permaneçam nas nossas fileiras e nas nossas áreas de influência, quando, se fôssemos Igreja na peugada de Jesus de Nazaré, seríamos uma Comunidade de comunidades de pessoas livres e iguais, constituídas na sororidade/fraternidade, fermento duma humanidade progressivamente liberta e igualitária e sororal/fraterna. Por isso digo: Nunca choraremos bastante estes desvios por onde tem navegado a nossa Igreja católica, causa maior da doença que hoje continua a afectar o nosso mundo. Ou não fosse verdade que quando o sal da fidelidade à Verdade perde a sua força, a corrupção da Mentira torna-se Ordem mundial que tudo e todos corrompe. Quando é que, como Igreja, ousaremos deixar “os porcos” e as suas “bolotas”, para regressarmos à casa de Deus Pai/Mãe que nos faz simplesmente irmãs e irmãos de todas as pessoas e de todos os povos? É por aqui que eu procuro ir, já longe dos templos e dos altares, mas bem perto dos corpos humanos concretos, a partir dos mais desprezados e desfigurados, afinal, o verdadeiro corpo de Deus que me/nos humaniza. E o que mais desejo é que as minhas irmãs, os meus irmãos da Igreja católica reconheçam que é este o caminho que Jesus, o de Nazaré, percorreu antes de nós. Como exemplo paradigmático para todas, todos nós.
2. Lembram-se, certamente, daquele meu colega que escandalizou o país, ao afirmar numa homilia que fazer um aborto é pior que matar uma menina de cinco anos, como a Vanessa, essa mesma que o pai e a avó presumivelmente assassinaram? Pois bem, agora é o próprio pároco que volta à carga, através duma Nota em sete pontos, publicada no órgão oficioso da Diocese do Porto, “VP-Voz Portucalense”, saído esta semana, com data de ontem, 25 de Maio. Já numa edição anterior, o próprio director da publicação tinha aparecido em defesa do Pe. Domingos Oliveira, com considerações contra a comunicação social não católica, que sempre gosta de tratar os assuntos da Igreja em modos pouco eclesiástico-católicos. Mas agora, é o próprio pároco que vem justificar-se em público à Diocese. O mais grave é que vem repetir a barbaridade moral que já tinha dito. E tenta justificar o que é manifestamente injustificável. É por isso contumaz. Na sua (de)formação moral, incutida no tempo do Seminário e da qual pelos vistos ainda se não libertou, o meu colega continua sem perceber que o que está mal é a doutrina moralista em que foi educado pela Igreja. Era esta que ele deveria denunciar. E pedir perdão pelo escândalo causado. Mas não. Insiste em identificar-se por inteiro com essa doutrina e, por isso, fica tão sem entranhas de humanidade como ela. É bem um homem eclesiástico. Quando deveria ser um homem jesuânico, isto é, um homem ao jeito de Jesus que sempre recusou meter-se nos meandros do moralismo dos fariseus, para acolher com entranhas de humanidade as pessoas de carne e osso, sem cuidar de saber primeiro o que elas foram no passado, ou continuavam a ser no presente. Bastava-lhe que fossem pessoas. Porque ele não é homem para julgar e condenar, apenas para libertar e salvar. Na verdade, para Jesus, não são os pecados das pessoas que mancham o mundo. O que mancha o mundo é a Ordem moralista, tecida de Mentira e de Hipocrisia. É esta que tem que ser combatida e destruída. Nunca as pessoas.
Pelos vistos, o meu colega ainda não é assim que vê as coisas. Poderia já ter mudado de visão, concretamente, poderia ter-se deixado evangelizar pelo muito que se escreveu e comentou contra o escândalo que a homilia dele causou no país. Mas não. Todos estes dias depois, ainda vem agora repetir a sua bárbara e cruel doutrina moralista, para mais no órgão oficioso da Diocese. Sinal manifesto que o Bispo e toda a Igreja oficial que está no Porto se revê nas suas palavras, faz sua a doutrina que ele pregou na igreja onde é pároco. Aliás, o próprio confessa no ponto 5 desta Nota à Diocese: “O que disse não exige mais nenhuma justificação do meu Bispo porque julgo serem ensinamentos da Igreja com longa tradição (…). Se o meu Bispo me quiser chamar a atenção, estou completamente disponível e receptivo porque não sou mais que um colaborador seu”. Pelos vistos, o Bispo da Diocese não tem nada para dizer, porque se identificará com o dizer deste seu “colaborador”. Mas então até onde quer ir a Igreja? Se ela confunde sistematicamente o Evangelho de Jesus com o Moralismo rançoso dos fariseus do tempo dele, ainda é uma Igreja com as marcas de Jesus? E se em lugar do Evangelho de Jesus, a Igreja insistir em anunciar nas paróquias o Moralismo dos fariseus, o que hão-de fazer as populações? Orelhas moucas e continuarem a frequentar as suas missas, ou deixarem de pôr lá os pés? Não é então mais do que tempo de as cristãs, os cristãos adultos na Fé se constituírem em pequenas Comunidades cristãs de base nas casas uns dos outros e, com simplicidade, seguirem Jesus e viverem segundo o seu Espírito?
A concluir, deixo-lhes aqui os primeiros três pontos, sem dúvida os mais chocantes, desta Nota escrita a frio pelo Pe. Domingos Oliveira. Leiam-nos e deixem-se saudavelmente escandalizar. E não hesitem em fugir desta doutrina e de quem a ensina e propaga. Trata-se de um fermento que, como o dos fariseus do tempo de Jesus, envenena a consciência das pessoas em quem entrar, consequentemente, oprime as pessoas e mata-as. Eis:
“1 -
Mantenho o que disse: o aborto, em certo sentido, pode considerar-se um crime
maior do que o assassínio de uma criança. Mas também aceito que não se esteja a
medir o que é maior ou menor e que se diga que são crimes iguais. Penso que não
se pode dizer que o aborto é um crime menor.
2 - Quando disse que a Vanessa podia gritar, queixar-se, mostrar os sinais de
violência e maus tratos, estava a encontrar para mim próprio e para quem me
escutava, uma explicação para o que disse antes: o aborto é um crime mais grave
que um assassínio de uma criança. Há certamente explicações mais fundamentadas e
mais felizes. Porque bem sei que a Vanessa com cinco anos não podia defender-se.
Mas menos se pode defender uma criança no seio materno.
3 - Para o crime do aborto e para o crime do assassínio a Igreja revela-nos e
transmite-nos o perdão de Deus que é regenerador e prepara um futuro feliz para
todos os seus intervenientes. O Perdão, contudo, não atenua a gravidade desses
crimes, nem muito menos os permite. O amor de Deus que perdoa espera
correspondência em amor e em generosidade da nossa parte.”
2005 MAIO 23
1. Não é habitual e só por isso é que é notícia, aqui no meu Diário Aberto. Ontem fui agredido na minha dignidade humana e presbiteral, através duma mensagem de telemóvel. Não sei quem é o autor da agressão. Apenas sei o número de onde veio a mensagem. E não me vou dar ao trabalho de investigar quem possa estar por trás desse número. Foi pouco depois da hora do jantar, quando o Benfica e as/os benfiquistas começavam já a festejar histericamente o título de campeão nacional de futebol. Li a mensagem, senti a dor da agressão e procurei reagir com humanidade e ternura, como é meu timbre. Do outro lado, insistiram na agressão, uma e outra vez. Já não respondi mais. O que tinha a dizer estava dito. Aqui registo as mensagens pela ordem com que se sucederam: “Seja coerente e deixe cair o “padre” antes do seu nome. Ou será por uma questão de markting imposta pelos Editores? Onde celebra missa e a que horas? No Centro de Trabalho do PC aí da zona?” Eis o que respondi: “Olá! É pena que me tenha escrito só para me agredir. Sou padre, sim, pela graça de Deus, para anunciar o Evangelho de Jesus. Apareça por cá para o poder abraçar.” Em resposta a esta minha mensagem fraterna, chegaram-me mais três, com breves intervalos entre elas: 1. “Você acredita em Deus?”; 2. “Vitimiza-se facilmente! Rentabilize a «agressão» para o seu próximo livro”; 3. “A sua violência verbal e o seu radicalismo anti-clerical vendem bem!!!”. E já hoje, a meio da manhã, enquanto escrevo este apontamento para o Diário Aberto, chegou mais uma mensagem, emitida a partir do mesmo número e com o mesmo tom de agressão. Diz assim: “Bom dia, sr. Mário, reflicta sobre o que ontem lhe disse.”
Felizmente, agressões e insultos destes têm sido bastante raros. Por telemóvel, creio que foi até a primeira vez. O que me surpreende, positivamente, e me leva a concluir que a sociedade portuguesa, felizmente, já é muito tolerante, comparativamente ao tempo da minha juventude. É sabido que os meus números de telefone e demais contactos de correio são públicos, andam na ficha técnica do Jornal Fraternizar e nos meus livros, por isso, qualquer pessoa pode ter acesso a eles. Mesmo assim, têm sido muito poucas as pessoas que se “metem” comigo para me insultar e agredir. Da parte da hierarquia eclesiástica, o silêncio, relativamente a mim e às minhas posições, também é (quase) total. E quando um ou outro hierarca ou clérigo fala contra mim e contra as minhas posições tem sido sobretudo como resposta à “provocação” de algum jornalista.
Em contrapartida, recebo com frequência, da parte de muitas pessoas que nem conheço pessoalmente, palavras de estímulo e de incentivo, para que continue na missão de Evangelizar os pobres com determinação e lucidez. O que procuro fazer, em obediência à minha consciência e por convicção pessoal. E sem qualquer esforço de maior. É assim que sou. É assim que respiro. Nem sequer há mérito da minha parte. Foi-me dado este carisma da radicalidade e da entrega à causa da Verdade. Para edificação da Humanidade nova, livre, saudável, solidária, feliz. E, se alguma coisa lamento é ver-me tão pouco acompanhado neste ministério, sobretudo, por parte dos outros presbíteros irmãos e dos bispos da Igreja. Deveríamos ser multidões de poetas e de profetas, dentro e fora da Igreja, para fazermos cair sem demora esta Ordem Mundial que mantém a Verdade cativa ou prisioneira na injustiça. Assim como a Humanidade, no seu todo. Infelizmente, não somos. Muitos ainda começam, mas logo desistem às primeiras contrariedades, às primeiras ameaças. Só quem escolhe ser radicalmente pobre é que pode ser radicalmente livre. Liberdade e defesa de interesses pessoais ou corporativos nunca caminham juntas, são um casamento impossível. Também nunca se dão Liberdade e progressão na carreira, muito menos, na eclesiástica. Aliás, nem sequer há carreira, quando a Liberdade é a nossa respiração. Só há Liberdade! Mulher livre, homem livre sempre será pobre. Não digo empobrecido. Digo pobre. Por opção. Foi assim Jesus, o de Nazaré, que chegou ao cúmulo de se comparar às aves do céu e aos lírios do campo.
Mas porque são tão poucas as pessoas, dentro e fora da Igreja, que vivem a radicalidade da Verdade e da Liberdade, a Humanidade deste nosso século XXI continua aí cruelmente condenada a viver acorrentada sob a ditadura da Ordem Mundial do Império, que é também a Ordem Mundial do Dinheiro. E por isso é uma Humanidade sem saúde, sem pão, sem alegria, sem paz, na esmagadora maioria dos seus membros. As aves do céu cantam, porque não têm celeiros. Os lírios do campo vestem-se que nem o famoso rei Salomão, porque não trabalham nem fiam. Mas a Humanidade pena e chora, em cerca de cinco das seis parcelas que a constituem, porque a parcela privilegiada tem celeiros que não partilha com as outras cinco parcelas. O chocante para mim é que nem assim cresce o número dos poetas e dos profetas contra esta Ordem Mundial. Parece que hoje só cresce o número dos instalados, dos acomodados, dos que continuam a ver na riqueza acumulada e concentrada a solução para as suas vidas pessoais e familiares. Quando é que descobriremos que é na pobreza voluntária, o mesmo é dizer, na riqueza partilhada por todos segundo as necessidades de cada povo, que está o segredo da nossa felicidade, do nosso desenvolvimento integral?
É por isso que digo: Quem quer que seja a autora, o autor das mensagens de telemóvel ontem e hoje, a agredir-me, não é com a minha radicalidade de vida que essa pessoa ou outra qualquer se deverá incomodar. A minha radicalidade é, afinal, a minha forma concreta de amar a Humanidade. Com o que todas, todos deveremos incomodar-nos é com o radicalismo do Dinheiro, no nosso hoje e aqui, com o Império do Dinheiro, com a Riqueza acumulada e concentrada em celeiros nas mãos de alguns que estupidamente escolhem ser ricos, quando só na Pobreza voluntária reside a salvação/humanização da Humanidade e a salvação/humanização de cada pessoa que vem a este mundo. Não sou eu quem tem que deixar de ser radical. O mal para a Humanidade é não sermos muitas, muitos mais a viver esta radicalidade. Venham, pois, muitas outras, muitos outros que escolham ser pobres como as aves do céu e como os lírios do campo. Pobres, não empobrecidos. Os pobres que o são por opção, por escolha livre, são seres humanos que crescem em humanidade e em liberdade. Os empobrecidos, pelo contrário, são vítimas da injustiça e terão que lutar até ao sangue para saírem dessa inumana condição.
Infelizmente, este Evangelho de Jesus, da luta até ao sangue contra a injustiça por parte dos empobrecidos, não tem sido anunciado. E a verdade é que os empobrecidos do mundo acabam quase sempre a sofrer com resignação a injustiça de que são vítimas, quando deveriam lutar até ao sangue para erradicar das suas vidas essa injustiça que os não deixa ser nem desenvolver-se, isto é, os não deixa crescer em idade, em estatura, em sabedoria e em graça, como Jesus, o paradigma do ser humano, cresceu. Também aqui, há imenso que fazer, imenso que mudar, nas mentalidades e nas práticas das pessoas e dos povos. Perante tão gigantesca tarefa, só me resta ter de reconhecer que, afinal, até a minha radicalidade ainda tem muito que crescer e que andar, para estar à altura das reais necessidades da Humanidade. Venham daí comigo. É urgente fazer-se movimento, engrossar a corrente de radicalidade humana. Não basta admirar A, B ou C. É preciso também ser. E agir em consequência.
2. “Eros. Criação e Religião”. Soube pelo meu amigo Pe. Anselmo Borges de um debate em torno desta escaldante temática. Ele era o moderador. As intervenções de fundo estavam a cargo de um conhecido psiquiatra da cidade do Porto e de um padre doutor, professor de Moral, na Universidade católica, também do Porto. Acabei por aceitar o convite e, no sábado passado, 21 de Maio, ao final da tarde, lá fui até à Biblioteca da Faculdade de Engenharia, da Universidade do Porto, onde o debate iria acontecer. Só quando lá cheguei, é que me pude aperceber que o debate se integrava na apresentação de um livro de poemas, de um amigo meu de outros tempos, Paulo Bateira, hoje médico no Hospital do Porto. “No pino do verão”, é o título do livro, parco em páginas, que não em poesia com carga erótica e por isso saudavelmente provocadora. Integrei-me no ambiente, embora percebesse que deveria ser das poucas pessoas que estavam ali sem terem sido oficialmente convidadas. Não conhecia o psiquiatra. O padre que iria debater com ele, sim. É o meu amigo Doutor Jorge Cunha, intelectual católico em crescente afirmação na Diocese, embora em moldes moderados e só por isso é que ainda não conhece nenhuma espécie de saudável ostracismo, da parte da hierarquia, se bem que, durante anos, foi reitor do Seminário Maior do Porto e hoje já não exerce esse cargo de grande prestígio institucional. Os próximos anos dirão até onde ele irá. Só me resta desejar que vá muito mais longe na radicalidade da verdade e na consequente vivência da Liberdade. A Humanidade só terá a ganhar com isso. A quem não é quente nem frio, Deus, o de Jesus, vomita-o da sua boca, no radical dizer do Livro do Apocalipse.
Esperei muito de profundidade do debate, mas todo ele se perdeu em formalismos, em palavras de circunstância, em diplomacia hipócrita. A temática era aliciante. O enunciado, provocador. Os poemas de Paulo Bateira, ditos pelo próprio ao som de acordes de harpa, deram o mote. O próprio Pe. Anselmo Borges, nas breves considerações de introdução, abriu portas e desafiou a que se fosse longe. Pediu mesmo “uma tarde muito erótica”. Mas os dois intervenientes expressamente convidados para darem corpo e profundidade ao debate não estiveram à altura do momento. Francamente, fiquei decepcionado. E mais e mais confirmado de que com intelectuais assim não vamos lá. São uma negação do que deve ser um intelectual. Acabam sempre por ser intelectuais ao serviço da Ordem Mundial estabelecida, por isso, ao serviço do Império, da sua psiquiatria e da sua Moral. Contra a Humanidade. São intelectuais integrados na Ordem Mundial, que muito naturalmente vivem dela. Não são nem poetas nem profetas. Uns e outros, mulheres ou homens, jamais se sentam à mesa dos privilégios e do Poder que os concede a quem lhe é subserviente.
Senti-me profundamente sozinho no meio de todas aquelas dezenas de pessoas, todas com estudos, pelo menos, a julgar pela aragem. Mas não só eu me senti assim. Paulo Bateira, o autor do livro de poemas, também se terá sentido fortemente desconfortado. O debate que ele próprio sugeriu, a propósito do lançamento do seu livro, não resultou. O Pe. Anselmo Borges também deu mostras de estar sozinho. As portas que escancarou no início não foram franqueadas pelos dois intervenientes de fundo, mas ignoradas. Por isso, nem houve eros, nem criação, nem religião. Houve palavras, muitas palavras, todas sem Sopro libertador, que encheram de vazio o tempo que ali estivemos. E tudo isto, perante uma assistência demasiado educada que aguentou pacientemente até final.
Não sei o que terão comentado, depois, as pessoas umas com as outras, enquanto aguardavam pelo autógrafo do autor do livro. Não suportei mais aquele ambiente e vim-me embora, logo que o debate foi dado como encerrado. Precisava de ar, de liberdade, de vento. De rua. A Universidade asfixiou-me. Não será toda assim. As/os estudantes serão outra loiça, respirarão outro Sopro, serão outros corpos, protagonizarão outros sonhos e outros atrevimentos. Mas a verdade é que este pedaço de tarde, na Biblioteca da Faculdade de Engenharia do Porto, é para esquecer.
Imaginem que os dois convidados de fundo, conseguiram a proeza de, nas suas diversas intervenções, nunca referirem um único verso dos poemas do livro de Paulo Bateira, quando, afinal, foi esse livro que esteve na origem da iniciativa. Dissertaram tão vagamente sobre o tema, que nunca aterraram nas páginas do livro. Foi preciso, já no final e quase em desespero de causa, que o próprio autor dissesse que o livro estava ali e que estava tecido de poemas que cantam o amor, também na sua dimensão erótica. E permitiu-se exemplificar com um desses poemas. Porque nenhum dos dois convidados foi capaz de o fazer. Em vez disso, o psiquiatra esteve que tempos a ler um texto da sua autoria sobre o “mistério”, e que irá ser publicado em breve. E o padre professor de Moral na Universidade Católica perdeu-se com o mito bíblico das origens, mais conhecido por relato de “Adão e Eva” no paraíso.
Por mim, no lugar do meu colega, teria preferido mergulhar com todo o entusiasmo no Livro mais erótico de toda a Bíblia, o Cântico dos Cânticos, sistematicamente silenciado, ao longo dos séculos, pela hierarquia da Igreja e, neste debate, também totalmente ignorado. Ninguém, dos intervenientes, disse, por exemplo, que Deus, o de Jesus, é Orgasmo, é Eros, é Amor erótico, é Festa. Paulo Bateira, na sua quase lancinante intervenção final, apontou para aí, quando disse que quem alguma vez vivenciou o orgasmo numa relação de amor a dois, terá feito a experiência do Inominável. Surpreendeu a assembleia com a sua simplicidade e a sua inocência. Foi poeta entre intelectuais cerebrais, racionalistas. Proporcionou-nos uma maior abertura ao Eros, ao Deus Amor erótico, e desafiou-nos a viver essa misteriosa profundidade humana do ser, a sermos no Ser, fogo no Fogo. É totalmente por estas lavas de vulcão que navega o Cântico dos Cânticos, da Bíblia, que não posso deixar de voltar a ler, mas agora de forma quase compulsiva, sobretudo para me curar dos malefícios castradores deste debate nem frio nem quente para onde fui arrastado pelo convite do meu amigo Pe. Anselmo Borges e onde, também ele, se terá sentido defraudado até à raiz dos cabelos.
Faltam poetas e profetas ao nosso mundo. Sobram-nos intelectuais frios, calculistas, pragmáticos. Mas são apenas os poetas e os profetas que salvam o nosso mundo. Sem eles em número suficiente, é o Inverno sobre a terra. E a Humanidade poderá continuar a garantir a manutenção da espécie e a religião que, por sua vez, garante sacrifícios humanos em honra de míticas deusas e de míticos deuses, mas será incapaz de orgasmos, de revoluções libertadoras, só possíveis com mulheres e homens onde Deus, o de Jesus, se faz beijo, abraço, política, compromisso militante contra o Império, entrega da própria vida pela vida da Humanidade, numa palavra, com mulheres e com homens pobres por opção.
2005 MAIO 19
1. O país afundou-se psicologicamente ainda mais, ontem à noite, com o queda a pique do Sporting, para mais no seu próprio estádio, o monumental e requintado Alvalade XXI, frente ao CSKA de Moscovo. Deveria ter sido um simples jogo de futebol entre as equipas de dois clubes privados. E nem o facto de se tratar da final europeia da Taça das Taças deveria, em momento algum, emprestar ao jogo a dimensão de acontecimento nacional. Mas que querem? O país dos três “ff” que infantilmente teimamos ser – de Fátima, do Fado e do Futebol – conduz-nos a estes delírios e a estas demências colectivas e por isso não resistimos a transformar um simples jogo de futebol privado num feito nacional. Quem, nestes últimos dias, aterrasse em Portugal e ouvisse as rádios, nomeadamente, a rádio pública ANTENA-1, ou abrisse os canais de televisão, nomeadamente o canal público RTP-1, ficaria com a impressão que a final da taça das taças de futebol era infinitamente mais do que isso. Todos os outros acontecimentos nacionais e internacionais desapareceram como por encanto perante este jogo. Todas as energias do país foram mobilizadas para este jogo. Todas as atenções foram obsessivamente direccionadas para ele. E como se isto não bastasse, à hora do jogo, tudo quanto é dirigente nacional, desde o PR, Jorge Sampaio, ao PM, José Sócrates, lá estava nas bancadas do Alvalade XXI, para emprestar ao jogo a dimensão de verdadeiro acontecimento nacional. Nem o número de desempregados em massa que, para nossa vergonha, não pára de subir de dia para dia; nem os sucessivos fracassos na economia do país; nem as falências, umas atrás das outras, de fábricas; nem o beco sem saída dos têxteis portugueses; nem a fome que já se começa a fazer sentir em franjas cada vez maiores da população; nem o insucesso escolar que faz de Portugal o carro vassoura da Europa; nem o analfabetismo generalizado da nossa sociedade; nem o desinteresse da população pela cultura e pela política, pela poesia e pela arte, pela literatura e pela ciência, pelo conhecimento e pela sua própria valorização pessoal e profissional parecem afligir e preocupar as elites que estão à frente dos grandes media nacionais. As grandes reportagens em directo, horas e horas sem conta, vão todas para os campos de futebol, dos chamados “grandes”, para os peregrinos de Fátima, nos dias 13 de Maio a Outubro, para as quintas das celebridades (melhor seria dizer, das nulidades, ou das mediocridades) e para o ópio a rodos das novelas, versão reciclada do velho “fado” lamechas de outrora. Já nem sei se são as populações portuguesas que ainda não saíram do período da pedra lascada, no que toca ao grau de desenvolvimento cultural, ou se são as próprias elites que hoje ocupam importantes cargos de decisão nacional que ainda permanecem nesse período pré-histórico. Com os meios de comunicação de massas que hoje estão à disposição das sociedades, é um crime sem perdão o que os programadores dos grandes media continuam a fazer com eles. Arrastam impunemente o país para o abismo. Alienam as populações na maior das degradações. Servem-lhes veneno ideológico a todas as horas. Estão manifestamente apostados em fazer do povo português um povo inculto, atrasado, de menores, de ingénuos, de medíocres, de parolos, de mentecaptos, de parvos, de dementes, de desgraçados, de dependentes. Não acredito que o façam por acaso, ou por ignorância. Por isso classifico este seu modo de proceder como um crime sem perdão.
Por sua vez, os dirigentes políticos afinam pelo mesmo diapasão. Dá-lhes muito jeito ter um povo mergulhado na maior das alienações. Enquanto ele andar entretido com futebol, com novelas, com quintas de celebridades, com a senhora de Fátima, será um povo pouco ou nada reivindicativo, dócil, de mão estendida, pedinte, subsidiodependente, apático, sempre à espera que a sorte lhe bata à porta, por isso, apostador compulsivo nos jogos de azar, nomeadamente, no Euromilhões, no Totoloto e noutros, de menor alcance, que medram clandestinamente como cogumelos à sombra daqueles. São dirigentes políticos do país, mas sem um projecto que o galvanize, vaidosos, medíocres, superficiais, intrigistas, mesmo quando estão calados, preguiçosos, supersticiosos, numa palavra, dirigentes políticos sem competência, sem ciência e sem sabedoria. Com dirigentes assim, do género nem-lá-vou-nem-faço-minga, o país arrasta-se de depressão em depressão até à depressão final, de onde já nem haverá mais regresso. Por isso, ou pomos cobro a esta situação, ou não chegamos a sair do período de pedra lascada em que nos querem manter como povo.
Tenho para mim que a raiz de todo este mal nacional de séculos é a idolatria. Nunca fomos um país livre, desde o começo da nacionalidade. Sempre estivemos sob o jugo do clero e da idolatria difundida e praticada pelo Paganismo religioso do Império, disfarçado de catolicismo romano. O 25 de Abril de 1974 esteve à beira de nos proporcionar um Novo Começo, de nos fazer nascer como povo livre e adulto, senhor dos próprios destinos, mas não teve pedalada bastante para lá chegar. Depressa abortou, certamente, a pretexto de não desencadear uma guerra religiosa, entenda-se, uma guerra contra a idolatria. Ora, a idolatria é o pecado original dos povos. Enquanto não a vencermos, nunca chegaremos a ser povo de Deus, povo vivo e criador, povo fecundamente político. Sempre seremos um povo submisso. Conformado. Vassalo. Resignado. Triste. Fatalista.
É verdade. Quando colocamos fora e acima nós uma deusa ou um deus, ou uma deusa e um deus, ou muitas deusas e muitos deuses, nunca chegaremos a ser livres e protagonistas. Sempre seremos súbditos, chicos-espertos, malabaristas, trafulhas, habilidosos, oportunistas, fingidos, hipócritas, mentirosos, praticantes dos jogos de azar, devotos, crédulos, troca-tintas, palradores, demagogos. Seremos até capazes de correr Seca e Meca, na mira de obter por meio de um favor ou de um pretenso “milagre” o que deveríamos conseguir com o nosso esforço pessoal e colectivo, com muito estudo, muito desenvolvimento científico, muito trabalho continuado.
A idolatria é o pecado original dos povos. E um povo que vive em estado de idolatria é um povo estagnado, diminuído, raquítico, supersticioso, religioso, assustado, agressivo. Nos sucessivos apertos em que se vir, não apela nunca à sua capacidade, à sua inteligência, ao seu engenho, ao seu esforço. Sempre recorre a um atalho – a religião ou a cunha – que o leve a uma qualquer deusa, a um qualquer deus. No nosso caso português, sempre recorre a nossa senhora, seja qual for o nome por que ela se faz invocar. O que importa é que seja uma deusa, uma nossa senhora que ele, na sua fraqueza e no seu medo, imagina toda-poderosa, com poder, inclusive, sobre todos os demais deuses.
Desde o início da nacionalidade, que somos um povo subjugado pela nossa senhora, a mítica deusa virgem e mãe, dos cultos do Paganismo religioso. Os dirigentes políticos da altura – os reis e as rainhas – ainda hoje olhados pelo povo como heróis da nossa História, quando, na verdade, foram os nossos carrascos e os nossos opressores e exploradores, nunca foram capazes de cortar este cordão umbilical que nos liga ao nada e ao absurdo. Pelo contrário, até consagraram o país à protecção dessa mítica senhora, a deusa das deuses e dos deuses. Convinha-lhes que assim fosse. Tal como hoje ainda convém aos actuais dirigentes políticos do país que essa senhora reine e domine sobre o consciente e o inconsciente do povo, agora também na recente versão portuguesa de senhora de Fátima. Só que uma deusa, um deus a quem recorremos em concretos momentos de aflição e de crise, em lugar de recorrermos humilde e confiadamente a nós próprias, nós próprios, numa grande comunhão de esforços, sempre nos aliena e aprisiona, rouba-nos a força revolucionária, amansa-nos, domestica-nos e ficamos aí como eunucos, efeminados, cordeirinhos, sempre à espera de milagres que nunca acontecem. Somos então capazes de nos arrastarmos pelo chão do santuário onde a imagem da deusa é idolatrada, na esperança de que ela, ao ver-nos assim tão sacrificados e auto-maltratados por amor dela, nos atenda e nos conceda o suspirado milagre. Na nossa cegueira de séculos, ainda não nos demos conta que as deusas, os deuses não existem, para além das respectivas imagens, não passam de meros fetiches feitos pela mão humana, sem qualquer sopro, sem qualquer espírito, incapazes, por isso, de mexer uma palha pela resolução das sucessivas crises pelas quais a Humanidade, ainda e sempre em vias de criação definitiva, tem necessariamente que passar.
Enquanto não derrubarmos os altares das deusas e dos deuses; enquanto não reduzirmos a pó as imagens dessas nossas senhoras todas que estão espalhadas por aí em qualquer canto e esquina, até nas bermas das estradas; enquanto não cortarmos o cordão umbilical que nos mantém manietados e prisioneiros de todas estas crendices; enquanto, concretamente, não arrumarmos de vez com a senhora de Fátima do nosso inconsciente individual e colectivo; enquanto não limparmos a cidade de Fátima de toda aquela mentira e de todo aquele negócio sujo que está lá montado e de todo aquele culto alienante que devora a alma de quem a ele se submete; enquanto não nos livrarmos de vez da senhora de Fátima, dos seus sacerdotes, das suas aldrabices, dos seus terços; enquanto não deixarmos de fazer promessas, e não deixarmos de cumprir as já prometidas em momentos de aflição, então nunca mais seremos um povo capaz de assumir a História e os seus desafios. Permaneceremos indefinidamente na pré-História, no período da Pedra lascada, escravos de deusas e de deuses, de sacerdotes, de minorias espertalhonas e dos seus media, e de dirigentes políticos sem escrúpulos que apenas servem para dar um ar de legalidade a esta selva.
Entre a senhora de Fátima e nós próprias, nós próprios, temos que escolher. Se escolhermos a senhora de Fátima, continuaremos a gemer e a chorar neste vale de lágrimas, como sempre aconteceu, ao longo destes mais de oito séculos de nação politicamente independente. Se nos escolhermos a nós próprios, como povo, iniciaremos então uma caminhada de libertação para a liberdade e para a responsabilidade, começaremos a pisar firme na vida e na História, desenvolveremos até ao limite as nossas capacidades, enfrentaremos todas as crises como outras tantas oportunidades para crescermos como povo, tornar-nos-emos progressivamente protagonistas, abriremos caminhos nunca andados, daremos corpo a economias ao serviço da vida em abundância, seremos povo solidariamente fraterno/sororal e sororal/fraternalmente solidário, acolhedor de outros povos, um povo de poetas e de profetas que garantirá, em cada geração, um toque de humanidade ao nosso mundo.
Esta é, eu sei, uma via de “porta estreita”, de “deserto”, por isso, difícil, mas também sei que é a única via que é digna de nós, seres humanos. Não faltarão vozes a dizer que eu estou louco, por aqui propor esta via libertadora contra a idolatria da senhora ou deusa de Fátima. Não façam caso dessas vozes. Pelo contrário, façam como eu: cortem de vez com a senhora de Fátima, com toda a idolatria, também com a que a senhora de Fátima materializa, e com todas as outras posturas inumanas que toda a idolatria, onde estiver, canoniza e alimenta. E ousemos nascer de novo, do Alto, do Sopro libertador de Jesus de Nazaré, o Crucificado que Deus ressuscitou, isto é, reconheceu como o seu Filho muito amado e como o paradigma de todos os seres humanos.
2. Há dois dias atrás, tive que regressar ao Porto, desta vez, à Loja FNAC, de St.ª Catarina, para mais uma sessão de lançamento do meu mais recente livro EM NOME DE JESUS, edição Arca das Letras. Quando íamos para iniciar a sessão, eram ainda poucas as pessoas presentes. Mas quando a sessão foi anunciada pelo altifalante da loja, logo começaram a chegar mais pessoas. E o recinto reservado a estas iniciativas culturais e de promoção do livro acabou cheio. Até com bastantes pessoas de pé. O surpreendente para mim, em momentos como este, é que as pessoas que começam, depois não se afastam. Também desta vez, foi assim. Apercebi-me que a mensagem que lhes estava a chegar à consciência e ao entendimento dizia-lhes algo que tinha a ver com elas próprias. Comuniquei, como é meu timbre, com simplicidade. E muita alegria. Não tenho nada na manga. Desnudo-me perante as pessoas. Testemunho Jesus e o seu projecto do Reino de Deus sem subterfúgios. Gratuitamente. Apenas com o intuito de ver as pessoas cada vez mais libertas, mais elas próprias. Nem sequer pretendo que se tornem minhas seguidoras, muito menos, minhas fãs. Apenas que conheçam a Verdade e se deixem fazer por ela. Não pretendo fazer prosélitos, nem fazer cristãs, cristãos. Apenas que as pessoas conheçam a Verdade. Será ela quem libertará as pessoas. E elas, uma vez libertas, nunca mais serão o que eram antes. Serão nova criatura. Se vierem a constituir Igreja, será a partir delas próprias, não a partir de mim. De modo algum me interessa que as pessoas corram a meter-se nos templos, que passem a frequentar os espaços eclesiásticos, os ambientes clericais. Bem pelo contrário, que fujam desses espaços de opressão e de alienação, se, é claro, a sua consciência, assim lho pedir. O que verdadeiramnte pretendo é que as pessoas sejam pessoas. Em liberdade. Em responsabilidade. Em gratuidade. Talvez por isso, as pessoas ficam como que pregadas ao chão a escutar a Palavra. E interessam-se pelo que ouvem. E até tomam apontamento duma ou doutra afirmação. O rosto delas, nestas alturas, é o rosto de quem parece dizer: Mas nunca ouvimos coisa assim; nunca ninguém nos falou assim. E ficam visivelmente contentes. Sorriem abertamente. Crescem em liberdade e em alegria. Também em sororidade/fraternidade. Tanto assim que, sem se conhecerem de antes, acabam a conversar entre si, como numa comunidade convocada pela Verdade que cria Liberdade. E faz com que todas as línguas falem e se exprimam. Mesmo as mais tímidas.
Cada sessão é uma experiência sempre nova e sempre surpreendente. Alguém me disse, no final desta última, que de sessão para sessão, a experiência vivida é ainda melhor, nem sequer há repetição da mensagem, tudo é sempre novo. E é verdade. Não sou eu quem fala, o Espírito de Jesus é quem fala em mim. O protagonista é ele. Eu sou apenas seu discípulo, discípulo da Palavra com Sopro. Nunca sou o mestre ou o autor da Palavra. Um presbítero mestre do povo, em lugar de discípulo com o povo, seria uma contradição. Quando partilho a Palavra, sou sempre o primeiro ouvinte. Vivo todos os dias sentado como Maria, irmã de Marta, aos pés de Jesus, a Palavra feita carne, feita Sopro. Por isso, estou nestes encontros como um menino: irrequieto, dissidente, atrevido, irreverente, alegre, festivo.
Só desejo que o livro EM NOME DE JESUS agora faça o seu percurso. Para tanto, quem o ler, haverá que falar dele a outras pessoas. E despertá-las para Boa notícia de Deus que sopra nas suas mais de 600 páginas. Eu sei que há uma perseguição cerrada aos meus livros. Os meus irmãos católicos mais fanatizados e empedrados no seu catolicismo romano, não me suportam, tal como não suportam o Evangelho da Liberdade que Jesus nos revelou e anunciou e fez acontecer entre nós. A ele mataram-no. A mim não vão tão longe. Basta-lhes convencer as pessoas a fugirem de mim, dos meus livros. Felizmente, os tempos já não são de Inquisição. E são muitas as pessoas que se fazem surdas a esses anátemas de certos católicos romanos e buscam a Verdade como quem corre para a luz. Ainda bem que assim é. Porque é de pessoas ilustradas e evangelizadas que o nosso mundo do século XXI mais precisa.
2005 MAIO 15
1. Saí de casa na passada sexta-feira, 13 de Maio e só regressei esta noite. Primeiro, foi a sessão de apresentação do meu novo livro “EM NOME DE JESUS. Diário Aberto de padre sem templo nem altar”, edição da Arca das Letras. A sessão decorreu a céu aberto, na esplanada do Café “O Piolho”, no Porto, à mesma hora em que concluíam em Fátima as cerimónias do “13 de Maio”, com a sempre aberrante e sempre repetida cena do “adeus”, materializada em todos aqueles lenços brancos a acenar a um pedaço de madeira em forma de corpo de mulher, de mãos sempre postas, como tal totalmente incapaz de se comover ou de corresponder aos acenos das multidões. São muitas as pessoas que se comovem nestes momentos. Eu também me comovo, quando vejo via tv, mas apenas com o que estas cenas públicas revelam de incultura, de ignorância, de primitivismo, de recuo no desenvolvimento humano, por parte das nossas populações. O mais grave é que tudo aquilo se faz a céu aberto e com o aval da hierarquia católica, cuja Igreja que deveria existir para esclarecer as populações e “puxar” cultural e evangelicamente por elas, mas, pelos vistos, prefere mantê-las e alimentá-las na sua ignorância e no seu primitivismo, porque assim são populações como ovelhas para o matadouro, facilmente manipuladas pelos “pastores” do rebanho, tanto eles próprios, ao nível eclesiástico, como os "pastores" políticos e os financeiros, nos restantes níveis. É uma dor de alma que só clérigos a quem o Sistema eclesiástico arrancou as entranhas de humanidade e a ternura é que não sentem, alienados que vivem todos os dias nas suas vaidades e nos seus privilégios, sob aqueles trajes efeminados, cheios de rendas, a fazer lembrar roupas interiores de mulher, do tempo em que as mulheres vestiam do pescoço até aos pés, num recato que só servia para alimentar hipocrisias e falsas virtudes.
A sessão de apresentação não congregou muita gente. E meios de comunicação social identificados, apenas um, “O Comércio do Porto”. Nenhum canal de televisão, nem de rádio. As atenções dos grandes media estavam todas concentradas em Fátima, em redor da imagem da Deusa toda branca, toda cruel, cujos sacerdotes "gestores", todos machos, se alimentam de gente. E os que não estavam ocupados com Fátima, estavam ocupados com o futebol, nomeadamente, com o jogo maior da Superliga, Benfica-Sporting. É manifesto que também aos grandes media interessam mais, muito mais, populações de olhos fechados, em quem ainda não irrompeu a consciência crítica, por isso as únicas pessoas que estão sempre aí disponíveis para se meterem a protagonizar acções de incultura e de folclore rasca, como estas de Fátima e dos seus peregrinos, que as elites letradas gostam de filmar e exibir, tal como o caçador exibe os animais abatidos a tiro ou as aves. O que seria das televisões sem populações empobrecidas e acríticas que quase irresistivelmente protagonizam este e outro tipo de acções de incultura, que os seus profissionais de imagem gostam muito de captar e de exibir, mas nunca de protagonizar, nem os seus familiares mais próximos? Para eles e para os seus, o que mais lhes importa continua a ser o acesso à cultura, às universidades nacionais e no estrangeiro, é o conhecimento, o desenvolvimento científico, o domínio da tecnologia. Para as multidões empobrecidas e acríticas, como as do "13 de Maio" de cada ano, bastam as imagens da senhora de Fátima e quejandas, peregrinações a santuários de santas e de santos, procissões de velas e do "adeus", tudo expressões da alienação popular e alimento da alienação popular.
Pelo mesmo caminho dos grandes media vão também os membros da hierarquia católica. Quase todos correm nestes dias para Fátima, mas é ver como eles jamais se misturam com as populações empobrecidas e incultas. É ver como todos eles ocupam lugares de destaque, segundo o grau de grandeza que lhe está atribuído na pirâmide eclesiástica. É ver como vestem diferente das multidões, têm lugares reservados e sentados, colocam-se sempre numa posição de domínio sobre as multidões, são os únicos que usam da palavra, durante a cerimónia. É ver como se promovem uns aos outros, como se auto-elogiam e ainda por cima têm o descaramento de se apresentar perante as multidões como intermediários entre elas e Deus, no caso, entre elas e a Deusa de Fátima. Só um cego é que não vê toda esta calamidade e toda esta blasfémia. E tais são, infelizmente, as populações empobrecidas, propositadamente mantidas na ignorância, no analfabetismo, no subdesenvolvimento, na pobreza a todos os níveis. Fossem elas populações cultas e desenvolvidas, evangelizadas e ilustradas, tivessem a percepção científica das causas que provocam os males que têm que padecer nos seus múltiplos quotidianos sem saída, e nunca a senhora de Fátima teria qualquer hipótese de poder contar com as centenas de milhar de “peregrinos”, como continua a poder contar, nestes nossos dias já de século XXI. Mas assim podem continuar a contar. Para vergonha de todas, todos nós. E nisto, já nem sei quem mais lamentar: se as populações não ilustradas e não evangelizadas que, na sua ausência de consciência crítica, continuam a correr para Fátima; se os membros da hierarquia católica que se aproveitam desta vergonha para manter o seu status eclesiástico sobre elas e para engordar as contas bancárias do Sistema eclesiástico que os escraviza a eles e a elas. Afinal, eles têm estudos, mas acabam a comportar-se como meros funcionários eclesiásticos com práticas de vida intrinsecamente perversas. E classifico-as assim, na medida em que as suas são práticas que não só não libertam as populações empobrecidas do medo e da mentira que é Fátima, como, ainda por cima, alimentam o medo nas populações e fazem-lhes crer que a mentira de Fátima é pura verdade. Melhor fora, então, que não tivessem estudos, porque assim eram vítimas, como as multidões que se deixam ingenuamente guiar por eles, mas, pelo menos, não faziam vítimas aos milhares, aos milhões, como fazem. Impunemente, pelo menos, até ver.
O escritor e jornalista César Príncipe, que faz o favor de ser meu amigo, foi o “apresentador de serviço” na sessão de lançamento. O que disse, na ocasião, a meu respeito e a respeito do livro, veio lá do fundo das suas convicções. Foram palavras que me deixam ainda mais pequenino e quase sem palavras. São palavras que me responsabilizam ainda mais, para que o resto da minha vida presbiteral não desmereça delas. Fico feliz, ao ver como alguém que se assume como não cristão e de fora da Igreja, reconhece valor humano e cultural na minha vida de padre sem templo nem altar. Divulgo aqui o prefácio que César Príncipe escreveu para o livro. As palavras escritas foram inspiração para as palavras ditas na abertura da sessão. Deixem-se, então, inundar de tamanha lucidez, para serem igualmente pessoas lúcidas, como é timbre de todo o ser humano que se preza. Eis:
“Um padre sem templo nem altar – assim se identifica Mário de Oliveira. Desguarnecido do mister paroquial pelo Governo da Igreja Católica, o ex-pároco Mário e sempre padre Mário não capitulou perante o cerceamento administrativo e territorial. E tem vindo, sem lhe tremer a voz nem o site, a declarar que, entre a Comissão Eclesiástica e a Missão Evangélica, em definitivo escolheu a Missão. Expulso do templo pelos zeladores do Pensamento Único e modeladores do Povo de Deus como Rebanho do Senhor ou dos Senhores – este padre não se deixou anular nem sequer aceitou baixar o tom da cólera divina. Exerce o magistério em vez do ministério, cultiva a evidência em vez da vidência. Não trata Jesus como paradigma de servidão e de sofrimento, antes como irmão do infinito.
Eis uma recomendável e oportuna proposta de leitura (para crentes e não-crentes), neste duro tempo de excluídos, manipulados e abandonados por negociantes de multidões e ilusões. Este livro, denso mas sensível, tenso mas atento, surge já com um pontífice de Roma, que anteriormente desempenhou o papel de super-polícia da Teologia e da Pastoral. Ratzinger foi um adversário de Cristo e do Evangelho, optando por uma Igreja-aparelho de Poder (económico, político, social e psicológico). O Vaticano, segundo todos os indícios, prosseguirá a sua linha histórica mais consistente: cantar com os ricos e chorar com os pobres. Daí que este livro constitua, nos seus diversos registos, um testemunho e uma advertência.
É um diário de um sacerdote exilado pelos carcereiros de Deus. Cada página é um sudário de papel, é como se fosse a própria pele dos expulsos da Verdade, da Liberdade, da Fraternidade. É uma obra de inteligência aplicada ao cristianismo. É uma obra de resistência profética.
Assim é o padre Mário: solitário e solidário. Solitário por determinação de uma Igreja satisfeita por ser sede de Poder; solidário porque ele - padre Mário - optou por uma Igreja - sede de saber e de partilha.”
2. Como estive ocupado com o lançamento do meu livro, não pude acompanhar em directo o que nesse mesmo dia se disse em Fátima, no decorrer da homilia da missa sem profecia. Presidiu à missa e a todas as cerimónias o cardeal patriarca de Lisboa, rosto manifestamente triste e de um homem confrangedoramente oprimido. A mentira de Fátima que ele funcionalmente alimenta a isso o condena. Se, como garante Jesus, só a Verdade nos faz livres, o cardeal patriarca de Lisboa que, antes de o ser, até foi reitor da Universidade católica, não pode ser um homem livre, por isso, também não é um homem de rosto alegre e realizado. Move-se na sua função de proa eclesiástica como uma marionete. Fez-se escravo do Sistema eclesiástico. A sua cultura académica e teológica diz-lhe que Fátima é mentira. Mas a função de cardeal patriarca de Lisboa obriga-o a comportar-se, perante as multidões não ilustradas e não evangelizadas, como se tudo aquilo fosse verdade. Só que a Verdade é sempre verdade, quaisquer que sejam as circunstâncias. Nem por ser o cardeal patriarca de Lisboa a presidir às cerimónias de Fátima, Fátima deixa de ser mentira para passar a ser verdade. É sempre mentira. Podem vir a Fátima os papas que vierem, que jamais a mentira que Fátima é passará a ser verdade. As populações que para lá correm podem ser - e são - enganadas pela presença do cardeal patriarca de Lisboa, mas o homem ilustrado que ele então tinha obrigação de ser não pode ser enganado pelo cardeal patriarca que agora é. Por isso, o seu rosto, expressão da sua alma, é um rosto triste, de homem oprimido. Faz o que o Sistema lhe manda fazer. Não o que a Verdade lhe manda fazer. Nem a sua consciência. Violenta a sua própria consciência, para poder manter o lugar de proa e de prestígio na Igreja.
Malditos privilégios que nos devoram a alma, a alegria, a liberdade, numa palavra, as entranhas de humanidade. “Tudo te darei, se prostrado me adorares”, repete o Sistema como um “Diabo”. Poucas são as pessoas que, como Jesus, resistem a semelhante tentação. A maior parte prostra-se, renuncia à sua dignidade humana, em troca da dignidade funcional que o Sistema garante a quem o serve. Por isso, enquanto Jesus acabou historicamente crucificado pelo Sistema (a quem lhe resiste, o Sistema inferniza-lhe a vida e, finalmente, mata-o), aqueles que se lhe prostram diante podem acabar historicamente como cardeais da Cúria Romana e do Estado do Vaticano, e um ou outro, até como o chefe de todos, com o título e a dignidade funcional de Papa. Só que a dignidade funcional que o Sistema dá aos seus súbditos é mil vezes pior que a crucifixão de Jesus. A Ressurreição de Jesus, que Deus fez acontecer, no momento da morte crucificada, veio revelar/proclamar ao mundo que a verdadeira dignidade é a do crucificado pelo Sistema, devido a ter-se recusado a prostrar-se diante dele e a adorá-lo. Ao passo que a dignidade que o Sistema dá a quem o adora é sempre a morte do que há de humano em cada homem, em cada mulher. Os seus corpos tornam-se túmulos de vermes sobre vermes, podridão sobre podridão, por mais que se façam vestir de trajes imaculadamente brancos e sobrevestir do vermelho mais retinto, com barretes cardinalícios e tudo. Já Jesus o disse. E “sepulcros caiados” foi como chamou a este tipo de pessoas/funcionários. Por fora bem vestidos e perfumados, podridão sobre podridão por dentro. Um desastre em toda a linha e causa de desastres em série na Humanidade que se deixar conduzir e guiar por eles e por suas falsas dignidades. Por mim, e na peugada de Jesus, procuro resistir-lhes e obedecer apenas ao Sopro ou Espírito de Jesus que nos faz irmãs, irmãos universais, mulheres, homens radicalmente iguais.
3. Não acompanhei em directo, mas ouvi depois nos noticiários das rádios e televisões que o papa Bento XVI encarregou o cardeal patriarca de Lisboa de colocar o seu pontificado aos pés da senhora de Fátima. E não é que a esta pantomina papal, o cardeal patriarca de Lisboa respondeu com outra ainda pior? Não só só disse publicamente que fez o que o papa lhe recomendou, como ele próprio, no início das cerimónias do dia 12 de Maio, foi “saudar” a senhora de Fátima naquela sua capelinha que mais parece uma gasolineira, com as labaredas do inferno mesmo atrás (em Fátima há inferno e com labaredas que soltam um cheiro nauseabundo a cera queimada). Fê-lo, como se aquele padaço de madeira em forma de corpo de mulher oprimida ouvisse alguma coisa e fosse uma mulher de carne e osso!...
Mas, afinal, o que é que estes homens maiores da Igreja católica romana têm na cabeça? Será que, quando aceitam ser cardeais, perdem a inteligência e a maturidade humana? Mas a fé de Jesus que é suposto ser também a nossa fé de cristãs, cristãos, por isso, também dos bispos residenciais e do papa, não é luz na luz que é Deus Vivo, como tal, geradora de mulheres lúcidas, homens lúcidos, as mais lúcidas, os mais lúcidos da humanidade, ao ponto de terem a responsabilidade política de serem a luz do mundo e o sal da terra? Como é que então o cardeal patriarca de Lisboa se presta a estes papéis tão infantilizados, tão inumanos? Com comportamentos assim, não está a dizer ao mundo que, para se ser cristã, cristão, é preciso renunciar a ser-se mulher, homem na plenitude das suas capacidades, também na do entendimento e na do amadurecimento? Então a senhora de Fátima ouve, recebe, aceita saudações que se lhe façam, responde, diz alguma coisa, entende? É alguma mulher real, sentada na sua corte e no seu trono de rainha, para que os súbditos e vassalos a saúdem, a reverenciem? Mas a Igreja é para promover infantilidades destas? A quem é que queremos enganar? Às multidões que condenamos a viver em estado de enganadas, para que regularmente nos sirvam de corte e frequentem os cultos onde pontificamos sobre elas como os maiores? Haja modos, senhores eclesiásticos!
Os mesmos noticiários disseram-nos também que o Papa Bento XVI fez-se presente em Fátima (a mentira de Fátima está hoje tão à vista de tanta gente, que as cúpulas da Igreja católica não sabem mais o que fazer para tentar salvar Fátima do descrédito completo. Porém, quanto mais fazem, mais deixam a descoberto a mentira), mediante uma mensagem que foi lida por um qualquer alter ego. O que disse de importante? Vejam só: que ele está determinado a desrespeitar a lei eclesiástica para introduzir de imediato o processo de beatificação do seu antecessor, João Paulo II. Afinal, como papa que é, poderia ter ido mais longe e decretar, desde já, a sua beatificação e a sua canonização. Mas não. O processo-faz-de-conta irá correr os seus trâmites. Oiço e pasmo. É a Igreja a olhar para o seu próprio umbigo, não para o mundo. Afinal, os magnos problemas da Humanidade resumem-se a este: beatificar um papa que tudo fez na sua longa vida para ser aclamado santo no dia da sua morte! E, pelos vistos, conseguiu.
Nem quero acreditar no que oiço. Então é assim, com medidas urgentes destas, que se avança nos caminhos do ecumenismo? É assim que somos Igreja sal da terra e luz do mundo? É assim que somos Igreja sentinela da Humanidade e Igreja parteira que ajuda a Humanidade a dar à luz novas soluções e novas práticas para vencermos as dificuldades estruturais com que estamos todas, todos confrontados? A quem interessa um Papado assim? Esquecemos que a Igreja não existe por causa de si mesma, mas por causa do Reino de Deus na História, o mesmo é dizer, por causa da Humanidade? Em que é que decisões como esta contribuem para o bem da Humanidade? Como diz o livro bíblico do Eclesiastes ou Qohélet: “Vaidade das vaidades e tudo é vaidade.” O dramático em tudo isto é que continuam a ser milhões e milhões as pessoas que ainda olham para Roma e para o Papa como se ele fosse a grande referência de Deus na terra. Desconhecem que Deus, o de Jesus, só se “faz presente”, lá, naquelas pessoas e naqueles lugares, onde a Libertação acontece e ganha corpo na Liberdade. Não onde o Poder opressor e a Superficialidade e a Vaidade se afirmam. Nem que seja em Roma, no Estado do Vaticano. Muito menos, se for aí.
4. Não posso deixar de registar a barbaridade teológica e pastoral que o meu irmão no presbiterado, Padre Domingos Oliveira, da paróquia de Lordelo do Ouro, proferiu, por estes dias, na missa de “7.º dia” pela pequenina Vanessa, assassinada pelo pai e pela avó e depois atirada às águas do Rio Douro. Garantiu ele, do alto da sua cátedra paroquial, que este crime é menos grave que um aborto. No seu moralismo estéril e estúpido, nem sequer teve sensibilidade e respeito para com as pessoas presentes, ainda em estado de choque pelo assassínio da menina de 5 anos. O mais aflitivo é que, quando, posteriormente, foi confrontado por um profissional de jornalismo duma rádio, ainda argumentou em favor da sua tese. E conseguiu ser ainda mais cruel e mais terrorista.
Eu oiço e fico a chorar de compaixão. O que o Sistema eclesiástico e a sua doutrina moralista fizeram deste homem. Roubaram-lhe as entranhas de humanidade e a consciência e ele, agora, é um autómato que já nem é capaz de avaliar entre duas acções humanas. O Padre Domingos Oliveira está tão contra a lei de despenalização do aborto, que confunde a lei com a prática do aborto. E quase absolve os infanticidas de Vanessa só para ter de condenar indiscriminadamente todas as mulheres que abortem, quaisquer que sejam as circunstâncias em que cada uma delas o tenha feito ou venha a fazer (a menos, certamente, que a mulher que aborte seja familiar de um padre, ou membro de alguma família graúda da paróquia que contribua com generosos “donativos” para as “obras da igreja”, porque aí, até o Padre Domingos de Oliveira é capaz de ser o primeiro a aconselhar essa saída, na maior das clandestinidades, evidentemente, para se evitar o “escândalo”!...).
O país ouviu, ficou justificadamente estarrecido e reagiu escandalizado a semelhante sermão clerical. Um ou outro bispo, interpelado directamente pela comunicação social, ainda veio a correr pôr alguma água na fervura, mas nenhum desdisse o pároco em causa. No fundo, todos eles sabem que o Padre Domingos de Oliveira se limitou a dizer em voz alta o que eles dizem ao ouvido, ou o que eles pensam no seu íntimo. Mas são hipócritas, sempre prontos a atirar a primeira pedra, só porque não há maneira de olharem para a sua hipocrisia moralista. A verdade é que, ainda hoje, se um feto nascer morto, na sequência de um aborto involuntário por parte da mulher grávida, o cadáver não tem honras de funeral católico, nem tem o pároco a rezar missas pela sua “alma”. Foi assim que a Igreja procedeu ao longo dos séculos, esta mesma que, agora, hipocritamente, grita aos quatro ventos que desde o primeiro instante da concepção já se está em presença duma vida humana em tudo igual à que já vive autonomamente fora do útero materno. Se assim é, porque é que o feto que nasce morto não tem direito a “funeral católico”, nem sequer a sepultura num cemitério previamente benzido pela Igreja? Tanta hipocrisia, o que pretende esconder? Não quererá esconder sob a aparente capa de virtude e de santidade toda a podridão de que está tecida a doutrina moralista da Igreja? Abramos os olhos, enquanto é tempo. E não nos deixemos iludir com semelhantes sermões clericais. Fujamos deles a sete pés. E dos templos onde eles são habitualmente proferidos. Fujamos, por amor da nossa própria dignidade de mulheres, de homens!
2005 MAIO 11
Tem sido uma lufa-lufa nestes últimos tempos, sobretudo com os meus novos livros. Pelo menos, a Editora Arca das Letras não me dá descanso. Tem ainda as audácias e os entusiasmos de quem está a chegar a estas empolgantes lides dos livros. Inicialmente, era mais livraria do que editora. Agora é quase só editora. Mas ainda não tem nenhum dos vícios das chamadas Editoras clássicas. O livro ainda está na tipografia e o editor já tem tudo preparado para a sua apresentação às pessoas e à comunicação social. Estou agradavelmente surpreendido com esta forma de trabalhar. E a tudo digo singelamente que sim, porque é também assim que gosto de fazer as coisas em que me meto.
Primeiro, foi a sessão de apresentação do livrinho E SE COM O PAPA ENTERRARMOS TAMBÉM ESTA IGREJA CATÓLICA ROMANA? Foi tudo de afogadilho, quase sem tempo para respirar. O próprio aparecimento deste livrinho já se ficou a dever a uma proposta muito concreta do editor e que a mim nunca me havia passado pela cabeça. Andava eu a preparar com ele a edição do meu Diário Aberto 2004 (são 620 páginas cheias de vida, de pessoas de carne e osso, como numa grande epopeia, mas de pessoas pobres que nunca seria de esperar encontrar no Diário de um padre católico, nomeadamente, daqueles padres católicos funcionários do religioso, perdidos entre o templo, o altar e o cartório paroquial) e eis que o Papa João Paulo II, depois de repetidas crises graves de saúde, entrou em prolongada agonia, da qual não regressou mais. Este acontecimento e a morte que naturalmente se lhe seguiu (houve quem, cardeais incluídos, numa manifestação de demência religiosa, ainda esperasse um milagre e rezasse dia e noite para o provocar), mais o funeral e a “campa rasa” em que o seu cadáver acabou por ser finalmente depositado, mas só depois de exibido quase até ao vómito urbi et orbi pelas televisões, não podiam, obviamente, deixar de ser analisados e reflectidos por mim nas páginas do meu Diário Aberto deste ano. Calhou de o editor um dia o abrir, entusiasmar-se com as reflexões teológicas libertadoras que eu escrevi a propósito e vá de me propor a edição duma Separata com essas reflexões. Em poucos dias, a proposta fez-se livrinho, com imediata apresentação pública na loja FNAC, de St.ª Catarina. E lá fui eu para o Porto, porque estas coisas, embora possam fazer-se sem a presença física do autor, não devem fazer-se. Seria uma deselegância de todo o tamanho, a raiar pela sobranceria. E comigo é que nunca poderia suceder, porque se há coisa que eu privilegio na vida são os contactos pessoais, em directo. Não sei viver sem afectos, sem sacramentos no mundo, isto é, sem contactos pele com pele, feitos de olhares partilhados, de abraços e de beijos. As próprias rejeições, que também acontecem, embora muito menos que as manifestações de acolhimento e de alegria, acabo eu por sempre as integrar e convertê-las logo em outras tantas autocríticas, concretamente, em ponto de partida para uma reflexão mais profunda sobre o modo como estou a viver o ministério presbiteral de Evangelizar os pobres. Aos meus olhos, tudo é graça. Tudo contribui para eu ser a pessoa que tenho sido. Tudo me alimenta na caminhada. Por isso, de todas as pessoas sou devedor, quer das muitas que me saem ao caminho para me abraçar e beijar, quer das poucas que me saem ao caminho para me hostilizar e insultar.
Mas o editor da Arca das Letras não descansa e ontem mesmo fez acontecer uma outra sessão de apresentação do referido livrinho. Desta vez, na loja FNAC do NorteShopping de Matosinhos. Às 10 horas da noite. E lá tive eu que viajar de novo para o Porto, para dar vida à sessão. E aguentar firme até à meia noite. Num colóquio que não parecia ter fim, tamanha era a avidez com que as pessoas bebiam as palavras. Foi uma noite inolvidável. Coloquiei sobre esta Igreja católica romana que temos, criada não por Jesus, no século I, mas pelo imperador Constantino, no século IV e que, todos estes séculos depois, importa enterrar quanto antes, para que desse enterramento possa nascer a Igreja com o Espírito ou Sopro de Jesus, o de Nazaré, crucificado pelo Império romano e pelo Templo de Jerusalém. Para tanto, é preciso regressar a Jesus.
Ninguém arredou pé da sessão. Pelo contrário, cada vez era maior o número de pessoas que circulavam pela loja e que, atraídas pela voz que lhes chegava pelo altifalante, se aproximavam do recinto e permaneciam com invulgar atenção e manifesto interesse. Nenhuma agressividade na minha voz. Nenhum ressentimento. Sempre que falo da Igreja, é com amor que falo. Como quem deseja vê-la transformada em verdadeiro sacramento de Jesus no século XXI, em lugar dela continuar a ter o rosto de César, imperador de Roma. Basta olhar para o Papa Bento XVI. E para todo aquele luxo e vaidade dos cardeais. E para toda aquela falta de entranhas de humanidade da Cúria Romana
No final, ainda houve tempo para uma sessão de autógrafos. Vários casais aproximaram-se da mesa com o livrinho na mão. Assim mesmo, em casal. E não resistiram a comunicar comigo num tom de intimidade. A deixar-me indicações muito precisas do bem que as palavras que saíram pela minha boca (nestes momentos, sinto que não é o meu sopro que fala, mas o Sopro da Liberdade, por isso, o Sopro de Jesus Ressuscitado) lhes fez. Aqueles olhares com que me envolveram, em casal, nunca mais deixarão de me acompanhar vida fora. A noite foi para estes casais de novo nascer, pareciam meninas, meninos, numa pureza e numa ternura que não podem ser deste mundo. A dois destes casais acabei por entregar o meu cartão, com os contactos, para que a conversa possa prosseguir entre nós, agora em outros moldes, também certamente por internet.
Mas nem só de sessões de apresentação nas lojas FNAC está a ser feita a minha vida nestes últimos dias fora de Macieira da Lixa, a aldeia que escolhi para viver em tempo de reforma como jornalista e como padre sem templo nem altar, que não, evidentemente, sem ministério presbiteral. No passado domingo, dia 8, tive que deslocar-me a Lisboa, para participar no Programa Herman SIC, a convite do próprio Herman José. Não sei como é que estas coisas acontecem. Não mexo um cordelinho, mas a verdade é que o convite chegou-me, uns dias antes, via telemóvel. Sou incapaz de dizer que não. Seja com quem for, seja onde for. Para partilhar as razões da minha esperança, nunca digo que não. E depois avanço confiante. Recordado das palavras de Jesus: “Não vos preocupeis com o que haveis de dizer nessas horas. O Espírito falará em vós”. Assim experimento que são as coisas. Ainda que, por saber que as coisas são assim, eu tenha que estudar muito, aplicar-me muito na investigação bíblico-teológica. De contrário, seria tentar a Deus. Se é o Espírito que falará em mim, então tenho que fazer tudo o que está ao meu alcance, para não o deixar ficar mal, sobretudo, para que a Verdade salte dos meus lábios. E numa sociedade como a nossa, dominada por uma Ordem mundial feita de mentira, quem tem o ministério da Palavra com Espírito, não pode ser preguiçoso nunca, nem orgulhoso. Tem que ser humilde e aplicar-se à investigação, para vencer a mentira que anda por aí com ares de verdade e que nos é servida continuamente. Nestas coisas da Bíblia e da Teologia e da Igreja católica, a mentira já tem séculos. Há séculos que as pessoas e os povos andam a aprender mentiras umas sobre as outras, como por exemplo a mentira de Adão e Eva e do pecado original. As catequeses oficiais são feitas de mentira, a hermenêutica bíblica oficial é feita de mentira. Poucas são as pessoas que se apercebem que aquilo que as Igrejas ensinam raramente tem a ver com a Verdade que nos faz livres. Infelizmente, tem tudo a ver com interesses eclesiásticos adquiridos, com os privilégios que as Igrejas não querem nunca deitar a perder, mas ampliar mais e mais. Vai daí, embora pensem que estão a dizer a Verdade, as Igrejas mais não fazem do que repetir as mentiras que já vêm de trás, particularmente, desde os tempos de St.º Agostinho. Para que a Verdade nos faça, temos que estar dispostos a perder os privilégios e desprezar todo o tipo de interesses corporativos. Vestir-nos apenas de Liberdade. É assim que procuro viver e apresentar-me perante as minhas irmãs, os meus irmãos. Vestido de Liberdade. Sem bolsa nem alforge. E isso dá tamanha força libertadora às palavras que profiro, que ninguém fica indiferente.
Foi também assim que me apresentei no Programa Herman SIC. Entrei com alegria. Confiante. Sem nenhum interesse pessoal ou corporativo a defender. Vestido de Liberdade. Numa comunhão fraterna com cada pessoa. Sem distâncias. Sem protocolos. Irmão com irmão. Igual. Nem acima, nem abaixo. Igual. Olhos nos olhos. Depois foi só deixar o Espírito falar. Sei que é o Espírito quem fala, quando, à medida que as palavras saem, cresce a liberdade e a alegria nas pessoas que as escutam. Antes de mais, em mim, que sou sempre o primeiro ouvinte da Palavra que sai da minha boca. Quando me experimento assim como um menino, atrevido e solto, imprevidente e ousado, radical e subversivo, sei que não sou eu quem fala, mas o Espírito de Jesus que fala em mim.
Não pensem que é presunção da minha parte escrever isto. É um testemunho de vida. A presunção não tem nada em comum com o Espírito Santo, o de Jesus Ressuscitado. Nunca gera liberdade, só domínio, opressão, tristeza. A presunção é mentira, é armadilha, é habilidade para consolidar privilégios adquiridos e até ampliá-los, se possível. Por isso, uma postura totalmente incompatível com o Espírito de Jesus Ressuscitado. E com a Liberdade.
Não fiz nada para ir ao Programa Herman SIC. A iniciativa partiu toda de lá. Mas foi deste modo que o meu livro O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO acabou por ser apresentado ao país, antes mesmo de se realizar a primeira sessão de apresentação organizada pela respectiva Editora Campo das Letras. Fico feliz e em eucaristia. Canto e danço. A sessão oficial está agendada apenas para o dia 5 de Junho, ao final da tarde, em plena Feira do Livro no Porto. No espaço do Café Literário. Seria uma festa, se até lá, e devido à minha passagem pelo Herman SIC, o livro já tiver conhecido uma segunda edição. É o livro da minha vida. E para a minha alegria ser completa, o livro deveria entrar em todas as casas. Com ele, entrará o próprio Jesus, o de Nazaré. E lá onde está Jesus de Nazaré, está a Paz, a Liberdade, a Vida em abundância, a Partilha dos bens, a Sororidade/Fraternidade, a Igualdade entre as pessoas, a Misericórdia e o Perdão. O que sei é que, por ter ido ao Programa, agora é muito maior o número de pessoas que me visitam na página e que me escrevem mensagens, via e-mail. Para lá da alegria que sentem, as pessoas aproveitam para partilhar problemas, dúvidas, experiências, testemunhos de vida. E algumas até para me dizer como certas catequeses eclesiásticas as levaram ao ateísmo. O meu ministério presbiteral adquire assim outra dimensão. O que me deixa em maior Eucaristia.
Mas a minha lufa-lufa não se fica por aqui. Já está a imprimir por estes dias o meu Diário Aberto 2004, numa edição da Arca das Letras. E terá a sua primeira sessão de apresentação no próximo dia 13 de Maio, sexta-feira, às 13 horas, na esplanada do Café “Piolho”, no Porto. Tudo isto se fica a dever ao espírito de iniciativa, à imaginação e ao entusiasmo do editor Soares Novais. Eu assisto estupefacto. E limito-me a dar o meu consentimento. A alegria sobe de tom. E a festa. Foi também o editor quem sugeriu o título principal do livro: EM NOME DE JESUS e que eu logo aceitei. Apenas sugeri um subtítulo: Diário Aberto de um padre sem templo nem altar. E assim será.
Acharão algumas pessoas que a escolha da data é uma provocação. Salutar provocação, acrescento eu. O que mais nos falta são salutares provocações que nos tirem do sério sisudo, das rotinas, dos tradicionalismos, do pensamento único, das práticas política e eclesiasticamente correctas. É no dia 13 de Maio, o de Fátima da nossa vergonha, e à hora da procissão do “Adeus”? Feliz coincidência. É então a Lucidez contra o Obscurantismo. A Liberdade contra a Opressão. A Sanidade mental contra Ignomínia. A Alegria contra a Depressão. A Dignidade contra a Humilhação. O Evangelho de Jesus contra o Poder eclesiástico. A Graça, ou Vida de Deus Partilhada, contra o Moralismo católico. Numa palavra, a Fé jesuânica contra o Medo.
Mas as coisas ainda não ficam aqui. No dia seguinte, terei que deslocar-me à região de Coimbra, mais propriamente a Taveiro, para autografar os meus livros, numa grande Feira de Livro que lá estará a decorrer. O convite veio da Distribuidora da Editora Campo das Letras. Querem que esteja especialmente disponível para apresentar O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO. Nunca me vi a intervir em tantas frentes.
O que me faz correr? Apenas o Evangelho de Jesus. Como S. Paulo, também eu digo: Ai de mim se não evangelizar. É preciso, imperioso e urgente Evangelizar os pobres. As Igrejas, infelizmente, metem-se nos templos a fazer ritos, missas em série. O mundo tem fome de Pão, isto é, de Evangelho e as Igrejas limitam-se a distribuir-lhe ritos, cultos sem profecia, missas sem Eucaristia, interpretações fundamentalistas da Bíblia queescravizam. Numa rotina de bradar aos céus. Não pensem que corro para ganhar dinheiro. Sou pobre por opção. Desde o princípio do exercício do ministério presbiteral. E, sempre que o dinheiro do salário de jornalista, ao longo destes anos sem paróquia, me sobrou (agora estou reformado com um quantitativo mensal pouco acima do limiar da pobreza), nunca o guardei para mim, sempre o Partilhei com outras pessoas pobres como eu que caminha(va)m comigo animadas do mesmo Projecto de vida. E hoje os direitos de autor (se houver para receber), revertem integralmente para a construção do Barracão de Cultura, em Macieira da Lixa, numa iniciativa da Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA. Saibam as pessoas que para mim valem como luz na caminhada aquelas palavras autênticas de Jesus, porventura, as mais subversivas e mais revolucionárias, por isso também as mais radicalmente libertadoras que ele proferiu: “Felizes os pobres”, em contraste com aqueloutras, também dele: “Ai dos ricos”
Na verdade, a felicidade duma mulher, dum homem não se mede pela quantidade dos seus bens. Mas pela Liberdade que ela, ele respira. E quem possui muitos bens nunca pode experimentar a Liberdade. Apenas o peso insuportável da falta dela. Ou não fosse verdade que não há coração mais pesado que o coração dos ricos sem entranhas de humanidade.
2005 MAIO 07
Inesperadamente, estive ontem de tarde, na Escola C+S de Paço de Sousa, nas proximidades de Penafiel, a falar sobre o 25 de Abril de 1974. Na véspera, também da parte da tarde, tocou o meu telemóvel, quando andava a realizar, juntamente com Isaurinha e Maria Laura, e em nome da Comunidade, o ministério ou serviço dos doentes, em Macieira da Lixa. Quem me chamava era o conhecido e insigne escritor Urbano Tavares Rodrigues. Fiquei surpreso. Nunca antes me havia telefonado. E ainda mais surpreso fiquei, quando ele disse ao que vinha. Pedia-me se o poderia substituir num colóquio sobre o 25 de Abril numa escola de Paredes. Estava tudo marcado com ele para o dia seguinte, mas a sua mulher caiu gravemente doente e Urbano não queria de modo nenhum, nestas circunstâncias, ausentar-se de junto dela. Mas também não queria deixar as alunas, os alunos e a escola privados dos benefícios da iniciativa há muito anunciada. Foi então que se lembrou de mim, para que o colóquio não ficasse por fazer. Ouvi e disse-lhe, meio a rir, meio a sério: Mas que honra, Urbano! Até me sinto promovido com esse teu convite/pedido! E foste logo pensar em mim para te substituir neste serviço? Ele riu-se comigo. Mas foi assim que eu, de repente, me vi a dizer sim ao seu pedido, sem sequer consultar primeiro a minha agenda, que de momento não tinha ali à mão, para ver se o meu sim não iria colidir com algum outro compromisso à mesma hora. Quando depois consultei a agenda, vi que tinha marcado para a mesma hora um exame médico na Clínica de Amarante. Não tive outro remédio senão desmarcar. Mas não dispunha sequer do contacto telefónico. E tão pouco queria deslocar-me pessoalmente à Clínica. Lembrei-me então de recorrer à Internet e depressa deparei com o número desejado. O exame médico foi adiado por mais uns dias e, assim, ontem, depois do almoço, lá fui eu na carrinha até à Escola de Paço de Sousa, em substituição do escritor Urbano Tavares Rodrigues. Não sem primeiro, é claro, passar parte da manhã à escuta do que o Espírito queria que eu fosse dizer aos estudantes, elas e eles, todos ainda em plena adolescência.
A sessão – mais de hora e meia – foi um espanto. Muito provavelmente, também um saudável escândalo. E uma pedrada no charco. Não foi aberta a todos os alunos da Escola. Apenas a três turmas, dos mais velhos, com os respectivos professores de História e mais algumas outras professoras, alguns outros professores, que não quiseram perder aquela oportunidade que a Escola lhes proporcionou de mão beijada. O colóquio atingiu o paroxismo, quando, já quase no final da minha comunicação de abertura, e depois de eu ter acabado de enunciar de rajada algumas das principais perversões instituídas que o 25 de Abril fez desaparecer de vez do nosso país, abruptamente acrescentei: Mas há uma perversão que o 25 de Abril não foi capaz de tocar e deixou intacta, à solta no nosso país. Sabeis qual é? Os rostos daqueles cerca de 100 jovens ficaram na expectativa e de respiração suspensa. E eu adiantei: Vou escandalizar-vos, esta tarde, mas não posso deixar de vo-lo dizer, em nome do Evangelho de Jesus que me cumpre anunciar, oportuna e inoportunamente. A expectativa cresceu ainda mais na sala. Que perversão instituída seria essa que o 25 de Abril de 1974 deixou intacta e à solta no país? Foi então que eu disse, em tom de grande intimidade: É a senhora de Fátima! Sim, sublinhei de imediato, perante os olhos arregalados de todas, todos, é a senhora de Fátima. E acrescentei: O 25 de Abril não foi capaz de mexer na Senhora de Fátima, e por isso ela continua aí muito activa (não ela, evidentemente, que não passa duma imagem morta incapaz até de se deslocar por si só, mas sim todos aqueles – e são muitos! – que estão por trás dela e que, a coberto dela, fazem rendosos negócios, ao mesmo tempo que espalham entre as populações que teimam em frequentar aqueles lugares todo o tipo de moralismo e de mentiras). Ora, sublinhei em tom firme, enquanto o país, em grande número, continuar a correr para a senhora de Fátima, também não deixará de ser um país adiado, de pequeninos, de menores, de populações tristes, deprimidas, subjugadas, sem iniciativa, sempre à espera que um milagre lhes resolva os problemas. Aliás, já foi graças à senhora de Fátima que Salazar pôde fazer a guerra colonial em África, sem que as populações que tinham que dar os filhos para ela, alguma vez se rebelassem em massa contra o regime!
O choque da minha revelação foi total. Outra coisa não seria de esperar. Mas logo me dei conta que, felizmente, o choque era sobretudo libertador, não pedra de tropeço. A alegria e a convicção com que lhes fiz esta revelação terão contribuído para isso. Percebi que os próprios professores presentes na sala tinham cara de espanto. E também de alguma perplexidade. Certamente, nunca lhes teria passado pela cabeça que um colóquio sobre o 25 de Abril de 1974 pudesse desaguar em Fátima e numa revelação tão radical e tão contundente como a que eu ali acabara de fazer. Foi como se de repente o velho santuário de Fátima, juntamente com a majestosa basílica que está lá a ser erguida por muitos milhões de euros e a própria Serra d’Aire desabassem sobre as nossas cabeças. O surpreendente é que, em lugar desse desabamento nos esmagar e matar, libertou-nos. Vimo-nos de repente livres, soltos, como se de cima de nós tivesse acabado de sair um peso medonho. Os olhos de todas, de todos, mostravam que éramos, agora, ainda mais nós próprias, nós próprios. E os unânimes aplausos finais, vibrantes de entusiasmo, com que pouco depois todas, todos agradeceram a minha longa intervenção inicial, recheada de muitos pormenores vivenciais, foram prova disso mesmo. Ninguém na sala tinha cara de zangado comigo. Todas as caras eram de alegria, de felicidade, de liberdade. Parece que tínhamos acabado de nascer de novo, de um outro Sopro, o Sopro da liberdade, por isso, o Sopro de Jesus, o Libertador.
O encontro não acabou aí. Houve ainda tempo para perguntas, por parte das alunas, dos alunos. O colóquio animou-se então ainda mais. As perguntas foram várias e todas oportunas. Apenas de uma aluna, a sua pergunta se referiu ao que eu havia dito sobre a senhora de Fátima. O escândalo dela não era propriamente comigo, nem com o que tinha acabado de ouvir da minha boca. O escândalo dela era com as inúmeras sessões de catequese que ela já terá recebido à sombra da paróquia católica. E como ela, quase toda a gente em Portugal. Têm sido sessões de catequese feitas de mentira. Só possíveis, porque as populações que correm para Fátima, quer as de Portugal, quer as do resto do mundo, nunca se deram ao trabalho de estudar o fenómeno, como eu o estudei. Nunca fizeram investigação séria como eu fiz. E, sobretudo, nunca terão confrontado toda aquela vergonha e toda aquela inumanidade que Fátima impunemente exibe perante o mundo com a Teologia de Jesus, radicalmente libertadora de toda a alienação, a começar pela alienação religiosa. Aliás, quem é que hoje em Portugal e no mundo conhece a Teologia de Jesus? Provavelmente, nem muitos professores de Teologia das Universidades católicas, nem muitos bispos residenciais, nem muitos párocos em exercício a conhecem. Conhecem e transmitem uma Teologia que tem por objecto não o Deus de Jesus, mas as deusas e os deuses dos cultos do primitivo Paganismo religioso, nomeadamente, a sua mítica grande deusa virgem e mãe, mentirosamente, apresentada por eles como Maria, a mãe de Jesus. Aliás, só mesmo um desconhecimento assim tão generalizado da Teologia de Jesus pode explicar que todas essas nossas senhoras continuem a ter tamanha importância e tamanha influência no Cristianismo católico e na Igreja. Chega até a parecer que o Cristianismo católico tem mais a ver com todas essas nossas senhoras disto e daquilo, daqui e dali, do que com Jesus, o de Nazaré, proclamado o Cristo pela sua ressurreição. Ora, quando uma realidade mítica, como a senhora de Fátima, que nem sequer faz parte do Credo cristão católico, passa a assumir tamanha importância na vida da Igreja e no Cristianismo católico (o Cristianismo das Igrejas evangélicas ou protestantes já não é assim, felizmente), para mais em escandaloso detrimento de Jesus e do seu Evangelho, que são, como se sabe, o verdadeiro núcleo da Fé cristã católica, é caso para se acender o sinal vermelho de alarme e gritarmos, a plenos pulmões: Alto aí, que aqui há gato! E que gato, senhoras, senhores!... Nada mais, nada menos que a infiltração, na Igreja católica e no núcleo central da Fé cristã católica, do Paganismo e da sua mítica deusa virgem e mãe.
A marosca está agora à vista de toda a gente. Só não vê quem não quer, ou quem tem muitos interesses a salvaguardar, e sabe que só a actual situação de mentira lhos pode garantir por mais tempo. Mas a Teologia de Jesus não pactua com esta marosca, porque, como nos garante o próprio Jesus, o do Evangelho de S. João, só a Verdade nos fará livres, ainda que também nos possa deixar sem bolsa nem alforge, sem basílicas nem palácios, sem poder nem privilégios, sem honra nem bom nome, inclusive, sem multidões nem paróquias territoriais, sempre atentas e reverentes ao clero. E também sempre pagantes.
Até há poucos anos, ainda poderíamos dizer que as pessoas católicas, bispos e párocos incluídos, agiam, neste capítulo de Fátima, de boa fé ou por ignorância. Mas agora não. Depois que publiquei o livro FÁTIMA NUNCA MAIS, ninguém, pelo menos, entre os responsáveis paroquiais e episcopais da Igreja católica, pode dizer que nunca lhe mostraram toda a mentira que Fátima é e quanto a Teologia que a suporta e justifica está nos antípodas da Teologia de Jesus. Podemos sempre preferir não abrir mão dos privilégios e dos interesses que a mentira da senhora de Fátima garante e alimenta, mas o que já não podemos é continuar a dizer que a Verdade do Evangelho está a passar por Fátima e pela sua senhora. Não está.
Foi assim que eu coloquei as coisas na parte final do colóquio. Efectivamente, com o 25 de Abril de 1974, foi-se a guerra colonial em três frentes de África. Foi-se o medo que nos mantinha tolhidos, pequeninos, súbditos, subservientes do clero e dos senhores. Foi-se o fascismo. Foi-se a censura na comunicação social. Foi-se a PIDE. Foi-se a prisão por motivos políticos. Foi-se o Tribunal Plenário destinado exclusivamente a julgar e condenar “crimes políticos” de oposição ao regime. Foi-se o império colonial. E nós nascemos de novo, mas agora como Povo de Povos. Por isso, a História de Portugal que hoje se ensina nas Escolas, sempre deveria começar pelo 25 de Abril. Os mais de 800 anos anteriores não foram propriamente História. Foram 800 anos de domínio sobre as populações, por parte duma casa dita real e duma família dita real, por sua vez, coadjuvada pela Cristandade católica, nomeadamente, o seu clero nas paróquias e os seus bispos nas dioceses territoriais. Foram, por isso, 800 anos de pré-História, mais do que 800 anos de História!
Toda essa perversão institucionalizada começou a ser dissolvida em 1910, com a implantação da República, e foi consolidada com a Revolução de Abril. Mas a senhora de Fátima que tinha sido inventada pelo clero da região, apenas sete anos após a implantação da República, com o fim de a contrariar e derrubar, conseguiu, memo assim, manter-se sem ser desacreditada perante as populações. E tem continuado impunemente a tolher-lhes a consciência. Ora, enquanto as coisas se mantiverem assim, o país não anda para diante, não sai da cepa torta, não se torna naquele Povo de povos desenvolvido que o 25 de Abril de 1974 fez nascer, não atinge a maioridade humana, não se torna autónomo da Cristandade e do clero, não se assume como um povo de reis, com iniciativa, protagonista, um povo político, sempre na primeira linha dos combates pela dignidade e pelo Pão para todos, sem exclusão de ninguém. Pelo contrário, nas suas inúmeras aflições e dificuldades, continuará a correr para Fátima e para a sua cruel senhora (neste mês de Maio é este desgraçado espectáculo que, mais uma vez, os media já começam a mostrar), em lugar de correr para dentro de si mesmo e uns para os outros. Sobretudo, continuará aí confrangedoramente à espera de milagres, em lugar de fazer o possível e o impossível para crescer em sabedoria e em ciência, a fim de ser ele próprio a fazê-los, tantos quantos forem precisos!
Não é por aqui que vai Jesus nem o Deus de Jesus, o de Nazaré. Ao contrário da senhora de Fátima que se sente honrada com populações que arruínam a sua saúde em peregrinações a pé, a andar de joelhos ou a rastejar até à exaustão, a alegria de Jesus e do Deus de Jesus é que nós, seres humanos, cresçamos em idade, em estatura, em sabedoria e em graça, até chegarmos a ser capazes de fazer as obras que Jesus paradigmaticamente fez e até obras maiores que as dele. Foi, por isso, com um fortíssimo apelo às alunas, aos alunos presentes a serem mulheres, homens assim, num país progressivamente fraterno e solidário, que concluí o colóquio na Escola C+S de Paço de Sousa. Saí de lá inteiramente seguro que nenhuma daquelas raparigas, nenhum daqueles rapazes jamais esquecerá esta tarde. Por mais anos que viva.
2005 MAIO 03
1. Neste primeiro domingo de Maio, estava marcado um encontro de missão, em Paredes de Viadores, mais propriamente, em casa de Zeza. Mas de lá veio, ao fim da manhã, um telefonema a pedir para que o encontro fosse adiado. O “dia da mãe” assim o terá exigido. As pessoas que estavam contactadas e se mostram dispostas a participar nesta caminhada para a criação da pequenina Comunidade cristã de base daquela freguesia do concelho de Marco de Canaveses, não se lembraram antes dessa efeméride e, sobre a hora, optaram pelo adiamento. Fui informado da alteração apenas no final do almoço que partilhei na Casa da Comunidade com Maria Laura e dois dos seus três filhos, Andreia Cristina e Rodrigo Filipe, e também com Isaurinha, a mãe dela e avó deles. Irene, filha adoptiva dos meus senhorios, também andou eufórica toda a manhã, só a pensar que, depois do almoço com os pais, iria integrar o grupo de missão. Até um lanche ela confeccionou para poder partilhar no final do encontro, em Paredes de Viadores, consciente que já está que este tipo de encontros sempre hão-de incluir a Partilha da Palavra e a Partilha do Pão em memória de Jesus. Ficou manifestamente desapontada, quando, ao entrar na carrinha, eu a informei que afinal não haveria encontro. Foi então que, em alternativa, propus às companheiras que estavam para sair comigo em missão que também não ficássemos fechados em casa, mas aproveitássemos a tarde livre para uma deslocação até ao alto de um monte das redondezas, e que levássemos os lanches que Irene e eu havíamos confeccionado, com vistas ao encontro em Paredes de Viadores. Ao grupo inicialmente previsto para a deslocação em missão – Irene, Isaurinha, Maria Laura e eu – juntou-se também Amélia que, entretanto, apareceu espontaneamente na Casa da Comunidade, que é simultaneamente a casa de Maria Laura e dos seus filhos. E lá fomos, descontraídos e bem dispostos, na carrinha, em direcção ao alto do monte da freguesia de Pinheiro, aqui mesmo ao lado da freguesia de Macieira da Lixa.
O monte dá pelo nome de “Senhora da Aparecida”, devido a terem lá erguido uma pequena ermida em honra desta mítica deusa dos cultos do paganismo primitivo. A paróquia católica que se confunde com os limites da freguesia nunca se fez rogada e apropriou-se da ermida e da festa que todos os anos lá se faz. E desde então tem tentado convencer as populações de tradição católica que a mítica deusa Senhora da Aparecida é nem mais nem menos que Maria, mãe de Jesus. E não é que as populações, com o tempo, acabaram por interiorizar esta descarada mentira eclesiástica católica romana e hoje estão mais que convencidas que assim é? Porém, a festa que lá promovem e financiam continua a ser tipicamente pagã. Nem mesmo a missa que o clero não dispensa, pelo menos, no dia principal da festa, consegue fazer dela uma festa cristã jesuânica.
A festa cristã, ao contrário das festas do Paganismo que acontecem por força do que mandam o ritual e o calendário, só acontece a sério, quando as causas da Justiça e da Liberdade progridem na História, já que para Jesus a festa vive indissoluvelmente associada ao desenvolvimento integral das pessoas, ao seu crescimento em consciência e em maturidade, de modo que elas atinjam aquele patamar que as torne autónomas e responsáveis, sem mais necessidade de “padrinhos” “paizinhos”, “benfeitores”, “intermediários”. Não são assim as festas do Paganismo, mesmo que incluam sermão e missa cantada. Estas são festas rituais, faz-de-conta. As populações têm que as financiar, que para isso se constitui na freguesia a chamada comissão de festas. Uma das suas imprescindíveis tarefas consiste em bater, durante vários domingos, à porta das pessoas, para que elas entreguem do seu dinheiro, sem o qual não poderá haver festa. A tradição tem muito peso e as populações não se fazem rogadas, por mais que refilem, e lá acabam por abrir os cordões à bolsa, não vá a deusa ou senhora levar a mal e vingar-se com o envio de calamidades, ou mesmo de doenças graves, quer contra as pessoas da casa, quer contra os seus animais domésticos.
Infelizmente, o medo das deusas e dos deuses, por parte das populações, continua, hoje, a ser determinante nos comportamentos quotidianos de todas elas. É o medo que comanda a vida das populações, por maior que seja o desenvolvimento tecnológico e científico de que elas possam já usufruir. Enquanto a doença grave não for controlada, a segurança quanto ao futuro não for assegurada, a pobreza em massa não for superada, o mistério da morte não for desvendado, sempre o medo encontra terreno propício para se desenvolver entre as populações e os povos. Com a agravante de tudo isso ir desaguar na religião, nos cultos feitos de ritos e de crendices, bizarras, umas, mais modernas, outras.
Se as Igrejas cristãs fossem verdadeiras Igrejas discípulas de Jesus, nunca entrariam na vida das populações pela porta do medo, nem pela porta da religião, que pode e deve ser definida como o medo das deusas e dos deuses. Sempre entrariam pela porta da Fé de Jesus (“Eu sou a porta”, João 10), a fazer despertar nelas, e que é o antídoto do medo. O pior é que até as Igrejas cristãs insistem em confundir Fé com religião, Maria de Nazaré e Jesus de Nazaré com míticas deusas e míticos deuses, de muitos nomes, conforme as terras e as culturas dos povos. Assim, é de todo impossível modificar a realidade humana e as sociedades. Cresce o desenvolvimento tecnológico e científico, mas o desenvolvimento humano integral das populações mantém-se estacionário, quando não chega até a regredir em muitos lados e em muitos períodos da História. Ora, como é sabido, populações possessas de medo são populações agressivas, violentas, desconfiadas, fechadas, isoladas, que vêem no seu próximo um inimigo.
Foi para nos libertar do medo qu