2005 ABRIL 29
1. Timor. Não me tenho pronunciado sobre o triste espectáculo que os dois bispos da Igreja católica que está em Timor Leste persistem em dar ao seu povo e ao mundo. Sempre pensei que rapidamente imperasse o bom senso e que o diferendo que ambos mantêm com o Governo legítimo do país, formado, como se sabe, a partir de eleições livres, fosse ultrapassado. Mas não. Com o correr dos dias, o caso tem-se agravado e o escândalo acabou por adquirir contornos impensáveis. O Governo decidiu, e muito bem, que, a partir de agora, as aulas de Religião e Moral nas escolas públicas do país passassem da situação de inscrição obrigatória, como até aqui, à situação de inscrição facultativa. Nem sequer se atreveu a acabar de vez com as aulas de Religião e Moral. Apenas que essas aulas passem a ser frequentadas por aqueles alunos, raparigas e rapazes, que se mostrem interessados em frequentá-las, mediante inscrição nesse sentido, no início de cada ano. O Governo poderia ter acabado de vez com essas aulas, enquanto aulas de Religião e Moral católicas. Como Governo de um Estado não confessional que é, estava no seu pleno direito. Mas não foi isso que deliberou. Limitou-se a retirar o carácter de obrigatoriedade àquela disciplina. E os dois Bispos católicos, perante esta decisão constitucional, parece terem ficado possessos e passaram a dizer cobras e lagartos contra o Governo, particularmente, contra o primeiro ministro. Será que não toleram que Mário Alkatiri seja muçulmano, isto é, não seja católico romano como eles? Mas os dois bispos não fazem a coisa por menos: exigem a cabeça do primeiro ministro! Fazem lembrar a concubina de Herodes, no tempo e país de Jesus, que também exigiu do rei a cabeça de João Baptista. Num prato, pois então. Como quem o quer devorar numa mesa de ódio. Aqui, ódio episcopal, católico, romano.
O pior é que os dois bispos são como dois generais poderosos, na sua relação com as populações timorenses, de formação católica romana (que colonialismo ocidental mais rançoso!...), mas de um tipo de catolicismo católico romano, o mais sinistro, como é o nosso bem conhecido catolicismo da senhora de Fátima (vejam só! Senhora de Fátima em Timor Leste, a tantos milhares de quilómetros!...). E não é que muitas das populações timorenses, arregimentadas pelos seus dois poderosos bispos, deixaram as suas casas, passaram pelos templos das suas paróquias, arrancaram as imagens dos respectivos altares e avançaram com elas para uma concentração na cidade de Dilli, até que o Governo recue na sua decisão, mais, se demita em bloco, ou, pelo menos, faça rolar a cabeça do primeiro ministro que não tem vergonha de ser muçulmano num país de esmagadora maioria católica romana? E ali estão elas, dia e noite, na companhia das toscas imagens da sua devoção. Ao que dizem, não arredam pé, enquanto não levarem a delas avante! Ao mesmo tempo, nas suas respectivas casas episcopais, os dois bispos não só não cedem um milímetro nas suas reivindicações, junto do Governo, como até fazem subir a parada, cada dia que passa. Têm as populações como escudo e como exército. E as imagens da mítica senhora de Fátima e quejandas como amuleto. E não é que até o presidente da República de Timor Leste, o querido Xanana Gusmão, quando, ao fim de alguns dias deste degradante espectáculo, decidiu aparecer junto dos manifestantes, para apelar ao bom senso, começou, ele próprio, por prestar vassalagem pública às imagens, como se elas fossem mais do que as pessoas de carne e osso que carregaram com elas para aquele loca!?
Eu vejo estas cenas e oiço os relatos da comunicação social e pasmo. Afinal, em que século estamos? Em que milénio? Dois mil anos depois de Jesus, o ser humano mais ilustrado e mais lúcido e mais ser humano da História, ainda há populações no mundo que se comportam assim, nos seus antípodas, que têm manifestações de humanidade tão rascas como estas? Que tipo de Missão é que promoveram outrora por aquelas paragens os missionários católicos? Quando era suposto que tivessem ido promover culturalmente as pessoas, foram arrastá-las para o obscurantismo mais rasca? Quando até Xanana Gusmão se presta publicamente a gestos como os que as televisões nos mostraram, o que andámos a fazer no passado e continuamos a fazer no presente, por aquelas paragens, em nome do Evangelho de Jesus? Um catolicismo que degrada assim as populações e as faz protagonizar manifestações deste jaez, não é uma instituição lesa-humanidade? Não tem que ser denunciado e combatido? Não é mais do que um simples caso de polícia? E podemos ficar indiferentes e encolher os ombros, como se não fosse crime o que um catolicismo assim está a fazer às populações de Timor Leste?
Os dois bispos católicos deveriam ter sido os primeiros a sugerir e até a exigir do Governo de Timor Leste que retirasse do currículo das escolas públicas o ensino da Religião e da Moral católicas. As escolas públicas não têm que ser um prolongamento das igrejas paroquiais e das suas catequeses. Escolas públicas são escolas públicas. Igrejas paroquiais são igrejas paroquiais. Assim é que deve ser entre seres humanos lúcidos e ilustrados e evangelizados. E para que sejam assim as coisas é que existem Igrejas que se arrogam do nome de Jesus, o de Nazaré. As Igrejas de Jesus não são para sacralizar, confessionalizar as sociedades, mas para as des-sacralizar, secularizar e desconfessionalizar cada vez mais.
Pelos vistos, em Timor Leste, quem está a comportar-se mais ao jeito de Jesus não é a Igreja católica que se reivindica do seu nome, mas o Governo de Mário Alkatiri. O muçulmano que preside ao Governo está a revelar-se mais jesuânico, do que os dois bispos católicos romanos. Aonde levam os fanatismos católicos! Aonde leva o obscurantismo! Em lugar de serem o sal da terra e a luz do mundo entre as populações de Timor Leste, os dois bispos católicos romanos de Timor Leste estão a revelar-se mais obscurantistas que as próprias populações. Tivessem eles saudado com alegria a decisão do Governo de retirar o carácter de obrigatoriedade à disciplina de Religião e Moral nas escolas públicas (a única decisão que respeita a liberdade das pessoas) e as populações de Timor Leste certamente nunca teriam avançado para este tipo de manifestação. Nunca se teriam sujeitado a esta vergonha internacional.
Infelizmente, os dois bispos católicos romanos de Timor Leste não passam de outros tantos guias cegos, que as populações, na sua cegueira, continuam a olhar como guias lúcidos. Felizmente, este equívoco não se prolongará por muito mais tempo. As novas gerações de Timor Leste nunca mais esquecerão este episódio e o que ele revelou de caciquismo por parte da Igreja católica romana, no seu país. Por isso, nem que por agora a decisão do Governo venha a ficar congelada – oxalá não seja este o desfecho, porque será desastroso sobretudo para a Igreja católica que está em Timor – o dia de amanhã naquele país da Ásia nunca mais será como o de ontem e o de hoje.
Basta de imperialismo católico romano em Timor Leste e em qualquer nação do mundo. Eu sempre disse, na altura, da independência, que não bastava às timorenses, aos timorenses terem combatido o imperialismo e o colonialismo da Indonésia. Havia que libertar-se também do colonialismo e do imperialismo católico romano. Mas a verdade é que o colonialismo e o imperialismo católico romano ficaram incólumes até hoje. Na altura da luta pela autonomia e independência da Indonésia, o catolicismo católico romano até pareceu ser um forte aliado do povo de Timor. Mas era inimigo. Interessava-lhe expulsar o imperialismo da Indonésia para ficar ele a reinar sozinho. Com o seu moralismo e o seu obscurantismo rascas. Se dúvidas houvesse, ainda hoje, este incidente veio dissipá-las por completo. Constitui, por isso, uma impressionante revelação, um verdadeiro apocalipse.
Abram, pois, os olhos, populações de Timor Leste! Quando vos dão imagens de senhoras de Fátima e quejandas, em lugar de vos darem Jesus e o seu Evangelho de libertação para a liberdade, que “puxarão” por vós para que sejais protagonistas da vossa própria vida e da vida do vosso país, estão a matar-vos, a roubar-vos e a destruir-vos, mesmo que se disfarcem de vossos amigos e de vossos benfeitores. Não se deixem iludir. Está visto que os dois bispos católicos romanos que estão aí no meio de vocês, vestem de cordeiro, mas são lobos rapaces. Resistam-lhes. Para garantirem futuro ao vosso presente e ao vosso passado. Cuidem das vossas vidas e do vosso país. Deixem as imagens entregues a elas próprias. Se elas não são capazes de cuidar delas próprias, como é que poderão cuidar de vocês? Procedam assim, ou acabareis numa opressão pior do que a que o regime indonésio vos impôs no passado e contra a qual lutastes com tanta determinação e tanto sangue derramado.
2. Ontem à noite, estive em Famalicão. Na Feira do Livro local. A convite da Editora AUSÊNCIA. Fui participar numa tertúlia sobre poesia, juntamente com outros autores, uma autora apenas, num total de seis. O programa anunciava também uma rápida sessão de apresentação do meu livrinho, E SE COM O PAPA, ENTERRARMOS TAMBÉM ESTA IGREJA CATÓLICA ROMANA?, recém-editado pela Arca das Letras. Cumpriu-se o programa. A Feira está a funcionar, por mais uns dias, numa tenda. Fria. Sem o mínimo de conforto. Não é de estranhar que as populações não adiram em grande número. A Câmara Municipal promove a Feira, mas sem grande convicção. Como aliás costuma suceder um pouco por todo o país com iniciativas idênticas de outros municípios. Fica sempre a impressão em mim que o livro vale menos, muito menos, que uma bola de futebol. E que os autores, poetas que sejam, valem menos que um jogador de futebol. Por isso, a Feira do Livro pode acontecer em condições sem o mínimo de conforto, de bem-estar, de humanidade. Tudo é mais ou menos improvisado, para aquela ocasião, até daí a um ano, quando se volta a repetir o mesmo ritual. Tudo é feito como quem cumpre um programa. Para poder constar da agenda e do relatório de actividades dos pelouros de Cultura de cada Município. Os resultados concretos do evento pouco importam. O importante é que se possa dizer que se fez. E com o mínimo de investimento.
Quando entrei, dei-me logo conta que era mais uma coisa assim que ali se nos oferecia. Parece que os livros, afinal, não merecem mais. E as autoras, os autores tão pouco. Talvez para que umas e outros percamos a mania de escrever coisas fora do que está convencionado como politicamente correcto. Enquanto as autoras, os autores não aprenderem a comportar-nos como animais de estimação, como bobos da corte, como fabricantes de ópio, como cérebros vazios de ideias, como prostitutos do pensamento, nunca chegarão a sentar-se à mesa do rei, do primeiro-ministro, do presidente da república, do bispo, nem mesmo do presidente da câmara municipal. E os livros que escrevam também nunca conseguirão entrar nas bibliotecas municipais (a maioria das Juntas de Freguesia das aldeias do interior nem sequer sabe o que seja uma biblioteca), nem nas escolas do país, muito menos nas casas das pessoas espalhadas por todas essas freguesias dos múltiplos concelhos. E se os livros não são desprezados, ignorados, ostracizados pela gente ligada ao Poder, a verdade é que ela também não lhes abre as suas portas, não os introduz nos seus salões, muito menos, consente que os livros sejam lá colocados para serem contactados ao vivo e com regularidade pelas populações. Contentem-se, pois, as autoras, os autores com uma tenda improvisada, estilo usar e deitar fora. E é tudo o que a gente do Poder pode fazer pelos livros e pelas suas autoras, pelos seus autores. Aos olhos do Poder, nem os livros, nem as autoras, os autores, nem mesmo as populações merecem mais…
Depois, ainda nos queixamos (só pode ser por hipocrisia) que as populações não lêem, não manuseiam os livros, não frequentam as feiras do livro, não debatem as grandes questões da sua actualidade. Como pode ser de outro modo, se os que estão à frente das instituições, desde as mais do topo às mais das bases, têm comportamentos destes? Fossem os livros olhados e tratados como tesouros, como fontes de saber, como alimento cultural e espiritual da humanidade, como coisa própria e exclusiva de mulheres e de homens; reconhecesse-se aos livros a dignidade que têm; houvesse condições condignas para os acolher em todas as casas habitadas por seres humanos; fossem os livros companheiros e amigos de todos e de cada um dos seres humanos; andassem os livros tão íntimos a nós, como a roupa que trazemos vestida, e outra, muito outra seria hoje o apreço e a relação das pessoas com eles. Neste aspecto, pode dizer-se que estamos ainda na idade da pedra, pelo menos, no que respeita à relação dos livros com a esmagadora maioria das pessoas do planeta. Milhões e milhões e milhões de pessoas do mundo actual nunca leram um livro. E não estou sequer a pensar nos milhões que não sabem ler nem escrever. Estou a pensar nos milhões e milhões de pessoas que frequentaram o ensino básico, nos primeiros anos de vida. Depois que deixaram a escola, nunca mais tocaram num livro. O mais grave é que a sociedade aceita esta situação com toda a naturalidade, de modo que as pessoas que assim se comportam nem sequer se sentem mal, pelo contrário, parece até que quem for visto com livros em casa ou na mão é que é um anormal. Pessoas normais são aquelas que nunca lêem, não possuem um único livro, não gastam um cêntimo em livros. Nem nunca entram numa biblioteca pública.
Com as coisas assim, aonde vamos parar? A quem interessa que a situação se mantenha assim, geração após geração? O Poder sabe que no dia em que as pessoas lerem livros, forem pessoas com livros, vestirem livros, respirarem livros, o seu futuro está em sério risco. E terá que ceder o seu lugar à Política, à cidadania, à Humanidade. E, então, se os livros forem de Poesia, daquela que anda casada com a Profecia, então o Poder ficará mesmo sem hipótese. O Poder sempre se deu bem com o obscurantismo, com populações analfabetas, incultas, ingénuas. Primeiro, foi a Cristandade Ocidental que tudo fez para que as populações fossem analfabetas, rudes, pé descalço, servas da gleba, praticamente animais entre os outros animais. Foi assim, séculos sobre séculos. A Revolução Francesa rasgou este tecido social e ideológico. Mas as multidões continuam a ser mantidas longe dos benefícios da Ilustração que se lhe seguiu. E a forma como hoje continuamos a tratar os livros e as autoras, os autores é disso exemplo. Uma revolução cultural é preciso, mas o drama é que a Humanidade está longe de estar madura para a protagonizar. Chega a dar a impressão de que a semente da Revolução ainda nem sequer foi semeada!... E, então, com Feiras do livro, nas condições objectivas como as que na generalidade por aí se fazem, em todo o país, mais distante essa Revolução cultural que tanta falta faz ao nosso mundo está de nós.
No que me diz respeito, tive algumas pequenas alegrias, nesta Feira do Livro de Famalicão. Depois de apresentar o meu livrinho, da Editora Arca das Letras, uma senhora que não conhecia encaminhou-se para mim com um exemplar na mão e, toda sorriso nos olhos, disse-me ao ouvido: Saiba que me identifico plenamente com os seus pontos de vista. Continue o seu combate em prol da verdade do Evangelho de Jesus. Autografei-lhe o livrinho, levantei-me e dei-lhe um beijo de comunhão. São capazes de imaginar o sacramento que foi para mim esta mulher e esta sua curta confissão? Mas é destes pequenos sinais que eu vivo e me alimento. São vivências como esta que me fazem exultar, tal como já fizeram exultar Jesus, no seu tempo e país. E me fazem dizer como ele e com ele: Bendigo-te ó Mãe/Pai que escondeste estas coisas aos sabichões e aos poderosos e as revelaste às pequeninas, aos pequeninos.
Algo de semelhante ocorreu-me também na semana passada, na FNAC de St.ª Catarina, no Porto, depois que me referi ao meu outro livro, O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO, acabado sair com a chancela da Editora Campo das Letras. No final, quando as pessoas se me dirigiam para eu autografar exemplares desse e de outros livros meus que haviam acabado de adquirir, um jovem avança, resoluto, em direcção a mim e, em clima de intimidade e também de desassombro, confessa: sou seminarista, no curso de teologia, mas depois do que acabo de ouvir aqui da sua boca a propósito de Jesus, vou ter de rever a teologia que me está a ser ministrada, assim como a exegese bíblica. Pelo que acabo de ouvir, Jesus é um ser humano totalmente diferente do que me têm andado a dizer. E o mais interessante é que o que aqui hoje ouvi faz muito mais sentido. É por este Evangelho que haverei de ir, porque este é de libertação. Com ele, serei também mais ser humano, mais da Liberdade! Perante semelhante testemunho, levantei-me, olhei o jovem com afeição, abracei-o e disse-lhe: Faz isso que dizes e serás mais tu próprio, nem que, por via disso, venhas a conhecer incompreensões e a ser ostracizado.
No decorrer da tertúlia, em Famalicão, tive oportunidade de dizer/declamar um texto quase poema, do meu livro COMO FARPAS, MAS COM TERNURA e, numa segunda intervenção, um canto, do livro CANTO(S) NAS MARGENS, ambos editados pela Editora Ausência. Reproduzo-os aqui, num gesto de ternura e de graça para com cada uma das pessoas que se encontrarem comigo nesta página. Eis:
Os ricos
Os ricos. É de dinheiro
o coração dos ricos. Têm
olhos muito abertos mas
não vêem nunca a sua irmã
o seu irmão. Às mulheres
sobretudo as novas e bonitas
os ricos ainda enxergam mas
logo fazem delas prostitutas. Tudo
quanto tocam com as suas mãos
fica parado e morto. Muito pior
do que a estátua de sal em que
se tornou a mulher de Lot. As
suas casas são grandes como
a cidade de Sodoma e como
ela povoadas de estátuas e
de escravos. Detestam
gente livre criadora
insubmissa. E a quem não
conseguem vergar partem-lhe
a espinha. Ai dos ricos! Têm
dinheiro muito dinheiro onde
era suposto haver um coração.
Parecem felizes e gostam
de ser apresentados como
modelos para os demais. Porque
a mentira com que se vestem
esconde a verdade que eles
são. Não fosse assim e toda
a gente veria o sangue dos pobres
que escorre das suas mãos e que
eles oferecem em sacrifício
ao deus-Dinheiro. Numa liturgia
nos antípodas da Eucaristia de
Jesus o Homem-para-os-demais.
Ai dos ricos! Os pobres do mundo
serão os seus juízes por mais
esmolas que os ricos mandem
distribuir por eles. É que só a Justiça
e a mesa partilhada são sacramento
de salvação. A esmola avilta quem
a dá e humilha quem a recebe.
******
Armando Teixeira
Às ordens de gente
a pensar em minério
minavas a Terra
à procura de Pão
minério arrancaste
e cresceu um Império
porém para ti
só cresceu Solidão
Riquezas que crescem
com Homens que morrem
são bem a desgraça
da Humanidade
criando uma Terra
com Homens que “sobem”
não mais haverá
Solidão na Cidade
Choraram os vivos
a tua agonia
que veio tão cedo
p’ra ti meu irmão
em vez de chorarem
a sua anemia
que mata os Homens
por falta de Pão
Lembrados de ti
avançamos unidos
sedentos de Paz
de Justiça e de Amor
gritamos à Terra
e seremos ouvidos
pois todos anseiam
um mundo melhor
2005 ABRIL 25
1. Completam-se hoje 31 anos sobre o 25 de Abril 74. Deveriam ser outras tantas actualizações da Revolução. São apenas 31 comemorações da Revolução. As revoluções são para actualizar continuamente, mas quem as faz, depois já se contenta com recordá-las e comemorá-las sob a forma de ritual. Voltam a ouvir-se, cada ano, as canções que fizeram aquela madrugada. Voltam a ver-se as imagens mais emblemáticas. Vêem-se, ouvem-se e lêem-se excertos de reportagem desses dias de liberdade e de festa de todo um povo. Mas já não há coragem para actualizar a Revolução. Por isso, as sucessivas novas gerações não sabem o que aconteceu. E os poucos jovens que sabem, sabem-no dos livros ou de ouvir os professores de História ou familiares mais velhos contar. Mas as revoluções libertadoras nunca deviam ser simplesmente contadas. Sempre deveriam ser actualizadas. Pelo menos, de ano a ano.
Há 31 anos, nascemos de novo como povo. Mas de pouco adianta termos nascido de novo, como povo, se depois nos deixamos envelhecer, se regressamos às rotinas, aos rituais, à lei do menor esforço, aos vícios que alimentaram o anterior regime que nos devorou a alma e o corpo e nos converteu em coisas, quase em minhocas. Quando um povo inteiro não actualiza a Revolução que o fez nascer de novo acaba por voltar ao mesmo de antes e o seu estado fica ainda pior do que o de então.
Infelizmente, é para aí que o país avança, hoje, 31 anos depois. E agora com um Governo de maioria absoluta, a tentação será ainda maior. Confiamos-lhe os nossos destinos e ficamos à espera que o Eng.º José Sócrates e os outros ministros do Governo nos conduzam a porto seguro. Eles, por sua vez, acham isso normal, constituem-se num órgão de cúpula cada vez mais distante do povo, e depressa acabam reduzidos a funcionários da administração pública. Elegemos um Parlamento, do qual haveria de sair um novo Governo, e algum tempo depois verificaremos que, em lugar de um novo Governo, apenas temos mais uns quantos funcionários da administração pública a gerir os assuntos correntes do Estado e do País. Sem brilhozinho nos olhos. Sem alegria. Sem Sopro. Sem Política. Provavelmente, até sem Poder. Funcionários apenas. Ao serviço das multinacionais e dos seus macabros interesses. Quando um povo inteiro se demite da Política, que o levaria a manter-se ao leme na gestão dos próprios destinos, coordenado por um Governo ao jeito da parteira junto da mulher que está para dar à luz, é o que fatalmente acontece.
Sem Política, os povos definham e morrem. São como as águas paradas de um rio que desistiu de correr para o mar. Com o passar dos dias, as águas apodrecem e matam até a vida que ainda traziam no seu bojo. E o que são águas paradas? São águas sem Sopro, sem Espírito. O que é um povo parado? É um povo sem Política. Sem Sopro. Sem Espírito. A Política é que nos mantém vivos, como povos. A Política é o Sopro que faz viver os povos. A Religião adormece os povos. Aliena os povos. Desmobiliza os povos.
Por isso, os políticos profissionais que actuam de maneira a substituir os povos tornam-se inimigos dos povos. Governam-se, quando deveriam estimular os povos a auto-governar-se. Coisa que se vê acontecer, por exemplo, quando sopram os ventos da Revolução. Nunca depois. É quando os povos começam a revelar cansaço e se afastam da Política, que surgem os profissionais da Política. Bem falantes, depressa se apoderam do espaço deixado vazio pelos povos, instalam-se, à direita, ao centro e à esquerda, no aparelho de Estado recauchutado que a Revolução parecia ter derrubado, legislam privilégios e mordomias para si próprios, e pedem-nos que votemos neles ciclicamente. O último estado dos povos torna-se então pior que o anterior. É o que sempre sucede, quando os povos se demitem. Ou quando os povos desistem. E quando os povos se cansam e renunciam a ser povos políticos, povos com Política, povos organizados e em movimento, povos com Sopro, povos com Espírito. Não é para um país assim que estamos já a resvalar, a olhos vistos, 31 anos depois da Revolução de Abril? Vamos deixar-nos continuar a resvalar? Será que a recordação de Abril 74 já nem sequer tem força para nos levar a meter o travão ao fundo e nos fazer inverter a marcha que nos está a levar para o abismo?
Deixemos de olhar com nostalgia para a Revolução de Abril. Deixemos de nos limitar a dar voz aos ainda sobreviventes que então a protagonizaram e a tornaram possível. E em lugar de nos limitarmos a contar a Revolução às novas gerações, ousemos fazê-la hoje e sempre com cada nova geração que chega à maioridade, para que, assim, possamos prosseguir como país e como povo de povos que somos.
Foi para isso que, como povo, elegemos recentemente um novo Parlamento que, por sua vez, deu origem a um novo Governo. Aos deputados em exercício é o que agora havemos de pedir e exigir. Assim como aos membros do Governo. Não foi para eles se governarem, se aburguesarem, se acomodarem nas mordomias do Poder, que os elegemos. Pelo contrário, eles têm que ter a audácia de actualizar a Revolução de 74. Sejam mais políticos e menos Poder. Sejam homens e mulheres com Sopro, não sejam funcionários administrativos. E sejam políticos ao jeito da parteira, até fazerem de Portugal um povo de povos com Política, com Sopro, organizado e em movimento, participativo, solidário, mexido, sem tempo nem estômago para chafurdarmos em "quintas de celebridades"/nulidades e quejandos. Se tal não acontecer, ainda acabaremos como o pródigo da parábola do Evangelho de S. Lucas, numa qualidade de vida abaixo da de muitos porcos!
2. Bento XVI foi ontem, domingo, 24 de Abril, entronizado como Papa. A cerimónia foi transmitida em directo pelas televisões urbi et orbi. Foi uma estopada de todo o tamanho, ao longo de quase três horas. Tudo se resumiu a mais uma missa super-solene convertida em mais um festival de vaidades e numa manifestação de Poder eclesiástico monárquico absoluto, saudado e aclamado por muitas palmas de vassalagem da parte de muitos dos grandes deste mundo que não resistiram a marcar presença na cerimónia, e também da parte de muitos súbditos católicos (como pode haver ainda tantas católicas que aplaudem um papa, como este, quando ele as reduz à humilhante condição de menores na Igreja, as discrimina e as atira para a margem, para a condição de zeladoras de altar, ou para a condição de cozinheiras e de serventes dos seus próprios aposentos, sem nunca as reconhecer como dignas de agir sacramentalmente “in persona Christi”, concretamente, exercer o ministério ordenado de presbítero e de bispo?). Até o nosso primeiro ministro fez questão de ir a correr colocar-se entre os grandes do mundo que lá estiveram e, como eles, também não resistiu ao preito de vassalagem, no final da missa, quando todos, em fila indiana, lha foram prestar. A cena não podia ser mais terrivelmente eloquente e mais anti-Evangelho de Jesus: o Papa sentado na sua cátedra dogmática e os grandes do mundo, um de cada vez, a cumprimentá-lo de pé (e vá lá que agora já não se usa ajoelhar-se diante dele e beijar-lhe os pés).
A cerimónia foi bem, do princípio ao fim, o que eu mais temia que fosse: uma manifestação de ostentação, de riqueza, de poder sem limites, de idolatria de um homem, por isso, uma cerimónia feita de mentira, fonte de desumanização. Depois do que, ontem, nos foi dado a ver, temos que concluir que o Império romano continua vivo e recomenda-se. E os cultos religiosos do Paganismo que reclama(va)m as bênçãos e os favores das deusas e dos deuses para o seu representante máximo na terra, o imperador de Roma, também. Mas é claro que tudo se apresentou travestido de Igreja, desta Igreja católica romana que temos. Entre este festival católico romano de vaidades e os festivais que se organizavam há 20 séculos, nesta mesma Roma, por ocasião da entronização dos imperadores, que diferenças haverá? Na essência, é tudo a mesma coisa. Nada se alterou. Por isso, o papa, embora oficialmente se reclame de Jesus e de Pedro, é ao imperador de Roma que ele efectivamente representa. Com todo este fausto, exibido em directo pelas televisões urbi et orbi, ele continua a dar a César o que é de César, quando mentirosamente diz que está a dar a Deus o que é de Deus.
Entre Deus e César, a incompatibilidade é total. Até Jesus, o de Nazaré, a Humanidade não conhecia esta Boa Notícia, este Evangelho, e era levada a pensar que entre Deus e César havia total coincidência, assim como entre o sumo sacerdote do Templo de Jerusalém e Deus. Jesus é quem nos revelou a mentira de tudo isto, a total incompatibilidade entre Deus e César, entre o sumo sacerdote e Deus. Exactamente como entre Deus e o Dinheiro, sempre que este é erigido como o Absoluto ao qual se sacrificam e imolam as pessoas e os povos, tal como sucede actualmente com as economias capitalistas e neo-liberais das multinacionais do nosso tempo. É certo que Jesus teve que pagar com a própria vida esta revelação, esta Boa Notícia, mas foi aí que teve início a radical libertação da Humanidade.
Por isso, Jesus se constituiu no nosso Libertador mais radical e no nosso Salvador universal. Por ele, com ele e nele, somos libertas, libertos para a liberdade, na medida em que ousamos acolher a Luz/a Verdade que ele é e, sobretudo, na medida em que ousamos ser mulheres, homens do mesmo jeito dele, e agir em todas as nossas circunstâncias como ele agiu nas dele. O que, infelizmente, ainda não é assim tão frequente, na Humanidade em geral. Ou a liberdade para a qual Jesus nos libertou, não seja a dimensão da vida humana mais difícil para os seres humanos. Efectivamente, do que as pessoas e os povos gostam, ainda agora, é sobretudo de Segurança e de “Alguém, ou de Alguma Coisa que nos domine”, como tantas vezes se ouve por aí de bocas humanas. E do que as pessoas e os povos têm mais medo é da Liberdade. E da Responsabilidade que dela decorre.
Nada em Bento XVI, no decorrer desta cerimónia, nos fez lembrar Jesus, o de Nazaré. Tudo nos fez lembrar César de Roma, o imperador. Até aquelas suas palavras, na homilia, que os comentadores dos media, ingenuamente se apressaram a classificar como uma pública expressão de humildade. Nada disso. O Poder nunca pode ser humilde. Poder e Humildade são sempre incompatíveis. A humildade é própria de mulheres, de homens. Nunca do Poder, muito menos do Poder eclesiástico católico romano. Quando Bento XVI pediu que rezássemos por ele, mais não fez do que repetir o que sempre fazem os poderosos do mundo que, como se sabe, nunca são ateus, mas deístas. Só que o Deus que invocam é uma projecção deles próprios, uma espécie de alter ego deles, lá longe, nos infinitos céus. Porque o Deus a sério, aqui na Terra, são eles, que põem e dispõem da vida dos seus súbditos a seu bel-prazer. Não é isto que faz, hoje, o presidente Bush, com o aval dos demais poderosos do mundo? Não é isso que fazem os Papas de Roma, sobretudo, nos domínios da consciência das pessoas e dos povos? Quando Bento XVI pede para rezarmos por ele, é para que ele leve por diante e por muitos anos a função em que aceitou ser investido, e que até Deus esteja ao seu serviço. Fossem humildes estes homens da Igreja e de imediato renunciariam a essa função, assassinariam o Poder. Seriam anti-papas. Se a Humanidade não pode viver sem Política, já pode muito bem viver sem Poder. É o Poder que nos impede de crescermos como pessoas livres e responsáveis e de sermos humanos. Inclusive, o Poder apodera-se da Política e não nos deixa ser protagonistas na História. Sempre nos reduz à condição de seus vassalos, seus servos, seus súbditos, seus fiéis incondicionais.
Não é assim a Humildade. Onde ela estiver, sempre diminui, para que as pessoas e os povos cresçam. Essa é a sua alegria. Essa é também a alegria de Deus, do Deus de Jesus. Do Deus dos poderosos, também do Papa, a alegria maior é a humilhação das pessoas e dos povos, que é o que os poderosos sempre fazem. O Papa João Paulo II, por exemplo, não cresceu até à idolatria mais aberrante de milhões e milhões de súbditos em todo o mundo, ao mesmo tempo que humilhou até ao abismo dos abismos teólogos da libertação, como o franciscano de gema que é o nosso querido Leonardo Boff? Dizem alguns, agora, que não foi ele quem assim agiu com L. Boff, mas o Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, cardeal Ratzinger, agora Bento XVI. Como não foi ele? Acaso algum dia João Paulo II destituiu Ratzinger dessas funções e correu ao Brasil abraçar o teólogo humilhado e reduzido ao silêncio? Pelo contrário, não sancionou todas as decisões dele e, finalmente, antes de morrer, não sugeriu o nome dele para seu sucessor?
Em determinada altura da sua homilia, Bento XVI ainda disse que são os crucificados que redimem o mundo, não os crucificadores. Esta afirmação faz parte da Boa Notícia de Deus, do Evangelho de Jesus. Mas que importa esta afirmação, se é dita por ele, o homem do Poder eclesiástico católico romano? Também o sumo sacerdote Caifás, do país de Jesus, profetizou, a propósito da acção subversiva e radicalmente libertadora deste, que era melhor morrer um só homem pelo povo, do que perecer a nação inteira. Porém, não reza a História (e o Evangelho de João) que foi ele, na sua condição de sumo sacerdote, o Poder, portanto, que nos dias seguintes, negociou com Pilatos e fez morrer de imediato Jesus na cruz? Que importa que Bento XVI tenha proferido aquela afirmação, como parte constitutiva do Evangelho de Jesus, se, entretanto, continua aí como monarca absoluto e, por isso, como um crucificador? Só os do Poder são crucificadores. Todos os mais são suas vítimas, crucificados, duma ou de outra maneira. À luz daquela afirmação de Bento XVI, temos que dizer que o humilhado/crucificado Leonardo Boff está a redimir a Humanidade, enquanto que o seu verdugo, agora Papa entronizado, seu crucificador, está a desgraçar a Humanidade. São os L. Boff de todo o mundo, as vítimas humanas de todo o mundo, que redimem/humanizam a Humanidade, não os poderosos, seus verdugos, vistam de presidente dos EUA, ou de Papa!...
E que dizer da solene investidura do pálio e do anel petrino? Vaidade das vaidades e tudo é vaidade! São assim os crucificados? Ou os crucificadores? O próprio Bento XVI deixou a sua boca fugir para a verdade, quando, ao tentar explicar o simbolismo de um e de outro, reconheceu que o pálio nos ombros dos Papas de Roma, é uma insígnia de Poder que remonta ao século IV. Só lhe faltou acrescentar que tal se ficava a dever ao imperador de Roma, certamente, como uma das múltiplas compensações com que ele agradeceu à Igreja católica a aliança que ela fez com o Império romano. Por outras palavras, o pálio faz parte dos “30 dinheiros” da traição da Igreja!... Por sua vez, ao anel com a efígie de Pedro e as chaves, chamam-lhe "anel petrino”. Mas a quem é que Bento XVI e os homens da Cúria Romana pensam que enganam? Acaso Pedro, depois que se converteu a Jesus e ao seu projecto do Reino/Reinado de Deus, foi a correr gravar um anel para deixar aos seus sucessores? Mas Pedro alguma vez teve sucessores? Acaso a Igreja de Jesus é uma monarquia? Pior, uma monarquia absoluta? Mas então, se é uma monarquia absoluta, a Igreja é uma Igreja de crucificados ou de crucificadores? Quem manda gravar em exclusivo anéis petrinos ou outros, para assinalar o seu poder sobre os demais, só pode ser do número dos crucificadores, não dos crucificados.
Também não posso esquecer a insistência com que, mais uma vez, se falou no decorrer desta cerimónia, do “poder das chaves”. Do "poder de ligar e de desligar". Trata-se de um poder do Papa sobre o próprio Deus! É mesmo uma obsessão eclesiástica, nomeadamente, dos seus chefes maiores e mesmo dos clérigos em geral, párocos incluídos. É uma doença. Uma esquizofrenia. Neste contexto, vir depois dizer, como Bento XVI disse, que, como Papa, é “o servo dos servos de Deus”, só pode ser escutado pela Humanidade ilustrada e evangelizada como anedota, como uma afirmação de humor negro!... Ou talvez não, mas então o Deus a que se refere a afirmação não é o Deus do Servo Sofredor de Javé, paradigmaticamente protagonizado por Jesus crucificado, mas o Deus do Império Romano e da Cúria Romana, sua sucessora, por isso, o Deus dos crucificadores! Só o servo dos servos de um Deus assim pode viver em semelhante luxo, em semelhante fausto, como esta cerimónia revelou ao mundo. Mas nada disto tem a ver com Jesus e o seu Evangelho. As discípulas, os discípulos de Jesus, não cuidam nunca em ser servos dos servos de Deus. Basta-lhes, para serem os mais humanos dos seres humanos, ser servas das servas das mulheres e dos homens, a começar pelos mais empobrecidos e mais oprimidos.
Finalmente, uma palavra sobre a exegese bíblica que Bento XVI fez na sua homilia. O Evangelho que foi proclamado na cerimónia litúrgica foi extraído do apêndice do Evangelho de S. João. Por isso, embora apresente Pedro e mais seis companheiros na faina da pesca e, concretamente, refira a pesca de 153 grandes peixes, e faça convergir toda a acção teológica para uma comida eucarística que acontece na praia, imediatamente antes de Jesus se dirigir a Pedro com aquela pergunta, três vezes repetida – “Tu amas-me mais do que estes?”, nunca este relato, para ser correctamente interpretado, pode ser posto em relação com o relato de outra pesca, concretamente, com aquele que aparece no Evangelho de S. Lucas, que também tem Pedro como principal protagonista. O episódio com que teria de ser relacionado é com uma outra comida de pão e peixe, nas margens do Lago de Tiberíades, também relatada pelo mesmo Evangelho de S. João, no extenso capítulo 6. Deste modo - é assim que se há-de proceder exegeticamente no respeito pela Palavra de Deus - a mensagem que salta da relação entre estes dois relatos é totalmente distinta daquela que o Papa fez ressaltar na sua homilia! Mas ao Papa Bento XVI, o que nesta circunstância concreta lhe interessava, era ressaltar o “Poder” que Jesus teria confiado a Pedro e, nele, é claro, a ele próprio, Bento XVI. E para isso, nem sequer hesitou em trocar as voltas à exegese!
Só que no meio de tudo isto, o Papa esqueceu-se dum pormenor que faz toda a diferença. E qual é? É que Jesus nunca teve poder nenhum para confiar a ninguém! Jesus foi a vítima maior do Poder. Como poderia então confiar a Pedro o que ele próprio nunca teve e até considerou como algo demoníaco e que sempre recusou ao longo da sua missão histórica? O que o relato do Evangelho de João que foi proclamado nesta cerimónia de entronização de Bento XVI quer ressaltar é que Simão (Pedro), ao contrário do que sempre têm dito e repetido todas as catequeses católicas, também esta homilia de Bento XVI, só naquele momento final, portanto, bastante tempo depois da morte crucificada de Jesus e da Fé no Ressuscitado Jesus, deu a sua adesão pessoal a Jesus e ao seu projecto político do Reino de Deus. Só por isso é que o relato evangélico conclui com aquela palavra de ordem de Jesus: “Segue-me!”, a qual, no Evangelho de S. João, nunca havia sido dita por Jesus a Simão Pedro.
Deste modo, meu caro Bento XVI, tudo é distinto do que tu disseste urbi et orbi, neste dia da tua entronização como Papa. O que disseste é mentira, a juntar a tanta outra mentira que tem sido ensinada como verdade, ao longo destes últimos dezasseis séculos de Igreja católica romana. Sabes bem que, no princípio, com Jesus e as comunidades cristãs que nos legaram o Evangelho de S. Marcos, não foi nada assim. Poder, foi coisa que nunca entrou na Igreja de Jesus, enquanto ela foi simplesmente comunidade de comunidades de irmãs e irmãos, em radical igualdade. Muito menos, o Poder de um só homem sobre todos os demais. Isso é demoníaco, meu irmão!. E temos todas, todos que lhe resistir. Tu também. Em nome de Jesus. Em nome do Evangelho!
Mas não é mentira apenas o que tu disseste durante a tua entronização. É mentira também tudo aquilo que fizeste e mostraste no decorrer da cerimónia. Isto, é claro, se quisermos fazer passar a mensagem, como é notório que tu quiseste, que o Evangelho de Jesus é por aí que vai. Não é! Sabes bem que não é. O que vai por aí é o anti-Evangelho do Império romano e de todos os demais impérios. Por isso, o que a tua entronização mostrou ao mundo foi o poder e poder absoluto, o fausto, a tirania, a opressão, o dogmatismo, o patriarcalismo, a vaidade, o luxo, a corte do Império Romano, agora, também da Igreja católica romana, sua sucessora. Por isso, as pessoas que lá estiveram presentes e os muitos milhões de pessoas que terão assistido via tv em todo o mundo, entre as quais também eu me incluo, ficámos tristes e oprimidos. A menos que tenhamos estado vigilantes (foi assim que procurei estar), como aquelas "virgens sábias" da parábola do Evangelho de S. Mateus. E como o próprio Paulo de Tarso, no princípio da Igreja, quando entre os antioquenos (cf. Gálatas 2, 11-14), corajosamente, resistiu a Pedro na cara, quando ele começou a meter os pés pelas mãos, no intuito de agradar aos judaizantes, em lugar de se manter fiel à Verdade do Evangelho que liberta.
Esta tua entronização, querido Papa Bento XVI, foi concebida e realizada para te aclamar como o maior, como o monarca absoluto da Igreja! Por isso, todas as pessoas que não lhe tiverem resistido e, pelo contrário, se tiverem deixado levar pelo envenenado sopro que nela se fez sentir, terão passado a ser teus súbditos, teus vassalos, teus servos, quando, pelo menos em Igreja, todas, todos devemos ser simplesmente irmãs, irmãos, em radical igualdade. Perdoa, por isso, que te diga, mas com esta tua entronização, tu foste para o mundo o rosto do Império de Roma, e da Igreja católica romana que lhe sucedeu, não foste, em momento algum, o rosto de Jesus. Nem mesmo, quando Partiste o Pão e Derramaste o Vinho em memória de Jesus. Pela simples razão de que Jesus é o Crucificado em comunhão com todos os crucificados da Terra e tu, nesta tua entronização, vestiste a roupa e assumiste o papel de todos os crucificadores.
2005 ABRIL 21
O primeiro acto mediático do papa Bento XVI não podia ser de pior augúrio. Foi ontem de manhã, directamente do Vaticano para todo o mundo, via televisão. Mais uma missa, a juntar a tantas outras com que nestes últimos tempos as televisões nos têm atacado sem o mínimo respeito pela nossa inteligência e pelo nosso bom gosto e pela condição de ateísmo generalizado que hoje se respira nas sociedades ocidentais, nem mesmo pela existência de outras Igrejas não católicas romanas. Aliás, missas e mais missas parece ser a única coisa que os clérigos sabem fazer, desde o mais desconhecido pároco de aldeia, ao bispo titular de cada diocese, a cada cardeal e ao próprio Papa de Roma. Também a este que acaba de ser eleito, e que assim, com um acto litúrgico como este seu primeiro acto mediatizado para todo o mundo, parece estar a dizer-nos que irá continuar a dar mais do mesmo à sua Igreja e à Humanidade. Manifestamente, todos estes meus irmãos na Fé católica fazem gala em mostrar que são peritos, não em humanidade, mas em ritos religiosos, com destaque para os ritos da missa. E realizam-nos, quanto mais vezes melhor, como se desses ritos religiosos dependesse a salvação da Humanidade, a justiça e a paz no mundo, o fim da pobreza em massa, o fim da seca ou das intempéries, o fim das guerras, a saúde das pessoas e dos povos. A pretexto de tudo e de nada, lá estão eles, de roupas exóticas vestidas, a presidir a mais uma missa, e outra, e outra. Depois de anos e anos a repetir os mesmos gestos, a ler o mesmo missal, já sabem toda aquela lenga-lenga de cor e salteado. E fazem-no como autómatos, na maior parte dos casos. Como quem despacha num cartório público. Quem nunca tivesse assistido a uma missa (é difícil encontrar alguém no Ocidente que ainda esteja virgem neste capítulo, porque as missas acontecem a toda a hora e instante e agora até nas televisões), ficaria completamente baralhado e boquiaberto com semelhante espectáculo religioso. Que tipo de homens são estes que fazem coisas destas, sempre as mesmas, neste início do século XXI e do terceiro milénio? Mas será que estas missas têm alguma coisa a ver com um tal Jesus de Nazaré, assassinado no ano 30 da nossa era, no país dos judeus, então sob ocupação dos poderosos exércitos do Império romano? Alguma vez Jesus, o de Nazaré, se meteu num templo, por trás de um altar, a fazer ritos uns a seguir a outros, servido/auxiliado por uma corte de súbditos exoticamente vestidos, na convicção de que uma tal acção contínua haveria de fazer chegar até nós o Reino/Reinado de Deus? E alguma vez Jesus de Nazaré pode ter recomendado/mandado às suas discípulas, aos seus discípulos que fizessem missas como estas que os clérigos da Igreja católica fazem em série e a granel, num automatismo de fazer enlouquecer quem a elas preside, quando essas mesmas discípulas, esses mesmos discípulos não o viram nunca a ele fazer semelhantes actos inúteis e até prejudiciais? Será que fazer Memória de Jesus de Nazaré – o Mandamento que ele nos deixou! – está a ser cumprido deste modo, com esta obsessão doentia de fazer missas umas atrás das outras, como os pagãos do tempo dele, que pensavam que era no muito repetir as mesmas coisas, os mesmos gestos, as mesmas palavras, os mesmos ritos, que Deus lhes seria favorável? Mas um Deus a quem as criaturas têm que invocar para que se nos torne favorável, ainda pode ser o Deus Vivo que nos criou e nos ama infinitamente? Ainda pode ser o Deus que se revelou em Jesus de Nazaré? Não é, pelo contrário, um Deus criado à imagem e semelhança dos poderosos que nos oprimem e dos ricos que nos empobrecem sem dó nem piedade e a quem todos os outros seres humanos, que eles têm como seus súbditos, hão-de prestar sucessivas homenagens e vassalagens, para assim conseguirmos que eles não sejam tão cruéis connosco, ou, pelo menos, não o sejam sempre, nem com toda a gente?
Bastaria, pois, que o primeiro acto do papa Bento XVI fosse o rito de uma missa com os cardeais que o elegeram de véspera, para eu já concluir que era de mau augúrio o seu pontificado. Mas há ainda outros pormenores que fazem toda a diferença, para pior, e aos quais os observadores e comentadores dos media de grande circulação e da Igreja católica em geral parecem não ter dado a devida importância. Mas eu dou. São apenas pormenores, é verdade, mas apresentam-se carregados de simbolismo. E que pormenores foram esses? Vejamos: esta primeira missa do novo papa, que, no encerramento dos anteriores conclaves, foi sempre reservada aos cardeais eleitores, acabou, desta vez, por ser difundida via televisão para todo o mundo. Em Portugal, o nosso Canal 1 da RTP, a braços com uma greve em massa dos trabalhadores, jornalistas incluídos, aproveitou a oferta e deu tudo em directo, a partir das 8 horas da manhã. Ora, a meu ver, esta circunstância transformou aquela missa, concebida para ser privada, na pior mensagem que o novo papa, Bento XVI, podia transmitir ao mundo. A missa, que já de si, é quase sempre uma estopada, mesmo quando rezada e cantada em português ou nas línguas de outros povos – há lá coisa mais triste e deprimente, humilhante e alienante?! – foi rezada e cantada em latim. Até a homilia do novo papa foi proferida em latim. O aspecto de Bento XVI, com aqueles trajes do tempo do Império romano e com aquele rosto hermético, pesado, carregado, mal dormido, era como se fosse uma espécie de fantasma do próprio imperador Constantino, convocador e presidente, como dele reza a História eclesiástica, dos primeiros Concílios ecuménicos. É como se ele, todos estes séculos depois, tivesse saído do túmulo para voltar a ocupar o seu trono imperial em Roma. Aquelas vestes com que Bento XVI presidiu à missa fazem lembrar as do imperador de Roma, quase sem tirar nem pôr. A língua em que comunicou é a mesma do imperador de Roma, porventura, apenas um pouco mais erudita que a dele. Nenhum pingo de emoção na voz, enquanto comunicou. Nenhum gesto humano. Tudo gestos ritualizados. Como os de um autómato. Nenhuma espontaneidade. Nenhuma surpresa. Apenas o previsível ritual. Mais os textos/as fórmulas do missal romano. Um autómato não faria pior. A homilia em latim teve que ser lida do princípio ao fim. O que obrigou os olhos de Bento XVI a manterem-se pregados ao papel. Sem nunca, ou quase nunca, olhar com ternura para os cardeais presentes à sua frente e concelebrantes da mesma missa. Aliás, todos eles foram tratados como menores. Não como iguais. Nenhuma alegria nos rostos de todos aqueles homens sem mulher. Alguns, àquela hora da manhã e à medida que o novo papa prosseguia na sua erudita homilia em latim, quase se deixavam vencer pela sonolência, tamanho é o peso dos anos que já levam de vida. Tenho a certeza que a maior parte deles terá tido dificuldade em acompanhar a mensagem que o novo papa comunicou,, uma vez que o latim, língua morta há muitos séculos, não é a primeira língua de nenhum deles, no seu dia a dia. Nenhum diálogo entre os concelebrantes. Nenhum comentário, nem nenhuma ressonância, por parte de algum dos cardeais presentes. Apenas as curtíssimas intervenções no cânon da missa, previstas/impostas pelo ritual. Por isso, uma missa sem alma. Sem nenhum espírito. Por maioria de razão, também sem Espírito Santo. Tudo muito eclesiástico. Católico. Romano. Onde estavam ali os seres humanos? Todos ficaram reduzidos a autómatos, a coisas, a objectos, para mais mascarados com todos aqueles vermelhos, sem nenhum sentido estético, bem nos antípodas da simplicidade de Jesus e do Evangelho de Deus que Jesus foi e é para sempre entre nós e connosco.
Que imagem de Deus terão estes homens eclesiásticos, a quem os profissionais da Comunicação Social gostam de chamar “príncipes da Igreja”? Em que mundo é que eles vivem? Porque sentem tanta necessidade de se distinguir do comum dos seres humanos? E o que precisam de esconder sob estas máscaras com que sempre se vestem? O que haverá de perverso na estrutura eclesiástica e no sistema eclesiástico católico romano que todo este exótico e todo este folclore de mau gosto ajudam a despistar?
Ao ver, durante breves minutos, as imagens televisivas (não tive pachorra para ver tudo até ao fim), dei comigo a pensar: Estas imagens são a pior mensagem que o novo Papa podia dar ao mundo, no início do seu mandato. Só lhe faltou estar no pequeno altar, de costas para os cardeais e para as câmaras de televisão. Em tudo o mais, o que nos foi mostrado é bem a imagem da Igreja católica romana anterior ao Concílio Vaticano II. Quase chorei de dor por esta Igreja que também sou. A Humanidade anseia tanto por um bispo de Roma e papa da Igreja universal que seja simplesmente humano, como Jesus, o de Nazaré, um companheiro e um irmão, capaz de se sentar connosco à mesa a partilhar um naco de Pão e um trago de Vinho, como quem se dá a si mesmo a comer e a beber, e as imagens desta primeira missa de Bento XVI apresentaram-nos um funcionário, um escravo dos ritos católicos e do Missal Romano, um estranho aos nossos olhos, um personagem de palco mascarado de imperador de Roma, um autómato, um triste. Bento XVI não foi capaz de nos surpreender. Nem por ser papa, foi capaz, por um momento, de se desprender do Missal e do Ritual, para nos sorrir, acenar através das câmaras. Não foi capaz de proferir uma palavra humana, por exemplo, Aproveito esta oportunidade em que me estais a ver em directo em todo o mundo para vos dar um abraço de irmão e de companheiro, e um beijo de muito afecto a todas vós, mulheres, especialmente, àquelas que há muitos anos não sabeis o que seja um beijo e um afecto. Nada de humano se viu em Bento XVI. Apenas o Sumo Pontífice! O mítico Santo Padre! Como pode ser de bom augúrio uma liturgia assim, a primeira que Bento XVI realizou para todo o mundo?
Mas se passarmos à análise do conteúdo da homilia, as coisas não ficam nada melhores. Os comentadores querem achar que sim. Mas não. Nunca podemos esquecer que Bento XVI de hoje foi o cardeal Ratzinger que, durante anos e anos, presidiu à Congregação para a Doutrina da Fé. É o cardeal que escreveu e levou João Paulo II a assinar a Constituição Dominus Iesus, Senhor Jesus, na qual todas as outras Igrejas são declaradas não-Igrejas. Se agora, na sua primeira homilia, dita em latim, fala de diálogo ecuménico, o que pretende? Ou terá a audácia de rasgar e desautorizar aquela documento papal, escrito por ele enquanto cardeal da Congregação para a Doutrina da Fé, ou então o diálogo de que fala não passa duma armadilha para tentar convencer as outras Igrejas a converterem-se à Igreja católica romana. E a aceitarem o primado de Roma.
Vejam como na missa de ontem, o Evangelho de Mateus, o único que fala de Simão Pedro e do “poder das chaves” foi de novo escutado e comentado em grande. Nunca essas perícopas do Evangelho foram escritas para justificar qualquer poder na Igreja (se o fossem, não seriam Evangelho de Jesus, mas uma perversão), muito menos, o poder monárquico absoluto que os papas de Roma sempre reivindicaram para si perante as nações e até perante Deus. Muito pelo contrário. Mas a verdade é que tem sido sempre nessa chave de leitura que as referidas perícopas são interpretadas pelos sucessivos Papas e suas Cúrias romanas. Por isso, as Igrejas cristãs que não integram a Igreja católica romana que se cuidem. O aviso já está dado urbi et orbi com esta missa em latim. Mas não só as Igrejas que não integram a Igreja católica. Também que se cuidem as teólogas, os teólogos da Igreja católica que não aceitam o pensamento teológico único. Vêm aí dias de aflição, no interior da Igreja católica. E na Humanidade em geral. Um grande Inverno poderá abater-se no interior da nossa Igreja. Mas não desanimemos. Pelo contrário, saibamos aproveitar este tempo de Inverno, para prepararmos umas com as outras, uns com os outros, numa grande rede à escala global e sempre em intensa e fecunda comunhão com o Espírito Santo, a Primavera eclesial e da Humanidade, já à porta.
2005 ABRIL 19
1. Ao que me garante a Editora Campo das Letras, Porto, é amanhã posto à venda em todo o país o meu novo livro O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO. É, porventura, o meu livro mais polémico. Muito mais polémico do que o livro FÁTIMA NUNCA MAIS, da mesma Editora. Basta dizer que o livro FÁTIMA NUNCA MAIS aborda uma temática que nem sequer faz parte do Credo católico, ao passo que este meu novo livro mexe com o núcleo central da fé cristã jesuânica e com o núcleo central da Igreja, exactamente a pessoa de Jesus de Nazaré.
Neste livro, atrevo-me a apresentar Jesus de Nazaré como nunca a Igreja, em todos estes séculos de Catolicismo romano, o apresentou. E não invento nada. Limito-me a apresentar uma nova tradução, devidamente actualizada para o nosso hoje e aqui cultural, do mais antigo dos quatro Evangelhos canónicos, o Evangelho de Jesus segundo S. Marcos. Ao mesmo tempo que faço acompanhar essa tradução de umas quantas breves indicações hermenêuticas, entremeadas no texto, que ajudam a “colocar” Jesus no século XXI. O resultado é uma explosão. Que poderá servir de ponto de partida para uma refundação do Cristianismo e da Igreja. Nunca as populações do mundo conheceram Jesus de Nazaré assim.
Este não é um livro para ler a correr ou em diagonal e depois arrumar numa prateleira a apanhar pó. É um livro para nos acompanhar todos os dias, como livro de bolso e de cabeceira. Estou em crer que a maioria dos católicos, mulheres e homens, não irá gostar dele. Quase ninguém gosta da verdade que liberta. O livro será ocasião de escândalo para bispos e clérigos, acomodados nos seus privilégios e instalados nas suas rotinas. E nas tradições de séculos, feitas de mentira. Mas não só católicos ficarão escandalizados. Também as Igrejas protestantes vão ficar escandalizadas. Só espero que o (inevitável) escândalo que este livro constitui seja a “porta estreita” por onde a Boa Notícia nele contida chegue às vidas concretas das pessoas, neste início do terceiro milénio.
Creio que o livro aparece no momento oportuno. Não fiz nada para isso. Mas não posso deixar de constatar que, nestes últimos meses, muito se tem falado de Jesus e de Cristo. Infelizmente, sem o mínimo de seriedade. Como se Jesus, o de Nazaré, alguma vez pudesse ser reduzido a personagem de romance. Ou como se a sua morte violenta na cruz pudesse ser resumida a um espectáculo sado-masoquista sem paralelo, com sangue a correr por todos os lados, como sucede no recente filme de Mel Gibson.
Este não é um livro sobre Jesus. É Jesus, ele próprio, em acção. É Jesus inteiro. Tal como as comunidades cristãs que redigiram o Evangelho de Marcos o experimentaram nas suas vidas. É Jesus militante. É Jesus político. É Jesus inteiramente devotado à causa do Reino/Reinado de Deus, no seu aqui e agora da Palestina, militarmente ocupada pelo Império Romano. É Jesus, o carpinteiro. É Jesus, o filho de Maria. É Jesus que não dá tréguas aos representantes do anti-Reino de Deus no seu país. É Jesus que leva o seu enfrentamento com os representantes do anti-Reino de Deus até à morte. É Jesus Homem, o Ser Humano como nenhum outro antes dele e depois dele. É Jesus que atenta contra o Templo de Jerusalém e o destrói simbolicamente. E, por isso, acaba condenado à morte e executado pelo Império de Roma.
Aquele Jesus que nos tem sido apresentado até hoje pelas catequeses das Igrejas nem aos calcanhares do Jesus deste livro chega. Tenho por isso a certeza que quem ler este Evangelho até ao fim, nunca mais deixará de regressar a ele. Ateus e agnósticos serão os primeiros a ficar agarrados ao Jesus deste livro. Mais do que isso, ficarão apaixonados.
O meu desejo é que ninguém fique indiferente perante este livro. Muito menos se deixe influenciar pelos possíveis ataques que possam erguer-se contra ele e contra mim, seu autor. As velhas acusações católicas que fazem contra mim, como essa de que não façam caso do que eu escrevo ou digo, porque eu não sou padre em exercício, são acusações que não tem mais qualquer cabimento. E só ficam mal a quem as profere e propala. Quem mais do que eu exerce o ministério eclesial e presbiteral de Evangelizar os pobres? Humildemente, faço a pergunta. E humildemente peço meças a qualquer um dos meus irmãos no ministério. Ou mesmo a qualquer dos Bispos. Que se apresentem. Podem não gostar do conteúdo do ministério presbiteral tal qual eu o vivo em Igreja e no mundo. O que não podem é continuar a dizer que eu não exerço o ministério. O Bispo da Igreja que está no Porto não me confiou nenhum ofício pastoral? E é preciso? Na Igreja de Jesus não há liberdade de iniciativa? O ministério está porventura acorrentado? O sacramento da Ordem, enquanto Acção do Espírito Santo, não é suficiente por si só para ajudar a criar ordem na sociedade e na Igreja, não a ordem da tirania e da mentira, evidentemente, mas a ordem da Liberdade e da Verdade? Foi para suscitar espaços de liberdade, mediante o ministério da Verdade, que um dia a Igreja católica me ordenou e impôs as mãos. Pois bem, este livro insere-se nesta dimensão. É incómodo? Tal como a Verdade. E a Liberdade. Mas alguma vez pode haver ministério eclesial e presbiteral fora da Liberdade e da Verdade?
2. Mas tenho ainda outra novidade a dar. O editor da Arca das Letras, de Gondomar, o meu amigo Soares Novais, esbarrou estes dias de intensa mediatização eclesiástica romana com o meu sítio, nomeadamente, com este Diário Aberto, que aqui tenho mantido regularmente há mais de um ano. Leu as reflexões que escrevi sobre o Papa João Paulo II, desde a sua lenta e mediatizada agonia até à sua “campa rasa” e não resistiu. Contactou-me e depressa me convenceu a fazer com a sua Editora uma Separata, em forma de livrinho. E acaba de me comunicar por telemóvel que o livrinho será apresentado esta sexta-feira, dia 22 de Abril, pelas 17 horas, na loja FNAC, de Santa Catarina, no Porto. Dei-lhe o seguinte título:
E SE COM O PAPA
ENTERRARMOS
TAMBÉM ESTA IGREJA CATÓLICA ROMANA?
Reflexões teológicas libertadoras
sobre a agonia, a morte, o funeral
e o túmulo de João Paulo II e ainda
sobre a eleição do novo Papa
Se puderem e quiserem, apareçam por lá. Para nos abraçarmos na liberdade. E na sororidade/fraternidade. E aproveitam e adquirem também O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO, que eu considero como o livro da minha vida. Efectivamente, sinto que valeu a pena ter nascido só para poder escrever este Evangelho.
3. Estava a preparar-me para rever o que escrevi até aqui, quando o meu telemóvel voltou a tocar. Era a minha amiga e irmã na Fé cristã jesuânica, Natália, há muitos anos enfermeira no Hospital de Gaia. Parece que adivinhou que eu não estava a seguir as notícias em directo na televisão nem na rádio. Salta-me com a notícia: “Já temos Papa!” E adianta que o escolhido pelos seus confrades foi o cardeal Ratzinger. Pelos vistos, depois de eleito, o cardeal Ratzinger decidiu esconder-se por trás do nome Bento XVI, que o precedeu no início do século passado, já depois do pontificado de Leão XIII. Natália quase chora de raiva e de indignação perante esta escolha. Ao contrário de mim, que, ao ouvir a noticia dos seus lábios, explodi numa sonora e espontânea gargalhada. Foi, certamente, a escolha menos desejada entre os membros da Igreja católica e da Humanidade em geral. Mas aquele que a Cúria Romana exigiria, para poder levar por diante e até ao fim a obra de destruição do Concílio Vaticano II, iniciada e desenvolvida por João Paulo II. Ratzinger foi, como se sabe, o braço teológico de Wojtyla. O inquisidor-mor que obrigou L. Boff, por exemplo, a auto-reduzir-se ao estado laical, para não morrer antes de tempo. É também o perseguidor-mor das teólogas e dos teólogos da Teologia de Libertação.
Se quisermos dizer que esta eleição teve o sopro do Espírito Santo, então temos que admitir, também na Igreja, aquele provérbio que se costuma aplicar à política: “Quanto pior, melhor”. Espero que esta eleição, com os media a mostrar tudo em directo (sobretudo, o folclore da chaminé, do fumo negro e do fumo branco), tenha acabado por revelar ao mundo o que é esta Igreja católica romana. O exemplo mais acabado de anti-democracia. Apenas 115 homens, todos de idade avançadíssima e todos homens sem mulher, pomposamente apresentados como “príncipes da Igreja”, acabam de escolher um deles para estar à frente dos destinos de cerca de mil milhões de católicas, católicos em todo o mundo. Escolheram um homem que já não está em idade para poder assumir as responsabilidades de uma pequena diocese, mas agora tem que assumir as responsabilidades da condução da Igreja universal! Nenhuma mulher, nem mesmo uma freira, pôde participar neste escrutínio. Nenhum bispo. Nenhum presbítero. Nenhuma leiga. Nenhum leigo. Apenas 115 homens, todos cardeais, purpurados, muitos deles já a descambar para a infantilidade da velhice. O presidente do império norte-americano que invadiu o Iraque de Saddam, a pretexto de que lá não havia democracia, bem pode preparar-se para invadir o Vaticano e depor o novo Papa, Bento XVI, porque é o chefe de Estado mais anti-democrata do mundo. Digo-o com humor, evidentemente. Porque não há pior ditadura do que a do Império norte-americano, mesmo que o seu presidente tenha sido eleito no decorrer de um processo “democrático”. O poder opressor dos media é imenso. Tirânico. Mas o poder eclesiástico que canoniza os seus chefes misóginos e autoritários não lhe fica nada atrás.
Temos papa! Tomem lá Ratzinger! A minha esperança é que o Espírito Santo, invocado sempre em vão pelos cardeais, antes e durante este conclave, sopre com violência e ternura nas vítimas da Cúria Romana e desta Igreja católica romana e desencadeie no seu interior um levantamento libertador, com sabor a Insurreição Eclesial sem precedentes, que dê à luz uma Igreja companheira da Humanidade, parteira, pobre, solidária, sem bolsa nem alforge, toda ao jeito de Jesus, o carpinteiro e o filho de Maria. Porque a esta Igreja católica romana, agora com Ratzinger ao leme, só nos resta enterrá-la.
2005 ABRIL 15
1. Ontem tive que me deslocar ao Hospital S. João, no Porto. Fui a uma consulta externa de rotina. Depois do cateterismo a que tive de me submeter, vai para três anos, para salvar duas coronárias enfermas, fiquei com esta consulta de rotina de vigilância que ainda se mantém. Mais ou menos de três em três meses, lá vou eu. O Dr. Cláudio, de idade semelhante à minha, faz questão de me continuar a acompanhar, como a tantas outras pessoas anónimas, para que possamos prosseguir na vida em plenitude de capacidades. Da minha parte, não pago nada por isso. Apenas as viagens. Como fui dador de sangue, durante cerca de 30 anos consecutivos, beneficio da isenção do pagamento das taxas moderadoras. Agora, com 68 anos, já não posso continuar a dar mais sangue. É da lei hospitalar. Mas isso não impede que continue a dar a minha vida pela vida do mundo. Sangue é vida. Dar sangue é dar vida. E de vida é o que o nosso mundo mais carece. E também de pessoas que se lhe dêem. Felizmente, continuam a ser mais as pessoas que vivem para se dar ao mundo, do que as que vivem para o roubar, matar e destruir. O que sustenta o nosso mundo é esse exército imenso de pessoas anónimas que vivem para lhe dar vida. Porque são pessoas anónimas, quase nem damos pela existência delas. Mas é graças a elas que o nosso mundo continua para diante, apesar dos sucessivos crimes contra ele e contra a vida que as minorias dos privilégios cometem, juntamente com o Império e as multinacionais da nossa desgraça. São vidas heróicas, as vidas da esmagadora maioria das pessoas do nosso mundo. Nem elas sabem que o são. São-no com tanta naturalidade, que não chegam a ter consciência do bem que fazem ao mundo. É nesse exército de pessoas anónimas que procuro incluir-me. Não sou tão anónimo assim, devido a certas circunstâncias alheias à minha vontade. Tenho, até, que carregar um pedaço da cruz da publicidade, da falta de privacidade. Mas nunca deixei que essa publicidade me subisse à cabeça. É uma cruz que carrego, não um privilégio. Procuro manter-me na minha postura de cidadão que vive para fazer viver a muitas, muitos, sem jamais aceitar integrar-me nas minorias dos privilégios. Não quero viver para roubar, matar e destruir, como as minorias dos privilégios fazem, tenham ou não consciência disso. Quero viver apenas para me partilhar pelo maior número de pessoas, libertar quem está oprimido, levantar quem está caído, animar quem está desfalecido, alegrar quem está deprimido, consolar quem está triste, ressuscitar quem está morto. Procuro fazê-lo na condição específica que é a minha, a de presbítero da Igreja do Porto.
Não julguem que é fácil. Não é fácil para ninguém, muito menos para quem vive na condição de presbítero da Igreja. Tudo à minha volta está preparado para eu rapidamente me integrar nas minorias dos privilégios e, por isso, nas minorias que estão aí para roubar, matar e destruir. É preciso muita vigilância para não se deixar seduzir nem cair. E também muito desprendimento. Muita fidelidade. Mas é a única maneira digna para qualquer ser humano que se preze. O que não for assim, é traição à Humanidade. Esta fidelidade é tanto mais difícil, quanto nem o mundo a entende. Basta ver como o mundo sempre louva as minorias dos privilégios e condena ao ostracismo quem vive para fazer viver a muitas, muitos, quem não embarca pela via da corrupção, da mentira, da demagogia, da esperteza saloia. Aquele que faz carreira, que sobe na vida, que enriquece da noite para a noite, que se torna grande, que se impõe aos demais, que se torna poder, é que costuma ser temido, admirado, respeitado, considerado, procurado, ouvido, imitado. Todos gostam de dizer bem de pessoas assim. Todos gostam de chegar a ser pessoas assim. Recusar ir por aí, sobretudo, quando tudo nos empurra e incita a ir por aí, exige muita força e muita lucidez. Só quem um dia se viu com mais preparação, com mais estudos, com mais desenvolvimento cultural, com mais capacidades, com mais conhecimentos e com mais solicitações da parte das minorias dos privilégios é que sabe quanta energia é preciso para resistir e manter-se na condição de simples ser humano que vive para fazer viver a muitas, muitos. Eu sei por experiência. É uma luta de todos os dias, de todas as horas. E uma luta que importa vencer todos os dias, todas as horas. Porque só quem a vencer até ao fim é que permanece humano para sempre. Ora, foi para sermos seres humanos à sua imagem e semelhança e para sempre, que Deus, o Deus que vive e faz viver, nos criou.
É por isso que não entendo a postura das chamadas Testemunhas de Jeová que se recusam a dar e a receber sangue (= vida), nem que seja naquela situação em que uma transfusão de sangue é a única saída para salvar a vida dos próprios filhos. Para cúmulo, fazem-no em nome da Bíblia, enquanto Palavra de Deus. Bastaria esta sua postura de princípio, para eu nunca aceitar ser membro duma tal congregação. E, se a Bíblia justifica esta postura de princípio, então só posso dizer que a deitemos à lixeira ou a queimemos na fogueira. Não pode ser Palavra de Deus, pelo menos, do Deus que vive e faz viver. Felizmente, não é a Bíblia que havemos de deitar à lixeira ou que havemos de queimar na fogueira. Muito menos as Testemunhas de Jeová, apesar de levarem a Bíblia a dizer uma aberração destas. O que havemos de deitar à lixeira e à fogueira é a interpretação que os dirigentes das Testemunhas de Jeová fazem da Bíblia, neste caso e em muitos outros, particularmente, naquele em que os dirigentes garantem Futuro apenas àquelas, àqueles que se fizerem membros da Congregação! Tais dirigentes recorrem a um tipo de discurso tão literalista e tão moralista que não ficam nada atrás dos fariseus e doutores da Lei do tempo e do país de Jesus, o de Nazaré. Aqui, que me perdoem as mulheres e os homens que hoje integram esta Congregação, mas não posso deixar de dizer que estão a ser arrastados pelos respectivos dirigentes para o abismo da mais crassa desumanidade. Não há pior caminho de desumanização dos seres humanos do que o proposto pelo farisaísmo. Sob a aparência de grande santidade, de impoluta moral, de fidelidade a Deus e à sua Palavra, arrastam as pessoas que se deixam enganar por eles para o pior dos abismos de desumanidade, de onde é difícil alguma vez regressar. Para a maior parte dos casos, é um caminho sem retorno. Porque quem se adentra por esse caminho, vive cada vez mais convencido de que está certo, de que está na via da verdade. Efectivamente, muitos deles eram alcoólicos, eram drogados, eram adúlteros, eram exploradores, davam mau viver em casa à família, eram gastadores, frequentavam os futebóis, a tasca, os cafés, os casinos, a prostituição e, depois que se fizeram membros da Congregação, correram por completo com tudo isso e tornaram-se homens exemplares, numa família exemplar, propagandistas porta a porta das suas crenças e dos terrores do Senhor Jeová. Semelhante mudança de vida atesta, segundo eles, que estão no caminho certo. Mas não estão. Donde se prova que até um certo tipo de virtude pode ser o pior dos vícios. Virtuosos eram os fariseus do tempo e país de Jesus. Exemplares. Juízes dos comportamentos dos demais. Tão virtuosos, que cortavam com quem não integrasse a sua seita, não seguisse as suas doutrinas, não praticasse as mesmas virtudes. Corriam com os leprosos, desprezavam os pecadores, condenavam à esterqueira os que não aderiam à sua congregação, apedrejavam até à morte as adúlteras, não comiam com os publicanos, eram exemplares no cumprimento da Lei de Moisés, respeitavam a lei do sábado, ao ponto de nem fazerem bem fosse a quem fosse, nesse dia, exibiam a Bíblia em frases que destacavam e colavam no exterior das suas vestes. Mas desconheciam por completo o que é a Misericórdia, a Graça, a Gratuidade, a Liberdade, a Alegria, a Política, o Cuidado da Terra, a Acção Política, a Militância pelo Reino/Reinado de Deus, o Fazer o Bem sem olhar a quem. Assim as Testemunhas de Jeová. Levam o seu fanatismo ao ponto de cortarem com os familiares que não aderirem à sua Congregação. E ninguém lhes fale em Política, muito menos, os convide à Acção Política. O cuidado da Terra não é com eles. Simplesmente, aguardam, de geração em geração, que o Senhor Jeová mande este mundo e esta Humanidade para estrume e, em seu lugar, erga uma Nova Terra, ocupada em exclusivo pelos aderentes da seita. Que crueldade! Não só das Testemunhas de Jeová, mas também do próprio Jeová. Ao fazerem este tipo de leitura, as Testemunhas de Jeová nem sequer se dão conta que vivem ainda com uma mentalidade e uma teologia em tudo iguais à mentalidade e à teologia das populações do tempo do dilúvio, muitos séculos antes de Jesus, quando, afinal, já iniciámos o terceiro milénio depois de Jesus. O mais grave é que os dirigentes maiores da seita demonizam de tal maneira os aderentes, que estes repetem os seus cruéis discursos, sem um pingo de dor pelas vítimas do Senhor Jeová, pelo contrário, exibem até um certo ar de sádica satisfação. Como se, desse modo, a sua condição de Testemunhas de Jeová fosse ainda mais estimulante. Por mim, digo: Preferiria milhões de vezes ser ateu, a ser crente num Deus como esse Senhor Jeová. Porque, bem vistas as coisas, é um Deus bem pior do que eu, já que eu seria incapaz de condenar alguém à lixeira, muito menos, pelo simples facto de alguém não ter aderido às teorias de uns quantos dirigentes, oriundos dos EUA, que garantem que o Senhor Jeová é mesmo assim. Por mim, limitar-me-ia a mandar para a lixeira essas teorias e esse Senhor Jeová e continuaria a acolher no meu coração todas as pessoas, inclusive, as pessoas vítimas dessas teorias e desse Senhor Jeová.
Infelizmente, continuam a ser muitas as pessoas que hoje se deixam seduzir por estas teorias e por este Senhor Jeová. As pessoas não evangelizadas sempre gostaram de se saber eleitas por Deus, em detrimento da esmagadora maioria das outras pessoas. Sentem-se estupidamente promovidas, quando se vêem seleccionadas e todos os outros rejeitados. Não dizem: Se rejeitas todas aquelas, todos aqueles e apenas me escolhes a mim, prefiro ficar com todos esses rejeitados, a ficar contigo. Ou nos salvas a todas, todos, ou prefiro ficar entre os condenados. Esta reacção, altamente humana e, por isso, digna de um crente em Deus, pelo menos, no Deus que vive e faz viver, já aparece surpreendentemente em Moisés, durante a travessia do deserto. A Bíblia é quem nos relata esse testemunho. Pelos vistos, os dirigentes das Testemunhas de Jeová só conhecem a Bíblia que lhes convém. Privilegiam o chamado Antigo ou Primeiro Testamento, em detrimento do Novo, ou Segundo Testamento. E, mesmo desse que privilegiam, apenas dão atenção e ênfase àquelas perícopas (nem sequer capítulos inteiros ou livros inteiros) que mais lhes convêm, e o resto deixam para lá. Deste modo, tornam-se cegos que guiam outros cegos. São dirigentes ao serviço, não de Deus, o Vivo-que-faz-viver, a Verdade-que-liberta, a Luz-que-nos-faz-lúcidos, mas do Demoníaco, o Assassino-que-nos-mata-lentamente, a Mentira-que-nos-oprime-e-aterroriza, o Obscurantismo-que-nos-faz-fanáticos. Tal e qual o Império que os pariu!
2. Pensei nestas coisas, enquanto seguia estrada fora, na carrinha, rumo ao Hospital, sob uma inesperada e forte chuvada, e ao som duma espantosa música emitida pelo programa “Despertar a 2”, da Antena 2. O trânsito nos acessos à cidade estavam impossíveis e os últimos quilómetros foram a passo de caracol. Mantive-me calmo toda a viagem. Em contemplação interior. À escuta dos sinais dos tempos e do Espírito que por eles se nos comunica e nos sororiza/fraterniza. É por isso que nunca perco tempo, quando viajo. Mesmo que viaje fisicamente sozinho, nunca ando sozinho. Ando sempre em comunhão. À escuta. A Palavra que escuto é quem me faz. E me liberta. Continuamente. A quem me pergunta se não rezo, se não faço oração, é isto que respondo. Mas então acham que Deus é para o bombardearmos com recados, com pedidos, com louvores estúpidos? Deus é para o deixarmos ser Deus em nós. Em mim. Não sei de outra espiritualidade que não seja assim. Jesus, o de Nazaré, não teve outra. Por isso, falava tão carinhosamente de Deus como Abbá, Mãe/Pai querido, como as meninas, os meninos hoje dizem Mamã, Papá, quando ainda não sabem o que é ter medo do adulto, só o experimentam como Confiança, Acolhimento, Companhia, Presença, Estímulo, Abertura, Desafio. Quem vive à escuta, nunca perde tempo. Sempre ganha. Não me vejo como homem-ilha. Experimento-me como homem-em-relação. Por outro lado, a música com Poesia dentro – disse Poesia, não disse poemas; e há música que só tem ruído e alienação dentro e dessa fujo a sete pés – é linguagem que me abre ao Mistério. O mistério que eu próprio sou e também, e sobretudo, o Mistério Maior que me faz ser o mistério que sou.
Mas a escuta trouxe-me ainda outras mensagens. Fez-me viajar em pensamento até ao Vaticano, onde presentemente vivem os cardeais da Igreja católica romana, a fazer as vezes de papa. Inevitavelmente, recordei-me da mensagem que o cardeal de Lisboa enviou, desde lá, para o nosso país e que os media portugueses se apressaram a destacar, com laivos vampirescos. Neste momento, o catolicismo romano é o que está a dar. De tão vazio e de tão alienante que é, vende que se farta. Fosse evangélico e, sobretudo, jesuânico e seria ostracizado. Como é romano e à Império romano, à João Paulo II, à Ratzinger, à Opus Dei, à senhora de Fátima, à cardeal José Policarpo e à cardeal José Saraiva Martins, vende que se farta. E por isso é tão difundido. Para nossa vergonha, das, dos que cremos a Igreja de Jesus. É o único que agrada às multinacionais da comunicação social e a todas as outras multinacionais que nos devoram a alma. Como já escrevi aqui neste diário, esta é a hora do Poder das trevas, do Obscurantismo. E é nessa direcção que vai também a mensagem de D. José Policarpo. “Aqui estamos nós – escreve candidamente (ingenuamente!) o Bispo da Igreja que está em Lisboa – 115 homens que Deus há muito chamou e consagrou para o serviço do seu Povo, a preparar na simplicidade da fé, um acto profundamente humano: votar para escolher aquele que, certamente, Deus já escolheu. Mas não estamos à espera que Deus nos mande um anjo a anunciar a sua escolha. Ele quer que a sua escolha se exprima na nossa. É tudo tão simples e tão sereno. Temos apenas de fazer o que nos é pedido, na simplicidade da nossa consciência, acreditando profundamente que é o Senhor quem conduz o seu Povo.”
Digam lá se pode haver maior candura. Maior infantilismo. Maior ingenuidade. Ou maior desfaçatez. Ou maior demagogia. Com que facilidade o cardeal invoca aqui o nome de Deus. Para justificar o injustificável, como é a existência do Papado romano, o seu processo de eleição por este punhado de homens idosos e todos celibatários à força, nenhuma mulher, nenhum homem fora do âmbito do Poder eclesiástico que, nestes dias, está lá em Roma na sua expressão ao mais alto nível. Como se Deus, o de Jesus, alguma vez pudesse estar implicado com este modo de fazer as coisas. Como se Deus, o de Jesus, gostasse de hierarquias eclesiásticas ainda por cima misóginas.
Uma espada atravessa-me a alma. Tanta Mentira dita assim como verdade. O santo Nome de Deus invocado por um homem do poder eclesiástico para justificar esse mesmo Poder. Só pode ser outro Deus, que não o de Jesus, crucificado pelo Poder eclesiástico da época, coligado com o Poder do Império de turno. O Deus de Jesus não abençoou o Poder eclesiástico do Sinédrio e dos Sumos sacerdotes, apenas abençoou a sua vítima maior, Jesus de Nazaré. Ao ressuscitá-lo, foi isso que Deus proclamou. Foi esse Evangelho, essa escandalosa boa notícia que Deus deu ao mundo. E mandou que, desde então, a proclamássemos em todas as nações até ao fim dos tempos.
Mas nunca o chefe de Estado do Vaticano e simultaneamente Papa de Roma pode anunciar esta Boa Notícia. Apenas anuncia o seu contrário. Do Poder, enquanto tal, nunca sai nenhuma boa notícia para os povos das nações, a menos que o Poder comece por reconhecer que não tem razão de ser e decrete a sua própria dissolução. O Papa João Paulo II bem correu pelas nações do mundo, bateu todos os recordes de viajante, mas não anunciou o Evangelho de Deus que liberta os povos. Anunciou a Mentira feita de Moralismo que oprime os povos. Aliás, foram povos oprimidos que rumaram para Roma, por ocasião dos seus funerais, feitos com a pompa e a circunstância de um César de Roma. Os povos libertos para a liberdade já não se ocupam com mortos, muito menos, com imperadores mortos, deixam os mortos enterrar seus mortos. Ocupam-se por inteiro da vida, cuidam da vida, promovem a vida das pessoas. Cuidam da Terra, do Planeta. Não morrem pelo seu chefe autoritário. Dão a vida pelos sem-vida, para que todos vivam e vivam em abundância.
3. Arrepio-me todo, quando oiço ou leio os media admitir a hipótese de o novo papa poder ser português. Ninguém fala no cardeal José Saraiva Martins, manifestamente pueril e infantil nas suas posições. Aquilo é ingenuidade por todos os poros. Desde que propôs a beatificação dos infantes de Fátima, vítima da Senhora de Fátima, e agora ainda quer a sua canonização, ficou manifesto aos olhos do mundo ilustrado e evangelizado que se trata de um funcionário eclesiástico que fará tudo o que o seu chefe de turno mandar. Os critérios por que se pauta não são os da Verdade e os da Justiça, os da Liberdade e os da Dignidade humana. São os da subserviência ao chefe de turno, cujos desejos para ele são a vontade de Deus. Não há pior idolatria que esta, pior idólatra que este. Não vêem assim? Tanto pior. A Mentira sempre se disfarçou de Verdade e consegue enganar até os mais inteligentes, nomeadamente, quando eles têm interesses corporativos e pessoais a defender que colidem com a Sororidade/Fraternidade Universal. De quem se fala para papa, e com alguma insistência, é do cardeal José Policarpo, de Lisboa. Tenho para mim que é uma hipótese com pernas para andar. Se os lobis Fátima e Opus Dei se unirem, quem lhes resistirá? A Opus Dei tem o controlo do Vaticano e da Igreja. É a organização franquista católica que aliena a inteligência das elites católicas e os quadros destinados a conduzir a economia, a educação e a política nas nações, onde ela está implantada. Fátima é a multinacional religiosa que aliena as massas populares, as populações analfabetas, não escolarizadas, subdesenvolvidas, tolhidas por ancestrais medos de deusas e de deuses que não podem deixar de correr para junto da imagem da deusa branca, para que ela lhes devore a alma e a consciência. É, pois, uma possibilidade. Mas, se por hipótese absurda, se concretizar, é a desgraça maior da Igreja católica. Ficaria, durante não sei quantas gerações mais, nas mãos da alienação refinada dos dirigentes da Opus Dei e da alienação das massas, conduzida pelos clérigos da senhora de Fátima. Seria o desastre completo da Igreja católica. O Obscurantismo e a Opressão levados ao extremo. Mas como a senhora de Fátima é uma deusa portuguesa e o cardeal José Policarpo é português...
Espero que tal desgraça não suceda. Mas nunca se sabe. O poder dos dois lobis é enorme. E está globalizado. Basta dizer que sem a contribuição do lobi americano do Exército Azul, cuja sede está por trás do santuário de Fátima, nunca a senhora de Fátima teria saído da região centro e do norte do país. Nunca teria sido globalizada. As imagens de Fátima que estão espalhadas por quase todo o mundo, como peste destinada a empestar e a infantilizar as populações, foram espalhadas por ele. Dinheiro é o que não lhe falta. E fanatismo também. Duas realidades que têm por pai a Mentira, não o Espírito Santo. E que dizer do lobi Opus Dei? Durante o reinado do papa defunto, tornou-se um Império global. O Império do Moralismo, portanto da Mentira. Usa o nome de Deus, mas para melhor oprimir e infantilizar as pessoas e os povos. Ai de quem lhe cair nas garras. Franco, à beira dos actuais dirigentes da Opus Dei, seria um mero aprendiz de opressor!
Parte-se-me a alma só em pensar este cenário. É o pior de todos. Só me alegraria com a sua concretização, nos próximos dias, se também aqui for verdade o provérbio: “Quanto pior, melhor”. O itinerário de Jesus de Nazaré parece ter revelado que, também na economia da libertação/salvação, dinamizada na História pelo Espírito de Deus, aquele provérbio se aplica. Mas então, haverá muito sofrimento nos próximos tempos. Por mim, desejo que a nossa libertação, como Humanidade e como Igreja católica, aconteça num processo histórico, cujas dores de parto, sejam mais suaves. Sofrimento humano, já temos demais. Estejamos atentos. E disponíveis para deixar Deus ser Deus em nós. Se o novo papa for latino-americano, ou africano, o que mais posso desejar é que ele renuncie de imediato à função de chefe de Estado do Vaticano e depressa erga a sua tenda, sucessivamente, no continente de onde provém, depois na África ou América Latina e, finalmente, na Ásia. Basta de papas viajantes, turistas, a difundir Moralismo que oprime. Surja um papa que erga a sua tenda entre os mais pobres e mais oprimidos do mundo. E viva fraternalmente com eles.
4. O túmulo do papa João Paulo II já abriu ao público. A tão badalada “campa rasa” é um luxo, mas que luxo! Bem ao gosto de Karol Wojtyla. O homem não deixou nada ao acaso. Quer mesmo ser aclamado Santo! E já. A sua Polónia agradece reconhecida. E Roma também. É a papolatria no seu melhor. Será que ninguém vê que toda esta encenação de santidade se destina a esconder a podridão do catolicismo romano, os seus gravíssimos pecados contra as mulheres impedidas do acesso aos ministérios ordenados, contra os homossexuais e lésbicas, contra os casais que procuram uma paternidade/maternidade consciente e responsável segundo os métodos da ciência, contra a teologia da libertação e contra as teólogas, os teólogos da dita, contra o celibato opcional dos presbíteros da Igreja, contra o uso responsável do preservativo, contra as outras Igrejas, reconhecidas apenas como associações ou para-Igrejas, contra a democracia na Igreja, contra os direitos humanos no interior da Igreja, contra os profetas e poetas da Igreja, contra as culturas de cada povo, contra o pluralismo de Igrejas, contra o Vaticano II, numa palavra, contra o desenvolvimento duma Igreja sem poder, de iguais e de irmãs/irmãos?
As televisões mostram o túmulo e referem a presença sobranceira de um ícone muito querido ao papa defunto: a imagem duma virgem com um menino sentado num dos braços. Pensam que o ícone representa Maria de Nazaré e o seu filho Jesus? Nada disso. É exactamente a imagem da mítica deusa Hera, cujo culto na Roma imperial atraía mais multidões que a senhora de Fátima hoje em Portugal. Infelizmente, o Papa João Paulo II nunca se deu conta deste desvio. Ou, se deu, deixou para lá, consciente de que o Paganismo católico é que dá dinheiro e prestígio ao Vaticano. Só a esta mítica deusa do Paganismo é que João Paulo II pôde dizer o que disse até à exaustão: Totus tuus, Todo teu. Só que este era o grito que os fiéis mais fanáticos dirigiam à deusa das deusas que supunham virgem e mãe ao mesmo tempo.
Maria, a de Nazaré e Jesus, o de Nazaré, não têm nada a ver com esta representação. Aliás, Jesus cresceu e foi crucificado. E, desde então, é o Ressuscitado. Conclusão: Isto tudo para dizer que o túmulo do papa João Paulo II é o seu último acto de vaidade. É também a manifestação mais crassa do Cristianismo católico paganizado que ele sempre seguiu e divulgou nas suas viagens pelo mundo. Só por isso as populações não evangelizadas se revêem nele. Esse é também o Cristianismo católico delas. Não o Cristianismo de Jesus. Aquele é o Cristianismo de "porta larga". O Cristianismo de Jesus é o Cristianismo de "porta estreita". Só este é que nos salva, isto é, nos faz humanos e sororais/fraternos. Políticos, não religiosos. É por este que vou.
2005 ABRIL 12
A sala tinha capacidade para acolher 300 pessoas. Acolheu apenas cerca de 100. Mesmo assim, foi uma festa. Nenhuma das pessoas que aceitamos o convite e fomos assistir à peça VARIAÇÕES ENIGMÁTICAS, apresentada pelos insignes actores Júlio Cardoso e António Reis, da Companhia de Teatro Seiva Trupe, do Porto, poderá, alguma vez, esquecer a noite de sábado passado, 9 de Abril, no Auditório Municipal de Lousada. A peça de Eric-Emmanuel Shmitt é um monumento de humanidade, nas suas mais apaixonantes contradições e opções, nomeadamente, na área dos afectos e da sexualidade. E os actores que lhe deram vida foram insuperáveis. O facto de estarem a trabalhar completamente de graça, num gesto de invulgar solidariedade com a construção do BARRACÃO DE CULTURA, da nossa Associação Cultural AS FORMIGAS DE MACIEIRA (da Lixa) parece que os transfigurou e levou-os a fazer deste momento, porventura, o melhor momento das suas vidas de actores profissionais. Nunca o teatro foi tão alto e tão fundo, em perfeição. Por mim, senti-me arrebatado e emocionado até às lágrimas de alegria e de festa. Os 15 €, que cada pessoa teve que pagar pela entrada (também fiz questão de pagar a minha, evidentemente) são uma gota de água num oceano. Um espectáculo desta qualidade e grandeza não há dinheiro que o pague. As pessoas que responderam presente foram as mais sábias nessa noite. Inclusive as que vieram de longe (houve quem viesse de Almada e da Caparica, de propósito, só para poder participar no espectáculo!) não se cansavam de testemunhar no final que o seu esforço saiu bem recompensado. Por mais anos que vivam, dificilmente voltarão a poder saborear um momento cultural e espiritual como o desta noite. Além disso, houve ainda o aliciante da solidariedade com a construção do Barracão de Cultura. A consciência de que o dinheiro da entrada vai transformar-se num espaço cultural a erguer numa pequena aldeia como Macieira da Lixa, deu ao espectáculo outra dimensão, a da solidariedade com a cultura, não com a caridadezinha. E isto faz toda a diferença. Porque não falta quem se mostre aí disposto a “ajudar” na construção de centros sociais, paroquiais, casas do Gaiato e outras instituições do género, destinadas a desenvolver no seu seio acções de benemerência, na linha das IPSSs. Mas ajudar a erguer “ventres” onde se desenvolva a cultura e actividades destinadas a fazer crescer as pessoas em consciência crítica, a abrir os olhos da consciência das pessoas que os templos paroquiais e outros quase sempre mantêm fechados e mergulhados na ingenuidade, já é muito menos frequente. Felizmente, é para aqui que aponta o Barracão de Cultura da nossa Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA. E quem se apresentou a participar no espectáculo sabia disso e foi também por isso que a sua participação no espectáculo teve outra alegria e outro sabor. É claro que, depois do espectáculo, a surpresa e a festa eram indescritíveis. Algumas destas pessoas foi a primeira vez que foram a uma sessão de teatro. O seu deslumbramento, no final, não podia ser mais completo. Nunca haviam imaginado que a noite ia ser tão intensa e tão profundamente humana. A festa entre todas as pessoas teve mesmo foros de sororidade/fraternidade, sem que fosse necessário puxá-las para essa dimensão. Ela aconteceu com toda a naturalidade. A confirmar que a cultura e a solidariedade libertadora têm esse condão, pois andam animadas pelo Sopro que faz irmãs e irmãos as pessoas que se deixam envolver e fazer por elas.
Infelizmente, muitas foram as pessoas a quem pessoalmente convidei e que não apareceram. Nem deram qualquer resposta ao meu convite pessoal. Enviei pela Internet cerca de 300 e-mails para outras tantas pessoas, algumas no estrangeiro; e cerca de 200 mensagens por telemóvel. A esmagadora maioria nem me respondeu! Creio que nem se terão dado ao trabalho de ver que tipo de convite era o que eu lhes fazia. Tinham que quebrar e sair das suas rotinas de fim de semana e não foram capazes desse pequeno esforço suplementar. Algumas responderam a dizer que não vinham. E destas, um pequeno número, até se insurgiu contra mim. Acusam-me de estar obcecado com o Barracão de Cultura e de tentar arrastar para ele as pessoas de longe, consciente de que as de perto nem sequer chegam a perceber, neste momento, o valor do projecto. Tais pessoas nem sequer se aperceberam que, neste caso, o essencial era o espectáculo de teatro que tinham oportunidade de ver sem grandes custos. Parece que o facto de o espectáculo ter sido oferecido pela Seiva Trupe à nossa Associação constituía um crime. Como se as populações das pequenas aldeias como Macieira da Lixa não tivessem direito à cultura, nem a usufruir de espaços que as ajudem a passar da situação de consciência ingénua para a de consciência crítica, da situação de ignorância para a de menos ignorância.
Tomara eu que em cada aldeia crescesse uma casa ou um Barracão de Cultura. O que seria o nosso país, se cada aldeia tivesse podido contar, desde o princípio, com a contribuição de um barracão de cultura, tal como, infelizmente, sempre contou com a de um templo paroquial? A verdade é que ainda hoje, neste início do século XXI, não há aldeia do país, por mais pequena que seja, que não tenha lá, bem no centro, o seu templo paroquial. Entretanto, contam-se pelos dedos as que também podem contar com um espaço de cultura. Ora, como diz a estrofe de um canto do meu livrinho Canto(S) nas Margens:
Cada terra com seu templo
Difunde a cada momento
Ópio e resignação
Um Barracão de Cultura
Há-de ser a estrutura
Que produz libertação
E uma outra:
Um mundo de analfabetos
Governado por espertos
Não é casa é prisão
Um povo que estuda e lê
Fica culto já se vê
Faz do mundo uma mansão
E ainda estoutra:
Quem estuda e trabalha
E pra si nada amealha
Cresce em Ser e Liberdade
Respira Sabedoria
Veste Paz e Alegria
É presença de Humildade.
Por ter consciência de que as coisas são assim, é que trabalho e me esfalfo pela concretização deste sonho. A sua concretização nesta freguesia ficará como um sinal, também para as demais freguesias do interior. Os párocos apostam na religião e nos cultos ritualizados que alienam as populações e as infantilizam. Eu aposto na cultura que liberta as pessoas e as torna protagonistas. Populações cultas são populações de olhos abertos, que pároco algum, demagogo algum, conseguirá enganar. Populações cultas são populações politicamente intervenientes, que passam a cuidar de si e da terra, como a nossa casa comum. Garantem um futuro muito mais decente a este nosso presente ainda tão pouco ilustrado.
Na dinamização deste espectáculo e na sua difusão, visitei por mais do que uma vez as escolas e falei com professores da cidade da Lixa e da cidade de Felgueiras. Também visitei as escolas da vila de Lousada e falei com professores. Contactei pessoalmente, funcionários das instituições bancárias, pessoal que trabalha nas farmácias nos CTTs; consegui que a Rádio Felgueiras me ouvisse a propósito da iniciativa e depois, durante dias e dias, e várias vezes ao dia, falasse com entusiasmo do espectáculo. Em suma, desdobrei-me em contactos, para que o Auditório Municipal de Lousada se enchesse. Os frutos visíveis de todas estas diligências foram quase nenhuns. Fui muito bem recebido em toda a parte. As falas das pessoas foram muito bonitas e simpáticas. Mas a verdade é que quase ninguém correspondeu à minha expectativa. Não consegui ver um único professor das escolas da cidade da Lixa no espectáculo. E de Felgueiras também se puderam contar pelos dedos de uma mão os professores que marcaram presença. Este fracasso é uma cruz que me custa carregar. Nunca pensei que os nossos professores do ensino público estivessem tão desmotivados de iniciativas culturais de qualidade. Desperdiçarem uma oportunidade como esta, nunca eu imaginei que os professores fossem capazes. Mas foram. Por isso, as novas gerações que frequentam estas e outras escolas como estas que se cuidem. Quando os mestres andam tão arredios da Cultura, que mestres e que educadores poderão ser? Terão futuro gerações preparadas e educadas por professores assim, que se limitam a ensinar o que está no manual escolar, quando do que verdadeiramente precisamos é de professores que sejam mulheres, homens de cultura, sábios, poetas, mestres de sabedoria? Pobre país este, que não lê, nem escuta os seus poetas, não faz caso dos seus profetas, não valoriza nem aproveita os seus actores, a não ser que eles se rebaixem ao nível de actor de novela mais ou menos abrasileirada.
Fosse eu ministro da cultura e decretaria o teatro como disciplina obrigatória desde o primeiro ano de escolaridade até ao último. E ainda um curso superior de teatro para formar actores profissionais, mulheres e homens. Cada escola, do ensino básico à Universidade, teria que ter o seu palco por onde passariam todos os discentes e docentes. Também daria toda a importância à poesia. Por exemplo, decretaria que a primeira aula e a última, de cada dia, em todas as escolas do país se iniciassem e encerrassem com a leitura/declamação de um poema, quer dos poetas mais consagrados da nossa mátria/pátria, quer dos poetas que se revelassem ao longo dos sucessivos anos de escolaridade. E cada estudante que não se fizesse acompanhar na mochila de um livro de poemas deveria ser objecto de um inquérito, para tentar descobrir a razão de tão grave anomalia no seu desenvolvimento cultural e psicológico. Como pode gostar da vida e da Utopia quem não gosta da Poesia e do Teatro, nem cultiva a Poesia e o Teatro?
Foi, por isso, um pesadelo esta minha incansável, mas tão pouco conseguida, mobilização de pessoas para este inesquecível espectáculo de teatro, da Seiva Trupe, em Lousada. Nunca pensei que a classe docente das escolas deste concelho de Felgueiras (o resto do país não será muito melhor) andasse tão arredia do teatro, mesmo do teatro feito por profissionais de altíssima qualidade, como era aqui o caso em causa. Apertou-se-me o coração, quando, à hora de começar o espectáculo, me vi assim tão sem todas essas pessoas que procurei mobilizar. E chorei com a alma. Que futuro para um país que passa ao lado do trabalho criador dos seus actores, mulheres e homens? E dos seus escritores, mulheres e homens? E dos seus poetas, mulheres e homens? Torna-se um país sem alma. Vendido ao diabo do consumismo e da preguiça intelectual, sem dúvida, a pior de todas as preguiças. Quem nos acode?!...
2005 ABRIL 08
Escrevo à hora em que começam em Roma os funerais do papa João Paulo II. Escrevo contra o obscurantismo dos grandes media (nunca, como nestes dias, eles foram o que dizem ser: meios de comunicação social de massas!). Escrevo, como um acto de saúde mental e de resistência. Também de humildade e, por isso, de lucidez. Só os humildes podem ser lúcidos. Os soberbos, os poderosos, os ambiciosos nunca o serão, ainda que possam ser muito inteligentes. A sua inteligência trai-os, porque coloca-se ao serviço dos seus interesses e dos interesses das suas corporações, não ao serviço da Verdade que liberta e da Justiça que nos abre à sororidade/fraternidade universal. Felizes os humildes, porque a Verdade os faz livres e humanos. Ai dos soberbos, dos poderosos, dos arrogantes, dos autoritários, porque constroem um mundo inumano, bem à medida das suas ambições, no qual os seres humanos dificilmente respiram e sempre vivem em imensa minoria e em estado de perseguição, de ostracismo, de marginalização. Assediados por multidões mais ou menos ululantes e acríticas, por isso, facilmente manipuladas pelos poderosos e todos os seus media, o que as torna disponíveis para, a qualquer momento, gritarem: “Crucifica-o, crucifica-o”, até banirem do seu seio aquelas poucas mulheres, aqueles poucos homens que se atrevem a ser lúcidos, dissidentes, livres, autónomos, senhores dos próprios destinos, em lugar de serem um rebanho, como elas, ocupado exclusivamente com os seus pastos e com os jogos de circo – hoje, as novelas, as quintas das celebridades, os futebóis, as missas ritualizadas, as senhoras de Fátima e o culto dos mortos – com que os seus arrogantes donos o mantêm regularmente entretido.
“Esta é a vossa hora e o domínio das trevas”. As palavras são atribuídas a Jesus, o de Nazaré, pelo Evangelho de Lucas, precisamente no momento em que “uma multidão de gente”, guiada por um dos Doze, Judas, se aproximou dele para o prender, lá onde ele se encontrava já em situação de clandestinidade, perseguido pelo Poder. Também eu, às muitas pessoas que, nestes dias, se me têm dirigido, perplexas, e me têm perguntado como é que se explica todo este fenómeno mediático em torno do cadáver do Papa e sobretudo como se explica a presença em Roma das multidões, em vários milhões – já há quem aponte a cifra de 5 milhões! – oriundas de quase todo o mundo, mas com predominância para a Polónia, só posso responder com estas mesmas clarividentes palavras de Jesus: Esta é a hora do poder das trevas. Esta é a hora do obscurantismo. Esta é a hora do irracional. Esta é a hora da demência generalizada. Esta é a hora do triunfo do irracional sobre o racional, do gregário sobre o indivíduo, das trevas sobre a luz, da manipulação sobre a liberdade, do rebanho sobre os sujeitos, da demência sobre a ciência, das massas sobre as pessoas.
Roma está transformada, nestes últimos dias, numa imensa necrópole. E não só Roma. Quase todo o mundo, graças ao poder das trevas ou poder obscurantista dos media que, directamente de Roma, invadem as nossas casas com as imagens do cadáver do papa, artificialmente mantido incorrupto para poder ser doentiamente exibido e idolatrado, durante dias e dias.
Ninguém, dos grandes da Igreja católica se dá conta, mas toda esta postura eclesiástica altamente mediatizada, até à demência total, é uma espécie de parábola do que foi o pontificado do papa João Paulo II e do que é hoje a Igreja católica romana. Tudo o que o papa disse e fez, e, por ele, com ele e nele, tudo o que a Igreja católica romana diz e faz, pareceu, parece vida e serviço à vida, mas foi, é morte e serviço à morte. Ao contrário de Jesus que veio para que todos tenham vida e vida em abundância - mataram-no por via disso! - o papa João Paulo II e por ele, com ele, e nele, a Igreja católica romana, veio, vem para que todos tenham morte e morte em abundância. Estes dias é isso que nos mostram à saciedade. Basta saber ver para lá das aparências.
Ironicamente, o papa que, nos seus discursos moralistas, proferidos em todo o mundo, tantas vezes pareceu defender a cultura da vida contra a cultura da morte, foi, afinal, o arauto maior da cultura da morte. Esta encenação final, arrastada ao longo de mais de uma saturante semana, meticulosamente preparada por ele e pelos mesmos homens de mão que sempre o serviram ao longo do seu pontificado, é esta cultura da morte que está a gritar ao mundo. E que pode ser traduzida em expressões como estas: Viva a morte! Viva o cadáver dos poderosos e dos ricos. Honra e glória ao cadáver de todos os poderosos, de todos os exploradores, de todos os autoritários, de todos os ditadores, de todos os carrascos, de todos os tiranos. Em suma, honra e glória a todos os ditadores, não só os ditadores que matam a vida com armas de guerra (recorde-se que, no clarividente dizer de Jesus, nem sequer são os piores, pois apenas matam o corpo, mas não podem matar a alma), mas também e sobretudo os ditadores que matam a vida com seus discursos moralistas (estes são sempre os piores ditadores, pois embora possam não chegar a matar o corpo de ninguém, acabam sempre por matar a alma, isto é, a consciência, a identidade e a originalidade de cada ser humano que escute e siga as suas mentirosas doutrinas); honra e glória aos tiranos que defendem o primado da lei sobre o primado da liberdade, o primado da segurança e da paz dos cemitérios que resulta do cumprimento da lei, quase sempre iníqua, sobre o primado da responsabilidade e da festa; honra e glória aos autoritários que, enquanto vivos, arrastam atrás de si multidões possessas de inconscientes medos da liberdade e sequiosas de segurança e, mesmo depois de mortos, continuam a arrastá-las para os santuários de nomeada onde eles fazem questão de erguer os seus monumentais túmulos, na mira de que serão aí eternamente idolatrados como os melhores entre os melhores.